ANTONIO HENRIQUE Alves dos Santos - CORONEL AVIADOR.
* 30 SETEMBRO 1923 (São Paulo - SP) - † 31 MARÇO 2009 (Brasília - DF)

  

Quando a Turma de Aspirante Aviadores de 1947 arribou nas planícies quentes e lamacentas de Santa Cruz, o alojamento que nos foi destinado era o de No 3 (lado esquerdo olhando de frente do Cassino dos Oficiais). Estranho. Um dos quartos (ou apartamentos) estava ocupado: era o do Cap. Av. ANTONIO HENRIQUE. À frente do apartamento, sob a proteção doMaj.Av. Antônio Henrique no F-80 beiral do telhado, um carro Austin A-40 estalando de novo estava estacionado. Não era um apartamento comum, de soldado: era um charmoso habitáculo de um solteiro elegante, decorado “comme il faut”...

Para nós “ANTOINE HENRY” (e para os íntimos “TONICO”) era uma personalidade nitidamente impar. Seu porte era imponente e majestoso. Seus olhos claros eram sua “marca d’água”. Não usava gorro sem pala: só envergava o boné de Caçador (amassado), em qualquer circunstância. E mais: portava, com extrema propriedade e “applomb” o bastão de comando, cópia do bastão que os Veteranos de Guerra receberam, um dia, na Itália. Ele tinha a réplica... e a usava.

Seu uniforme também era distinto: não usava a calça cáqui de brim nem a camisa regulamentar vendida no Reembolsável: envergava um conjunto cáqui de tropical (calça e camisa do mesmo tecido) e, sempre calçava botas curtas com fivela. Que, aliás, era também o uniforme do seu colega BERTHIER FIGUEIREDO PRATES.

“Snob” para alguns, “riquinho” para outros, “mascarado” para a galera, ANTONIO HENRIQUE sempre foi superior a esses cognomes e chamamentos. Gostava de ser visto assim: diferente... Sua grande presença foi realmente percebida pelo aspirantal quando adentramos ao CIT (Centro de Instrução Técnica) onde havia (surpresa!) um P-47 completamente “destrinchado por sistemas”, todos eles operando e “vivos”, e em condições de ilustrar as aulas sobre a “máquina de guerra”. Um verdadeiro MTU (Mobile Training Unit) em 1948. Coisa que só voltamos a ver e operar vários anos mais tarde (1962), instalado e operando no CIT do 1o/4o GAV em Fortaleza e destinado ao T-33! O CIT, dessa forma, foi resultado de sua visão detalhista do “professor, instrutor e acadêmico...” E profissional das armas que era TONICO. Muita gente chamava de “CIT do TONICO”... tal fora seu esforço em implantá-lo.

ANTOINE HENRY, àquela época, frequentava o “terreno operacional” do 1o Esquadrão, normalmente interdito à “massa ignara” (Aspirantes). Ali estava o território da maioria dos Veteranos de Guerra e dos “antigões”... O efetivo do 1o Esquadrão era composto pelos Veteranos do 1o Grupo de Caça na Itália e os componentes das Turmas de 1945 (A.Henrique, Bins, Berthier, Silas, Janvrot) e Turma de 1946 (João Luiz, Paes Jr., Bueno Agulha, etc.). A “massa ignara” habitava o lado Norte do Hangar... e voava T-6!

Ao término do ESPC e Curso de Caça, a Turma de 1947 (agora reduzida a 11 componentes dos 24 iniciantes) apresentou-se no 1o Esquadrão para a fase operacional (liderança de Elemento e de Esquadrilha). Foi quando pude conhecer mais profundamente ANTOINE HENRY (agora já TONICO para mim). Ele era o No 3 da Esquadrilha d’Ouros de BERTHIER e fazia dupla inigualável com o SOL: ambas personalidades eletrizavam seus alas. A impetuosidade de um, adicionada à serenidade do outro tornou a Esquadrilha d’Ouros imbatível. Era um somatório de valores, liderados por “pilotaços”, que conseguia as melhores médias e os melhores índices do Esquadrão Jambock. Nas demonstrações operacionais, a d’Ouros era o destaque. À frente, BERTHIER, secundado por TONICO d’ OUROS...

ANTONIO HENRIQUE surgiu no horizonte do pensamento futuro da Aviação de Caça, quando liderou o grupo de homens encarregado de elaborar os PIPE (Padrões de Instrução e de Eficiência) para a Aviação de Caça. Atrelado a eles estava o PIPE/Porcentagens (que regulava o cômputo de porcentagens para o Tiro Terrestre, Tiro Aéreo, Bombardeio Picado e Rasante, além do TAP). Com esses documentos a Aviação de Caça definiu e padronizou os procedimentos e fixou a análise de resultados operacionais, assim como estabeleceu os padrões para os estandes e alvos de TT, BP, BR, TAP, padrões de birutas e tipo de armamento para o treinamento de emprego operacional, etc., etc. Obra de mestre... de A.H.!

A.H. foi movimentado do efetivo do 1o Gp.Av.Ca. para ser Ajudante de Ordens do nosso Patrono Brig. NERO MOURA, quando o mesmo assumiu o Ministério da Aeronáutica. E com ele permaneceu nessa função, até o encerramento do seu período ministerial.

Curiosamente, TONICO fez parte do primeiro grupamento a compor o Esquadrão de Caça Embarcado (prenúncios da Aviação Embarcada) sob a batuta do veterano HORÁCIO MONTEIRO MACHADO. Essa Unidade Aérea (no papel) foi desmobilizada logo após sua criação. Retornou à Aviação de Caça para Comandar a SORBONNE: seus Estagiários e Instrutores certamente nos concederão estórias dessa época. Que devem ser inolvidáveis...

Após, freqüentou diversas funções e Unidades e, entre elas, comandou o Corpo de Alunos da EPCAR

No Estado-Maior foi o grande incentivador e mentor da estruturação da ALA (com base na Wing inglesa) e, após a criação da 1a ALADA (Anápolis), foi seu primeiro Comandante. Que venham em nosso socorro aqueles que com A.H. o secundaram na obra de implantação e operacionalização desse novo modelo de estrutura operacional.

Mercê de seus dons e dotes foi designado para comandar os “DIJON BOYS” quando a FAB, ao preparar-se para receber os MIRAGE III-E, enviou à França esse seleto grupo de aviadores que mudaram a face da Força Aérea. Sua competência e liderança certamente serão descritas por um (ou muitos) dos seus ex-comandados desse grupamento (este é um repto!).

Sempre marcando posição, ANTONIO HENRIQUE decidiu abandonar a carreira intempestivamente, para surpresa de todos. Apesar disso, manteve-se sempre alerta para os assuntos da Aviação de Caça. Foi sempre visto como um ícone da Caça e, por isso, acarinhado e prestigiado.

Moléstia solerte minou nosso campeão. Ele resistiu tanto quanto pode. Mas sucumbiu... Ao saber, minhas lágrimas surgiram junto com uma enorme saudade de meu Líder e Instrutor. Confesso que, por diversas vezes tentei imitá-lo, como se isso fosse possível: ele foi padrão para muitos de nós. Inimitável...

Vá, Jambock 3 d’Ouros, Pacau de Trunfos e Jaguar 01. Deixe a terra habitada pelos comuns e suba às estrelas, habitação dos nobres. Execute aquela sempre perfeita curva de reunião e nós, cortando a curva, num dia que só Deus e você conhecem, estaremos na sua ala. E, novamente, encantados pelo reencontro, polegares levantados, sorriremos juntos... e voaremos em formatura.. Como antes... Assim espero!

  

Maj. Brig. L.N.Menezes
Piloto de Caça – Turma 1948

 

 

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