FÓRUM

(no 48, nov/dez 2014)

Precisamos de uma versão Biposto do Gripen NG?

 

caneta..'. início de textoA pergunta pode parecer estranha, esdrúxula ou extemporânea para alguns.

Na verdade ela tem origem numa conversa de pilotos de caça, em meio ao que se poderia chamar de “ximboca”, onde levantei a questão de que estamos vivendo hoje, com o Gripen NG, uma situação muito parecida a de alguns anos atrás, quando adquirimos nosso primeiro lote de F-5, mais precisamente de 36 F-5E e 6 F-5B, situação essa muito criticada por diversas gerações posteriores de pilotos de caça, quando “descobrimos” a enorme diferença existente entre as duas versões adquiridas – o F-5E e o F-5B.

Como fomos “descobrir” posteriormente, eram dois aviões completamente diferentes – o F-5B era em verdade a versão biposto do F-5A, com motor, performance e logística completamente diferentes do F-5E, o que nos levou, alguns anos depois, face ao pequeno número de aeronaves adquiridas e às imensas dificuldades de manutenção e operação, a desativá-las, devido ao enorme custo envolvido em mantê-las voando.

Alguém poderia perguntar por que, então, não se adquiriu direto o F-5F, versão biposto do F-5E, em tudo e por tudo semelhantes operacional e logisticamente falando.

O fato é que, na ocasião da aquisição, o F-5F não existia; era apenas um protótipo, iniciando seus ensaios em voo, com todas as incertezas de um projeto em desenvolvimento. O programa daria certo, a USAF iria adquirir, o tempo e os custos de desenvolvimento eram compatíveis com as nossas necessidades, haveria outros operadores da aeronave no mundo ou seríamos os únicos operadores de um produto único, com todas as implicações que isso significa, etc., etc., etc.?

Claro está que nós, mais modernos, não quisemos saber de nada disso e saímos “marretando” a decisão. “Estudos” foram arguidos onde se falava que sairia mais barato mandar pilotos de caça ao exterior por anos a fio ao invés de adquirir o F-5B.F-5B

Pois bem, eis que 40 anos depois encontramo-nos na mesma situação do passado – nosso caça escolhido na concorrência do FX-2, o Gripen NG, que para fins práticos será o Gripen E, só possui versão monoposto. A versão biposto (Gripen F) não existe! O sueco aparentemente já disse que não desenvolverá sua versão biposto, mas nós, do Brasil, acenamos com a vontade de desenvolvê-la num contrato de desenvolvimento a ser colocado junto à Embraer.

Quem já trabalhou no desenvolvimento de qualquer projeto sofisticado sabe exatamente o que isso significa – tecnicamente o risco pode até ser bem reduzido, uma vez considerada a alta capacidade de nossa empresa, mas tempos e custos envolvidos são uma grande incógnita! Por mais garantia que se apresente, os custos e o tempo envolvidos são um mar de incertezas!

Quarenta anos depois eis-nos na mesma situação do passado – vamos aguardar o desenvolvimento do Gripen F, biposto do Gripen E, com todas as implicações de um projeto de desenvolvimento, adquirimos o Gripen D, versão biposto do Gripen C, diferente da versão escolhida, mandamos nossos pilotos à Suécia por anos a fio, com todas as implicações que isso significa, etc., etc., etc. O que devemos fazer? Qual deve ser a nossa decisão? Lembrai-vos do F-5B!!!!

E no ambiente de “ximboca” em que levantei a questão foi que alguém, em verdade um piloto de caça e um oficial dos mais excepcionais com quem tive a oportunidade de conviver, colocou que a questão real a ser feita era se, de fato, a Força Aérea necessitava da versão biposto dessa aeronave, considerando a elevada eficiência dos simuladores de voo hoje existentes!

Nobres caçadores, questão colocada! E uma vez colocada, não há como não se pensar nela! Precisamos MESMO da versão biposto do Gripen NG? Como vamos empregá-la? Vamos utilizá-la apenas para a transição para a versão monoposto, eventualmente para um duplo comando numa missão deficiente? Ou vamos, também, empregá-la com dois tripulantes, com um operador de sistemas na nacele traseira em missões mais críticas? Ou como disse um piloto de caça mais mordaz, ela vai servir para, de vez em quando, dar voo de nacele traseira para uma ou outra autoridade do momento? Ou é para dar carga de trabalho para a indústria nacional? Um simulador de voo no estado da arte, como os existentes atualmente, não supriria a necessidade para a transição operacional para a nova aeronave?

Ironias à parte, quantos voos de F-5F nós, de fato, fazemos ao longo do ano, por piloto? E de Mirage 2000, quantos voos de biplace eram feitos por ano, por piloto, por exigências operacionais? E de A-29? O custo de ter essas aeronaves nas nossas linhas de voo justifica, de fato, o investimento? Respostas sinceras, sem preconcepções talvez nos indiquem o caminho correto a seguir. Novas soluções tecnológicas surgiram, as restrições orçamentárias serão cada vez maiores e temos que nos tornar mais eficientes e fazer com que cada real investido renda o máximo possível!

Voltando ao passado – além do pensamento de que o tempo é o senhor de razão, dizem, também, que o diabo é sábio porque é velho! – nos idos de 1978/79, quando estávamos penando com nossos F-5B, o 1º Grupo de Aviação de Caça fez uma experiência de solar dois pilotos, recém-formados no 1º/4ºGAv e recém transferidos para a Unidade, diretamente no F-5E, sem fazer qualquer duplo comando, com o objetivo de assessorar o Alto-Comando da Aeronáutica para o caso de uma eventual troca dos B por F e de um tempo sem aeronaves bipostos nos esquadrões.Gripen biplace

A experiência deu certo, “ninguém morreu”, mas recordo-me de ter falado, instrutor de F-5 que era à época, que a situação seria aceitável – solar diretamente a aeronave monoplace – desde que tivéssemos um simulador de voo com recursos suficientes que suprissem as exigências operacionais dessa transição. Sem simulador, os riscos envolvidos numa situação emergencial tornada rotineira seriam muito elevados, inaceitáveis até!

De volta ao presente, não custa lembrar, a título apenas de assessoramento, de que não há versão biposto da aeronave F-22. O Gripen NG sueco tampouco terá uma versão biposto. Diversas aeronaves de caça tiveram sua versão biposto lançada diversos anos após a versão monoposto estar operacional nos esquadrões. Olhando para experiências nossas recentes, nós solamos diversos pilotos de AMX (tenentes inclusive) diretamente na versão monoplace por diversos anos, com a pré-condição única de terem realizado um pacote de missões no simulador de voo então existente na Itália. E não tivemos qualquer problema por isso!

Nobres amigos, distintos pilotos de caça, estamos no momento de algumas definições. Não custa nada olhar um pouco para algumas experiências do passado para definir o caminho a ser seguido por nossa Força Aérea no futuro. Vamos pensar um pouco, discutir um pouco, sem preconcepções, os próximos 40 ou 50 anos estarão sendo definidos agora. Como costumo dizer, meu netinho recém-nascido vai pagar a conta desta nossa decisão, seja fora ou, quem sabe, dentro da própria Força Aérea!

Precisamos MESMO de uma versão biposto da aeronave Gripen NG? Em caso positivo, vamos adquirir o Gripen D ou vamos esperar o desenvolvimento do Gripen F?

Uma outra questão, precisamos MESMO de uma aeronave intermediária entre os A-29 e os Gripen?

Nobres amigos, distintos pilotos de caça, príncipes do céu, pensem um pouco, meditem, discutam muito a respeito e decidam. As futuras gerações de pilotos de caça certamente haverão de agradecer. Tenho opinião formada para ambas as questões, mas, quem sabe, alguém não se propõe a colocar seu pensamento a respeito!

Um forte abraço.

 

Senta a Pua !

Teomar Fonseca Quírico - Brig Ar RR
Piloto de Caça  - Turma 1970

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