José Salazar Primo. 

 

Por onde começar essa estória sobre um ser humano tão rico em talentos?

Que tarefa complexa para qualquer escriba, e sobretudo para um de seus antigos comandados e admiradores...

Abrir a câmera em British Virgin Islands – BVI, para os antenados – no Soggy Dollar Bar, da Ilha de Jost Van Dyke, um boteco elegante na beira da areia, muito branca, onde se concentra a crème de la crème dos velejadores internacionais, e onde o veleiro brasileiro, que dava a volta ao mundo, balança, sobre um mar azul turquesa, ao sabor suave da brisa de leeward, com nosso biografado de calções Villebrequin, margarita na mão, celebrando na mesa cheia de franceses a joie de vivre?

Sim, ele falava bem o francês!

Prinmito56cipiar no mesmo veleiro, anos depois, agora em cena de terror (para as pessoas normais, como nós) presa de uma forte tormenta, com ondas de dez metros – a vinte milhas da costa de Madagascar – durante cinco dias, onde o protagonista e sua segunda esposa, que compunham a totalidade da tripulação, passaram cinco dias trancados a bordo, jogando cartas, enquanto o barco chegava por vezes a fazer tonneaux dentro d’água? E que, durante uma dessas “emborcadas” ainda perde um pedaço do leme, obrigando seu capitão a um mergulho de cinco minutos, num mar congelante, que só não lhe tirou a vida por hipotermia, porque sua companheira foi presta, enfiando-lhe pela goela abaixo meia garrafa de Glenmorangie?

Sim, ele também era fã do uísque predileto do “velho” Nero!

Ou quem sabe na louca empreitada de navegar a contravento, do Caribe para o Brasil, rota de calmarias, a mesma de Cabral, e tendo até em alguns momentos que entrar em desconhecidos Igarapés de Marajó, pouco mapeados e em que mal cabia o barco, para reabastecer, e comer um peixe com farinha, numa casa simples de caboclo?
Sim, como todo bom aviador, ele transitava com a mesma simpatia em todas as classes sociais!

Melhor ainda, já que ele também era surfista, e pai e tio de surfistas – o sobrinho, Picuruta Salazar, foi campeão mundial – porque não começar a estória numa enseada de Ubatuba, junto à exclusiva Praia do Pulso, no amanhecer de uma noitada de acampamento, com fogueira e rum na beira da praia, em que o alvorecer trouxe um swell com perfeitas ondas direitas, de sudoeste?

Ele tinha família em Santos e surfava bem de longboard, num estilo “Malibu trimming”, dos tempos da série Gidget!

Mas, se começarmos no mar, talvez tenha que serou imersos em meio aos chapelões de Abrolhos, formações coralíneas circundadas por miríades de peixes coloridos de todos os tamanhos, cercados pelos ninhos dos atobás, na ilha principal, al mare, com as namoradas; ou então naquele épico mergulho de caça submarina no naufrágio de Beberibe, Ceará, já contado pelo Alberto Cortes (Bidon), com riqueza de detalhes e cores, numa antiga edição desse Boletim.

Já viram que ele era um esportista!

Fugindo do mar, que tal começar num plot político onde PC Farias, o finado “laranja” executivo de Fernando Collor de Mello, o Presidente do Brasil defenestrado por corrupção (hoje de volta à cena, como se nada houvesse ocorrido), ensaiava o uso comercial do Departamento de Aviação Civil (DAC), comandado pela FAB, para operar uma série de crimes (ou, na linguagem de hoje: malfeitos) burlando a legislação nacional, sob a leniência (ou aquiescência) do Diretor do Departamento, que pressionava num determinado momento nosso protagonista, já então Brigadeiro, a aprovar ad hoc a regularização do “Morcego Negro”, o Lear Jet do criminoso, que já havia recebido pareceres técnicos contrários de todos, no subdepartamento por ele chefiado?

Mas, como dizem os jovens, hoje em dia: só que não!

A estória é sobre o Salazar, Salareca, Pinduca, Zé Bironga – o Piloto de Caça por excelência – e começa com um estagiário do Curso de Líder de Esquadrilha, no segundo ano do 1o/4o GAv, a quem, por súbita e inesperada doença do oficial instrutor titular da Seção, coubera em meados daquele longínquo ano de 1979, a chefia inmito 56-2terina (que ao longo do ano se transformaria em efetiva) da prestigiosa seção de Tiro e Bombardeio (TB), ombreando com a Doutrina, como um dos setores mais importantes de qualquer Unidade Aérea de Combate. Sobretudo, na Sorbonne da Caça!

Eram seis horas da manhã, quando entrei na Seção, profundamente empenhado em causar boa impressão no quesito “Estágio Funcional”, principalmente porque já se aproximava a fase de emprego na Prainha de Aquiraz, e, com ela, o esperado acirramento de ânimos na disputa pelos troféus de eficiência individual e por esquadrilha.
Era ainda um tempo de toscas torres de madeira, ligadas por telefones de manivela, coordenadas por teodolitos e da contagem de impactos nos alvos de pano de tiro terrestre (TT) utilizando-se um dispositivo de bambu com uma ponta de ferro embebida em tinta colorida, alcunhado acertadamente de “pica-pau”.

Mas tudo isso começava a evoluir rapidamente em direção ao futuro.

Não havia ainda uma Ordem Técnica de Emprego (TO-34) do Xavante, apenas uma gasta folha de papel, colada com fita durex, legada pelos italianos da Macchi, e chamada de “volívolo”, que ditava números cabalísticos pré-calculados para os rebatimentos de nossa plataforma d’armas, equipada com visores fixos DF Vasconcellos, de forma que cada piloto tinha uma técnica própria ou superstição, de somar ou subtrair algum valor (vento, ângulo de mergulho, idade da mãe, etc.), para tentar acertar o Bingo, no Bombardeio Picado (BP).
Mais ou menos, como a “meia da sorte, de tiro aéreo” do Coalhada que, por receio de que perdesse suas qualidades como amuleto, nunca a lavou durante toda a campanha no ano anterior.

Mas afinal, eram seis horas da manhã quando lá entrei para encontrar pela primeira vez meu futuro comandante. Ele fazia um rápido estágio de adaptação de duas semanas, para assumir em alguns dias, substituindo o então Tenente Coronel Millon, um gentleman travestido de comandante, líder inconteste da Unidade no céu – voando como tenente – e no solo – batuta em punho no calor das ximbocas – e a quem estávamos perfeitamente acostumados.

Com a mesma elegância com que evoluía na pista de dança com D. Alda, linda e simpática ex-miss e primeira dama do Esquadrão, Sérgio Millon conduzia a Unidade, uma verdadeira Brigada Aérea, com quarenta aeronaves e mais de setenta oficiais aviadores, com total easy going, num estilo que seria talvez classificado de country club, naquela velha tabela da EAO, que alguns de nós ainda se lembram, classificava os quatro estilos de liderança.

Para um estagiário de Caça, mesmo já no Curso de Liderança de Esquadrilha, um dos maiores terrores é a incerteza de um novo comandante!

Quem seria? De onde vinha? Era Caxias? Rigoroso? Chato? Essas eram as dúvidas que nos assolavam naquele ano, em que sete anos de seca torravam o sertão nordestino e, ainda assim, nas discotecas, nós e John Travolta saracoteávamos todos, ao som dos Bee Gees...

mito56-3Eu, antes da maioria de meus colegas, logo teria uma ideia de sua índole, já que ali estava ele, com a mesa cheia de manuais de voo, navegação, emprego de nossa aeronave, e diversas revistas que recebíamos mensalmente da Fighter Weapons School, em Nellis, através de algum convênio entre a FAB e a USAF, que ninguém mais se lembrava como começara. A pilha intocada delas era grande, e poucos estagiários tinham disposição para se dedicar à sua leitura, já que o curso ocupava todo o nosso tempo e a “naba” cantava sem parar.

Oh ‘novinho’, eu sou o Salazar, seu futuro Comandante, e gostaria de saber como é que se calcula o rebatimento em Bombardeio Rasante (BR)!”, lançou sorridente, por entre os grossos bigodes, mal eu adentrara a sala.

Expliquei, com toda a formalidade, as limitações de nossa metodologia, devido à falta de informações, e entreguei-lhe um papelote que continha uma tabela com os tais rebatimentos fixos (em mills), encimada por uma rosa dos ventos para determinação do componente a ser acrescido ou diminuído, à vontade do freguês.

Parecendo-me não ter se dado muito por satisfeito, lá se foi o Coronel para sua missão de adaptação ao emprego do AT-26 como plataforma de armas, deixando-me entretido com os preparativos da escala de “Barrica”, código do controlador no estande de Aquiraz.

Como parte das modernizações as quais eu me referi, naquela época havíamos há pouco instalado um sistema de transmissão de rádio em frequência modulada entre a torre de Aquiraz e a Sala do Oficial de Permanência Operacional (OPO) que, entre outras coisas, passava a permitir que os resultados da missão, à exceção do Tiro Terrestre (TT), chegassem ao Esquadrão, a tempo para o debriefing das esquadrilhas.

O OPO era o Alonso e, logo que recebeu o resultado da missão do novo comandante, ligou-me imediatamente para comunicar que o tal “careca” era bom de emprego, pois em sua primeira missão igualara o recorde de BR do Esquadrão, que pertencia na época ao saudoso Casimiro “Crash Helmet”, comandante da Esquadrilha de Espadas (ou “Empadas”, na versão radiofônica do Maj Bukowitz, um de seus principais componentes).

Num dos dias da semana seguinte, com a presença dos grandes nomes da Aviação de Caça – o que dava medida do prestígio dos comandantes que saíam e assumiam – Millon passou o comando do Esquadrão Pacau para Salazar, inicialmente num voo de dezessete aviões, com cobrinha de esquadrilhas em diamante, com direito a looping – onde voei como número quatro da última, o tradicional Pacau D’Ouros, de Berthier e Lauro Ney (e também do genial “Macaco de Cheiro”), naquele ano sob a liderança do Azevedo (Aprígio) – seguido por uma solenidade militar e uma farta ximboca na Sala dos Pilotos nas recém inauguradas instalações do 1o/4o GAv.

A partir daí, Salazar imprimiu seu estilo próprio de comando, diferente de seu antecessor, mas igualmente bem-sucedido. Seu oficial de operações viria a ser o carismático “Buckowitz dos Ajatos”, ídolo da maioria de nós.

Manteve-me no resto do ano como chefe do TB, mesmo sendo estagiário, e gostava de bater longos papos sobre o assunto. mito56-4

Entre outras coisas contou-me um episódio já descrito pelo Cel Paulo Pinto, seu sucessor no comando, no artigo “Tempos de Gloster”, onde ambos, com a colaboração do saudoso Feitosa, Oficial de Armamento do Grupo de Caça, bolaram uma solução para o uso do visor MK inglês (feito primordialmente para tiro aéreo) em ataque ao solo, o que deu naquele ano uma enorme vantagem técnica ao “Segundão”, na Taça Eficiência (depois, batizada de TIC, pelo Ariovaldo).

Além de ter feito parte da CONFIREM na compra dos Mirage como major , daí a fluência no francês, Salazar havia feito, como capitão, o curso de oficial de sistema d’armas da Fighter Weapons School, de onde emanava a doutrina para a Caça Brasileira naqueles tempos de novos F-5, e daí seu hábito (aliás de modo geral da geração dos “Instrutores de 66”) de acompanhar essas publicações americanas, que nos chegavam aos “magotes”, através do FMS, acordo entre as Forças Armadas de Brasil e Estados Unidos. Um hábito que se perdera no tempo, mas que resgatamos em seu comando.

Naquele resto de ano, ressalvando a distância natural que há entre comandante e comandado, Salazar tornou-se um amigo, que, um ano e meio depois, após minha formação como piloto operacional em F5 em Canoas, convidou-me a retornar ao Pacau, como instrutor, para reassumir a Seção de TB. Aí sim, nesse final de seu comando, conseguimos: implantar um sistema de cômputo automático de acertos nos alvos de TT; testar novos visores para o Xavante (Ferranti, SAAB e Thomson); e, finalmente, criar a TO-34 do AT-26 (com a colaboração dos saudosos Hutten e Bombonatto, estagiários do segundo ano).

Como era fanático por tudo que era relativo ao mar, sobretudo pela caça submarina, no que era acompanhado por seu último oficial de operações, Alberto Cortes, juntos participamos de diversas aventuras pela costa nordestina, que repetimos ao longo da vida de oficiais em Fernando de Noronha, Ubatuba e Caravelas (Abrolhos).

Após a promoção a Brigadeiro, passou a planejar a passagem para a reserva, comprando um barco e aprendendo a velejar em Itacuruçá, litoral sul do Rio de Janeiro, onde mantinha uma pequena casa.

Foi lá, na calma da Praia do Anel (um de seus locais prediletos) que, já licenciado da FAB, numa reunião secreta, lhe entreguei um dossiê sobre o tal PC Farias (que recebi de um assessor do Sarney), que lhe permitiria sobreviver funcionalmente, caso o diretor do DAC resolvesse se vingar, pelo fato de ter negado a matrícula do tal “Morcego Negro”, devido a uma série de irregularidades.

De todo o modo, o tal PC mandava muito e, o próprio diretor foi obrigado ele próprio a autorizar a mutreta no processo, que meses depois, durante a inacreditável queda de Fernando Collor, viria a público, junto com todas as falcatruas da dupla. Mantendo sua integridade, Salazar dissera “não”, com firmeza, e nunca teve que usar o tal dossiê...

Depois disso, comandou a Escola de Especialistas de Guaratinguetá, onde levou o Silva Lobo (Tatoo) como assistente e, finalmente, passou para a reserva.

Só que ao invés de adotar a rotina de couch potato ou síndico de prédio, como a maioria de nós, “Zé Bironga”, agora já velejador experiente, embrenhou-se numa volta ao mundo de veleiro, que durou quase nove anos, com todo o tipo de aventura, como as que relatei na abertura desse artigo.

Era uma noite escura quando entramos, eu e Saback (Salame) no pequeno e charmoso restaurante Cacau, em Itacuruçá, acho que em meados de 2005, imersos em nossos problemas na criação do maior empreendimento de maricultura da América do Sul, na Baía da Marambaia, e na montagem de uma pioneira fábrica de hidrocolóides derivados de algas marinhas, nas margens da Rio-Santos, em Itaguaí, cidade ao lado, onde antes disso só conhecíamos como a entrada no tráfego de Caça de Santa Cruz.

Havíamos alugado um apartamento na pequena e linda marina daquela antiga vila de pescadores, para os dias, como aquele, em que a faina e o adiantado da hora não nos permitisse voltar para casa atravessando Santa Cruz à noite, agora cercada de favelas e cheia de traficantes armados.

mito56-5“Oh ‘novinhos’, não cumprimentam mais o mais antigo, quando entram no rancho?”, a voz que veio do casal ao fundo me tirou do transe empresarial. Lá estava, com o mesmo sorriso já sem bigodes, meu ex-comandante, que eu julgava estar morando na Austrália, acompanhado por sua segunda esposa.

Abraçamo-nos e engatamos um papo fantástico, onde nossas aventuras como empresários, que ele desconhecia – já que acabava de desembarcar da longa volta ao mundo – ficaram completamente esmaecidas, tamanhas eram as suas proezas como velejador, que ele se preparava para tornar públicas em dois livros, já prontos para a edição final.

Rimos, bebemos muito e relembramos os tempos de Pilotos de Caça, e despedimo-nos com promessas de combinar um mergulho e um pernoite com as esposas e amigos no Saco do Céu, uma calma enseada na Ilha Grande.

Antes disso, confidenciou-nos que precisava fazer uma pequena intervenção cirúrgica, da qual infelizmente nunca mais regressou...

Hoje, com o distanciamento histórico necessário, que me permite olhar com mais clareza os diversos episódios da juventude, vejo o quanto José Salazar me influenciou, com seu vigoroso estilo de comando, seu amor pela profissão e o apreço pelas coisas do mar.

E por isso, estou certo que outros tantos, e não apenas aqueles por ele formados na Sorbonne da Caça na mudança das décadas, de setenta para oitenta, mas também, seus companheiros de Primeiro Grupo de Caça, nos tempos do Gloster, e de Esquadrão Pacau, nos tempos do F-80, dar-me-ão total razão ao incluí-lo como um de nossos líderes, nossos mestres, nossos mitos...

 

Flávio C. Kauffmann – Ten Cel Av RR
Piloto de Caça – Turma de 1978

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