
FÓRUM DO CAÇADOR
Os textos aqui publicados tem por finalidade estimular e colaborar na difusão de ideias e pensamentos, integrando a comunidade brasileira de pilotos de caça e preservando suas tradições e seu espírito de corpo, bem como promovendo a interação entre seus componentes e a Força Aérea Brasileira.
A partir do número 108 os artigos do FÓRUM DO CAÇADOR não são mais destacados nesta seção. Estão publicados no próprio ABRA-PC Notícias, e ali podem ser acessados.
Os artigos abaixo, destacados dos ABRA-PC Notícias até o número 107, estão listados por ordem decrescente de publicação (do mais recente para o mais antigo).
BRASIL NOVO
(Fórum no 16, Nov/Dez 2005)
Há muitos anos atrás jovem ainda, na década de 1950, via com olhos deslumbrados a linha de aviões no Campo dos Afonsos.
Naquela visão residia o futuro, mas previa que ainda veria muita coisa mais na aviação militar. Afinal, há apenas cinco após término da Segunda Guerra Mundial, alvejado pelas notícias passadas de combates aéreos, via o futuro de piloto-aviador militar como o que poderia desejar no futuro próximo. Já em 1953, ao adentrar o Esquadrão de Seleção de Piloto de Caça (3o/1o Gp. Av. Ca.), pude vivenciar o clima de puro entusiasmo daquele grupo de pilotos, alguns veteranos de combates na Itália, envergando macacões de vôo.
Agora estava integrado para sempre ao espírito de combate. Passados os anos de reviravoltas políticas, algumas sérias, outras nem tanto, chegamos ao ano de Juscelino Kubitschek, o presidente do Plano de Metas, aquele que procurava o desenvolvimento de 50 anos em 5 anos. Sucessos e erros na execução do plano não invalidaram o entusiasmo do Presidente. Procurava demonstrar que o entusiasmo nos transformaria num país desenvolvido, um Brasil Novo.
E foi o que aconteceu: a nova capital começou a impulsionar o desenvolvimento para o interior do país, mormente para o Centro-Oeste.Porém, mesmo depois da implantação de Brasília, alguns bolsões de resistência ainda coexistiam em oposição ao grupo que via uma grande oportunidade de continuar o desenvolvimento do país. Foi aí que a presença da FAB veio para contribuir para o desenvolvimento do país.Sabíamos que, na época, o controle do tráfego aéreo no mínimo, uma imagem de subdesenvolvimento.
O único radar existente no Brasil era o radar de vigilância de aeroporto (ASR3), montado e operado na pista do aeroporto de Congonhas. Afinal, o chamado Brasil Novo, não tinha chegado à FAB. Entusiasmando um pequeno grupo de oficiais, o Ministro da Aeronáutica Márcio de Souza e Mello, determinou (Mem. no 005 de jan 1968) a elaboração de um projeto que pudesse viabilizar a implantação de um sistema moderno de controle de tráfego aéreo e que fosse estudada, também, a implantação de um sistema de defesa aérea.
Em 1976, oito anos depois do início dos projetos, a FAB entrava nesse Brasil Novo. Não só estava solucionado o problema do controle do tráfego aéreo da chamada “circulação aérea geral (CAG)”, como estava implantado e operava o sistema de controle da defesa aérea, ambos sistemas abrangendo o quadrilátero que abrangia Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, uma área de 1,5 milhões km2, vigiando e controlando um volume considerável de espaço aéreo sobreposto à mencionada área. O espaço era vigiado inteiramente por várias estações de radares primários, secundários, meteorológicos e tridimensionais, bem como por dezenas de estações de telecomunicações e de transmissão de dados. O controle desse imenso espaço tridimensional era realizado por aeronaves de interceptação (F-5E e F-103E) diligentemente lotados em diferentes bases aéreas ou aeródromos compartilhados.
Mas o espírito de desenvolvimento fazia que novos grupos, baseados no conhecimento adquirido pelo grupo anterior, se lançassem na implantação do que é conhecido, agora, como o SISDACTA II (Região Sul) e como o SISDACTA III (Região Nordeste). E assim foi feito. Parte do país agora estava coberta por uma rede de radares e telecomunicações que vigiava e controlava as rotas aéreas de maior movimentação de aeronaves, tanto civis como militares.Restava resolver o problema da vigilância e do controle aéreo da região amazônica.
Estávamos na década de 1990; urgia uma solução que abrangesse a região.Todavia o problema era gigantesco.Não era só de enorme dimensão (mais de cinco milhões de km2), como era de altíssima complexidade, porquanto envolvia estações terrenas, estações aéreas (aviões) e estações satelizadas.Anos depois a idéia estava concretizada. Em 2005 o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) estava implantado e operando.E, praticamente, tudo foi realizado pela Força Aérea Brasileira, aquela que com espírito “Fabiano”, desbravador e conquistador, permitiu construir um Brasil Novo.
E o trabalho continua. Está operando o CINDACTA IV, que utiliza o potencial da visualização multiespectral, entre outros modos de visualização, e de todo o potencial das telecomunicações. Todavia, o problema de controle aéreo dessa imensa região continua. As regiões sul, sudeste, centro-oeste, e nordeste estão cobertas, vigiadas e visualizadas por dezenas de estações radar (radares primários, secundários, tridimensionais e meteorológicos), por dezenas de estações de telecomunicações e de transmissão de dados, bem como controladas pelas aeronaves de combate de interceptação Mirage III e F-5E.
Essas aeronaves de 2a geração cumpriram satisfatoriamente as missões para as quais foram concebidas, mas faltava ao F-5 um radar multímodo, já que o radar de tiro é insuficiente. O problema do F-5 foi resolvido com a modernização completa de sua aviônica; e o F-103? Decidida sua desativação em 2005, restava um vácuo para o cumprimento completo da defesa aérea.
Com a postergação do projeto F-X, a solução foi encontrada pela atual administração, com a aquisição de 12 aeronaves Mirage 2000 para a substituição dos F-103. Paulatinamente os problemas encontram suas alternativas. Voltemos ao problema do controle aéreo da região amazônica. Ainda na década de 1990 o controle aéreo começava a ser equacionado: vários AT-27 foram lotados na BABV e na BAPV, armados e municiados, tiveram por missão controlar o espaço aéreo, contudo ainda restritos a seus raios de ação. Com a operação do SIVAM, e com a entrada em vigor da Lei do Abate (concebida na década de 1970 pelo CINDACTA I), começaram a ser interceptadas aeronaves de pequeno porte e de baixa velocidade, resultado da eficácia dos centros de vigilância recém-implantados.
E quanto às aeronaves de alta velocidade que cruzam os espaço aéreo da Amazônia?
São muitos os vôos diários de aeronaves de empresas comerciais nacionais e internacionais, vigiadas e identificadas pelos pulsos magnéticos emitidos pelas aeronaves e recebidos pelos radares secundários das estações terrenas.Tudo bem, são aviões “amigos”, tanto os nacionais e os internacionais, quanto os civis e os militares. Resta saber como serão identificadas e interceptadas as aeronaves voando à altas altitudes e à grandes velocidades, e que sejam aeronaves ditas “não cooperativas”.
Do mesmo modo que na implantação do SIVAM, a implantação do controle aéreo da região amazônica exigirá a colocação de bases aéreas (algumas já em implantação), como também aeronaves de interceptação lotadas nessas bases aéreas. A solução seria alocar aeronaves de 3a geração, porém algumas já sendo ultrapassadas pela entrada em serviço de aviões de 4ª geração.
Os Mirage 2000, os Mirage F-1 e os Super Etendard serão substituídos pelos Rafale; do mesmo modo, a USAF vai substituir os F-16 e F-15 pelos F-22 (Raptor); do mesmo modo a RAF, a F.A. Italiana e a Luftwaffe vão substituir seus aviões de combate aéreo pelos Typhoon. E, finalmente, a F.A. Sueca, mais adiantada que as outras forças aéreas, já tem o SAAB Gripen em seu inventário.
A decisão quanto à aquisição do F-X foi postergada. De certa maneira, não foi má idéia a postergação. Veja bem, íamos adquirir, e/ou montar, e/ou manufaturar partes de uma aeronave de 3a geração; todavia essas aeronaves estão começando a entrar em processo de desativação. Por quê não envidar esforços para estabelecer os requisitos técnico-operacionais de uma aeronave de 4a geração? O estabelecimento dos requisitos vai demandar outros meses de trabalho? A decisão futura vai alcançar resultado somente daqui a alguns anos?
É provável, mas, certamente, teremos uma aeronave “up-to-date”; porém, se adquiríssemos ou fabricássemos uma aeronave de 3a geração, quando o avião, finalmente, estivesse à disposição da FAB, teríamos, depois de cinco ou mais anos, uma aeronave ultrapassada. A Amazônia tem o melhor, e mais moderno, sistema integrado (DACTA), implantado na Região Amazônica.
Por quê não utilizar esse potencial de vigilância e de telecomunicações e transformá-lo em poder aeroespacial, através da alocação de aeronaves de combate aéreo de 4a geração, a FAB já tem, e os opera com sucesso na Amazônia; porém suas missões, entre outras, estão voltadas para o sensoriamento remoto, para a vigilância e servem, ainda mais, como centros de comando e controle ( R-99A COpM aerotransportado).
Qual seria a melhor aeronave de combate de 4a geração capaz de exercer o poder aéreo na região?
Uma nova análise será necessária, pois que devem ser levados em consideração os fatores climáticos como as altas temperaturas, o alto grau de umidade, a intensa precipitação pluviométrica, e a proteção dos aviões e equipamentos de solo e de oficina. Mas não se fazem necessários desde agora para os aviões e equipamentos de 3a geração lotados nas outras regiões? Certamente que sim, porém, na Amazônia, terão que ter ainda maior proteção do que nas demais regiões.
Contudo, é inegável que a prioridade a ser dada à Região Amazônica é de primeira instância. O potencial fornecido pelo SIVAM e pelo CINDACTA IV, adicionado ao potencial das aeronaves R-99A e R-99B, é suficiente para o atendimento da vigilância aérea. Falta colocar o Poder Aéreo adequado.
SENTA A PÚA, BRASIL !
UMA MERECIDÍSSIMA HOMENAGEM!
(Fórum no 15, set/outubro 2005)
O Presidente Vargas não foi muito generoso com o Grupo de Caça quando criou a nossa Unidade num 18 de dezembro.
Anualmente, as notícias alusivas às comemorações do nosso aniversário concorrem, no "site" do Comando da Aeronáutica (COMAER), com outras da importância de:
“OM tal realiza confraternização de Natal com os familiares de seus integrantes”,
“Chegada do Papai Noel traz alegria às crianças na OM tal”, ou então
“U.Ae. tal promove o encerramento da sua Taça Eficiência”.
Por isso, desisti de ajudar o nosso Relações Públicas na confecção de uma nota para o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (CECOMSAER) e resolvi escrever este artigo a ABRA-PC, a fim de relatar os fatos e as minhas impressões acerca do que aconteceu no aniversário do 1o Gp.Av.Ca. em 2004.
17 de dezembro de 2004. 10o aniversário do falecimento do Brig Nero Moura. Véspera do 61o aniversário da criação do 1o G.Av.Ca.. Coincidentemente, uma sexta-feira (a última antes do Natal), dia consagradamente destinado às comemorações na FAB.
A Unidade programou, além do tradicional formatura–desfile aéreo–coquetel, uma missa em homenagem ao Patrono da Aviação de Caça (com a aquiescência dos Veteranos, naturalmente; nos anos anteriores, essa missa era realizada no INCAER, fora das festividades do aniversário do Grupo).
Entretanto, na semana dos eventos, recebemos a notícia de que nenhum Oficial General da ativa compareceria às festividades. Uma reunião do Comandante da Aeronáutica com todos os Oficiais Generais da área Rio seria realizada no mesmo dia das comemorações do aniversário do Grupo.
Talvez os Caçadores que serviam no Gabinete do Comandante da Aeronáutica (GABAER) não tenham atentado para a data.
Talvez até, face aos inúmeros “inputs” com os quais os oficiais do GABAER se defrontam diariamente para a confecção da agenda do Comandante, a data tenha passado despercebida.
Talvez essa reunião pudesse ter acontecido em Santa Cruz!
Ou talvez essa data não tenha a importância que nós do Vale do Pó atribuímos a ela (na minha inocência de Capitão-que-vibra-com-a-Caça-como-nos-tempos-de-Aspirante, gostaria de poder eliminar essa hipótese).
O fato é que a tal reunião foi realizada no RJ, na mesma data/hora. Só que na UNIFA...
Mas o que poderia ser o prenúncio de um evento esvaziado (alguém aí consegue imaginar um Bródio sem Brigadeiros?) acabou por se transformar na mais emocionante homenagem a um militar que eu já vi nestes curtos 19 anos de serviço.
Tudo começou com a missa em homenagem ao nosso Patrono. Aos pés do P-47 "C5" do Ten. Lima Mendes, ao lado da bolacha do Cap. Fortunato e em frente ao monumento do Niemeyer, com direito ao canto do Carnaval em Veneza, “Adelphi” para os que já nos deixaram e flores na urna do Jambock 01, onde estão os seus despojos mortais.
Tudo simples e bonito.
Antes da formatura, o impasse: entre Brigadeiros da reserva e Coronéis da ativa, quem presidiria a solenidade? Nem sei se é isso o que preconiza o cerimonial, mas decidiu-se pelo Oficial General com a data de Aspirante mais antiga, o que fatalmente recairia sobre um Veterano da Campanha da Itália.
O Maj. Brig. Miranda Correa (aquele do “não é isso, o Miranda disse prá eu não falar!”)(1) , Veterano mais antigo entre os vivos, estava presente, mas, com o pretexto de que se encontrava há muito tempo afastado do militarismo, resolveu ele mesmo iniciar a supracitada homenagem, delegando a honra de presidir a solenidade ao 2o mais antigo presente e 3o mais antigo entre os vivos: Maj Brig Rui Moreira Lima.
Já na revista à tropa, percebi que aquela seria uma formatura diferente.
A marcialidade com que o Brig Rui iniciou seus passos e prestou continência à Bandeira Nacional foi daquelas que não se vê mais desde que a modernidade, as ONG e os direitos humanos contaminaram o militarismo: impecável, não obstante seus 85 anos à época. Quando ele chegou próximo ao través do grupamento do 1o Gp.Av.Ca, uma inesperada quebra de protocolo: visivelmente emocionado, o Brig. Rui interrompeu o passo marcial, caminhou na direção do estandarte da nossa Unidade e beijou-o.
Por ser o mais antigo do grupamento, assisti a essa cena a meio metro de distância, e vendo o nosso Veterano cerrar os olhos para não chorar, tive eu também que me segurar para não dar vexame. Naquele momento, quantas recordações e emoções não estariam chacoalhando o grande piloto do "D4"? Depois disso, a formatura correu normalmente, até o desfile da tropa.
Como nos outros anos, a banda iniciou o “Carnaval em Veneza” na distância exata para que nós o cantássemos por inteiro e o finalizássemos no “olhar à direita”, emendando o grito de guerra: SENTA A PÚA! BRASIL! Quando fiz a continência e olhei à direita, vi no Brig. Rui um enorme e incontrolável sorriso, e ele me respondeu com um forte sinal de positivo, não sei se elogiando o desfile ou agradecendo a reverência. Caro Brig. Rui:
Se foi para elogiar o desfile, saiba que o seu padrão militar foi muito melhor que o nosso.
- Se foi para agradecer, não precisa não. Muito pelo contrário, nós, os Jambocks de hoje, é que temos muito a agradecer ao senhor:
- Pelas 94 missões de guerra que o sr. voou com a nossa bolacha no peito e na carenagem do seu avião;
- Por ser um dos compositores do nosso hino, “CARNAVAL EM VENEZA”, hoje “emprestado” a toda a Aviação de Caça brasileira;
- Por ser co-autor da “ÓPERA DO DANILO”, verdadeira obra de arte, emocionante e histórica, que permanece e permanecerá cantada e encenada por todas as gerações de Caçadores do Brasil;
- Por ter trazido para o seio da nossa Unidade a expressão “ADELPHI”, inicialmente uma brincadeira, transformada ao longo do tempo na mais nobre homenagem que um Piloto de Caça brasileiro pode receber;
- Pela promessa feita na Itália e cumprida aqui de implantar no Brasil a formação dos novos Caçadores da FAB;
- Por não ter desistido dessa promessa, mesmo após a perda de três irmãos de guerra em acidentes na instrução;
- Por ter permanecido após a guerra na Unidade, vindo a ser um dos fundadores, instrutores e Comandantes do nosso Esquadrão-irmão, o PIF-PAF;
- Pela paciência e pelo preciosismo com que escreveu o livro “SENTA A PÚA !”, referência obrigatória para qualquer pesquisa dessa parte da História do Brasil, eternizando assim os feitos dos nossos homens na IIa Guerra Mundial; Por, mesmo após ter sido obrigado a afastar-se prematuramente das nossas fileiras, não ter diminuído seu exemplar entusiasmo por nossa Unidade, nossa Aviação, nossa Força e nosso País; e
- Principalmente, por permanecer incansável ao nosso lado, após mais de 40 anos da sua passagem para a reserva, freqüentando nossas Bases e recebendo-nos em sua casa, transmitindo aos mais jovens a sua experiência, os seus valores e o seu exemplo de dedicação e amor ao Brasil.
Por tudo isso, amigos Caçadores, não sei se verei outra formatura com momentos tão emocionantes como essa. E hoje, lembrando da nossa decepção com a notícia da reunião, em contrapartida com a figura imponente do nosso Veterano no centro do palanque da BASC, atestei ser perfeito o velho ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas.”
SENTA A PÚA, BRASIL !
Cap.Av. Carlos Roberto Ronconi Junior
Piloto de Caça em 1993
Notas do Gerente do Sítio
(1) “não é isso, o Miranda disse prá eu não falar!” = Frase famosa atribuida ao Tenete Danilo Moura, consulte a "Ópera do Danilo" na nossa "homepage".
ECOS DE UMA PALESTRA
(Fórum no 14, Julho/agosto 2005)
Ano passado tivemos a oportunidade de assistir a uma palestra da Terceira Força Aérea relatando as experiências obtidas com exercícios com Forças Aéreas amigas e a contribuição deles para o desenvolvimento da Força Aérea Brasileira e, em especial, da sua aviação de combate.
A excelência do palestrante aliada aos ensinamentos apresentados ficaram ecoando em minha mente durante um bom tempo ao fim do qual lembrei-me de um artigo escrito há algum tempo e que vai ao encontro do que foi falado e, em especial, a um questionamento feito na fase de debates a respeito da forma com que a FAB vem atuando nesses exercícios "vis a vis" nossa Estrutura Militar de Guerra.
Assim dizia o artigo escrito em Abril de 1991.
ENSINAMENTOS DA GUERRA DO GOLFO ESTRUTURA MILITAR DE GUERRA
Encerradas as ações militares da recente Guerra do Golfo começamos nós, teóricos ou práticos, estrategistas ou táticos, políticos e militares a analisar apaixonadamente o ocorrido para dele tirar os ensinamentos devidos.
Naturalmente que há um sem número de facetas segundo as quais o conflito pode ser analisado, tanto no campo militar como em todos os outros campos. Pretendo, entretanto, ater-me exclusivamente à estrutura militar montada para a condução das ações militares e compará-la com a nossa atual Estrutura Militar de Guerra (EMG), traçando um paralelo em como ela poderia favorecer ou prejudicar as ações aéreas.
Certamente que nós, profissionais de Força Aérea, haveremos de dizer que a arma aérea venceu sozinha a guerra e que as ações de superfície só ocorreram para consolidar uma vitória já obtida. Por outro lado, nossos companheiros das demais Forças Singulares haverão de rebater dizendo que somente a invasão terrestre é que levou à rendição e que não há vitória sem ocupação.
Paixões a parte, o que ninguém discute e todos reconhecem é que as ações de superfície só puderam ser realizadas por que havia superioridade aérea absoluta, superioridade essa alcançada através da aplicação concentrada, permanente e coordenada da arma aérea.
Ninguém tem dúvidas de que o comando e controle centralizados dos meios aéreos favoreceu, decididamente, para que isso fosse alcançado, uma vez que permitiu a realização coordenada e simultânea de ações aeroestratégicas, de defesa aérea e aerotáticas independentes, conduzidas em todo o território do conflito, sobre a terra e sobre o mar.
Comparando esse aspecto da guerra com a nossa atual EMG, tenho dúvidas concretas se teríamos tido o mesmo sucesso, considerando-se exclusivamente o lado organizacional das forças, sem me ater, naturalmente, à capacidade dos meios envolvidos.
Analisando a nossa atual EMG vê-se que, contrariamente ao que preconiza a própria doutrina básica da FAB, onde o princípio de guerra da Unidade de Comando é considerado fundamental para o emprego racional e unificado dos meios aeroespaciais, a EMG pulveriza os meios aéreos existentes entre diversos comandos, comandos esses subordinados e coordenados diretamente pelo Comando Supremo.
Tal situação não me parece lógica:
- ela divide entre comandos diferentes os poucos meios aéreos disponíveis ao invés de concentrá-los em apenas um, impedindo por completo o emprego racional dos mesmos e eliminando o aproveitamento das características essenciais de flexibilidade, velocidade e mobilidade;
- ela divide o campo de batalha em territórios estanques e exclusivos, ao invés de considerá-lo como um todo uno e indivisível, onde ações conduzidas numa área podem afetar todo o conjunto e onde, necessariamente, ocorrerão ações simultâneas de ataque e de defesa;
- ela pulveriza as ações de comando entre vários órgãos do mesmo nível, diluindo responsabilidades e levando à indefinição de quem é, em última instância, o comandante geral das ações;
- ela leva, finalmente, a que o Presidente da República (PR) seja o coordenador direto das ações militares ao invés de mantê-lo, exclusivamente, na condução política do conflito.
Para cada um dos aspectos citados, a Guerra do Golfo nos apresenta a antítese vencedora:
- enquanto nós pulverizamos os meios aéreos em vários comandos eles os concentraram num único comando responsável pela realização de todas as operações aéreas. Em verdade pergunto-me quem, em última instância, na nossa EMG, decidirá, na hora do conflito, a distribuição dos meios aéreos. Haverá um Teatro de Oerações (TO) mais importante do que outro?
- nós dividimos o campo de batalha em vários TO, enquanto eles consideraram todo o território como um único espaço, onde ações de defesa aérea, estratégicas e aerotáticas foram conduzidas simultaneamente.
- Aliás, nós ainda nos prendemos ao conceito acadêmico e ultrapassado da divisão do território em Teatro de Operações e Zona do Interior, sem considerarmos o fato de que, no caso de um conflito, todo o País estará sujeito a ações de guerra e, por isso, dependente de ações defensivas e contra-ofensivas, independente de onde as ações chamadas “periféricas” ocorrem;
- nós fracionamos o comando geral (e a responsabilidade e autoridade) em vários comandos de mesmo nível subordinados diretamente ao PR, enquanto eles concentraram o comandamento (e a responsabilidade) num único nível, superior, este sim subordinado ao Comando Supremo;
- nós colocamos o PR como coordenador direto das ações militares ao invés de deixá-lo, exclusivamente, com a condução política do conflito. É de se ressaltar que na última oportunidade em que os Estados-Unidos tiveram o PR influindo diretamente nas ações militares eles perderam a guerra (vide Vietnam).
Temos que ter uma estrutura que vá ao encontro dessas lições aprendidas no conflito. Recordo-me um pouco da estrutura que me ensinaram ainda como Tenente e que colocava como comandante do TO um oficial-general de qualquer das Forças Singulares, idealmente daquela Força que teria a predominância das ações, responsável direto pela concepção e coordenação das ações militares, inclusive aquelas envolvendo a defesa aérea do País.
Subordinado ao Comandante do TO tínhamos o comandamento de cada força singular, concentrando todos os meios afins disponíveis e responsável pela realização das operações militares respectivas. Eram a Força Aérea do Teatro de Operações (FATO), Força Terrestre do Teatro de Operações (FTTO) e a Força Naval do Teatro de Operações (FNTO).
Finalmente, dentro do comandamento individual de cada Força havia os elementos destinados à execução das tarefas operacionais necessárias.
A estrutura em questão colocava, efetivamente, todos os meios aéreos sob o comandamento único e exclusivo da Força Aérea. Assim , podíamos priorizar adequadamente nossos recursos existentes, utilizá-los ou remanejá-los de forma a permitir tanto a condução das nossas missões independentes de ataque ou de defesa, como o suporte às ações das forças de superfície, tanto sobre a terra como no mar.
Exploraríamos ao máximo as características inerentes à arma aérea, visando sempre vencer a guerra como um todo e não apenas a guerra num TO.
Bem companheiros, certamente a presente proposta é uma visão extremamente simplista de um problema por demais complexo. É, porém, a visão de quem não consegue imaginar como hoje, a Força Aérea Brasileira, com os meios disponíveis, poderia se multiplicar em várias Forças Aéreas para atender a vários TO.
Creio que se tivéssemos o comandamento centralizado e geral de todos os nossos meios, saberíamos priorizá-los adequadamente de forma a atender, com oportunidade, às diversas necessidades que surgirem.
Não sei por que, mas toda vez que analiso a nossa atual EMG vem-me sempre à mente a imagem de cada TO querendo ganhar a sua guerra. Chego ao cúmulo de imaginar que, no extremo, poderíamos inclusive ganhar a guerra num TO, porém perdermos a guerra como um todo. Seríamos vencedores morais do conflito, mas, creio, isso alteraria muito pouco na hora de assinar a rendição!
Brig. do Ar R-1 Teomar Fonseca Quírico
(à época T.Cel.Av. Cmt.do 1o/16o G.Av. - 30 de abril de 1991 )
Notas do Gerente do Sítio:
(1) surtida = ou "sortida", usa-se para designar uma missão de combate. voltar
A FURTIVIDADE
UM NOVO PARÂMETRO PARA AS ARMAS AÉREAS ?
(Fórum no 13, janeiro/fevereiro 2004)
Ao término da Guerra do Golfo e no início da "guerra do século", todos os homens-em-Comando da Arma Aérea são uníssonos em afirmar:
"a tecnologia dos revestimentos/formas anti-radar e bombas inteligentes irão mudar a natureza da guerra aérea".
Essas afirmações são devidas, evidentemente, à excepcional atuação das aeronaves à "prova de radar" que estão em operação.
Com acertos nos ataques na ordem de 95% na Guerra do Golfo, os aviões furtivos atacaram cerca de 43% dos alvos em território iraquiano, embora o número de saídas desses aviões não
tenha representado mais do que 3% do número de surtidas(1) aéreas no Teatro de Operações. Quais as razões desse sucesso? Os analistas listam três:
- as aeronaves chegaram à posição de ataque sem ter sido detectadas;
- os sistemas de armas antiaéreas não puderam, portanto, ser ativados;
- a extrema precisão do sistema de "guiagem terminal"(2) empregado.
As razões do sucesso (novos revestimentos e formas) desses aviões, é função dos resultados obtidos na pesquisa de materiais exóticos para uso aeronáutico. Eles são capazes de atenuar o maior número possível de bandas de freqüência(3) radar para escapar, não somente às emissões provenientes dos sistemas Artilharia Anti Aérea (AAA) de superfície, como dos auto-diretores(4) dos mísseis ar-ar.
Em suma, cobrir o espectro de 1GHz a 30 GHz(5). Além disso, para se livrar dos efeitos danosos da refletividade das estruturas metálicas convencionais que compõem os aviões em geral, é necessário que os novos materiais para os aviões da classe "furtiva", apresentem propriedades físicas (rigidez, leveza e resistência térmica ) que lhes permita tomar o lugar dos metais.
A maneira apropriada de fabricar as estruturas dos novos aviões com esses novos materiais ainda está listada como "secreto-defesa".
Entretanto, sabe-se que o princípio adotado é simples, principalmente naquilo que se refere ao revestimento. É imprescindível que a emissão radar penetre na "pele" da aeronave sem ser refletida, e que seja totalmente (e preferencialmente) ali absorvida. Traduzindo em termos físicos: a impedância do material(6) da estrutura/revestimento deve ser tal que a relação entre a "permeabilidade(7) e a permissividade(8)" seja próxima da unidade.
Assim sendo, a onda radar não será refletida e sua energia será totalmente absorvida. Duas técnicas se defrontam para a consecução dessa meta: o emprego dos materiais magnéticos ou dos dielétricos(9), com pontos negativos para os materiais dielétricos. Os materiais dielétricos necessitam ser espessos (1/4 do comprimento da onda radar(10)).
Quantos aos materiais magnéticos, sua permeabilidade varia com a temperatura e, com eles, a adaptação da impedância se faz por "empilhamento" ou por "efeito pirâmide" das cargas condutoras, com a finalidade de otimizar a atenuação da energia. Ou ainda, através dos polímeros condutores(11). Por essa razão é que os atuais aviões furtivos usam "cortes triangulares", em diversas seções de sua estrutura.
Com tais dificuldades, os esforços da engenharia aeronáutica foram redirecionados para as resinas "epoxy" impregnadas de limalha de ferro, com granulometria(12) grandemente reduzida. As pesquisas nesse campo visam reduzir o tempo destinado à obtenção da polimerização da resina(13), com o objetivo de evitar que a limalha venha a se sedimentar. O miolo deve, portanto, permanecer homogêneo, para que sua carga eletromagnética seja convenientemente adaptada.
Mais recentemente, os órgãos de pesquisa aeronáutica direcionaram seus trabalhos para as estruturas complexas: espuma multi-laminada de poliuretano impregnada de pó de carbono ou absorvente tipo ninho-de-abelha(14), também impregnado de carbono. O objetivo principal é fazer com que a radiação eletromagnética encontre um nicho(15) constituído de uma quantidade tal de irregularidades, que as ondas-radar fiquem ali "retidas", qualquer que seja seu ângulo de ataque à "pele" .
Quanto às formas, o que se busca atingir é a "redução da assinatura radar(16)" de uma forma generalizada ou seja, em qualquer ângulo de apresentação do alvo. Para obter esse resultado, os engenheiros se baseiam em um princípio bem conhecido: os ecos radar têm seu valor máximo na aplicação normal (90o) ao plano (pele) ou a uma linha reta qualquer da estrutura. Além disso, o valor desses "picos" é proporcional à área "pintada" pela emissão radar. Como resultado, os ecos que retornam à antena do radar emissor devem ser levemente percebidos ou preferencialmente desapercebidos...
Quanto à formatação das aeronaves furtivas, cabe aos projetistas eliminar os triedros e mascarar as entradas-de-ar e os "pontos brilhantes" ao radar. Várias técnicas de desenho existem: implantar as entradas-de-ar nos dorsos das asas, escondê-las com telas em que a malha tenha dimensão inferior ao comprimento da onda radar, etc.
Para "esconder" as cabines de pilotagem (outro ponto "brilhante"), é torná-las absorventes. Quanto ao "casamento" de materiais, diferentes entre si (compostos/metais), é fazê-lo de forma que se adapte a impedância à onda radar (mais ou menos da mesma forma que utilizada nas câmaras anecóicas(17)).
Acoplando, portanto, materiais e formas, obtém-se uma plataforma "discreta" que, além de exigir um lançamento-míssil mais próximo do alvo, também confunde os auto-diretores do míssil, já que a cabeça-inteligente (ao invés de ser atraída por um eco importante), será excitada por uma multidão de pequenos pontos brilhantes, que perturbam seu "raciocínio e discriminação"...
AS CONTRA-MEDIDAS:
Para combater os efeitos dessa discrição-radar obtida, diversas pesquisas estão sendo dirigidas pelos radaristas (pesquisadores e industrias), na direção do radar de bordo de baixa freqüência e multi-estático (com antenas dispersas). Esses radares irão operar em ondas métricas(18), emitidas através de antenas emissoras/receptoras diferenciadas e múltiplas, que codificarão os sinais emitidos por cada antena, de forma e "dividir" o espaço e "pintá-lo" de forma particular e diferente entre si.
Aparentemente, o problema parece de simples execução. Entretanto, para obter um equipamento operacional com essas capacidades faz-se necessário desenvolver matrizes incríveis de cálculo, imprescindíveis para o tratamento do sinal. Entenda-se, portanto, um "possante computador embarcado"...
O FUTURO DOS AVIÕES-DISCRETOS:
Os especialistas e pensadores da Guerra Aérea ainda são céticos quanto à importância que possa vir a representar a discrição-radar na arena de combate. "Deve - a discrição- se sobrepor à manobrabilidade, velocidade ou polivalência ? Em proveito dessa discrição-radar, todo o armamento (bombas e mísseis) deve ficar enterrado na fuselagem, tomando espaço do combustível e penalizando o alcance?"
Em suma: a FURTIVIDADE virá a representar a panacéia esperada para os aviões de combate dos anos 2000-plus, com prejuízo dos outros atributos?
Maj.Brig.R.R. Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma de 1948
Notas do Gerente do Sítio:
(1) surtida = ou "sortida", usa-se para designar uma missão de combate.
(2) guiagem terminal = sistema de navegação para ataque ao alvo.
(3) bandas de frequência = são grupos (faixas) de frequências de ondas eletromagnéticas. Cada grupo é reservado para um tipo de utilização. As faixas reservadas para as frequências de radar são normalmente "batizadas" por letras:
P 225 a 390 mhz
L 390 a 1550 mhz
S 1550 a 5200 mhz
X 5200 a 11.000 mhz
K 11.000 a 33.000 mhz
(4) auto-diretores = sistema de direção automática dos mísseis anti-aéreos.
(5) 30 Ghz = 30 gigahertz ou 30 bilhões de ciclos por segundo. Esta faixa de frequência é denominada de "Faixa K" e vai de 11 Ghz a 30 Ghz.
(6) impedância do material = é a reação que o material apresenta à condução de corrente alternada em uma dada frequência (no caso, ondas eletromagnéticas de radar).
(7) permeabilidade = "µ" resumidamente, é a capacidade de um material "conduzir" eletromagnetismo.
(8) permissividade = resumidamente, é a capacidade de um material "armazenar" eletromagnetismo.
(9) dielétricos = isolantes, no caso à energia eletromagnética.
(10) 1/4 de onda de radar = as ondas de radar na faixa "K" têm o comprimento variando de 8,3 a 27,3 milímetros. Portanto a espessura deve estar compreendida entre 2 e 7 mm.
(11) polímero = plástico formado por aglomerações sucessivas de grande número de moléculas fundamentais.
(12) granulometria = tamanho dos grãos.
(13) polimerização da resina = final do processo formação do polímero (secagem...)
(14) ninho-de-abelha = "favo de mel", estrutura de pequenas células com paredes hexagonais que possui grande resistência mecânica e baixo peso ("honeycomb" em inglês).
(15) nicho = "armadilha", abrigo, local para refúgio, ninho.
(16) assinatura radar = diz-se do tamanho do alvo detetado e que aparece na tela do radar.
(17) câmara anecóica = equipamento com paredes especialmente recobertas com material que absorve as ondas sonoras (ana = contrário; eco= reflexão de onda de som).
(18) ondas métricas = ondas eletromagnéticas com "metros" de comprimento ( banda "P").











