Major Brigadeiro ISMAEL DA MOTTA PAES 
 

Motta Paes
"O Jambock Motta Paes"

Tenente Aviador Ismael da Motta Paes. Ouvi falar dele, pela primeira vez, quando foi abatido pela Artilharia Anti-Aérea alemã em 1944.

Na minha turma da Escola de Aeronáutica estava seu irmão Antonio ensaiando os seus primeiros vôos como Cadete do 1o ano. A consternação tomou conta de todos nós, solidários com o colega, o que me ligou mais ao fato. Foi quando sobreveio o primeiro sentimento de apreensão ou de medo, de orgulho, ou de vontade de ser igual a ele. Não sei. Dúvidas de adolescente.

Quando a guerra na Europa terminou, logo chegou a notícia do resgate do Tenente Motta Paes, libertado de um campo de prisioneiros de guerra.

Compartilhando da alegria do Cadete Antonio da Motta Paes Jr., a turma recebeu a notícia como um estímulo. No fundo, porém, a frustração pelo fim da guerra: nenhum de nós teria a chance de uma história de vida igual à do Tenente Motta Paes.

Em 1948, ao ser matriculado no Estágio de Seleção para Piloto de Caça (ESPC), vim a conhecê-lo pessoalmente. Ele era o Oficial de Operações do 2o Esquadrão, Unidade responsável pela seleção de novos Pilotos de Caça.

Em pouco tempo percebi que havia uma empatia entre nós dois; talvez pelo meu temperamento sisudo, parecido mas não tanto quanto o dele; talvez pela preferência pelos carros Mercury - ele possuía um - e eu imaginava logo poder comprar o meu; ou, talvez, porque nos cruzávamos nos fins de semana, quando eu transitava de passagem pelo Posto 5, em Copacabana, e o cumprimentava, onde o coupé Mercury cinza, estacionado em frente ao restaurante Alcazar, denunciava sua presença.

Homem de poucas palavras, as reações de Ismael normalmente se limitavam ao franzir das sobrancelhas, ou ao sorriso discreto, conforme um fato o aborrecesse ou alegrasse. Por mais engraçada que fosse a piada, ele apenas sorria; por mais preocupante que fosse o fato, continuava o mesmo. A fisionomia só expressava reação pela sua forma de olhar.

Quando o ESPC chegou à fase de Combate de Elementos (1), fui escalado para voar na sua ala, como número 2. No primeiro combate, quando o Motta Paes começou a apertar a curva, tratei de me posicionar de forma a não espirrar(2) de jeito nenhum; a melhor posição que encontrei foi colocando o meu T-6(3) atrás e debaixo dele, onde me mantive colado. Fomos encaudados(4), e perdemos o combate para a outra dupla.

Depois de re-agrupar a esquadrilha, veio a advertência de Motta Paes pelo rádio, com o microfone encostado à boca, olhando para mim:

- Pacau 2 de Copas(5), se você continuar escondido atrás de meu avião, eu não vou poder apertar a curva. Preciso saber onde você está...

Ao comandar a separação dos elementos para novo combate, ele sinalizou com a mão até que eu me colocasse na posição certa. Fechou o punho esquerdo indicando que eu deveria manter aquela posição. E mais nada. Ganhamos os outros dois combates, porque ele apertava a curva muito forte, mas de forma coordenada e progressiva.

Era uma mão de seda(6) que me ajudava a não descolar da sua ala. Na crítica da missão, sua fisionomia impenetrável não demonstrou a impressão que teria tido do meu vôo, mas na calada da noite não resisti à tentação de recorrer ao Serviço de Informações dos Aspirantes Estagiários.

Pedi aos colegas "agentes" que descobrissem a nota sigilosa que o Motta Paes me dera naquele combate. A resposta não tardou: quatro e meio, ou seja, meio ponto abaixo de excelente.

Nesse conceito estava a tradução das palavras que economizara na crítica, e deixava transparecer a benevolência que escondia atrás da sua fisionomia austera.

Em artigo anterior relatei uma passagem ocorrida quando Motta Paes me escalou para ajudá-lo na instalação do balizamento noturno de emergência(7) na pista de Santa Cruz. Fomos num jipe sem capota para a cabeceira 04(8), transportando uma tralha de fios enrolados num enorme carretel.

Motta Paes dirigia, eu no banco do carona, e o fiel e prestativo Cabo Dalmário atrás, mais enrolado que aquela bobina de fios. A tarefa seria cumprida com o Capitão dirigindo o jipe devagarinho, eu girando a manivela do carretel, para estender a fiação à margem da pista, e o cabo Dalmário, a pé, seguindo o jipe e alinhando o balizamento na posição correta.

Não deu certo, por falta de sincronização entre a velocidade do jipe, o desenrolar do carretel e os tropeços do Dalmário. Motta Paes decidiu, então, trocar de posição comigo, para ele próprio desenrolar o fio e comandar o Dalmário. Acontece, porém, que eu não sabia dirigir; ninguém me perguntou e eu também não disse nada. Assumi a direção, engrenei a marcha e o jipe saiu aos solavancos; não sabia como fazê-lo andar devagar.

Motta Paes não se alterou, mas apenas falou calmamente:

- Se você for controlando a pressão do pé no pedal da embreagem vai conseguir andar devagar! E assim foi instalado o balizamento luminoso para que fizéssemos vôo noturno. E eu aprendi a dirigir...

Essa experiência, outros vôos na sua ala e a convivência diária permitiram-me conhecê-lo melhor. A imagem do oficial frio, de poucas palavras e circunspecto, perdurava. Entretanto, num pernoite semanal obrigatório, estávamos no Rancho da Base, sentados ao longo de uma mesa comprida, a única onde estava sendo servido o jantar.

O taifeiro(9) que nos atendia - não chegávamos a mais de 10 oficiais - muito solícito, exagerava nos adjetivos:

-Taifeiro, tem mais sopa?, perguntava o Tenente Chaves de Miranda.
-Casualmente, hoje não temos, senhor!
-Taifeiro! Esse bife é de filé mignon?, indagava o Tenente Berthier.
-Casualmente, vou perguntar ao mestre cozinheiro!
-Taifeiro! Já saiu a sobremesa?, queria saber o Tenente Antonio Henrique.
-Casualmente, está saindo, meu chefe!

Motta Paes, que estava à mesa mas até aquele momento não dera uma só palavra, esticou-se para ser bem ouvido pelo taifeiro, e disparou:

-Ô Casualmente! Traz o cafezinho...

Enquanto Motta Paes apenas esboçava um sorriso, os participantes da mesa desabaram em estrondosas gargalhadas. O taifeiro congelou-se numa cara de espanto e incredulidade, certamente por vir de onde veio a piada certa, no momento certo: passou a ser conhecido na Base como o Casualmente. O Capitão Motta Paes também tinha senso de humor e não sabíamos.

A 24 de junho de 1948, uma quinta-feira, realizou-se uma das últimas missões do ESPC: viagem de ida e volta a Vitória. À tardinha, um aspirante estagiário regressou à Santa Cruz trazendo pendurados no seu T-6 pedaços de fios da iluminação pública daquela cidade, o que viria deixá-la às escuras.

O incidente e a indisciplina de vôo do colega geraram grande mal-estar naquele final de expediente e tumultuaram a sexta-feira dos aspirantes. O pior, porém, se saberia na segunda-feira: outra indisciplina de vôo.

No sábado à noite, na boate do Clube de Aeronáutica que funcionava no Edifício Serrador, um major aviador da Presidência da República comentou que um T-6, as seis da matina da última quinta-feira, passara na altura da janela do seu apartamento no Posto 6. Pela hora só poderia ser de Santa Cruz; pelo dia só podia ter sido um aspirante rumo a Vitória.

Na chamada das 9 horas da segunda-feira, Motta Paes, com a fisionomia mais fechada do que nunca, abriu aquela reunião de rotina com a pergunta fatal, dirigida solenemente aos aspirantes:

- Quem dos senhores tirou um rasante em Copacabana na quinta-feira?

Sentado numa fileira ao fundo da Sala de Briefing, levantei o braço, fiquei de pé, e me acusei: Fui eu, Capitão...

A fisionomia dele transformou-se de forma surpreendente. Ao invés de tornar-se colérico ou explosivo, denotou susto, decepção, tristeza, sei lá o quê. Tudo menos zanga. Guardo até hoje o seu semblante naquele momento. Nunca tive a coragem de lhe perguntar, mas fiquei certo de que nem de longe passara pela sua cabeça que o segundo Aspirante indisciplinado seria eu. Peguei 15 dias de prisão. O outro foi desligado do estágio.

Vim a ser novamente subordinado do Ismael, 20 anos depois, na Seção de Política, Estratégia e Doutrina do Estado-Maior, em Brasília. Ele "full" Coronel(10) e eu Tenente-Coronel.

Trabalhávamos na aplicação da reforma Administrativa de 1967 ao Ministério da Aeronáutica sob a sua orientação, eu e o Tenente-Coronel Tabyra, em busca de uma redação para as Políticas de Pessoal, de Material, e a grande novidade, que seria a implantação dos Sistemas através de uma Política adequada.

Motta Paes ensinou-nos como estruturar o texto de uma Política, coisa que pouca gente na FAB teve a oportunidade de encontrar quem ensinasse. É uma constatação pessoal.

Em 1988 escrevi um artigo para a Revista da Universidade da Força Aérea (UNIFA) sobre a Política dos Sistemas. Remeti um exemplar para o Motta Paes, já na Reserva, cujo recebimento ele acusou com palavras de agradecimento.

Meu gesto trouxe-lhe alegria e boas lembranças. Depois disso, quando o encontrei, fui saudado com um abraço e, coisa rara, um largo sorriso.

Pouco antes de passar para a Reserva, Motta Paes foi alvo de uma homenagem inédita, que para muitos passou despercebida. Para uns poucos causou inveja.

Já Major-Brigadeiro-do-Ar, foi convidado, e aceitou, o desafio de solar o Mirage, tornando-se o único Oficial-General brasileiro que pilotou um Mirage monoplace, ostentando o peso das três estrelas na gola do seu macacão de vôo.

Por isso, fez jus ao código pessoal "ad eternum", ele é o Jaguar 35(11), e poucos sabem disso.

Ora, ele não contou a ninguém...

Hoje sinto muito não ter podido lhe dar o meu último abraço; só ter sabido do seu falecimento uma semana depois.

Resta-me, porém, agradecer ao alemão amigo, cuja sopa rala, com minguadas torradas de pão dormido, permitiu que Motta Paes sobrevivesse às agruras do Campo de Concentração de Prisioneiros de Guerra "Stalagluft no 1 na Prússia Oriental, durante quase cinco mezes, e permitiu, também, que eu viesse a participar dos fatos que relatei.

A 4a estrela ( posto de Tenente Brigadeiro), que ele ão recebeu aqui na Terra, certamente foi-lhe outorgada lá em cima...

  

Ten.Brig.Ref. João SoaresNunes
Piloto de Caça


NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:
  
(1)"elemento" = menor conjunto de aviões de caça, formado por duas aeronaves, uma "líder" e uma "ala". No combate de elemento estes dois aviões atacam outros dois.
(2)"Espirrar" = aumentar muito o raio da curva ou se afastar, sem querer, do avião "líder".
(3) "T-6" = ou "Tê-meia" é o nome pelo qual a Força Aérea Brasileira carinhosamente se referia ao famoso avião monomotor de treinamento avançado modelo AT-6 (advanced trainer) fabricado pela empresa North American.
(4) "encaudado"= O combate aéreo, de treinamento, é considerado acabado, quando um dos combatentes entra em posição de tiro atrás do outro, ou seja, na direção da "cauda" do "vencido".
(5) "Pacau 2 de Copas" = Código de chamada pelo rádio do segundo componente da esquadrilha de Copas do Esquadrão Pacau...
(6) "mão de seda" = diz-se do bom piloto, aquele que manobra seu avião com suavidade e perícia.
(7) "balizamento noturno" = iluminação lateral da pista para orientar os pilotos durante as decolagens e pousos noturnos.
(8) "cabaceira 04" = início da pista 04.
(9) "Taifeiro" = militar da aeronáutica encarregado, normalmente, de serviços de restaurante (cozinheiro, garçon, limpesa etc). Este termo é originário da Marinha do Brasil.
(10) "full" Coronel = vem do inglês "coronel cheio". Normalmente exite confusão com referência ao Tenente Coronel e ao Coronel. Ambos são comumente chamados de "coronéis". Sendo assim, quando queremos nos referir ao de maior hierarquia dizemos "full" coronel.
(11) "Jaguar 35" = O Primeiro Grupo de Defesa Aérea utiliza o código rádio "Jaguar" para seus pilotos. O número 35 significa que o piloto foi o 35o oficial a voar "solo" a aeronave Mirage III da Força Aérea Brasileira.

 

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