LUIZ FELIPE PERDIGÃO MEDEIROS DA FONSECA - Cap. Av.
* 24 de dezembro de 1922

  

Facilmente identificável mesmo à distância: um largo sorriso aberto, em um rosto de queixo quadrado. Cabelos claros, pele alva e um boné "quebrado e molengo", típico dos ases da Aviação de Caça da época... Aquele era o "Perdigãozinho", já que Perdigão era seu parente mais antigo...Capitão Perdigão

Aspirante, recém-apresentado e incorporado ao efetivo do 1o Grupo de Caça - 2o Esquadrão (Estágio para Seleção de Pilotos de Caça - ESPC), fui "sorteado"(na verdadeira acepção da palavra) para exercer "função de terra" na Seção de Informações (S-2) do Estado Maior do Grupo, então chefiada pelo Cap. Av. Perdigão.

As salas de trabalho eram "enfurnadas" nas dependências do Comando do Grupo da Base Aérea de Santa Cruz (BASC), com suas frentes para o pátio de vôo do 2o Esquadrão (hoje Museu). Eram salas com acesso dificultado: afinal o S-2 tem "encargos sigilosos e controlados", e quanto menos "públicos" melhor, diziam-me...

Ao adentrar ao S-2, era compulsório receber um sinal de aquiescência do Cap. OSIAS (à época 1o Sargento Osias, também conhecido pelo Aspirantal com OSIAER...)

Ao fundo, na Chefia, tive meu primeiro contato com o "velho" Veterano: um jovial Capitão que envergava aquele sorriso que, para mim, era sua marca registrada.

Encarregou-me de atualizar as "pastas de objetivo" guardadas em um cofre cascorento, pintado de verde-oliva, relíquia trazida da Itália, que ainda tinha as marcas em letras brancas pintadas. Além de uma aldabra(1) , em forma de punho, e uma enorme chave que parecia a de um portão de fortaleza do século passado.

A abertura era feita através de uma cabeça rotatória numerada, polida pelo uso, e que era virada para um lado e para outro, em seqüência e posições correspondentes ao "segredo", contido em um papelito que somente o Chefe, e este auxiliar, tinham acesso.

Jamais havia ouvido falar em "pasta de objetivo", e foram consumidas algumas horas de briefing para captar a mensagem...

Após essa longa e minuciosa preparação, o Veterano fez descortinar o interior do dito cofre: eram pastas de capa preta dura, cada uma nominada diferentemente e que causaram profunda curiosidade: BUENOS AIRES, ASSUNCIÓN, MONTEVIDEO, FOZ DE IGUAZU, etc. Para ilustrar o "briefing", o auxiliar teve permissão de manusear uma delas: mapas de navegação, mapas de cidade, ruas com "alvos" identificados e localizados, com completa descrição de composição, estrutura, destinação, importância e "valor estratégico".

Chegava às minúcias do tipo "armamento capaz de causar danos e destruição: especificação e tonelagem/tipo de bombas, quantidade de lançamentos do foguete recomendada, munição de cano, etc, etc".

Tudo exigindo atualização, em função de dados que o Chefe possuía e que jamais revelou suas origens. Minha tarefa era atualizar... ponto!

A partir do momento em que minhas funções foram melhor definidas, pude mergulhar naquele curioso universo. E, a cada dia, descobria algo novo e respeitava, cada vez mais, aquele "piloto de guerra", agora responsável (inferidamente?) por manter em dia elementos para um evento que - quem poderia assegurar? - talvez jamais viesse: uma nova guerra Sul-americana?

Nesse esmiuçar, descobri ainda - à época encargo do S-2, - um arquivo completo e recheado de pastas com textos, anexos, planilhas de instrução, fotos e apostilas de todas as matérias teóricas que compunham a formação do piloto/líder no curso de Caça à época, encargo do S-2: camuflagem, identificação de alvos (aeronaves, navios, viaturas), Chefia/liderança, procedimentos para prisioneiros de guerra, planejamento de instrução, Convenção de Genebra, etc, etc.

Em plena concordância com dotes de Veterano Chefe, todas essas pastas de instrução terrestre possuíam texto de autoria do próprio. E eram dezenas delas...

O Cap. Perdigão, não era de muitas falas, mas de muitas letras. Era a boa simbiose: o bom aviador e o bem sucedido pensador/escritor/poeta. "Bom de letra" dizia o Brig. Nero.

Nosso contato, embora de tempo reduzido, só veio a adquirir seu completo e verdadeiro valor alguns anos mais tarde. Ao preparar-me para ser Instrutor da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiasi da Aeronáutica (EAOAR), fazendo o Curso de Padronização de Instrutores (CPI), defrontei-me com a “psicologia do aprendizado e a metodologia da instrução acadêmica".

Foi nesse momento que, intimamente, me dei conta: já havia visto isso: há antes dez anos atrás, naquele arquivo do S-2.

MISSÃO de GUERRA: trazida para a paz! Esse era o "Perdigãozinho"!

Lauro Ney Menezes
Maj Brig Ref - Piloto de Caça
Turma de 1948


NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:
  
(1) aldabra = tranca , tranqueta

 

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