LIÇÕES DA CAMPANHA DE INTERDIÇÃO NO VIETNÃ:
DEZ PROPOSIÇÕES PARA O FUTURO COMANDANTE OPERACIONAL


(Prêmio Pacau Magalhães-Motta, ano de 2007, 2
º lugar)

 

NOTA: 
O conteúdo deste documento reflete a opinião do autor, quando não citada a fonte da matéria, não representando necessariamente, a política ou prática da Associação Brasileira de Pilotos de Caça ou do Comando da Aeronáutica.
 
  
"Se existe uma atitude mais perigosa do que assumir que a próxima guerra será exatamente igual à anterior é imaginar que ela será tão diferente que podemos ignorar todas as lições do último conflito."
Sir John Slessor
  
  
As palavras do Marechal Slessor, ditas ainda nos anos 50, encontraram eco na Guerra do Vietnã, e continuam a reverberar durante os dias atuais. A história desse conflito é um exemplo perfeito de quão desastrosa pode se tornar a aplicação, em um cenário completamente diverso, de conceitos que anteriormente haviam sido empregados com sucesso (nesse caso, durante a II Guerra Mundial). Além disso, o confronto na Indochina, que ainda hoje permanece como um dos mais controvertidos de todos os tempos, também oferece uma enorme quantidade de lições duradouras que comandante algum deve ousar ignorar.
  
Similarmente ao que ocorreu em eventos mais recentes, como na Guerra no Líbano em 1982 ou no Kosovo em 1999, durante a Guerra do Vietnã os líderes políticos se decidiram pelo uso do Poder Aéreo porque inicialmente não desejavam colocar tropas no solo, em confronto direto com o inimigo. Considerando-se que o contexto internacional requer, com crescente intensidade, legitimidade e apoio popular para as operações militares, cresce a chance de que, paradoxalmente, o Poder Aéreo seja utilizado como uma das opções preferenciais de emprego militar justamente por conta de uma de suas maiores limitações: a impossibilidade de ocupar o terreno. Pelos mesmos motivos, vislumbra-se que as Forças Aéreas serão requisitadas cada vez mais a atuar sob rígidas regras, exatamente como ocorreu no Vietnã. Finalmente – mas não menos importante, confrontos contra atores não-estatais permanecerão na ordem do dia(1), o que implica Forças Armadas preparadas para o combate em guerra irregular. Todos esses ingredientes são bastante similares àqueles que a Força Aérea Norte-Americana (USAF) encontrou no Vietnã, o que reitera a relevância do assunto para os combatentes do ar.
  
A análise do papel da Interdição Aérea no Vietnã é um assunto extremamente fascinante e desafiador. De acordo com Guilmartin, na história dos conflitos, poucos assuntos suscitaram mais discussão e controvérsia do que a interdição visando a bloquear o fluxo de suprimento e reforço de tropas em direção ao Vietnã do Sul(2). A Guerra do Vietnã apresenta-se como uma excepcional fonte de ensinamentos a respeito da tarefa de interdição, oferecendo lições persistentes que certamente serão úteis para o futuro comandante operacional.
  
OS PRINCIPAIS OBJETIVOS DA INTERDIÇÃO NA GUERRA DO VIETNÃ
  
Há muito que a Interdição Aérea é considerada uma das principais tarefas do Poder Aéreo. Em geral, seu objetivo é relativamente simples: interromper o fluxo de suprimento, equipamento e pessoal do inimigo, a fim de isolar o campo de batalha. Para ser efetiva, essa interrupção deve estar relacionada a tempo (quando o inimigo precisa do ressuprimento), bem como quantidade (quanto ele necessita para continuar a empreitada). Apesar de a interdição ser uma atividade muito importante em uma campanha militar, um aspecto relevante que necessita ser enfatizado é que a ela não representa um fim em si mesma, mas sim um facilitador.
  
Somente em casos excepcionais (ou em teoria) a Interdição Aérea poderia ser capaz de alcançar a vitória isoladamente, sufocando ou estrangulando o inimigo. Normalmente, ela será um meio que permitirá a execução de outras ações militares. Por esse motivo, a Interdição Aérea é mais efetiva quando aplicada em conjunto com forças terrestres, porque o combate implicará um aumento da demanda, tornando os exércitos mais vulneráveis – dessa forma, criando oportunidades para uma ofensiva por parte de tropas amigas.
  
No que diz respeito ao emprego da arma aérea no Vietnã, o governo norte-americano estabeleceu grandes campanhas de bombardeio que se estenderam de 1965 a 1972, sempre com a finalidade de coagir o governo Norte-Vietnamita a deixar de apoiar o esforço de guerra no sul. As principais campanhas compreenderam ataques a objetivos situados não somente nos Vietnã do Norte e do Sul, mas também nos países vizinhos da península da Indochina (Laos e Camboja).
  
A Operação ROLLING THUNDER foi a primeira, conduzida entre 2 de março de 1965 e 31 de outubro de 1968. Esses três anos e meio de campanha foram seguidos pela Operação COMMANDO HUNT, que durou de 15 de novembro de 1968 a 10 de abril de 1972 – outra campanha bastante longa. Em 1972, último ano de bombardeio intensivo na Guerra do Vietnã, três novas Operações surgiram, cada uma com características peculiares que as tornam únicas. A Operação FREEDOM TRAIN iniciou-se em 10 de abril de 1972 e, por causa de significativas mudanças na estratégia concebida, mais tarde foi chamada de LINEBACKER (de 10 de maio e 23 de outubro). Posteriormente, essa mesma operação foi renomeada LINEBACKER I, porque Washington decidiu lançar a LINEBACKER II – a última grande campanha de bombardeio, que durou apenas onze dias (de 18 a 29 de dezembro de 1972).

OPERAÇÃO

PERÍODO

ROLLING THUNDER

02 mar. 1965 – 31 out. 1968

COMMANDO HUNT(I a VII)

15 nov. 1968 – 10 abr. 1972

FREEDOM TRAIN

10 abr. 1972 – 09 maio 1972

LINEBACKER I

10 maio 1972 – 23 out. 1972

LINEBACKER II

18 dez. 1972 – 29 dez. 1972

Tabela 1 – principais operações de interdição ocorridas durante a Guerra do Vietnã

Levando-se em conta que a Guerra do Vietnã é um conflito extenso e controverso, diferentes perspectivas para um mesmo evento são facilmente encontradas. Considerá-la com um fato linear e homogêneo é um erro recorrente em análises e declarações feitas por políticos, líderes militares e até mesmo acadêmicos. Especificamente com relação ao Poder Aéreo, um dos deslizes mais comumente encontrados é assumir que a Guerra do Vietnã teve apenas uma campanha de Interdição, e não várias(3).

ROLLING THUNDER foi a primeira grande campanha aérea lançada contra o Vietnã do Norte, tendo começado no início de 1965. Ela foi um esforço enorme de persuasão estratégica que, na maior parte do tempo, confiou na interdição para alcançar suas metas(4) . Os objetivos principais da operação eram coagir o Vietnã do Norte a cessar o apoio a qualquer forma de insurreição contra o Vietnã do Sul e forçar Hanói a negociar um acordo de paz(5). Além desses, a operação também pretendia impedir uma atuação maior de China e União Soviética, pois havia um receio muito grande de que o envolvimento dessas duas potências poderia levar a uma escalada da crise e, eventualmente, disparar um conflito muito mais amplo e perigoso.

No que diz respeito ao planejamento da operação, um aspecto interessante a ser notado é que não havia um consenso entre as lideranças políticas e as militares sobre qual seria a melhor forma de se alcançar os objetivos estabelecidos: diferentes teorias competiam por trás da lógica defendida por cada um dos envolvidos na decisão. Por esse motivo, a Op. ROLLING THUNDER envolveu alvos atacados com o objetivo de ameaçar uma destruição cada vez maior (sob a doutrina de Thomas Schelling(6) ); momentos em que provocar extensos danos era a estratégia principal (seguindo as idéias de Giulio Douhet(7) ); e missões concentradas exclusivamente na interdição do campo de batalha, quando o foco maior eram alvos militares(8) . Em termos gerais, a parte inicial da operação visava a forçar Hanói a mudar seu comportamento por meio do ataque a vulnerabilidades civis, em uma tentativa de elevar o medo da população e, assim, forçar as negociações. Como essa estratégia falhou, a campanha foi alterada para uma fase de Interdição Aérea clássica(9).

COMMANDO HUNT foi a segunda grande operação que os EUA conduziram na Indochina. Após anos de bombardeio no Vietnã do Norte, o foco principal voltou-se para o Laos. Apesar de o objetivo principal ter permanecido o mesmo (reduzir o fluxo de tropas e material de guerra do Vietnã do Norte para o do Sul), observou-se um incremento no desejo de aniquilar caminhões, depósitos e até mesmo a topografia na região da Trilha(10) . O aspecto mais intrigante dessa mudança é que, à medida que os planos estabelecidos para a interdição não davam resultado, maior atenção era dedicada a detalhes no nível tático. Evidências sugerem que o esforço principal passou a ser dedicado a destruir o maior número possível de caminhões, em vez de interditar o campo de batalha (o que é claramente diferente). COMMANDO HUNT VII, a última fase dessa operação, foi interrompida pela Ofensiva da Páscoa, em 30 de março de 1972(11).

A Operação seguinte, denominada FREEDOM TRAIN, iniciou-se em 10 de abril, e visava a compelir Hanói a parar a ofensiva terrestre e aceitar o acordo de paz. FREEDOM TRAIN era inicialmente o renascimento da estratégia de escalada gradual (os chamados “bombardeios para aterrorizar”) e, por essa razão, não é considerada como uma campanha de interdição propriamente dita(12) . O Presidente norte-americano Richard Nixon logo concluiu que a estratégia estava errada, e a operação foi redesenhada e renomeada como LINEBACKER. O objetivo principal da nova campanha era cortar as linhas de comunicação, isolando a cidade de Hanói, que era considerada o centro logístico inimigo. Adicionalmente, a operação buscava trazer os líderes norte-vietnamitas para a mesa de negociações, de forma que um acordo de paz pudesse ser alcançado(13). A Operação foi suspensa quando Hanói sinalizou que aceitaria discutir o cessar-fogo.

LINEBACKER II, a última campanha de bombardeio, foi levada a cabo porque os norte-vietnamitas não estavam dando sinais claros de que iriam negociar, apesar da retórica empregada. Ela foi concebida como uma repetição da campanha anterior; até mesmo os alvos eram similares, principalmente porque o inimigo havia usado a suspensão dos bombardeios para regenerar suas rotas logísticas(14) . Um aspecto importante dessas últimas campanhas, especialmente da LINEBACKER II, é que tudo o que os EUA realmente desejavam era trazer de volta suas tropas remanescentes e seus prisioneiros de guerra, bem como dar a Saigon um razoável tempo de sobrevivência após a retirada(15).

Há quem considere que essa última operação não se tratava de uma campanha de interdição. Muito embora um autor experiente tenha argumentado que, durante a Op. LINEBACKER II, o sistema de transporte, os aeródromos e os depósitos foram alvejados apenas porque eram adequados a um bombardeio de área(16), parece haver certa dose de exagero nessa afirmativa. Considerando-se que os alvos eram bastante similares para ambas as LINEBACKER, por que o argumento seria válido apenas para a segunda operação?

É mais razoável afirmar que os EUA tinham outros propósitos ao escolher aqueles alvos do que somente por conta da facilidade de executar os ataques. Os EUA não estavam agindo daquela forma apenas para despejar uma quantidade enorme de bombas, simplesmente porque os chamados “bombardeios de área” não eram um fim em si mesmos. Na realidade, os alvos eram parte de um sistema logístico que os norte-americanos estavam tentando neutralizar, e é por esse motivo que a Operação LINEBACKER II pode ser considerada mais uma campanha de interdição que possuía alguma estratégia por detrás.

Em suma, é justo afirmar que a Guerra do Vietnã compreendeu diferentes campanhas de interdição. Todas elas possuíam o objetivo de parar o fluxo de suprimento de material militar e de pessoal para o sul, forçando Hanói para a mesa de negociação. Entretanto, apesar de poder parecer que todas as campanhas eram similares, já que os objetivos precípuos eram, grosso modo, os mesmos, havia enormes diferenças no que diz respeito a dois aspectos muito importantes:

primeiro, as limitações impostas pelo nível político, estabelecidas essencialmente para prevenir o envolvimento direto de China e URSS, variaram consideravelmente de uma campanha para outra: os combates iniciais sofreram muito mais restrições do que os finais.

Segundo, os termos do acordo de cessar-fogo imposto ao Vietnã do Norte mudaram significativamente durante o conflito. Na verdade, é mais lógico afirmar que houve acordos de cessar-fogo, porque os objetivos perseguidos pelos EUA divergiram do início ao fim.

Talvez essa seja a mais importante consideração que necessita ser feita quando se estuda a campanha aérea (e especificamente a parte de interdição) da Guerra do Vietnã. O confronto não foi homogêneo. Houve diferentes operações, conduzidas de diferentes maneiras, contra diferentes inimigos, respeitando diferentes restrições, e buscando alcançar diferentes acordos; e isso tem que ser considerado quando da análise do conflito em toda a sua extensão.

AS CARACTERÍSTICAS DA INTERDIÇÃO AÉREA NO VIETNÃ

Desde o início de sua luta contra a ocupação francesa, o líder vietnamita Ho Chi Minh possuía o sonho de construir um Vietnã unificado e independente. Por volta do fim da II Guerra Mundial, em uma tentativa de aproveitar a oportunidade que surgia, Minh declarou o Vietnã um país livre e soberano(17), tendo curiosamente utilizado a Declaração de Independência dos EUA como modelo para a elaboração de seu documento. Entretanto, o líder era conhecido como um comunista desde os tempos da I Grande Guerra e, dessa maneira, confiava em uma ofensiva convencional e derradeira como o fator decisivo para alcançar a vitória (algo que realmente ocorreu no final do conflito). Ho Chi Minh também acreditava que o Exército do Vietnã do Norte teria que tomar a iniciativa, não deixando que os Vietcongues vencessem por si sós (mesmo que isso fosse possível), porque essa vitória poderia ameaçar a coesão do futuro país após a unificação.

Ciente da doutrina comunista, os EUA concluíram que, para impedir essa ofensiva final, as mais importantes tarefas da Força Aérea seriam a Interdição e o Apoio Aéreo Aproximado. Especificamente no que diz respeito à Interdição, seu objetivo primário seria o de interromper o apoio às forças convencionais e de guerrilha (contra o Exército do Vietnã do Norte e os Vietcongues). Não obstante, havia restrições políticas impostas ao processo de seleção de alvos que eram tão importantes que, durante a presidência de Lyndon Johnson, por exemplo, o faziam revisar pessoalmente, a cada duas semanas, a lista de alvos fixos a serem atacados(18) . Para alcançar o objetivo de interromper o suprimento para o sul, a estratégia concebida focou alvos de transporte que podiam ser atacados (estradas, pontes, estoques, pátios de manobra, depósitos, pontos de transbordo, áreas de reparo e assim por diante(19)). Apesar de essa estratégia parecer simples, houve intensos debates acerca de qual seria a melhor forma de se isolar o campo de batalha. Políticos e líderes militares discutiam sobre como provocar a interdição, mas os limites que foram estabelecidos forçaram o foco na Trilha Ho Chi Minh.

A Trilha Ho Chi Minh

A região do conflito apresentava características únicas, que demandavam especial atenção por parte dos planejadores e táticos que estudavam a melhor estratégia a seguir. Por exemplo, a região era dominada por monções: durante o período das chuvas, as rodovias se tornavam praticamente bloqueadas, fazendo com que grandes esforços logísticos tivessem que ser feitos durante o período da seca. Outro aspecto diz respeito às Montanhas Anamitas, que fisicamente dividem a região e fazem com que o trânsito entre o Vietnã do Norte e o Laos seja possível através apenas de três passagens principais. A vegetação é outro ponto a se considerar: dependendo da altitude (que oscila de 800 a mais de 4000 pés), a mata varia de bambuzais a florestas tropicais fechadas. A maior parte do terreno, que se situa em torno de 2500 pés, é coberta por florestas de árvores muito altas, que impedem que o solo seja avistado por aeronaves.

Foi exatamente nessa região que os vietnamitas construíram a Trilha Ho Chi Minh, cujo estudo é fundamental para se compreender muitos aspectos da Guerra do Vietnã. A trilha era nada mais do que a principal artéria de comunicação que o Vietnã do Norte usava para conduzir a guerra. Essa importância foi ressaltada pelo historiador Richard Stevens, que declarou que a batalha pela trilha representa o confronto crucial da Guerra do Vietnã e um dos encontros mais significativos da história(20).

Já em 1957 o Vietnã do Norte havia percebido que os guerrilheiros comunistas do Sul não podiam lutar sem assistência. Eles precisavam ser logisticamente apoiados, e a trilha era vital para que isso ocorresse. Assim, no período entre o final dos anos 50 (principalmente após um esforço concentrado que se iniciou em 1964) e o início da década de 1970, os vietnamitas aprimoraram a trilha, transformando algumas picadas utilizadas pelos nativos em para uma complexa rede de mais de 3700 Km de extensão. Conforme descreveu Leary, a trilha era um labirinto massivo de centenas de caminhos, estradas, rios, igarapés, cavernas, passagens e túneis subterrâneos escondidos através de montanhas e florestas(21) . De fato, a trilha era muito mais extensa, redundante e intrincada do que a Inteligência norte-americana jamais imaginou(22).

Historicamente, o primeiro ataque à trilha feito pela USAF foi em 1964, mas a concentração de esforços veio somente em 1968. Alguns acadêmicos argumentam que a Trilha não era um objetivo militar importante simplesmente porque o fluxo de suprimento que por ela passava não era tão grande. Entretanto, essa assertiva não se sustenta. Guilmartin, por exemplo, declarou que a importância da trilha se estendia para muito antes da Guerra do Vietnã(23) . Há outras evidências de que essa linha era muito importante para o esforço de guerra, e alguns números dizem muito. Durante a Op. ROLLING THUNDER, por exemplo, estima-se que os norte-vietnamitas possuíam entre 150.000 e 200.000 homens trabalhando em medidas antiaéreas ativas e passivas, enquanto que 500.000 outros trabalhavam em reparos de rodovias, pontes e ferrovias(24). Se a Trilha fosse de pouca importância para o Vietnã do Norte, certamente o esforço a ela dedicado não teria sido tão grande.

Como já havia ocorrido em conflitos anteriores, a opção preferida do inimigo era mover-se à noite, devido à possibilidade de camuflagem. Percebendo a dificuldade tanto para alcançar bons resultados durante o dia quanto para encontrar os alvos durante a noite, esse problema aparentemente insolúvel fez com que os norte-americanos desenvolvessem aeronaves, armamento, sistemas e táticas especializados que potencialmente iriam permitir-lhes identificar, perseguir e destruir veículos de transporte(25) . As viaturas também se moviam impunemente durante o dia, onde a cobertura dupla ou tripla provida pela densa vegetação oferecia uma boa camuflagem e proteção, provocando um desafio que foi bem descrito por um ex-General norte-americano: “nós nunca iríamos encontrar os caminhões(26).” Mas localizá-los era apenas o primeiro passo: outras dificuldades eram enfrentadas quando se tentava destruir esses alvos.

O mais intenso esforço de interdição no Vietnã ocorreu durante os períodos de seca entre 1968 e 1972, quando foram conduzidas as Operações COMMANDO HUNT(27) . Os EUA decidiram tentar as mesmas técnicas previamente usadas pelos franceses, obstruindo lugares que, teoricamente, seriam mais difíceis de contornar. Buscava-se, ainda, provocar uma concentração de alvos e, dessa forma, aumentar a possibilidade de destruição(28). Entretanto, as próprias características do terreno também significavam que as regiões bombardeadas eram facilmente reparadas e evitadas (com curtos desvios). Lugares bombardeados à noite estavam normalmente recuperados na manhã seguinte – os vietnamitas possuíam uma boa estrutura de engenharia para fazê-lo. Paradoxalmente, os bombardeios também contribuíam para tornar a Trilha ainda mais eficiente, por conta das condições locais: após anos de pesados ataques, a destruição da vegetação tornava mais fácil a construção de desvios temporários que serviam para aperfeiçoar a Trilha em favor dos Vietnamitas. Em suma, a Trilha Ho Chi Minh permitia o estabelecimento de uma quantidade tão imensa de rotas alternativas, compreendia uma abundância de lugares para esconder ou camuflar equipamentos, oferecia a enorme problemática das fronteiras permeáveis e apresentavam tantos outros obstáculos para uma campanha de interdição que aquele que argumentar que seria impossível parar o fluxo de suprimento concentrando-se somente naquela região provavelmente não estará longe da realidade.

Fronteiras, Áreas proibidas e Santuários

Desde o início do conflito, os EUA estabeleceram rígidas Regras de Engajamento, que impediam ataques a determinados lugares. Durante 1965, por exemplo, ataques não podiam ser feitos em um raio de 30 NM ao redor de Hanói e 10 NM ao redor de Haiphong(29) . Essas regras eram freqüentemente complexas e difíceis de serem seguidas: tomando o Sistema de Defesa Aérea como exemplo, não era permitido atacar nem mesmo sítios SAM(30) . Captando rapidamente a oportunidade de tirar vantagem dessas imposições, os norte-vietnamitas começaram a posicionar, sempre que possível, seus meios de defesa aérea exatamente dentro das áreas restritas(31) . Combustível era armazenado próximo a hospitais, igrejas, pagodes ou vilas – lugares nos quais era altamente improvável ocorrer um ataque dos EUA(32). Assim, durante a maior parte do tempo, houve restrições a ataques a campos de arroz, sítios SAM, AAAé e aeródromos, dentre outros.

A situação iria mudar significativamente somente durante as Operações LINEBACKER. Deve-se notar, entretanto, que as limitações não desapareceram por completo: as LINEBACKER apresentavam menos restrições do que a operação anterior (ROLLING THUNDER), mas estas ainda estavam presentes(33)(34). , Antes disso, porém, para se adequar às restrições, soluções de ataque alternativas tiveram que ser colocadas em prática.

Soluções Alternativas

Até que as limitações pudessem ser removidas, os EUA tentaram estabelecer linhas de ação que permitissem alcançar o objetivo (a interrupção do fluxo logístico) sem desrespeitar as restrições. Parte do esforço dedicado a desarticular o sistema era voltado para ataques(35)a pátios de estacionamento e áreas de armazenagem. Outras missões visavam a atingir os oleodutos que proviam o fluxo vital de derivados de petróleo para o sul, mas logo se verificou que esse sistema era praticamente imune aos ataques. Via de regra, os entroncamentos, que se constituíam nos melhores alvos, estavam localizados em zonas restritas e, portanto, não podiam ser atacados.

Havendo reconhecido que a malha rodoviária da Trilha era por demais redundante, os EUA escolheram parar o fluxo de suprimento para o Sul por meio da destruição de caminhões, que representavam o mais importante meio de transporte. Entretanto, há indícios de que não havia sido determinado o esforço necessário para desarticular por completo (ou ao menos afetar seriamente) o fluxo logístico. Acredita-se que os líderes norte-americanos eram muito otimistas ou não possuíam um claro entendimento sobre quantos caminhões os norte-vietnamitas operavam e que quantidade de suprimento era necessária para manter seu esforço de guerra. Apesar de ser possível argumentar que não havia tantos nós críticos após a aplicação das restrições, também é verdade que os EUA estavam extremamente concentrados em destruir veículos, especialmente durante as Operações ROLLING THUNDER e COMMANDO HUNT. A caça aos caminhões era considerada tão importante que até mesmo o número de viaturas destruídas era a mais comum Medida de Desempenho utilizada na campanha(36). No que diz respeito ao emprego do Poder Aéreo no Vietnã, a perseguição cega aos caminhões é provavelmente o melhor exemplo de como uma má estratégia pode levar a resultados pífios (ou até mesmo desastrosos).

Não obstante ser válido argumentar que a campanha de Interdição Aérea foi duramente afetada pelas numerosas restrições, há motivos para se acreditar que a perseguição aos veículos nunca seria a melhor estratégia visando a alcançar o estado final desejado. Após o suprimento ter sido distribuído entre centenas de caminhões, com cada um deles transportando apenas uma pequena quantidade de material, o esforço para arruinar o sistema crescia exponencialmente. Não obstante, até mesmo acadêmicos dão muita ênfase a essa escolha de interditar por meio da destruição de caminhões. Edward Mark, por exemplo, defende que mesmo o advento das munições de precisão (PGM – Precision Guided Munition), que surgiram durante o conflito(37), teve pouca importância, porque o verdadeiro objetivo seria o Reconhecimento Armado (ele não argumenta que a baixa eficácia deveu-se à tardia introdução desse tipo de armamento no conflito). Mesmo que as missões de Reconhecimento Armado fossem mais importantes do que as de ataque (algo com o que é difícil de concordar), o uso de PGM ao menos iria permitir, para usar a mesma lógica de Mark, um aumento no número de aeronaves disponíveis para o Rec Arm. Ele assegura que, se essas mesmas missões de caça aos caminhões houvessem sido conduzidas no norte, próximo à fronteira com a China, os resultados poderiam ter sido diferentes. Porém, se isso houvesse sido permitido, por que não atacar pontos de estrangulamento na mesma área em vez de realizar Reconhecimento Armado? O que os EUA fizeram foi transformar o Rec Arm, uma missão de oportunidade, no esforço principal da campanha. O ataque propriamente dito, que usualmente é o objetivo primário de uma missão de interdição, foi relegado a um segundo plano.

Guilmartin é outro acadêmico que apresentou um excelente estudo sobre o bombardeamento da Trilha Ho Chi Minh. Entretanto, ele também foi seduzido pelo fator “caça aos caminhões”: seus detalhados cálculos acerca dos veículos, envolvendo distância a percorrer, capacidade de carga, tonelagem de material transportado, suprimento necessário, combustível requerido para mover os caminhões e até mesmo a quantidade de alimento necessária para a tripulação são descobertas interessantes. Todavia, elas servem muito mais para aumentar a cortina de fumaça e desviar a atenção para longe do que realmente importava naquele conflito: o objetivo maior era interditar o campo de batalha, e não destruir caminhões. Deve-se ter em mente que a caça aos caminhões era uma escolha alternativa, porque por um longo tempo restrições impediram, por exemplo, a minagem de portos ou o ataque às poucas ferrovias existentes (ambos representando as principais portas de entrada do suprimento). Para tornar as coisas ainda piores, essas soluções substitutas estavam longe de ser as únicas conseqüências das limitações que haviam sido impostas.

Superioridade Aérea

Deixando de lado o debate se a perseguição aos caminhões era ou não a melhor alternativa, outro fato intrigante é que os mais eficazes destruidores de caminhão empregados durante a Guerra do Vietnã – os gunship AC-119 e AC-130 – acabaram tendo que ser removidos das operações(38). Isso se deveu ao elevado grau de ameaça oferecido pela AAAe e pelos SAM, algo que também ocorreu, em diferentes ocasiões, com os B-52. A lógica por trás dessa decisão reside no fato de que as defesas norte-vietnamitas eram suficientemente fortes para negar o uso do espaço aéreo para determinadas operações. Não cabe aqui discutir se a campanha de interdição teria ocorrido com sucesso ou não caso os gunships houvessem continuado seus vôos. Entretanto, o simples fato de que as plataformas mais eficientes não podiam atuar é uma indicação contundente de que as coisas estavam realmente difíceis para o emprego do Poder Aéreo.

Contrariamente ao que muitos crêem, em diferentes partes do campo de batalha os EUA não dispunham de Superioridade Aérea(39) . Essa era outra conseqüência direta das restrições, que impediam ataques a sítios SAM, AAAé e aeródromos. Um dos principais motivos pelos quais ataques ao Sistema Integrado de Defesa Aérea eram proibidos devia-se ao receio de vitimar técnicos soviéticos e chineses que tripulavam os sítios para ensinar aos norte-vietnamitas como operar os equipamentos(40) . A impossibilidade de executar esses ataques também permitiu que as ameaças aumentassem consideravelmente durante o conflito. Como disse Momyer, “devido às nossas restrições, o sistema [de Defesa Aérea] pôde se expandir sem interferência significativa até a primavera de 1966, quando ataques sistemáticos contra elementos do sistema foram permitidos. Nós nunca fomos autorizados a atacar o sistema como um todo(41) .” Dessa forma, a AAAé leve e as armas portáteis de outrora se transformaram em uma densa rede de AAAé e SAM, fazendo com que, à época das Op. LINEBACKER (1972), o sistema de defesa antiaérea dos norte-vietnamitas fosse um dos mais sofisticados do mundo. Apesar de a taxa de abate não ter sido excepcional (estima-se que somente 2% dos mísseis disparados atingiam os alvos(42)), o sistema ainda assim teve o poder de mudar a forma como a guerra estava sendo conduzida.

Essa discussão vai além do debate se ataques iriam desarticular ou não o sistema. O que realmente salta aos olhos é o fato de que os norte-americanos não estavam autorizados a lutar pelo pilar mais sólido do Poder Aéreo: o controle do ar. A Superioridade Aérea é, provavelmente, um dos grandes mitos da Guerra do Vietnã. Talvez isso ocorra por causa de um erro conceitual: o controle do ar não visa somente a impedir que o inimigo possa atacar, mas também que consigamos conduzir nossas ações com liberdade. Assim, apesar de o Vietnã do Norte não possuir uma grande capacidade de luta nos céus, nem para infligir danos usando plataformas aéreas, eles contavam com uma fantástica defesa que impedia os EUA de conduzir a guerra da maneira que desejavam. Muito embora os SAM e AAAé representassem a base da defesa aérea norte-vietnamita, eles não estavam sozinhos. Esses eram considerados a maior ameaça (muitos pilotos experientes reportaram que a flak de Hanói era a mais densa de toda a história da guerra aérea(43) ) , mas a participação da Força Aérea Norte-Vietnamita não pode ser desconsiderada. Mesmo os velhos MiG-17 ofereciam um sério perigo quando empregados em pacotes ao lado dos MiG-21. Em 1972, durante a Operação LINEBACKER I, a taxa vitória/derrota em combate aéreo pendeu em favor do inimigo pela primeira vez na história da USAF(44) . O mínimo que se pode afirmar é que a caça inimiga ao menos fazia com que os caças norte-americanos abortassem suas missões, forçando-os a alijar seu armamento quando ameaçados(45).

Principalmente durante as primeiras Operações, como ROLLING THUNDER e COMMANDO HUNT, os aeródromos estavam desautorizados porque se localizavam perto de regiões proibidas(46) . Razões similares impediam surtidas contra sítios SAM e AAAé, propositalmente localizados em arrozais, diques e até mesmo no interior e nos telhados de hospitais(47) . Não obstante, alguns autores argumentam que um nível mais elevado de controle do ar não foi alcançado por conta do baixo número de aeronaves disponíveis. Mark, por exemplo, defende que a ameaça requeria muitas aeronaves de escolta e de apoio, as quais, em situação diversa, poderiam estar sendo usadas para atacar alvos relacionados ao sistema de defesa aérea(48) . Apesar de seu ponto de vista ser notável, principalmente por levantar a questão da falta de Superioridade Aérea, ele deixa de considerar que o problema ia muito além do número de aeronaves. A decisão de reter os B-52 e os gunships deveu-se à falta de Superioridade Aérea, mas esse problema não foi causado pelo fato de os EUA não possuírem suficiente número de aeronaves de ataque. Na verdade, a retirada dos B-52, AC-119 e AC-130 ocorreu muito antes que ataques a sítios SAM, AAAé e aeródromos fossem autorizados. Por outro lado, essas aeronaves não poderiam ter sido usadas em escoltas ou outras missões de sustentação ao combate. Portanto, é mais razoável afirmar que, a despeito de serem legítimas ou não, as limitações foram as razões primárias para a falta de Superioridade Aérea durante o conflito, e não a pequena quantidade de aeronaves. Para reprimir o sistema de defesa aérea norte-vietnamita e aumentar a sobrevivência, os EUA tiveram que desenvolver contramedidas eficazes. Sistemas de Armas especializados, como as aeronaves Wild Weasel(49) ; novas táticas de ataque; munições de precisão; e equipamentos de guerra eletrônica começaram a surgir na guerra. Apesar de terem atenuado as perdas, essas medidas nunca permitiram aos norte-americanos sobrepujar a ameaça(50).

Desenvolvimentos Táticos e Tecnológicos

Além das reconhecidas limitações a alvos que poderiam ser atacados, o aperfeiçoamento do sistema de defesa aérea e as inteligentes contramedidas adotadas pelos norte-vietnamitas forçaram os EUA a tentar ganhar vantagem por meio do desenvolvimento de artefatos tecnológicos, táticas e técnicas específicos. Dependendo da ótica adotada, o confronto americano-vietnamita pode ser classificado tanto como igual quanto desigual. Por um lado, a tecnologia envolvida no esforço para interditar a Trilha Ho Chi Minh era altamente díspar, com sofisticados sistemas, sensores e armamentos enfrentando primitivos caminhões, retroescavadeiras, bicicletas e pedestres. Por outro lado, os norte-vietnamitas e os vietcongues eram extremamente determinados e mestres em converter fraquezas em vantagens, o que de alguma forma nivelava a disputa.

Alguns dos novos métodos e equipamentos que surgiram para o tipo de guerra que os EUA lutavam demonstraram bons resultados, mas a maioria provou ser um completo desastre. Em vez de atacar alvos que tinham maior chance de provocar o efeito desejado, os EUA partiram para soluções alternativas, como perseguir os caminhões, que representavam a base do sistema de transporte inimigo. Assim, a vasta maioria das táticas e técnicas que surgiram durante o conflito era dedicada a melhorar as estatísticas de caminhões destruídos. Entretanto, a dificuldade de conduzir uma campanha de interdição apropriada teve início muito antes dessa tendência, tendo em vista o equipamento disponível. Tilford concluiu que “a doutrina da Força Aérea e a maioria dos seus equipamentos não eram adequados ao tipo de guerra que se desenvolvia no Vietnã(51) ” , enquanto Mark declarou que as aeronaves disponíveis apresentavam a desvantagem de terem sido “desenhadas para missões completamente diferentes das de interdição(52).”

Dentre alguns marcantes desenvolvimentos operacionais feitos pelos norte-americanos, um que merece especial atenção por causa de suas persistentes lições é o fantástico sistema de Busca e Salvamento de longa distância que foi introduzido durante a Guerra do Vietnã(53) . Entretanto, visto sob outra perspectiva, o que se poderia esperar de uma campanha aérea onde o serviço SAR foi um dos expoentes? Alguns dos avanços tecnológicos também foram impressionantes. As munições de precisão (PGM) ofereceram maior eficácia, como ocorrido no episódio da ponte de Thanh Hoa, por exemplo, quando 72 PGM fizeram o trabalho cuja estimativa inicial era de necessitar 2.400 bombas convencionais(54) . De tempos em tempos, surgiam outras “soluções inteligentes”: novos sensores embarcados, como os adaptados aos B-57 Canberra (descrito por um General como “um desastre(55) ” ); sistemas de detecção, como nas Operações IGLOO WHITE(56) ; , aeronaves de grande porte com canhões laterais(57) ; e sensores que permitiam operações noturnas, dentre outras(58).

No que diz respeito a novas táticas, a Operação COMMANDO HUNT contemplou o bombardeamento de encostas, na tentativa de fazer com que deslizamentos de terra bloqueassem as passagens; bombardeio de nuvens, destinados a aumentar o período das chuvas; e desfolhantes usados para permitir a visualização de alvos. Outras novidades táticas incluíam o emprego de Controladores Aéreos Avançados (CAA) e, como não havia pontos de estrangulamento, os cinturões de bloqueio(59).

A tática de “cinturões de bloqueio” surgiu por causa da baixa eficácia das campanhas iniciais contra os caminhões. O objetivo era alcançar um efeito sinérgico, por meio da combinação de diferentes armamentos em áreas específicas das principais artérias, onde presumidamente o inimigo não conseguiria passar ou contornar. Os cinturões de bloqueio eram compostos por dois a seis pontos, onde o armamento era semeado em uma seqüência preestabelecida. Primeiro, a estrada era bombardeada com munições de precisão (PGM). Em seguida, aeronaves lançavam minas anti-pessoal e anti-material. Finalmente, eram empregadas minas de 500 libras, equipadas com espoletas magnéticas(60) . A minagem era destinada a, em tese, tornar mais difícil para o inimigo o reparo das estradas. Os pontos de bloqueio eram constantemente monitorados, para permitir ataques subseqüentes caso os vietnamitas tentassem recuperar a passagem ou se a interrupção houvesse provocado um congestionamento de veículos. Com o decorrer do tempo, os “cinturões de bloqueio” provaram ser ineficazes, porque os norte-vietnamitas rapidamente aprenderam a se contrapor a essas ofensivas. Leais às suas características de encontrar soluções inteligentes para enfrentar o desnível tecnológico, eles iniciavam o desmantelamento do sistema arrastando pesadas pedras puxadas por tratores, provocando a detonação das minas anti-pessoal. Com isso, a maioria das outras minas também se tornava inativa, devido às detonações anteriores. O restante das minas sensíveis a pressão ainda ativas eram facilmente coletadas a mão. Finalmente, especialistas em explosivos removiam as espoletas e desativavam as minas de 500 lb, terminando o trabalho e liberando a região bloqueada em menos de doze horas(61).

O conceito dos cinturões de bloqueio é apenas um dos aspectos que tornaram a campanha de interdição difícil e, em grande parte, ineficaz. Tomando-se a Operação COMMANDO HUNT VII como um exemplo, dentre as três áreas de bloqueio estabelecidas, nenhuma delas ofereceu resistência ao movimento conduzido pelo inimigo, apesar de centenas de missões terem sido voadas para semear as minas e para destruir os caminhões presumidamente presos em um congestionamento. Considerando-se as Medidas de Eficácia adotadas, somente onze caminhões e três retro-escavadeiras foram destruídos(62)– uma pífia taxa custo/benefício.

Outros desenvolvimentos também não demonstraram eficácia: ou não entregavam o efeito prometido ou eram contrapostas pelas inteligentes saídas buscadas pelo inimigo. Na verdade, nunca é demais ressaltar a excepcional capacidade inventiva dos vietcongues e norte-vietnamitas, que habilmente extraíam o máximo dos parcos recursos que possuíam. Para evitar a detecção dos sistemas de ignição dos veículos, eles simplesmente os cobriam com folhas de alumínio. O sistema logístico celular era baseado na descentralização, concebido dessa maneira principalmente para mitigar os efeitos da Interdição Aérea. Os depósitos eram bem dispersos ao redor de uma grande área, freqüentemente camuflados em cavernas, instalações subterrâneas e até mesmo crateras provocadas por bombardeios. Apesar de isso provocar um aumento nos custos, o ganho em flexibilidade e segurança era muito maior(63). Em relação aos sistemas IGLOO WHITE, os vietnamitas e vietcongues rapidamente entenderam o padrão seguido pelas aeronaves usadas para lançar os sensores. Assim, os detectores eram facilmente destruídos ou, ainda pior, usados para despistar os norte-americanos (usando, por exemplo, um mesmo caminhão para passar várias vezes pelo mesmo ponto, simulando um grande comboio). Para complicar ainda mais, os americanos não possuíam um número suficiente de sensores para cobrir a intrincada rede de estradas, nem conheciam completamente o padrão, a localização e a extensão das vias.

Em verdade, os avanços táticos e tecnológicos que surgiram no Vietnã representaram, via de regra, um estrondoso fracasso. Talvez a mais clara justificativa que prova quão ineficaz eram esses armamentos, táticas e sistemas de vigilância é o fato que, durante a Ofensiva da Páscoa, centenas de blindados inimigos surgiram no Vietnã do Sul após terem cruzado todo o Laos praticamente sem serem detectados – e, obviamente, sem serem importunados(64).

Falhas de Inteligência

Outra característica presente em todas as campanhas da Guerra do Vietnã foi a baixa qualidade dos produtos de inteligência. Analisando a Op. COMMANDO HUNT, Tilford concluiu que, “apesar de argumentos em contrário, [a campanha] nunca juntou inteligência com operações(65) .” Um bom exemplo para demonstrar essa ineficiência é a reivindicação dos EUA de terem destruído mais caminhões do que os norte-vietnamitas na verdade possuíam. Para quem estava tão focado em estatísticas (como os EUA, que extensivamente usaram estatísticas como Medidas de Eficácia), é fácil visualizar como os parâmetros adotados eram perigosos. Enquanto a USAF estimava ter destruído mais de 9000 caminhões em 1969 e mais de 12000 em 1970, a CIA calculava que, durante o mesmo período, o inimigo possuía apenas 6000 veículos(66).

No que diz respeito à expansão da Trilha Ho Chi Minh, a inteligência dos EUA não conseguiu identificar grandes porções da rede no Laos(67) . As características da região tornavam impraticável conhecer tudo a respeito da Trilha, ocasionando a impossibilidade de identificar alvos cuja destruição provocaria a interdição. Em verdade, na tentativa de justificar a ineficiência, um oficial de inteligência de alto escalão declarou que boa parte das melhorias feitas pelos norte-vietnamitas nunca foi descoberta por causa da densa cobertura de vegetação(68). A baixa qualidade dos produtos de inteligência foi confirmada durante a Ofensiva da Páscoa, quando, conforme mencionado anteriormente, milhares de carros de combate surgiram no Sul após terem transitado impunemente pela Trilha.

Em suma, a Guerra do Vietnã – o conflito mais longo no qual os EUA se envolveram, apresenta muitas características intrigantes. A excessiva confiança em experiências históricas, combinada com um cenário repleto de restrições políticas, resultou em uma miríade de alternativas voltadas para a solução de um complicado problema. A campanha de interdição foi duramente moldada pelas decisões políticas de Johnson e Nixon (muito embora sob diferentes perspectivas). Vai além do escopo deste trabalho discutir as justificativas por detrás das escolhas, mas é inquestionável que a opção de não atacar alvos em profundidade no Vietnã do Norte impactou profundamente a estratégia concebida para a campanha, com conseqüências diretas nos resultados. O receio de provocar uma Terceira Guerra Mundial forçou a adoção de restrições que, não importando se legítimas ou não, afetaram severamente a maneira como Washington decidiu lutar no conflito. Os militares tentaram encontrar formas de contornar esses problemas e oferecer a melhor contribuição dentro da “arte do possível.” Entre sucessos e falhas retumbantes, viu-se que, de maneira geral, o desenvolvimento de novas táticas e técnicas foi dedicado a melhorar as estatísticas, em vez de aprimorar a interdição como o objetivo maior da guerra. Não obstante, as restrições não podem ser acusadas como a única razão para o insucesso. Elas apenas tornaram o contexto ainda pior, ressaltando a falta de estratégia e levando os líderes a se concentrarem em aspectos táticos, sendo a perseguição aos caminhões o melhor exemplo dessa visão extremamente restrita. Em suma, uma vasta gama de distintas características esteve presente no conflito em tela, e essa é uma consideração fundamental para todo aquele interessado em fazer uma correta análise da eficácia das diversas campanhas de interdição conduzidas durante a Guerra do Vietnã.

HOUVE, EM ALGUM MOMENTO, SUCESSO NA INTERDIÇÃO DA TRILHA HO CHI MINH?

Até hoje, muitos anos após o fim da Guerra do Vietnã, opiniões divergentes ainda fomentam acalorados debates e argumentações a respeito do que fracassou e do que deu certo no conflito. Apesar de não haver uma razão única para o baixo desempenho do Poder Aéreo e, mais especificamente, da Interdição Aérea no Vietnã, alguns aspectos mais relevantes podem ser apontados: os diferentes objetivos em cada operação; a adoção de muitas restrições e limitações; a mudança de natureza do inimigo; e a péssima estratégia que foi concebida para lidar com os aspectos anteriores. Além de esses aspectos serem fundamentais para a compreensão do resultado da guerra, eles também são cruciais para estabelecer lições duradouras que podem ser extraídas desse intrigante conflito.

Diferentes objetivos em diferentes operações

A análise do sucesso das campanhas de interdição no Vietnã deve respeitar o contexto individual das operações. Apesar de parecer suficiente afirmar que todas elas visavam a interromper o fluxo de suprimento para o Sul, bem como para trazer o governo norte-vietnamita para a mesa de negociações, há também nuances ocultas (e absolutamente essenciais) por trás dessa declaração. Antes de argumentar qual tática de ataque funcionou melhor, deve ficar claro que os termos em negociação no início eram completamente diferentes daqueles apresentados no final da guerra. Dessa maneira, não é justo comparar o resultado da Op. ROLLING THUNDER com o da LINEBACKER, por exemplo. Os EUA estavam buscando diferentes estados finais em cada uma dessas campanhas, e os vietnamitas souberam se aproveitar disso: em 1972, quando os EUA alcançaram a maior parte dos resultados almejados, os objetivos de Washington já haviam sofrido profundas alterações, e o Vietnã do Norte havia assegurado o direito de manter um grande contingente no Vietnã do Sul(69), algo que de forma alguma pode ser desconsiderado quando se avalia a campanha aérea.

Alguns acadêmicos vêem esse tema sob uma ótica diferente. Robert Pape, por exemplo, um dos grandes defensores do sucesso das Operações LINEBACKER, argumenta que como conseqüência direta da destruição de 59 alvos militares em Hanói, Haiphong e arredores, com o uso de 20.000 toneladas de explosivos, “em 29 de dezembro, Hanói indicou sua vontade de voltar à mesa de negociação(70).” Todavia, uma análise mais detalhada indica que, no intuito de suportar sua teoria de “vulnerabilidade civil versus vulnerabilidade militar”, Pape dedica excessiva ênfase a essa classificação de “alvos militares”, em detrimento do que realmente importa: o efeito que esses bombardeios causaram (a desestruturação da cadeia logística). A dificuldade em conduzir a guerra sem ressuprimento foi a força motriz que levou os norte-vietnamitas às negociações, e não o simples fato de terem sido atingidas vulnerabilidades militares (e não civis).

Pape continua sua tese afirmando que, por causa da Op. LINEBACKER II, o Poder Aéreo norte-americano dissuadiu Hanói a levar adiante ofensivas convencionais após 1972(71) . Na verdade, é mais preciso afirmar que os norte-vietnamitas sabiam que passos davam: eles já haviam forçado muitas alterações na redação de um eventual armistício, garantindo a manutenção de tropas do Sul. Há fortes indícios que justificam que o Vietnã do Norte estava apenas aguardando para agir quando a situação lhe fosse mais favorável, preparando-se para lançar, conforme reza a doutrina comunista, uma derradeira ofensiva convencional. O principal argumento que justifica essa lógica é algo que até mesmo Robert Pape defende: Hanói aguardou para lançar a ofensiva final quando a ameaça aérea já havia desaparecido(72). Eles finalmente se sentiram confiantes para fazê-lo em 1975, quando nem os EUA nem o Vietnã do Sul tinham condições de se opor à ação.

Earl Tilford é outro estudioso que defende que as Operações LINEBACKER foram um completo sucesso devido ao fato que, após a campanha, Hanói havia sido devastada e “não tinha motivos para testar futuras intenções dos EUA(73).” Entretanto, acredita-se que norte-vietnamitas eram muito mais astutos do que se poderia supor. Eles sabiam que os EUA já haviam aceitado o desfecho do conflito, aguardando apenas para voltar para casa em uma situação menos humilhante. Desde o início da guerra (ou até mesmo bem antes disso, se analisada a luta contra a ocupação francesa), os vietnamitas eram um povo extremamente determinado a continuar sua luta pela sobrevivência. Portanto, é razoável afirmar que, ainda que os EUA continuassem bombardeando os alvos remanescentes, o mais provável de ocorrer seria, pelo menos, uma volta às características apresentadas nos primeiros tempos, uma forma de renascimento da guerrilha. Há fortes indícios para crer que até que não houvesse mais norte-vietnamitas ou vietcongues remanescentes, eles continuariam lutando por sua causa.

Os efeitos das restrições e limitações

Por um longo período da Guerra, as restrições significaram que os EUA não podiam atacar onde as linhas de comunicação eram mais vulneráveis: no Vietnã do Norte. Lá se encontrava o cérebro do sistema, onde instalações de apoio, suprimentos e reparos proviam a sustentação para o combate(74) . A incapacidade de alocar missões de ataque destinadas a atingir os alvos mais importantes limitou severamente a eficácia da interdição. Essas limitações tiveram um papel fundamental na obstrução da campanha aérea, tanto direta quanto indiretamente. Somente nas últimas operações, notadamente as LINEBACKER, é que algumas das restrições políticas foram removidas. Diferentemente dos anos anteriores, quando limitações impediam ataques a certos sítios SAM ou aeródromos, esses alvos finalmente podiam ser atingidos, o que trouxe bons resultados: durante os últimos dias da Op. LINEBACKER II, por exemplo, não houve mais perdas de aeronaves B-52(75).

A possibilidade de atacar o Sistema de Defesa Aérea do Vietnã do Norte permitiu o estabelecimento de uma situação aérea mais favorável, algo que indiretamente afetava a campanha de interdição. Com efeito, missões de interdição eram executadas com muito mais liberdade, culminando com melhores resultados, algo que pode ser medido pelo simples fato de os norte-vietnamitas terem lançado todos os seus mísseis remanescentes sem conseguir efetuar o ressuprimento, algo devido à própria efetividade da interdição. Menores restrições também representaram um impacto direto na campanha de interdição, fazendo com que pontos críticos próximos à fronteira com a China e os portos de desembarque também pudessem ser atacados. Sem o bloqueio dos portos, por onde ingressava a maior parte do suprimento, seria muito difícil (para não dizer impossível) parar o fluxo para o sul(76) . No final, a capacidade de importação havia sido reduzida em 80%, por conta da interdição das ferrovias que ligavam o Vietnã à China e do bloqueio do porto de Haiphong(77).

O emprego de PGM, comum durante a Op. LINEBACKER II, provocou um importante efeito adicional que não pode ser desconsiderado. Essa munição tornou os ataques muito mais precisos, oferecendo maior eficácia à campanha(78) , e muito provavelmente ajudando a mudar o pensamento do nível político no que diz respeito ao receio da escalada. Finalmente, como muito corretamente alertou Earl Tilford, um dos mais populares e mais aceitos mitos acerca da atuação da USAF no Vietnã é que a Operação LINEBACKER II, o chamado “Bombardeio de Natal” de 1972, “venceu a guerra(79).” Na verdade, muitos acreditam que o conflito poderia ter sido ganho a qualquer momento, entre 1965 e 1969, argumentando que a falha das campanhas anteriores deveu-se às restrições impostas. Todavia, há muitas outras (e mais importantes) razões para justificar por que algumas campanhas obtiveram sucesso e outras não, sendo a diferença de limitações apenas um desses motivos.

A mudança da natureza da guerra

A enorme diferença existente entre enfrentar grupos de guerrilha e forças armadas convencionais é um ponto extremamente importante para a análise desta guerra. Salvo exceções, líderes e estrategistas do emprego do Poder Aéreo no Vietnã tinham pouca compreensão da natureza do conflito em que se envolveram, implicando resultados desastrosos(80) . Inicialmente, é necessário distinguir as características de mobilidade: nos primeiros anos da guerra, a guerrilha vietcongue não dispunha de equipamentos que necessitariam de estradas para se movimentar, e possuía uma cadeia logística relativamente curta. Como afirmou Dews, “os vietcongues se deslocam entre dez e vinte milhas por dia, a pé, por trilhas na mata; sobrevivem com um punhado de arroz; e freqüentemente obtêm o alimento localmente(81) .” Por outro lado, forças convencionais, notadamente Divisões Mecanizadas e Blindadas, são grandes consumidoras de tempo e espaço em estradas, oferecendo uma oportunidade bem maior para ataques. O esforço principal para destruir veículos pode ser efetivo contra um longo comboio em deslocamento, o que ocorre quando há apenas umas poucas estradas(82) , porém esse não era o caso no Vietnã, não somente pele estrutura rodoviária, mas também pelas características das forças de guerrilha. Inversamente, a Interdição Aérea(83)contra o Exército Norte-vietnamita e os vietcongues foi bastante efetiva em 1965, 1968 e 1972, quando esses combatentes tentaram operações de larga escala empregando forças convencionais.

Uma análise da campanha de guerrilha da época da Op. ROLLING THUNDER também demonstra que os vietcongues necessitavam de aproximadamente cem toneladas de suprimento por dia – uma quantidade muito pequena para ser estancada por meio da interdição aérea. Mais ainda, uma considerável quantidade de suprimento era estocada, principalmente durante a estação das chuvas, para cobrir picos de demanda ou intervalos temporários resultantes de ataques aéreos. Essa opção por espalhar a cadeia logística apresentava desafios ainda maiores para qualquer um dedicado a desarticular o sistema utilizando-se de ataques apenas à Trilha Ho Chi Minh. As Op. ROLLING THUNDER e COMMANDO HUNT falharam em boa parte porque os norte-vietnamitas conseguiam dosar suas ações de acordo com o fluxo logístico vigente ou contando com o que anteriormente havia sido armazenado no Vietnã do Sul.

Avaliando a efetividade das missões de interdição contra a guerrilha, Pape argumentou que, durante as campanhas iniciais, de forma alguma o bombardeio teria interrompido o apoio às forças no sul, levando-se em consideração a forma como era conduzido(84) . É possível concordar com o autor por duas razões principais: primeiro, a indústria norte-vietnamita não se constituía em uma importante fonte de material: a única instalação militar do país era uma pequena fábrica de explosivos que já havia sido destruída. Segundo, o sistema de transporte do Vietnã do Norte era um alvo pobre: muito embora o sistema aparentasse ser altamente vulnerável, uma análise mais aprofundada mostra que esse sistema rudimentar era extremamente resistente e redundante. Estradas e ferrovias não eram usadas em plenitude, fazendo com que o inimigo possuísse alguma “gordura para queimar.” Mais ainda, essas rotas eram suplementadas por hidrovias e por desvios construídos para evitar cortes na rede de transporte. Seria apenas durante as Op. LINEBACKER que os EUA iriam efetivamente obstruir a Trilha Ho Chi Minh(85).

Embora isso não signifique que o componente aéreo tenha sido o único responsável pelos bons resultados, já que esforços terrestres também foram necessários(86), isso ocorreu principalmente porque Hanói havia adotado uma nova estratégia (guerra convencional) que era vulnerável à interdição, o que não havia ocorrido durante os dias de guerrilha.

Essa diferença entre enfrentar forças convencionais ou guerrilheiras não era (e talvez ainda não seja) perfeitamente compreendida por muitos. Nos anos que se sucederam à Op. LINEBACKER, militares norte-americanos acreditavam que poderiam ter aniquilado o Vietnã do Norte apenas com a condição de não terem sido impostas limitações. O Almirante Thomas Moorer, por exemplo, ao se dirigir a pilotos de caça da Marinha dos EUA em 1973, declarou que o poder aéreo, “após quase uma década de frustração, confirmou sua efetividade como um instrumento de política nacional em apenas nove dias e meio de vôo(87) .” Similarmente, Momyer defendia a tese de que teria sido possível vencer a guerra caso uma Operação aos moldes da LINEBACKER houvesse sido autorizada anteriormente(88). A razão que ambos utilizam para suportar o argumento de que a guerra poderia ter sido rapidamente vencida e em condições favoráveis aos EUA é que o insucesso deveu-se simplesmente por causa das restrições políticas impostas às campanhas anteriores.

Entretanto, deixando de lado o fato de que não parece razoável crer que o sistema internacional da época permitiria tal nível de liberdade, asseverar que os EUA poderiam ter alcançado a vitória “em qualquer período de duas semanas(89)” é simplificar por demais um conflito extremamente complexo. Apesar de haver alguma razão para afirmar que o resultado poderia ter sido diferente caso os ataques tivessem visado outros alvos, a mudança de guerrilha para guerra convencional é talvez o ponto mais forte a ser destacado. Confrontar a Op. ROLLING THUNDER com as Op. LINEBACKER sem levar isso em consideração é tentar comparar coisas bastante distintas.

Más estratégias

A estratégia é outro assunto vital para a compreensão dos sucessos e falhas no Vietnã. Em última análise, a derrota ocorreu devido às más estratégias concebidas para conduzir a guerra: o bombardeio convencional não era adequado para confrontar a tática (de guerrilha) adotada pelo inimigo. Quatro aspectos são vitais para justificar quão inadequadas foram as estratégias: o pensamento militar obsoleto; a ausência de uma visão de operações combinadas; a falta de uma abordagem compreensiva; e a escolha inadequada de medidas de efetividade.A má estratégia surgiu inicialmente nas mentes dos Generais norte-americanos, que se encontravam inebriados pelo desempenho do Poder Aéreo na II Guerra Mundial e na Guerra da Coréia. Como concluiu Tilford, esses líderes tentaram empregar a mesma estratégia em um conflito de natureza completamente diversa, tornando-se “vítimas de suas próprias experiências históricas(90) .” De fato, ao contrário de potências industriais como a Alemanha e o Japão, o Vietnã do Norte possuía muito poucas indústrias, significando que a campanha tinha que ser conduzida de forma diferente (principalmente considerando-se que havia ainda as muitas restrições políticas que tinham que ser obedecidas). Com respeito à integração das Forças, a situação também foi terrível(91).

No início,

complexas estruturas de Comando e Controle tiveram que ser estabelecidas, devido à dificuldade de se implementar as tantas restrições e regras de engajamento(92) . Essa complexidade apenas agravou os problemas entre as três Forças Singulares: descrevendo as rivalidades da época, um acadêmico afirmou que as disputas “que dominaram e envenenaram as relações entre as forças armadas nos anos 50 foram transplantadas para o Vietnã, onde provocaram efeitos adversos nas operações, especialmente durante o período entre 1962 e 1965(93).” Se a operação combinada estava descompassada, nada diferente poderia se esperar do relacionamento intra-governamental. Sem mencionar as reservas que os militares possuíam com relação a Robert McNamara, argumentando que o Secretário os impedia de ter acesso direto ao presidente, somente após Henry Kissinger ter se aproximado de China e URSS é que surgiram ações diplomáticas mais firmes. Apesar de ser compreensível que no início do conflito havia pouco espaço para conduzir essas discussões, não se pode esquecer que os encontros promovidos durante as Op. LINEBACKER tiveram um papel crucial no resultado dessas campanhas, contribuindo para colocar um fim na guerra.

As Medidas de Eficácia que foram adotadas também eram desastrosas. Focado em números e estatísticas, como um homem de negócios que visa o lucro, McNamara determinou, por exemplo, que os alvos aprovados pelo presidente Johnson deveriam ser atacados tantas vezes quantas fossem necessárias até que um dano de 80% fosse alcançado(94).

Da mesma forma, durante um longo período do conflito a quantidade de caminhões destruídos ou a tonelagem de bombas despejadas eram a forma de se determinar se os resultados da campanha estava ocorrendo a contento. Assim, estatísticas estavam “provando” o sucesso da Op. COMMANDO HUNT até que a Ofensiva da Páscoa foi lançada(95). O esforço de interdição também era mascarado pelos desenvolvimentos tecnológicos fragmentados que foram concebidos para melhorar as estatísticas. A introdução de um novo sistema de armas nos Canberra; o advento dos gunships; o surgimento do conceito de “cinturões de bloqueio”; e a criação de sensores para detectar o movimento nas estradas foram táticas independentes que não faziam parte de uma estratégia comum. Todos esses desenvolvimentos foram atitudes reativas destinadas a melhorar as estatísticas, e não voltadas para interditar o campo de batalha.

Fracasso e sucesso em diferentes operações

Provavelmente, a avaliação do sucesso ou fracasso nas diferentes campanhas de interdição do Vietnã tem que seguir quatro pontos principais: primeiro, é necessário verificar quais eram os objetivos de cada uma das Operações em análise. Em seguida, deve-se analisar as circunstâncias sob as quais a campanha teve que ser conduzida. Finalmente (e mais importante), o resultado de uma operação específica deve ser confrontado com as metas previamente estabelecidas para essa mesma campanha.

Alvos de interdição são normalmente substituíveis (veículos) ou recuperáveis (obras de engenharia(96) ). Assim, para que seja efetiva, a interdição deve provocar dano em um ou ambos os grupos, em um grau maior do que aquele que o inimigo consegue suportar. Esse resultado nunca foi atingido nas Op. ROLLING THUNDER, COMMANDO HUNT ou FREEDOM TRAIN. Para afetar um alvo com sucesso, é preciso, antes de tudo, encontrá-lo. Os principais alvos que os EUA tentavam atacar no Vietnã (os caminhões) eram extremamente difíceis de localizar, essencialmente devido à topografia e à vegetação presentes na área. Apesar de Guilmartin ter argumentado que “tripulações norte-americanas eram extremamente eficazes em atingir e destruir os alvos que lhes eram designados(97) ,” a realidade não era tão boa assim. Grande parte do tráfego não era detectado e, mesmo quando era, os alvos não eram facilmente destruídos(98). Com efeito, o serviço de inteligência dos EUA nem mesmo possuía um conhecimento completo de como a rede de suprimento estava montada.

Em relação às três campanhas iniciais de interdição, há muitas teorias competindo para explicar as razões do insucesso, mas praticamente todos os acadêmicos concordam que essas operações foram um grande fracasso. Tilford, por exemplo, concluiu que, apesar de os EUA terem despejado milhares de toneladas de bombas, “o fluxo de tropas e suprimentos dobrava a cada ano durante a Op. ROLLING THUNDER.” O resultado geral das Op. COMMANDO HUNT não teve outra sorte, apesar de algumas análises feitas à época terem tentado mostrar justamente o contrário. No que diz respeito à fase de interdição, alguns documentos produzidos pelos norte-americanos durante a guerra não eram uma fonte confiável de informações – na verdade, é extremamente improvável que estivessem ao menos próximos da realidade. Descobriu-se mais tarde, por exemplo, que a quantidade de veículos dados como danificados ou destruídos era maior do que a quantidade existente. Documentos recentes mostram que as Op. ROLLING THUNDER(99) e COMMANDO HUNT desaceleraram os esforços de transporte apenas levemente(100) . A realidade pode ser extraída de um relatório final de missão produzido por um General norte-americano, que declarou que “o esforço de interdição não conseguiu impedir o inimigo de posicionar suprimento suficiente para lançar uma ofensiva concentrada contra o Vietnã do Sul(101). Na verdade, a Ofensiva da Páscoa, uma operação de grande vulto conduzida pelo Vietnã do Norte em 1972, é o melhor exemplo para ilustrar quão ineficaz haviam sido as ações norte-americanas.

Em contraste, houve também eventos de sucesso no que diz respeito à atuação da Força Aérea, notadamente quando a interdição foi usada contra forças regulares. A maioria dos estudiosos concorda que as Op. LINEBACKER representaram o maior sucesso do emprego do Poder Aéreo no Vietnã(102) . Entretanto, quando se aprofunda o estudo das duas últimas campanhas separadamente e em detalhes, nota-se que há muitas divergências. É possível encontrar acadêmicos argumentando que a Op. LINEBACKER I teve efeitos limitados, enquanto que a Op. LINEBACKER II foi um sucesso, e que, dessa forma, esta última deve ser tomada como um exemplo de “como vencer uma campanha aérea” (conforme discutido anteriormente). Em contrapartida, outros afirmam que LINEBACKER I foi a operação que realmente deu certo, e que a Op. LINEBACKER II foi nada mais do que uma “ROLLING THUNDER revisitada”. Para defender essa lógica, Tilford afirma que a Op. LINEBACKER II possuía efeitos muito limitados, tendo sido concebida para repetir os mesmos alvos da operação anterior, mas com um objetivo diferente. Portanto, em sua opinião, LINEBACKER I representou “o mais efetivo uso do Poder Aéreo na Guerra do Vietnã”, permanecendo como “a campanha clássica de interdição(103) ”, enquanto que para a Op. LINEBACKER II o sistema de transporte, os aeródromos e depósitos haviam sido atacados apenas porque eram “adequados ao bombardeio de área(104).” Ao analisar essas diferentes e contraditórias perspectivas, é razoável concluir que a Op. LINEBACKER I pavimentou o caminho para a LINEBACKER II, mas parece ser justo aceitar que a Op. LINEBACKER II também obteve sucesso (apesar de limitado, exatamente como na campanha anterior).

Na verdade, as vitórias da Op. LINEBACKER I começaram a se tornar mais evidentes por volta de setembro de 1972, quando a ofensiva inimiga no Vietnã do Sul chegou a um impasse(105). Há algumas razões para que, em contraste com as Op. ROLLING THUNDER, COMMANDO HUNT e FREEDOM TRAIN, a nova campanha estivesse apresentando melhores resultados: primeiramente, novas táticas, técnicas e desenvolvimentos tecnológicos estavam finalmente demonstrando alguma efetividade. Os ataques eram muito mais precisos, requerendo um esforço muito menor para produzir os mesmos efeitos. Em segundo lugar, o contexto internacional havia mudado. Durante a administração de Lyndon Johnson, havia um forte receio de um eventual envolvimento da China ou da URSS. Quando o Presidente Nixon assumiu o poder, ele aperfeiçoou o uso da linha de ação diplomática, auxiliado pelos esforços de Kissinger, que assegurou que não haveria interferência externa. Isso permitiu a Nixon aplicar restrições mais brandas, resultando em uma maior liberdade para atacar alvos mais adequados.

Finalmente, a natureza da guerra havia mudado. Surgia um conflito convencional, onde blindados e peças de artilharia demandavam muito mais combustível, munição e diversos outros itens de suprimento, oferecendo alvos muito mais fáceis de serem visados. A combinação desses fatores culminou com os bons resultados das Op. LINEBACKER, muito embora essas campanhas ainda apresentassem sérias deficiências: além de boas táticas, havia muitas más também. O fato de um objetivo ter que ser atacado quantas vezes fossem necessárias para alcançar determinado nível de destruição demonstra que não havia preocupação com as conseqüências de se repetir tantas missões visando o mesmo alvo.

Mesmo na última campanha de interdição foram observados tristes exemplos de decisões erradas: durante a Op. LINEBACKER II, os B-52 bombardearam Hanói por três dias seguidos, “usando as mesmas rotas, nos mesmos horários e altitudes idênticas(106)”, demonstrando a inflexibilidade das táticas (e certo grau de ingenuidade também).

Até mesmo a justificativa usada para classificar as campanhas como “sucesso” ou “fracasso” pode ser ilusória.

Alguns acadêmicos, como Tilford, por exemplo, defendem que a Op. LINEBACKER II atingiu seu objetivo justamente porque provocou um grande efeito psicológico na população norte-vietnamita. Ele defende a idéia que as lideranças de Hanói viram toda a destruição provocada pelos ataques aéreos e, dessa forma, não desejavam “assumir o risco de ter as áreas populacionais e os diques como os próximos [alvos](107) ”. Entretanto, ele não oferece uma explicação convincente para justificar por que as mentes norte-vietnamitas não seguiram o mesmo raciocínio quando da Op. LINEBACKER I, chegando a demonstrar uma opinião oposta quando menciona uma das razões para o insucesso da Op. ROLLING THUNDER: “os norte-vietnamitas eram um inimigo extremamente determinado(108).” Em conclusão, as Op. LINEBACKER apresentaram um relativo sucesso em parte porque Washington tinha um objetivo bastante restrito (uma saída honrosa), e também porque os vietnamitas aceitaram um acordo de cessar-fogo que lhes era extremamente favorável (permitindo, por exemplo, a manutenção de 100.000 soldados no Vietnã do Sul). Finalmente, considerando-se que os norte-vietnamitas acabaram lançando sua ofensiva final, o sucesso das Op. LINEBACKER deve ser visto de forma limitada: apesar de poder ser considerado uma vitória operacional, certamente não se tratou de uma vitória estratégica.

DEZ PROPOSIÇÕES PARA O FUTURO COMANDANTE OPERACIONAL  

Deixar de cometer erros não está ao alcance do homem; mas de seus erros e enganos os bons e astutos ganham experiência para o futuro.

Plutarco (46 DC – 120 DC)

 

 O estudo da interdição Aérea no Vietnã é um assunto fascinante para qualquer entusiasta do Poder Aéreo. Muito tem sido escrito a respeito da guerra ou da campanha aérea como um todo, mas nem tanto a respeito dos efeitos da interdição aérea. Muito embora deva ser ressaltado que este trabalho tem a limitação de apresentar conclusões extraídas de apenas um conflito, acredita-se que ele possa oferecer alguma contribuição para um melhor entendimento dos efeitos da interdição no contexto de uma Campanha Aérea. Ele não se destina a oferecer soluções para os problemas que os EUA enfrentaram durante a Guerra do Vietnã, mas a estudar uma experiência histórica que pode prover lições universais de valor. Assim, seguem dez proposições para o futuro comandante de nível operacional:

1) SUPERIORIDADE AÉREA É ESSENCIAL

A Guerra do Vietnã provou que, no que diz respeito ao emprego do Poder Aéreo, seu princípio mais crítico (e também um dos mais antigos) continuará a reinar: a necessidade de se conquistar e manter a Superioridade Aérea. Contrariamente ao senso comum, os EUA não a possuíam em diversas partes do Teatro de Operações. O conflito na península da Indochina provou que mesmo um inimigo modesto pode desafiar o controle dos céus, apresentando dificuldades enormes para a condução da guerra.A crença de que a Superioridade Aérea não será tão importante no futuro é uma falácia que tem sido reforçada pelo fato de que, em recentes conflitos, Forças Aéreas ocidentais foram absolutamente superiores. Esse pensamento culminou com discussões acaloradas, até mesmo em círculos militares, sobre a necessidade de aeronaves dedicadas a essa tarefa, com alguns argumentando que a necessidade de lutar pelo controle do ar é um “conceito da guerra fria.” Todavia, não importando quão dominante seja uma Força Aérea no futuro, a Superioridade Aérea não pode ser considerada que virá gratuitamente. Os problemas enfrentados durante a campanha de interdição no Vietnã são um bom exemplo para provar que se esse conceito fundamental for esquecido ou subestimado, graves conseqüências surgirão não somente para o componente aéreo, mas para as Forças Combinadas como um todo.

2) INTELIGÊNCIA É UM FATOR DOMINANTE

Em uma guerra contra-insurgência, plataformas dedicadas à coleta de dados são tão necessárias quanto em conflitos convencionais – talvez até mais importantes. Desde a obrigatoriedade de seguir os passos do inimigo até a necessidade de localizar os alvos, a Guerra do Vietnã demonstrou como um bom serviço de inteligência é vital. Sobretudo nos conflitos assimétricos contemporâneos, plataformas de coleta de informações estão demonstrando sua relevância, principalmente porque o conceito de Operações Baseadas em Efeitos é altamente dependente de conhecimentos de inteligência. Os caminhões do conflito do Vietnã podem ser comparáveis aos Alvos Sensíveis ao Tempo de hoje. A cobertura de vegetação que protegia a Trilha Ho Chi Minh pode ser representada pelos túneis e cavernas no Afeganistão ou pelas áreas urbanas no Iraque. Para se contrapor a essas ameaças, é indispensável a constituição de um sistema de inteligência compreensivo, que ofereça um envelopamento vertical e horizontal capaz de apoiar do nível tático ao estratégico e que englobe as três Forças Singulares.

3) TECNOLOGIA É IMPORTANTE, MAS NÃO GARANTE O SUCESSO

Durante toda a campanha do Vietnã, os EUA se mantiveram fascinados pela tecnologia, continuamente procurando uma “bala de prata” que pudesse fazê-los alcançar a vitória rapidamente. Muito embora seja possível afirmar que houve vários avanços tecnológicos relevantes, como as bombas de precisão (PGM), esses avanços nunca foram suficientemente capazes de suplantar os desafios enfrentados. O Vietnã nos ensinou que um inimigo nunca pode ser subestimado: mesmo sofisticados sensores e sistemas de armas altamente desenvolvidos puderam ser contestados por soluções inteligentes e efetivas. Mais recentemente, a Guerra do Kosovo confirmou o corolário que afirma que a história se repete: um inimigo muito menos capaz conseguiu abater uma aeronave stealth no estado da arte (um F-117).

No Vietnã, os EUA se concentraram excessivamente em novas tecnologias e deixaram de determinar uma estratégia apropriada a uma guerra não-convencional. Isso é ainda mais alarmante se considerarmos que à medida que aumenta a defasagem tecnológica, mais e mais o inimigo irá buscar alternativas assimétricas para atuar. O futuro comandante necessita ter em mente que avanços tecnológicos nunca serão a panacéia – eles poderão muito bem aumentar a eficácia, mas nunca irão solucionar todos os problemas e magicamente trazer a vitória. Nem mesmo um poder de fogo estupendo ou uma tecnologia fantástica sobrepuja uma estratégia inconsistente.

4) ESTUDE O AMBIENTE

Em respeito aos alvos de interdição, não existe regra única, mas os exemplos do Vietnã podem oferecer conclusões muito importantes. Durante a campanha, a topografia, a geografia e a meteorologia atenuaram os efeitos da interdição em muito maior grau do que as limitações intrínsecas a esse tipo de missão. Ficou provado que, normalmente, esperar para interditar quando o inimigo já distribuiu seus suprimentos entre centenas de veículos significa que será muito mais difícil e custoso provocar a interdição da área desejada. Mais ainda, a Guerra do Vietnã demonstrou como é difícil interditar um campo de batalha rodeado por países que, mesmo que não colaborem com o inimigo, oferecem a oportunidade de serem utilizados como santuários e de terem suas fronteiras facilmente transpostas. No intuito de buscar o “alvo ideal”, e visando prover a necessária proteção às suas tropas, o futuro comandante deve ter em mente que a interdição é possível de ser alcançada somente quando bons pontos de estrangulamento estão presentes: ferrovias; locais de embarque e desembarque; ou áreas de reabastecimento e transbordo, por exemplo. Contrariamente, se esses alvos não existem ou se vizinhos garantem o suprimento de material e oferecem refúgio (principalmente quando combinado com restrições políticas), a situação torna-se extremamente desfavorável e perigosa.

5) CONHEÇA SEU INIMIGO

Essa pode ser uma antiga assertiva, mas é também vital e freqüentemente esquecida. Desde o início da Guerra do Vietnã, os EUA não conseguiam compreender quão importante seria diferenciar a guerrilha de um conflito convencional. Eles não observaram um dos mais importantes conceitos clausewitzianos, fracassando em identificar o tipo de guerra na qual embarcavam – algo fundamental para permitir o sucesso. Os guerrilheiros do Vietnã deslocavam-se a pé; utilizavam santuários para se proteger de ataques aéreos; misturavam-se facilmente com a população local; e necessitavam de uma quantidade incrivelmente pequena de suprimento para continuar lutando. Eram, portanto, um inimigo muito difícil de desarticular, em contraste com forças convencionais, que demandam muito mais recursos, oferecem equipamentos muito mais fáceis de serem atacados e são muito mais pressionadas pelo tempo. A análise do conflito mostra que a interdição do campo de batalha em um cenário similar ao do Vietnã é uma tarefa muito difícil de ser cumprida, levando à conclusão que a Interdição Aérea tem seus limites e pode não ser tão efetiva em um cenário de guerra contra-insurgência.

Assim, quando o inimigo é altamente motivado por uma ideologia (como no caso do Vietnã) ou religião (nos conflitos contemporâneos); quando esse oponente enxerga a luta como uma guerra pela sobrevivência nacional; e principalmente quando utiliza métodos de guerrilha, uma campanha de interdição coercitiva dificilmente prosperará. Nesse momento, o comandante precisa considerar diferentes maneiras de empregar o Poder Aéreo estrategicamente, com mais ênfase em efeitos não-cinéticos, porque ganhar corações e mentes se torna mais importante do que promover a destruição.

6) ESTABELEÇA ESTADOS FINAIS DESEJADOS QUE SEJAM ATINGÍVEIS

O medo de provocar uma Terceira Guerra Mundial fez com que o nível político estabelecesse severas restrições à forma como a Interdição deveria ser conduzida no Vietnã, impedindo ataques a alguns dos mais significativos alvos. Nos conflitos futuros, principalmente nas “guerras por opção”, restrições políticas continuarão a existir, não importando se são justificáveis ou não. O advento de novas tecnologias aparenta indicar que o microgerenciamento da guerra (o desejo que os escalões superiores têm de exercer o comando e controle até os níveis mais inferiores) estará ainda mais presente do que esteve no Vietnã – seja para evitar a escalada ou por qualquer outra razão. Por outro lado, devido à crescente aversão a vítimas, as operações mais recentes sugerem que o Poder Aéreo continuará sendo escolhido como uma das primeiras opções militares, para que não seja necessário comprometer tropas terrestres (exatamente como ocorreu no Vietnã, no Kosovo e no Iraque). Assim, ao mesmo tempo em que o Poder Aéreo sofrerá com maiores limitações, também será mais freqüentemente requisitado a atuar.

A Interdição Aérea no Vietnã foi uma tarefa muito difícil de ser cumprida, e nada indica que o futuro será diferente. Respeitar os princípios de Guerra Justa (jus ad bellum, jus in bello e jus post bellum) é nossa forma de combater, respeitando leis e restrições rigorosas que freqüentemente não serão seguidas pelo inimigo. Por conseguinte, os homens de Força Aérea terão que possuir uma perfeita compreensão das regras do jogo, de forma a assessorar o que pode ser cumprido dentro dos limites estabelecidos. A menos que se estabeleça um estado final desejado que seja atingível, não importará quantos sucessos táticos sejam alcançados – no final, não haverá triunfo estratégico.

7) BUSQUE A SINERGIA

A Guerra do Vietnã também pode ser caracterizada pela reduzida integração de esforços. Disputas e rivalidades não eram observadas apenas entre militares e políticos, como demonstrado nos lamentos acerca do papel dos assessores civis ou das “interferências” presidenciais nos assuntos militares, mas também entre as Forças Singulares, que estabeleceram estruturas de inteligência não integradas e que competiam pelo número de surtidas. O sucesso das Op. LINEBACKER ilustra muito bem como é importante adotar diferentes linhas de operação, contemplando várias expressões do poder nacional. Mesmo se o sucesso da última campanha de interdição for visto sob uma perspectiva limitada, não se pode negar que a Expressão Diplomática provocou um grande impacto no resultado daquela campanha.

Operações Combinadas e uma abordagem compreensiva (que envolva diferentes organizações governamentais) não são conceitos novos, nem mesmo soluções mágicas. Entretanto, o futuro comandante operacional deve compreender que a interdição tem maiores chances de produzir bons resultados quando aplicada em conjunto com outras atividades: ações letais e não-letais; campanhas de influência, como Operações Psicológicas; e emprego das Expressões Diplomática e Econômica do Poder Nacional. Somente com a reunião de todas as capacidades das Forças Singulares e dos diferentes órgãos governamentais, sob um arranjo compreensivo que busque um efeito sinérgico, é provável que a Interdição Aérea traga bons resultados.

8) VINCULE OS ALVOS TÁTICOS À ESTRATÉGIA

No Vietnã, os líderes militares não foram capazes de compreender uma variedade de aspectos presentes (sociais, culturais e políticos), além do campo militar. Dessa forma, eles não estabeleceram uma estratégia adequada que englobasse todas essas características, algo fundamental para permitir o sucesso. Em suma, os líderes não estabeleceram uma estratégia apropriada para a guerra que estavam lutando, o que se refletia nos alvos que eram escolhidos.

A seleção de alvos é crucial, porquanto estes necessitam estar intimamente ligados ao objetivo de mais alto nível da campanha, algo que em absoluto foi o caso durante a Guerra do Vietnã. O conflito tomou a direção errada logo no seu início, porque ainda que os objetivos táticos estabelecidos (como a caça aos caminhões) fossem alcançados, seus resultados poderiam não contribuir significativamente para se alcançar do estado final desejado. Muita ênfase havia sido colocada em soluções que não tomavam a direção correta. Por vezes, a lógica não era seguida nem mesmo para definir a seqüência dos ataques, que ocorriam de forma descoordenada e cujos alvos eram escolhidos aleatoriamente – até mesmo de forma incoerente(109) . Neste ponto reside outra importante lição para o futuro: se iniciarmos nossas atividades a partir de uma premissa errada, estaremos destinados ao fracasso, ainda que o resto do processo esteja correto. Boas táticas não implicam uma boa estratégia.

9) ESCOLHA INDICADORES ADEQUADOS

Durante a Guerra do Vietnã, não apenas os militares, mas também os líderes norte-americanos de mais alto escalão (como o Secretário McNamara) concentraram suas atenções em surtidas, tonelagem de bombas despejadas e veículos destruídos. Estatísticas foram largamente empregadas para avaliar o progresso das operações, e por um longo período as Medidas de Efetividade que foram escolhidas levaram muitos a acreditar que os EUA estavam vencendo a guerra.

Em uma campanha de interdição, o nível de destruição nem sempre é uma maneira precisa de se medir efeitos. Mormente em guerras contra-insurgência, o que deve ser determinado não é somente a extensão do dano infligido; mais importante é avaliar quanto o inimigo consegue suportar. A destruição não é o objetivo final, porque a aniquilação dos equipamentos inimigos nem sempre significa vitória. Efetuar cálculos é algo muito mais fácil do que entrar na mente do inimigo para avaliar qual o nível de determinação que ele ainda possui. Portanto, o comandante operacional perspicaz deve escolher formas adequadas para analisar a evolução da campanha, mantendo em mente que, via de regra, estatísticas não são a melhor opção.

10) A INTERDIÇÃO AÉREA FUNCIONA

Por ultimo, mas não menos importante: a interdição ainda é uma formidável tarefa do Poder Aéreo. Essa atividade oferecerá sua melhor contribuição quando empregada estrategicamente, como ocorreu quando do bloqueio de transporte de minério de ferro da Escandinávia para a Alemanha durante a II Guerra Mundial, ou quando instalações petrolíferas foram atacadas no Vietnã (retendo, conseqüentemente, a ofensiva convencional que estava planejada). Em conflitos contra-insurgência, pode ser que inicialmente a Interdição Aérea seja de pouca utilidade, mas ela não possa ser desconsiderada, visto que, à medida que os insurgentes começam a ser galvanizados pelo seu sucesso, existe a tendência de se alternar para o emprego de métodos convencionais. É nesse momento que, se a oportunidade for aproveitada, a interdição provará sua maior utilidade.

No Vietnã, mesmo o embate contra a guerrilha não foi o mesmo o tempo todo; de tempos em tempos o inimigo apresentava ações bastante similares àquelas adotadas por forças convencionais. Colocado em um continuum que vai da “guerrilha pura” ao emprego convencional de forças armadas, pode-se afirmar que à medida que o conflito se aproxima desta última modalidade, mais fácil se torna a definição de alvos e maior é a probabilidade de que a interdição traga sucesso. Por conseguinte, é fundamental que o comandante compreenda a existência desse continuum e avalie, se for o caso, a transição de guerrilha para conflito convencional, como forma de alcançar resultados tempestivos e determinantes.

EPÍLOGO

A análise de qualquer aspecto da Guerra do Vietnã representa um dos mais fascinantes e desafiadores estudos que alguém pode escolher, e a avaliação do papel da Interdição Aérea no conflito não é uma exceção à regra. Em um duelo controverso como este, o fato de forças armadas absurdamente mais poderosas terem sido derrotadas por um inimigo muito menos equipado é uma lição a ser aprendida, principalmente se considerarmos que guerras assimétricas estarão na ordem do dia dos futuros embates. Caso contrário, formas dissimilares de luta passarão a se tornar um atrativo cada vez maior para potenciais adversários, sejam eles atores estatais ou não.

Este estudo demonstrou que a interdição do campo de batalha ainda tem um papel vital na moderna doutrina aérea. Isto traz especial prestígio ao assunto, indicando que as lições oferecidas por esta guerra específica não podem ser esquecidas por líderes que pretendem estar atualizados com o emprego do Poder Aéreo. Conforme comentado na introdução, as palavras do Marechal Slessor se encaixam perfeitamente no caso estudado. Ao mesmo tempo em que demonstra como é perigoso aplicar indiscriminadamente conclusões oriundas de outros conflitos, a Guerra do Vietnã também prova ser uma fonte extremamente rica de lições para os conflitos do futuro. Em adição às palavras do insigne teórico do poder Aéreo, a única coisa que pode ser dita é que o comandante sagaz necessita ter a capacidade de distinguir que lições são aplicáveis à sua missão, sempre se lembrando que guerra não é somente ciência, mas também uma arte.  

  

T.Cel.Av. Ênio Beal Júnior

  

  

  

 

REFERÊNCIAS

ARTIGOS

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PUBLICAÇÃO OFICIAL

Delivering Security in a Changing World: Defence White Paper (London: HMSO, 2003).


  

NOTAS DE RODAPÉ 

(1) Delivering Security in a Changing World (London: HMSO, 2003), p.4.
(2) Guilmartin, J, ‘Bombing the Ho Chi Minh Trail: A Preliminary Analysis of the Effects of Air Interdiction’, Air Power History, Winter 1991, p.3.
(3) Edward Mark é um autor que provavelmente subestimou a importância de se considerar que houve diferentes campanhas de interdição no Vietnã. Apesar de seu livro oferecer uma enorme contribuição para aquele que deseja melhor compreender a Interdição Aérea no conflito, não existe uma distinção clara entre as campanhas. Mark apresenta detalhes de alto valor histórico sobre a Op. COMMANDO HUNT VII e a ofensiva da Páscoa, mas não avalia a Op. ROLLING THUNDER, por exemplo. Suas conclusões são generalizadas, como se fossem aplicáveis à Guerra do Vietnã como um todo, apesar de a pesquisa ter sido baseada apenas nas duas Operações exaustivamente estudadas. Veja Mark, E, Aerial Interdiction in Three Wars. (Washington, DC: Centre for Air Force History, 1994).
(4) Tilford, Jr., E, ‘Air Power, Role in [Vietnam] War’, em Tucker, S, (ed.), Encyclopedia of the Vietnam War (Santa Barbara: ABC-CLIO, 1998), p.14.
(5) Pape, Jr., R, ‘Coercive Air Power in the Vietnam War, International Security, Vol.15, No.2, Fall 1990, pp.105;113.
(6) Schelling, T, Arms and Influence. (New York: Yale University, 1966).
(7) Douhet, G, The Command of the Air. Trad. Dino Ferrari (Washington,DC: Office of the Air Force History, 1983).
(8) cruzador = 8-Pape, International Security, p.116.
(9) Tilford, Jr., E, ‘Rolling Thunder, Operation’, em Tucker, op. cit., p.618.
(10) Tilford, Jr., E, ‘Commando Hunt, Operation’, em Tucker, op. cit., p.129.
(11) A Ofensiva da Páscoa foi uma campanha militar de grande vulto conduzida pelo Vietnã do Norte contra as Forças Armadas do Vietnã do Sul e dos EUA entre março e outubro de 1972.
(12) Pape, International Security, p.105.
(13) Ibid.
(14) Pape, International Security, p.137.
(15) Tilford, Air Power, p.14.
(16) Tilford, Jr., E, ‘Linebacker II, Operation’, in Tucker, op. cit., p.381.
(17) Gates, John M., ‘Vietnam: The Debate Goes On’, em Matthews, Lloyd J and Brown, Dale E, (ed.), Assessing the Vietnam War (Aylesbury: Pergamon-Brassey’s, 1987), p.45.
(18) Pape, International Security, p.121.
(19) Dews, E, and Kozaczka, F, Air Interdiction: Lessons from the past Campaigns. (Santa Monica: Rand, 1981), p.3.
(20) Leary, W, ‘Ho Chi Minh Trail’, em Tucker, (ed.), op. cit., p.289.
(21) Ibid., p.290.
(22) Mark, op. cit., p.332
(23) Guilmartin, op. cit., p.7.
(24) Tilford, Rolling Thunder, p.619.
(25) Mark, op. cit., p.353.
(26) Mark, op. cit., p.354.
(27) Guilmartin, op. cit., p.13.
(28) Ibid., p.7.
(29) Tilford, Jr., E, Setup: What the Air Force did in Vietnam and Why. (Maxwell: Air University, 1991), p.109.
(30) Momyer, W, Air Power in Three Wars. (Washington, DC: US Government Printing Office, 1978), pp.133-134.
(31) Ibid., pp.134-135.
(32) Tilford, Rolling Thunder, p.619.
(33) Mark, op. cit., p.385.
(34) Tilford, Jr., E, ‘Setup: Why and How the U.S. Air Force Lost in Vietnam’, Armed Forces and Society, Vol.17, No.3, 1991, pp.328-329.
(35) Mark, op. cit., pp.389-390.
(36) Tilford, Commando Hunt, p.129.
(37) Mark, op. cit., p.408.
(38) Mark, op. cit., p.352
(39) Aqui, o conceito de Superioridade Aérea deve ser compreendido em um sentido amplo. Vai além do escopo deste artigo discutir os vários níveis de controle do ar.
(40) Momyer, op. cit., p.20.
(41) Ibid., p.118
(42) Tilford, Jr., E, ‘Surface-to-Air Missiles (SAMs)’, em Tucker, op. cit., p.666.
(43) Momyer, op. cit., p.119.
(44) Kohn, R, and Harahan, J, Air Interdiction in World War II, Korea, and Vietnam. (Washington, DC: Office of Air Force History, 1986), p.71.
(45) Guilmartin, op. cit., p.10.
(46) Tilford, Setup: What the Air Force did, p.109.
(47) Tilford, Armed Forces and Society, p.336.
(48) Mark, op. cit., p.408.
(49) Tilford, Surface-to-Air Missiles, p.666.
(50) Ibid.
(51) Tilford, Rolling Thunder, p.620.
(52) Mark, op. cit., p.401.
(53) Tilford, Air Power, p.15.
(54) Mark, op. cit., p.387.
(55) Ibid., p.341.
(56) O sistema IGLOO WHITE era composto por vários sensores dispostos de forma a localizar os caminhões por intermédio de transmissões sísmicas, de áudio ou eletromagnéticas. Mark, (1) op. cit., p.342
(57) Os gunships surgiram, em grande parte, como conseqüência da baixa efetividade dos bombardeiros e caça-bombardeiros convencionais. Essas plataformas eram aeronaves de transporte (principalmente C-119 e C-130) modificadas para carregar canhões que variavam de 20mm a 105mm. Para aumentar sua eficácia, essas aeronaves foram mais tarde equipadas com dispositivos infravermelhos, TV para baixa visibilidade e até mesmo detectores de ignição (dos motores dos caminhões). Para um exaustivo estudo acerca dos gunships, veja Nalty, B, The War against Trucks: Aerial Interdiction in Southern Laos, 1968-1972. (Washington, DC: U.S. Government Printing Office, 2005).
(58) Mark, op. cit., p.343.
(59) Os “cinturões de bloqueio” envolviam complexas missões destinadas a interromper o trânsito por meio do emprego de bombas, para abrir crateras; minas, para destruir soldados e veículos usados para recuperar a área; e sensores, para redirecionar ataques durante o trabalho de recuperação ou quando do congestionamento de veículos causado pela interdição. Para detalhes adicionais, veja Mark, op. cit., p.343.
(60) Mark, op. cit., p.343.
(61) Ibid., pp.348-350.
(62) Ibid., pp.351-352
(63) Mark, op. cit., p.332.
(64) Ibid., p.348.
(65) Tilford, Jr., E, Crosswinds: The Air Force’s Setup in Vietnam. (College Station: Texas A&M University, 2002), p.139.
(66) Tilford, Jr., E, ‘United States: Air Force’, em Tucker, op. cit., p.717.
(67) Mark, op. cit., p.402.
(68) Ibid., p.348.
(69) Tilford, Armed Forces and Society, p.336.
(70) Pape, International Security, p.140.
(71) Pape, International Security, p. 140.
(72) Ibid., p.141.
(73) Tilford, Armed Forces and Society, p.336.
(74) Momyer, op. cit., p.174.
(75) Tilford, Linebacker II, p.381.
(76) Momyer, op. cit., p.175.
(77) Clodfelter, M, The Limits of Air Power. (Lincoln: University of Nebraska, 2006), p. 228.
(78) Pape, International Security, p.144.
(79) Tilford, Armed Forces and Society, p.334.
(80) Ibid., p.333.
(81) Dews, op. cit., pp.5-8.
(82) Higgins, J, Military Movements and Supply Lines as Comparative Interdiction Targets. (Santa Monica: Rand, 1970), p.4.
(83) Lewy, G, America in Vietnam. (New York: Oxford University, 1978), p.391.
(84) Pape, International Security, p.128
(85) Tilford, Air Power, p.14.
(86) Pape, International Security, p.135.
(87) Tilford, Armed Forces and Society, pp.328-329.
(88) Momyer, op. cit., p.339.
(89) Clodfelter, op. cit., p.206.
(90) Tilford, Rolling Thunder, p.620.
(91) Para uma análise mais aprofundada acerca do nível e da natureza da rivalidade entre a USAF e a US Navy, veja Horwood, I, Interservice Rivalry and Airpower in the Vietnam War. (Fort Leavenworth: Combat Studies Institute, 2006).
(92) Guilmartin, op. cit., p.5.
(93) Tilford, Armed Forces and Society, p.330.
(94) Guilmartin, op. cit., p.14.
(95) Mark, op. cit., p.358.
(96) Ibid., p.4.
(97) Guilmartin, op. cit., p.14.
(98) Mark, op. cit., p.350.
(99) Tilford, United States: Air Force, p.715.
(100) Mark, op. cit., p.347.
(101) Ibid., p. 358.
(102) Veja, por exemplo, Tilford, Air Power, p.14.
(103) Tilford, ‘Linebacker I, p.379.
(104) Tilford, ‘Linebacker II’, p.381.
(105) Tilford, ‘Linebacker I’, p.379.
(106) uilmartin, op. cit., p.14.
(107) Tilford, ‘Linebacker II’, p.381.
(108) Tilford, ‘Rolling Thunder’, p.620.  
(109) Tilford, Setup: What the Air Force did, p.109. 
 

 

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