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ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA
 
 
(Fascículo nº 29)

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(29-1) Histórias do 1o/14o G.Av.
(29-2) Três Estórias de Aviões (repetição da Estória 28-1)  

 

 HISTÓRIAS DO 1o/14o GRUPO DE AVIAÇÃO
(Estória 29-1)

 

Existem dois ângulos pelos quais se pode observar um acontecimento: do ângulo do ator principal e do ângulo do espectador.

Se fossemos pedir para o Machado (hoje Coronel Comandante da Base Aérea de Fortaleza, na época Tenente) nos contar o vôo rasante que ele deu sobre o prédio do Comando da Base Aérea de Canoas no aniversário da Base em 21 de agosto de 1984, ele não teria mais o que contar a não ser a velocidade que estava voando, as condições atmosféricas e outros detalhes do vôo que eram absolutamente normais.

Portanto, eu, como um observador privilegiado que fui do acontecimento, me sinto mais a vontade para relatar esse "acidente" com maior riqueza de detalhes. Mas, antes de falar dele é muito importante que se conheça os antecedentes e as relações da Base com o Esquadrão na época.

O Comandante do Esquadrão era o Quintino e eu era o Oficial de Operações e vivíamos num saudável ambiente de Esquadrão de Caça. O Quintino era muito alegre e comunicativo e incentivava e participava de todas as atividades que congregassem os componentes da Unidade e "puxava" sempre pelos fatos tradicionais da caça, quase em todas as ocasiões alguma estrofe do Cancioneiro da Caça era citada.

As nossas reuniões eram alegres e espontâneas, com a participação ativa, inclusive das esposas. Voávamos, praticávamos esporte, qualquer motivo era suficiente para de imediato ser organizado um churrasco pelo Garate e pelo Fraga que eram os Sargentos churrasqueiros do Esquadrão.

Cumpríamos todas as nossas atividades com eficiência e pontualidade. O ambiente no Esquadrão era ótimo, todos eram muito unidos e alegres, as coisas fluíam com naturalidade e de uma maneira leve. Ali havia realmente um espírito de corpo.

Mas o Comandante da Base interpretava essas atitudes como irresponsáveis e infantis porque já tinha um pensamento pré-concebido sobre a caça. Ele nunca entrou no Esquadrão enquanto era Comandante.

Em última análise: não gostava da Caça de longa data e, naturalmente, ninguém sabia porque. Não era fruto da convivência com o pessoal do 1o/14o. Ele já chegou para comandar a Base com essa postura.

Para nós não havia uma razão lógica pois todos o tratavam com a maior cordialidade e carinho, acima até do que os regulamentos obrigam. Quando havia alguma festa promovida pela Base ele chamava o Quintino e dizia claramente que não queria saber de "Pó, Pó, Pó"(1) ou outras manifestações por parte dos pilotos do Esquadrão, que essas atitudes não eram compatíveis com o ambiente da festa, etc., etc., etc.

Mas o Quintino não deixava por menos, esperava passar um pouco, a festa ia se desenvolvendo com tranqüilidade e quando começava a ficar monótona, não tinha dúvidas: convocava os "cantores" do Esquadrão e "sapecava" um "Pó, Pó, Pó" bem na frente da "Santa Ceia".

O comandante da Base ficava "possesso", mas a alegria recomeçava e a festa ganhava outro ânimo, menos para ele. Essa cena que se repetia a cada festa ou reunião promovida pela Base, já estava se tornando cômica, até que em uma delas ele não agüentou e deu uma bronca geral, aos berros.

Não é preciso dizer que o clima da festa foi para o "brejo" e daí mais um pouco ele se retirou. Por esses motivos e por outros mais leves o Comandante da Base vivia em constante sobressalto com os pilotos do Esquadrão.

Já com o Comandante do 5o COMAR(2) havia um relacionamento cordial e quase afetivo, pois o Maj-Brig Cruz já havia voado no Esquadrão o P-40, no passado, e no presente, já havia feito vôo de F-5. Além do mais ele não dava "chance" e não se deixava levar por qualquer "provocação" dos caçadores. Mantinha, com elegância, uma respeitosa "distância regulamentar".

 No dia 21 de julho seria comemorado o aniversário da Base e na reunião de preparativos o Comandante da Base detalhou as atividades que, entre outras festividades, teria a tradicional solenidade militar. Nesse ponto ele pediu que e Esquadrão participasse com uma Esquadrilha para enriquecer o desfile militar e foi bem específico: "Eu não quero nada de vôos rasantes...trata-se de um desfile aéreo e não de uma demonstração"... que o Comandante do COMAR estaria presente e ele não queria nenhum tipo de aborrecimento.

 Portanto o Quintino deveria esclarecer bem aos pilotos que iriam realizar o vôo. O Quintino ainda contra-argumentou, mas ele foi irredutível.

 Bem, assim foi feito!

 No dia, todos estavam na pérgola do comando da Base, inclusive o Comandante do COMAR, e a solenidade aconteceu conforme estava previsto: o desfile militar, o desfile dos aviões sincronizado com a tropa, etc. Quando estava terminando, o Comandante do COMAR virou para o Comandante da Base e para o Quintino e comentou em tom de desafio que a Caça não era mais a mesma, que o vôo estava muito "xoxó", que não se fazem mais pilotos como antigamente, etc.

 Enquanto o Comandante da Base tentava argumentar o Quintino disse que poderiam ser liberadas algumas passagens baixas, ao que o Comandante do COMAR assentiu. De imediato, o Quintino se dirigiu ao Donato que era o "joca"(3) e que estava em contato com os aviões de dentro do prédio do comando da Base e disse que estavam autorizadas passagens baixas, a critério do líder da esquadrilha.

 Era um dia cinzento e muito frio, daqueles característicos do mês de agosto em Canoas. O líder da esquadrilha era o Pedro Humberto, o número dois era o Noro, o número três era o Whiteff e o número quatro o Machado. Eles fizeram diversas passagens nos mais variados eixos e, a cada passagem, o Comandante do COMAR vibrava e dizia: "Isso é que é aviação!" E a cada passagem fazia um comentário entusiasmado.

O Quintino vibrava de satisfação...e o Donato botava "lenha na fogueira". Até que o Pedro Humberto dispersou a esquadrilha e comandou "cobrinha"(4) para passagens individuais.

Os aviões "despencavam" do setor norte e passavam sobre o prédio do comando da Base onde estavam as autoridades, voando com aproximadamente 400 kt(5). O número quatro, meio que deu uma "atrasada" e teve que dar um "motorzinho"(6) para não se afastar muito dos outros aviões. Quando ele estava a mais ou menos uns quatrocentos metros do prédio, já nivelando, começou a se formar condensação em suas asas devido à maior velocidade em que vinha e as condições atmosféricas do momento.

Todos pensamos: "Esse vem quente". E buuuummmm....!(7) passou exatamente sobre o prédio do comando. Sorte que todos estavam no meio do pátio para assistir as passagens porque todos os vidros, literalmente todos os vidros do prédio explodiram. Algumas janelas se descolaram inteiras da parede, telhas voaram, gritos se ouviram.

Enfim, foi a maior "zuada". O Comandante da Base estava lívido, a cada passagem ia ficando mais vermelho, e com aquele clímax se sacudia todo e olhava fuzilando para o Quintino.

Nós pensávamos: xiiiii!...vai sobrar para o Quintino. Mas, de imediato, todos olharam para o Comandante do COMAR com ar de expectativa e ele exclamava: "Sensacional...Isso é que é aviação", e o Comandante da Base perguntava exaltado: "É Brigadeiro...mas quem é que vai pagar esse prejuízo?"

O Brigadeiro ria e dizia: "pode mandar para mim que eu terei o maior prazer em pagar". E assim terminou mais um "combate' com o irado Coronel Comandante da Base Aérea de Canoas e os "terríveis" caçadores dos Pampas.

  

Brig.-do-Ar R/R Delano Teixeira Menezes
Piloto de Caça

  

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:
(1) - "Pó, pó, pó" = Nome pelo qual é conhecida a mais famosa e tradicional música da Aviação de Caça Brasileira
(2) - 5o COMAR = Quinto Comando Aéreo Reginal, engloba: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
(3) - "Joca" = É o nome de código tradicionalmente usado para o oficial que, no solo, se comunica, via rádio, com a esquadrilha.
(4) - cobrinha = Formação em que os aviões voam afastados, porém, um atrás do outro.
(5) - 400 kt = velocidade de 400 nós ou seja: aproximadamente 740 km/h.
(6) - dar um "motorzinho" = acelerar o motor e conseqüentemente aumentar a velocidade.
(7) - Bummmm...! = No caso, significa que o avião ultrapassou a velocidade do som.
Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(29-1) Histórias do 1o/14o G.Av.
(28-1) Três Estórias de Aviões (repetição)
   

  TRÊS ESTÓRIAS DE AVIÕES
(Estória 29-2)

NOTA

ESTA ESTÓRIA ESTÁ SENDO REPETIDA PORQUE,
NO NÚMERO ANTERIOR (28-1),
A VERSÃO IMPRESSA SAIU COM INCORREÇÕES.

A segunda estória, é a mais bonita. É a estória de um avião.

Não está sendo fácil contá-la. Já fiz uns três rascunhos, e não ficaram bons. O melhor, é ser simples, direto.

Os aviões são como nós. Eles nascem, eles se tornam jovens poderosos, eles têm a meia idade e eles ficam velhos.
Lembra-se da primeira vez que você chegou perto de um?
O cheiro acre, a imobilidade, a frieza, puro engano! Hurricane  - 12 kbytes
-"Que jovem bonito."
-"Coitado, está tão apreensivo."
Você desconfiava, não é?
Lembra da madrugada fria, ao nascer do sol, quando o motor girava, e o calor gostoso chegava até você?
É difícil descrever esse momento. Era um abraço, não era?
Entende agora, o que eu estou falando?
Eles têm vida. O avião gosta de quem gosta dele.
O avião sabe quem tem medo dele.

Eu estou contando tudo isso, porque eu conheci um, e foi um senhor avião. Seu nome, é o HURRICANE 2798, LK-A. Ele/ela, está majestosamente repousando, em uma ala de um belo museu da RAF(1), e segundo as plaquetas de identificação, "em caráter experimental". Querem que eu descreva?

Linda. Feminina. A fuselagem (seu corpo esguio) revestida por uma camada de pano. O seu vestido. Se fosse atingida nos combates aéreos, era facilmente recuperada. Voltava ao combate, com poucas horas de manutenção.

Aproximei-me, lentamente. Eu sabia que estava diante de um mito.
Uma plaqueta, contava a sua vida.
Nasceu em 19 de janeiro de 1940.
Em 27 de abril, se deslocava para a FRANÇA. ABBEVILLE. 
Só essa cidade, daria um livro. Closterman atacou-a em 1944.
A derrocada da França, a fez retroceder.
20 de Março - Boulogne.
21 de Março - Dover (Inglaterrra)
29 de Maio - Foi atingida.
Recuperou-se.
11 de Setembro de 1940 - Batalha da Inglaterra.
Esse marco da História moderna, todos conhecem.

Talvez, alguns desconheçam, que 80 por cento das vitórias da RAF, foram conseguidas pelas unidades de Hurricane. No "pico" da batalha, o Comando de Caça, tinha 30 unidades de Hurricane, complementadas por 18 de Sptifire e 10 de "outros esquadrões". A minha aeronave estava ali. Manche do TF-7  - 14 kbytes

Olhei a cabine. O instrumental. O mesmo manche "Caneca de Chopp"(2) do nosso GLOSTER METEOR (TF-7). E do "SOPWITH CAMEL" de 1917.

O alto-falante avisa, em 15 minutos seriam encerradas as visitas.
Aproveito esses minutos finais. Observo-lhe o trem de pouso, suas metralhadoras. E as suas asas.
30 milhas mais lentas que o SPITFIRE, 33 milhas mais lentas que o MESSERSCHMITT BF 109E-3.
Abaixo de 20.000 pés, incrivelmente superior ao SPITFIRE e MESSERCHMIT.
Eu as acaricio.

Leitor, você já deslizou sua mão pelo dorso de um cavalo? Lembra dos nervos, os músculos, que se retesam quando a sua mão se desloca? Eu juro a você, que eu tive essa sensação. "O Trompowsky endoidou de vez!" Tudo bem. Mas que eu tive essa sensação, eu tive.

   

Ivan Trompowski Douat Taulois
Piloto de Caça aposentado

 

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:
(1) - RAF = "Royal Air Force", Força Aérea Inglesa
(2) - Caneca de Chopp = O "manche" do avião Gloster TF-7, possuia uma espécie de alça (ver ilustração) parecida com alça de caneca de chopp. Pode-se notar à esquerda a capa que protege os interruptores de armamento (guns), o interruptor de transmissão de rádio, logo acima, e a alavanca do freio (vista através da alça).

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(29-1) Histórias do 1o/14o G.Av.
(28-1) Três Estórias de Aviões (repetição)