NOTÍCIAS RECENTES

Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Fascículo no 46)

Centenário do vôo do mais pesado do que o Ar

  Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(46-1) O Último vôo de um amigo Caçador
(46-2) Operação "Delta" ou "A Mudança"  

 

   

 O ÚLTIMO VÔO DE UM AMIGO CAÇADOR
(Estória 46-1)

 

Amanhecia o dia 19 de novembro de 1962.

Não havia expediente na Base Aérea de Santa Cruz (BASC), porem o 1o Grupo de Aviação de Caça (1o Gp. Av. Ca.) tinha uma missão a ser cumprida. Cada um dos seus Esquadrões recebeu, na véspera, uma Ordem Fragmentária(1) , que determinava o cumprimento de uma saída, no dia 19, composta de 4 (quatro) aviões armados com foguetes, bombas de emprego geral e munição nos canhões, para uma demonstração real para a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME), a ser realizada nos arredores da cidade de Resende.

Para o evento a Força Aérea Brasileira (FAB) havia deslocado para o local da demonstração uma fração do 1o Esquadrão de Controle e Alarme (1o ECA), sob o Comando do 1o Tenente Especialista em Comunicações Osmar José Amorim, um Controlador Aéreo Avançado (CAA), sob a responsabilidade do 1o Tenente Aviador Gilberto Pacheco Filho do efetivo do 1o Gp. Av. Ca. e, ainda, um helicóptero para um atendimento de emergência, sob o Comando, se não me falha a memória, do 1o Tenente Aviador Dickson Lobo.

A Ordem Fragmentária determinava que:

  1. o 1o /1o Gp. Av. Ca. aprontasse 3 (três) aviões armados com quatro foguetes e municiados com 50 (cinqüenta) cartuchos de 20 mm em cada canhão;
  2. o 2o /1o Gp. Av. Ca. aprontasse 3 (três) aviões armados com duas bombas de emprego geral e, também, municiados com 50 (cinqüenta) cartuchos de 20 mm em cada canhão.

No dia da missão quis o destino que, por falha no sistema de transporte, apenas o 1o /1o Gp. Av. Ca. conseguisse dar a total disponibilidade dos 3 (três) aviões previstos. O 2o/1o Gp. Av. Ca. somente pode, para a hora determinada do apronto, determinada do apronto, colocar 1 (um) avião em condições de atender a solicitação aprazada.

Todavia, como os dois oficiais de manutenção de ambos os esquadrões estavam escalados para compor as tripulações de dois dos quatro aviões, sendo eu, 1o Tenente Av. Pedro Baptista, o oficial do 1o/1o e o 1o Tenente Av. Carlos Ferdinando Mendonça da Rocha o oficial do 2o/1o , depois de autorizados pelo Comandante da Esquadrilha, decidimos que o 1o/1o emprestaria o seu terceiro avião ao 2o/1o . E assim foi feito.

Os quatro aviões escalados para a missão em questão (Esquadrilha "PIF-PAF") ficaram tripulados da seguinte maneira: Líder – Capitão Av. Arthur Soares de Almeida (o Amazonas) do 2o /1o ; Ala Esquerda – 1o Tenente Av. Carlos Ferdinando Mendonça da Rocha do 2o/1o com avião do 1o/1o; Líder do 2o Elemento – 1o Tenente Av Roberto Julião Pereira de Baère do 1o/1o ; e Ala Direita – 1o Tenente Av. Pedro Baptista do 1o/1o.

Durante o “briefing”(2) o Cap. Soares salientou a importância da missão, já que a mesma seria com munição real e, por essa entre outras razões, não sairia do estrito profissionalismo, até porque estava em jogo, também, a responsabilidade e prestígio do 1o Gp. Av. Ca.

Hora marcada, partida dada, táxi efetuado, decolagem realizada, após a conexão dos foguetes na cabeceira da pista, reunião da Esquadrilha de maneira correta e deslocamento executado em formatura batalha. Chegada ao Ponto Inicial (PI) no horário combinado e, depois do contato com o CAA, iniciou-se o ataque da maneira prevista no apronto(3) .

O líder lançou suas bombas e os demais realizaram o ataque com foguetes. Isto feito, nova passagem onde todos os componentes tentariam a destruição dos alvos com os canhões 20 mm. Tudo perfeito.

Após a conclusão da operação, o líder comandou a reunião da Esquadrilha para que fosse efetuado o deslocamento de regresso para a BASC. Durante essa reunião, eu, como número quatro, informei que os alas dois e três estavam com alguns foguetes não disparados sob suas asas (não me lembro à quantidade).

Nesse ínterim, o CAA chamou a Esquadrilha informando que o General, que comandava toda a manobra, estava solicitando a possibilidade de uma pequena demonstração aérea junto ao palanque das autoridades que assistiam o evento. Ato contínuo o líder, atendendo a solicitação, comandou formação Diamante(4) e, então, iniciou uma série de manobras acrobáticas a relativa baixa altura.

Feito isso, novamente a Esquadrilha estava se posicionando para efetuar o regresso, quando, por outra vez, o CAA voltou a chamar e insistir para que fossem feitas evoluções e passagens a baixa altura. Sem perda de tempo, o líder comandou Ataque no 2(5) e fez uma passagem sobre os alvos para, em seguida, na recuperação, determinar a formatura Ataque no1, possibilitando que cada um fizesse, individualmente, a sua.

O destino foi cruel, porquanto se essa série de solicitações não tivesse ocorrido, possivelmente o acidente não teria acontecido. Depois daquela passagem rasante individual, o Comandante da Esquadrilha fez uma curva ascendente de grande inclinação de modo que pudesse realizar uma ultima exibição direcionada para o rumo de deslocamento do regresso.

Foi nesta curva ascendente que o número 2, 1o Tenente Mendonça da Rocha, entrou no dorso e não mais esboçou reação de recuperação, adentrando, possivelmente, num parafuso chato, que terminou indo de encontro ao solo. Vendo o que estava acontecendo, o número 3, 1º Tenente Baère, e eu tentamos, de todas as formas via fone, chamar o número 2, solicitando, inclusive, que efetuasse a ejeção, fato que não foi respondido em nenhum momento.

Ainda passamos sobre os destroços e, ato continuo, retornamos para a BASC sem que nenhuma palavra fosse dita entre nós. Ao chegarmos ao estacionamento o Comandante da Unidade, Coronel Aviador Galvão, nos esperava para um relato da missão sem saber do triste acidente.

A família do oficial acidentado estava vindo para sua casa na Vila dos Oficiais; procedente de Niterói (casa dos pais do Tenente Mendonça da Rocha), e recebeu a notícia jamais esperada.

Em Resende, os oficiais da Força Aérea, conhecedores da escala de vôo, que chegaram imediatamente ao local do acontecimento, não tinham noção de quem estava pilotando, pois o avião era pintado de azul, cor do 1o Esquadrão (existiam três aviões pintados de azul e apenas dois pilotos do efetivo do 1o Esquadrão). Somente quando viram o corpo puderam identificar o companheiro falecido.

Mais tarde todos os integrantes do 1o Gp. Av. Ca. vieram a saber o que pode ter contribuído para o acidente. Que o Tenente Mendonça da Rocha sofreu um mal súbito, acredito que ninguém discorda, pois durante os seus últimos minutos ou segundos nenhuma reação foi esboçada. Mas algo mais colaborou para que o acidente ocorresse, uma vez que viemos a saber que o referido militar estava se tratando de labirintite, sem que, a exceção de alguns mais íntimos, os componentes do 1º Gp. Av. Ca, entre eles o médico do Esquadrão, tivessem conhecimento.

O destino foi cruel, como já falamos, e a comunidade da Força Aérea, especialmente os componentes da Caça, bem como os parentes e amigos, perderam um amigo um militar respeitado por todos, um oficial exemplar e vibrador e, ainda porque não dizer, um excelente piloto.

A missão foi cumprida, mas seu preço foi por demais alto, já que uma vida foi ceifada e a data ficou marcada nos anais do 1o Gp. Av. Ca.

  

Pedro Baptista
Piloto de Caça - Turma de 1959  

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:


(1) Ordem Fragmentária (O.Frag.) = Documento que oficializa a realização de uma missão. Normalmante a missão faz parte de uma "Operação Maior" que tem várias missões, ou seja missões fragmentárias.
(2) "briefing" = brifim = Reunião dos componentes do vôo, para "combinar" e planejar a missão. Hoje a palavra foi nacionalizada para "brifim". A reunião após, a missão, é o "debrifim".
(3) Apronto = o mesmo que Brifim.
(4) Diamante, formatura Diamante = formatura em que os aviões ficam dispostos de maneira a aparentar em um losango (diamante). No caso de quatro aviões, um vai na frente, depois dois e por fim o último. Podem ser feitas formaturas "diamante" com a uma quantidade de aviões igual a um número que seja um "quadrado perfeito" (4, 9, 16, 25 etc).
(5) Ataque no2 = quando a esquadrilha se divide em dois "elementos" de dois aviões, para efetuar um "combate aéreo".


 

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(46-1) O Último vôo de um amigo Caçador
(46-2) Operação "Delta" ou "A Mudança"

 

  OPERAÇÃO "DELTA" OU " A MUDANÇA"
(Estória 46-2)

 OS PERSONAGENS

Três tenentes, agora nominados "S", "O" e "M" ex-instrutores no 1o /4o Grupo de Aviação (G.Av.) em Fortaleza, acrescidos de meia dúzia de soldados retirados sob cautela do xadrez da Base Aérea do Galeão (BAGL).

"S" e "O" serviam no 1o /1o Grupo de Transporte (G.T.). equipado à época com o velho e confiável Douglas C-47. O outro personagem "M", havia sido recém transferido do 1o/4o G.Av. de Fortaleza (FZ) Ceará para o Grupo de Caça, na Base Aérea de Santa Cruz (BASC), no Rio de Janeiro. Todos da mesma turma haviam percorrido trajetória inicial idêntica em suas formações havendo a amizade se consolidada no passado recente voando F-80 (Shooting Star) na instrução de Caça em FZ.

O PROBLEMA

Certo dia, idos de 1965, "M", procedente de Santa Cruz pousa de Fokker T-22 no Galeão para averiguar se sua mudança, uma “tralharada”(1) danada amontoada sobre um estrado de madeira, vinda pelo Correio Aéreo (CAN), ainda estava intacta. Realmente ainda estava, porém molhada, pois na última verificação que havia feito dias antes percebeu estar a mesma debaixo de uma goteira e com danos irreparáveis ao precioso acervo. Claro que havia pedido para mudar de local mas essa solicitação não foi considerada.

Visivelmente irritado, culpando o Alto Comando da Força por essa grande calamidade, procura "S" e conta sua tragédia comum a todos os militares que eram transferidos naquela época, meses a fio a espera do embarque da mobília num avião da FAB com os conseqüentes dramas das panes em rota, maus cuidados etc. etc. O pessoal antigo sabe bem ao que me refiro. "S", ouve, fica solidário com o amigo, tinha essa experiência já sofrida quando veio de FZ para BAGL, e conhece mais um pequeno problema:

"M" confessa não ter condições financeiras para contratar um caminhão para fazer o serviço de levar as “tralhas” do Galeão para Santa Cruz.

A MISSÃO

Enquanto "M" destila sua frustração, "S" fica olhando aquelas linhas enormes de aviõed C-47 estacionadas no páteo da Base Aérea do Galeão e aí começa a nascer uma operação que em sua cabeça é uma operação militar podendo ser classificada de missão SAR(2) (salvamento), junto com SVH(3) (humanitária) e combinada com MSN(4) (Segurança Nacional).

A segurança de "M" estava ameaçada. Como ele poderia cumprir suas missões de vôo de Caça com todos esses problemas? E sua mulher e os três filhos? Começa a ser elaborado e a tomar forma o plano que chamaremos "Delta".

O PLANO "DELTA

Meio de transporte os havia em abundância, faltavam outro piloto, alguns carregadores, mão de obra e o estabelecimento do dia e hora. Dia “D” hora “H”. Dia “D” a ser estabelecido, hora “H”, hora do almoço, poucas pessoas no pátio de estacionamento...

Faltavam, outro piloto voluntário a ser convidado e alguns carregadores a serem requisitados sob cautela para “serviços administrativos.”

De posse dessa equação, "O" assuntado prontamente aceitou o honroso convite, alertado dos riscos. O dia foi acertado via telefone com "M". A aeronave utilizada deveria estar disponível, abastecida, possuir fitas de amarração de carga e estar o mais perto possível do armazém do Correio Aéreo (CAN) onde se encontrava o material a ser transportado. Tudo pronto eu imaginava, guardando as devidas proporções, o que o General Eisenhower havia passado ao planejar o seu dia “D”.

O DIA "D"

O dia “D” (16 de março) amanheceu nublado. Vamos ou não vamos? Às onze horas, enquanto "O" conferia os seis soldados retirados do xadrez “sob cautela”(5) e os dirigia em impecável formatura para o armazém, "S" inspecionava e preparava a aeronave a ser usada, dentro dos conformes.

Tudo certo, feita notificação de vôo, recrutas em linha tipo “safári”(6) sob a sábia liderança de "O" começam a carregar o C-47 no 2020. Todos ajudam, missão militar, carga amarrada, detentos idem, portas fechadas, brifim da operação e cuidados a serem observados. Partida no motor um, dois, última pergunta ao "O":
- Vamos? Ele fala com a Torre de Contrôle (TWR) e após um breve táxi efetuamos decolagem curta com proa da BASC.

Pouso direto na pista 22. Logo já se avista "M" com alguns auxiliares no pátio de estacionamento, flape em baixo(7) , portas abertas, carga fora, não se corta motor, há pressa, imagina se numa tentativa de partida os motores não pegam ?

C-47 pousado

"M" faz a notificação de retorno, Primave(8) autoriza, decolagem mais curta ainda, curva à direita, mínimo de barulho, proa de regresso, pouso direto na pista 14 do Galeão, aeronave estacionada no mesmo local, calços colocados, soldadesca de volta ao xadrez (tudo não chegou a uma hora...)

Parece que deu certo! Missão cumprida!

OS AGRADECIMENTOS

Pouco antes da “devolução” dos nossos auxiliares e ainda não sabendo se ia dar ou não "zebra", garbosamente perfilados em frente ao xadrez formalizamos os nossos agradecimentos aos bravos soldados que nos ajudaram nessa empreitada. Pedimos por razões óbvias, sigilo, reserva nos comentários. Estávamos cientes da encrenca que viria, se descobertos.

Um deles, talvez o mais antigo, orador da turma ensaiou algumas palavras e nos acrescentou mais emoção quando agradeceu a oportunidade ímpar de voar num avião da Força Aérea e:
- “tenente, nossos agradecimentos e conte conosco quando na próxima missão. Sabe onde nos achar, foi muito bom... “

Passamos eu e "O" alguns dias com um misto de apreensão, remorso, sufoco sei lá, aguardando a sentença de morte. Felizmente (até agora) não veio.

"S" (Sapo) Piloto de Caça - Antigo,
"M" (Macuco) Idem,
"O" (Onça) Idem.

  

Ajax Augusto Mendes Corrêa
Piloto de Caça - Turma de 1956


NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:
(6) "tralharada" = vem da gíria "tralha" que significa "coisa velha e inservível", o significado correto é de uma pequena rede para pesca.
(7) SAR = missão de busca e salvamento, vem do inglês "Search And Rescue".
(8) SVH = missão de Salvamento de Vidas Humanas.
(9) MSN = Missão de Segurança Nacional.
10) Xadrez "sob cautela" = é comum nas unidades militares os presos (por indisciplina) sairem do "cárcere" (xadrez), por alguns momentos, para realizarem serviços (normalmente braçais). A retirada é feita por algum sargento ou oficial que preenche um documento oficializando o ato (cautela).
(11) safári = maneira de transferir "carga" em que várias pessoas ficam em linha, lado a lado, e uma entrega o pacote para a seguinte, e assim por diante, até o local de destino da carga.
(12) flape em baixo = quando o avião está pousado e mesmo com o(s) motor(es) rodando em marcha lenta, o piloto baixa os flapes para diminuir o efeito do vento das hélices nos passageiros que embarcam ou desembarcam.
(13) Primave = Código radio da Torre de Controle de Santa Cruz (Primeiro Grupo de Aviação).


 Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(46-1) O Último vôo de um amigo Caçador
(46-2) Operação "Delta" ou "A Mudança"