FÓRUM

(no 46, jul/ago 2014)

 No Campo da Intelectualização

Plano de educação permanente, uma nova postura para a FAB

caneta..'. início de texto 

A grande quantidade (e que aumenta dia a dia) de nossos Oficiais e Subalternos que voltou a frequentar os bancos universitários, nos últimos tempos, já parece merecer um estudo de suas razões no seio da Força Aérea. Não que haja “erro cometido” na opção profissional mas, sendo fato inusitado (como se pretende demonstrar) parece realmente merecer uma análise... E, talvez, uma tomada de posição ou mudança de atitude da Organização.

Para um antigo “mestre-escola”, já acostumado aos “brados e lamúrias” dos nossos “estudantes” nas fainas da EAOAR, ECEMAR, etc., é difícil entender como esse elevado contingente se submete, passiva e pacificamente, a um novo processo escolar, a ele dedicando suas minguadas horas de lazer ou de convívio com a família!

Tentando arrazoar sobre o “fenômeno” (invulgar, em termos numéricos) concluímos que parece ser um problema relacionado com o processo educacional em curso. Ou melhor, com a inexistência de um “Plano Educacional Permanente” para os nossos Quadros. Um Plano que esteja permanentemente presente durante o transcurso de toda a carreira, e não episodicamente, como é a volta aos bancos escolares atualmente prevista nos regulamentos. E – talvez mais ainda – um Plano Educacional coerente com aquilo que se pratica em todo o mundo civilizado e que abrange os profissionais-das-armas, sem exceções, vis-à-vis às imposições da carreira face à guerra aérea moderna.

Enfrentemos os fatos. A nossa FAB foi criada em período de guerra e, na realidade, o que fizeram nossos antepassados e pioneiros foi “pôr de pé” uma Organização Militar que, desde aquela data e até hoje, continua a ter, uma destinação mesclada dentro do panorama militar brasileiro: desenvolvimentismo (?). Encurraladas nesse contexto, as Escolas de Formação e até a Academia da Força Aérea, que durante diversas gerações de Alunos e Cadetes (e mesmo até hoje) se viram às voltas com currículos variáveis e de objetivação dúbia (decorrente da mencionada “destinação mesclada”)... “não teriam garantido aos seus Aspirantes e Graduados, nessas seis décadas, uma formação intelectual atualizada, que viesse a assegurar o necessário embasamento e a abertura desejada para garantir a aquisição de novos e imprescindíveis conhecimentos para a carreira, visando os anos 2020, século da robótica e informática”. Mesmo não sendo totalmente verdade, pelo menos, essa é a avaliação que todos fazem. Emblema da UNIFA

Tentando estimular o gosto pelo voo, alguns (curioso!) colocam em dúvida a importância e a prioridade dessa busca pelo aprimoramento intelectual continuado e atualizado no soldado-do-ar dos anos 2000. Com essa visão, é criada uma mentalidade sui generis no espírito do plantel de Oficiais e Subalternos jovens, e oposta àquela que se impõe, até mesmo, à mocidade escolar do mundo e dos dias de hoje: voar deve ser visto como “elevação de nível?”

Além disso, as Unidades Aéreas de Instrução, recipiendárias dos Oficiais e Subalternos recém-graduados, com problemas típicos de reduzidos efetivos, de orçamento, de manutenção e suprimento além do engajamento no Programa Operacional que lhes compete, nem sempre conseguem garantir aos seus estagiários, nada que esteja além das “exigências mínimas” (?) para o desenvolvimento de carreira. Com isso, pouco (ou na realidade quase nada) é dedicado às atividades intelectuais curriculares e extracurriculares.

Por outro lado, engajados na execução dos Programas de Voo e manutenção do estado operacional de suas tripulações, as Unidades Aéreas de Emprego quase sempre são compelidas a deixar para o plano secundário o Programa de Instrução Terrestre (Acadêmico) que lhes cabe. Além disso, não existindo um compromisso tácito entre o escalão subordinado e o escalão superior, com relação ao cumprimento de mínimos acadêmicos, quase sempre essas manifestações de caráter intelectual caem no rol das matérias de menor prioridade. Ou até no esquecimento... Atividades acadêmicas de pós-graduação? Nem falar...

Mesmo considerando a dificuldade de fazer negar a inexorabilidade dos elementos antes citados, há que se convir que os homens-de-armas mais ávidos, criados sob a égide de tal conjuntura e sem estar sendo conduzidos e/ou motivados para a busca de um melhor nível cultural, optam pela marcha na direção dos bancos universitários por decisão própria. Será uma fuga, uma compensação íntima ou uma vontade coletiva insatisfeita?

Cumpre pesquisar...

Embora a realidade seja, seguramente, menos cruel do que a que acima descrevemos, as nossas poucas bibliotecas testemunham que os nossos homens de uniforme pouco leem, o que nos fornece mais elementos para sustentar a tese. Nem mesmo os livros de aviação ou relacionados com a profissão parecem despertar maior interesse. O que parece estranho. Mas, neste caso, o desconhecimento de uma língua estrangeira, que propicie leitura de bibliografia importada, é um sério agravante o que – de alguma forma – poderia justificar a ausência de leitores, já que aeronáutica e espaço são, prioritariamente, impressas em outra língua, que não o português. Cumpre pois, dominar outro idioma e isso, mais uma vez, só através do aprendizado. Com um clima desse tipo, todas as tentativas de assegurar uma aquisição continuada de conhecimentos (mesmo que ela seja diretamente relacionada com o trabalho que está sendo realizado, naquele imediato momento), têm tido pouco sucesso... Com isso, o nível cultural fica estagnado no nível anterior...

Aparece então um brado de interrogação e alerta: estará, até mesmo, a curiosidade profissional desaparecendo???

cheque-mateAssim, inseridos nesse panorama, com orientação cultural institucionalmente dirigida, os Oficiais, ascendem aos primeiros postos da carreira sem carregarem, de um para o outro, a bagagem de cultura e conhecimentos fundamentais que, in totum, obrigatoriamente já deveriam possuir. Nesta fase chegam a assumir pequenos Comandos e Chefias. Caberia aqui, além disso, alguma consideração quanto ao nível de conhecimentos técnicos e táticos que possuem. E aqueles relacionados com a psicologia aplicada, relações humanas e inter-relações sociais?

E é a partir desse estágio na carreira que um grande número de Oficiais e Subalternos, principalmente dos postos intermediários, inteiramente conscientes do espaço vazio intelectual a preencher, estimulados por uma vontade de vencer a “inércia e o status-quo” passa a dedicar o seu pouquíssimo tempo disponível, fora de seus horários de trabalho, a cursos nas Universidades! E o fazem até mesmo nos penosos cursos noturnos! Sem que essa possa ser considerada uma escolha errônea, demonstra “autodidatismo sem orientação” ou “formação intelectual autogestionada”. E onde fica a Organização?

Urge, parece, adotar uma medida corretiva, talvez estabelecendo um “Plano Educacional Permanente para a Força Aérea” que, praticada de forma somatória, curricular e extra-curricularmente, permita o incremento no domínio da intelectualização dos nossos homens e atenda, ao mesmo tempo, aos impulsos dos mais motivados e de maior potencialidade e – por que não? – a alguns dos muitos reclamos da própria Força...

Para tanto, o primeiro e imprescindível passo será o de “fixar com clareza” e perenidade os objetivos (o “para quê”) a atingir na formação dos nossos homens, definindo perfis, estabelecendo métodos de desenvolvimento de potencialidades, de avaliação de desempenho e mérito, fixando níveis a atingir coerentes com as exigências do serviço, nivelando o plantel humano por cima (e não por baixo), estimulando os mais capazes a permanecerem nos Quadros e eliminando, em qualquer fase do processo, os reconhecidamente incapazes, indesejáveis e desajustados.

Encerrando, assim de uma vez por todas, a famosa e envelhecida questão até hoje não respondida: “formar homens para a AERONÁUTICA ou para a FORÇA AÉREA?”

Em suma, ir ao que chamamos “começo de tudo”: os currículos das Escolas de Formação.

No caso da AFA, por exemplo, até hoje a Organização vive o dilema entre dar aos Cadetes uma formação voltada para as ciências sociais (“já que ele comandará homens”) ou para as ciências exatas (“já que ele será o gestor de sistemas complexos”). Ou, pior ainda, “assegurar os critérios necessários para que, ao ser desligado, o elemento tenha facilitado sua retomada escolar na vida civil”, neste caso trabalhando para aqueles que não ficam conosco em detrimento dos que ficam!!! E o currículo da EEAer, pulverizado em mais de 25 cursos diferentes, não seria também um “sinal”?

Após isso, dar partida a um Plano dessa natureza parece ser apenas questão de compatibilizar a montagem dos Programas de Instrução Terrestre das Unidades com as iniciativas tomadas por algumas Escolas e Unidades da FAB e, ainda com as iniciativas individuais, unificando – no seu cerne – todo o processo educacional encadeando-o, passo por passo, e em todo o espectro da carreira, sem solução de continuidade. Em suma, um trabalho permanente que jamais se interrompe, independentemente do posto, graduação, função ou local de trabalho: uma all training Air Force!

Esse “Plano Educacional Permanente para a Força Aérea” permitirá preencher, a posteriori, os “claros” por ventura existentes nos currículos da AFA, nos Programas de Instrução Terrestre das Unidades Aéreas, no currículos acadêmicos da EEAER, do Curso Especial de Saúde, da EAOAR, da ECEMAR etc., etc., fazendo uma acomodação de assuntos de interesse geral e institucional, eliminando alguma superposição de currículos... buscando obter a tão desejada compatibilização e, também, a aspirada complementação cultural, propiciando o desenvolvimento dos recursos humanos da FAB, permitindo a fuga desse “processo de grilhões” que constrange a criatividade e a plasticidade que caracterizam a educação moderna.

Como se desenvolveria, então, o processo?

Com uma sólida e atualizada base acadêmica, os Aspirantes a Oficial e Graduados seriam entregues às Unidades de Transição imbuídos de uma atitude intelectual receptiva que garantirá, não só o autoaprimoramento como a absorção tácita de novos conhecimentos, quer no campo das ciências sociais, ciências exatas ou no campo de técnica aplicada à profissão das armas.

Nesta fase, percorrerão os primeiros postos da carreira sob a ação de um programa educativo misto de cultura geral e cultura técnico-militar e que poderá, até, ser ministrado por correspondência, em alguns assuntos, mas sempre em paralelo com uma atividade curricular institucional. Não haveria, portanto, os espaços abertos entre os Cursos regulares: estariam todos eles ocupados pelo Plano... E com o Plano!

Caberão às Organizações diversas as providências necessárias, fazendo cumprir o que já prescrevem os Regulamentos: as bibliotecas deverão ser mantidas à altura do Plano e as determinações contidas nas Diretrizes Anuais de Instrução devem ser cumpridas rigorosamente.

Ainda inserido no contexto do Plano caberia listar a bibliografia recomendada e que venha de encontro aos objetivos do mesmo Plano facilitando, inclusive, a aquisição da própria literatura ou documentação. O gosto pela leitura incrementado através de exposições bibliográficas, circulação periódica de livros, campanhas educativas, etc.

Além disso, as Bases Aéreas desenvolveriam um programa de palestras, de desenvolvimento de teses, de painéis, entrevistas didáticas, etc., abordando temas relacionados com a carreira e com o Plano, sempre em um “crescendo”... Para esses trabalhos, a comunidade universitária civil poderia vir a ser convidada para participar.

Para aqueles cuja potencialidade transcendesse aos padrões normais, a Força poderia patrocinar a cessão de bolsas em Universidades zelando para que – nesse caso – as áreas escolhidas fossem de interesse direto da FAB e não só do indivíduo. Com isso, eliminar-se-á o chamado “autodidatismo desorientado”...

Ascendendo dentro do Plano, o Oficial seria entregue à EAOAR, onde tomaria contato com problemas e assuntos da alçada de pequenos Comandos e Chefia. Dentro de um currículo altamente flexível e extremamente compacto, o Oficial seria preparado para solucionar pequenos temas táticos, estimulado a debater a doutrina de emprego da Arma Aérea, a Organização e a Administração eliminando, evidentemente, as matérias já antes tratadas na execução do Plano Educacional Permanente e, por conseguinte, reduzindo a permanência do Oficial fora de sua sede para atender às exigências dos Cursos Regulares.

Essa fase já exigiria um processo seletivo. Dos instruendos, seriam indicados os futuros Instrutores das Escolas, assim como os indicados para cursar as Escolas de nível Estado-Maior ou curso de pós-graduação em Universidades civis.

De volta à tropa, o Oficial ficaria ainda sujeito à ação do Plano Educacional Permanente, por meio de processo estabelecido a priori (que pode ser até por correspondência), até que seja encaminhado aos cursos de nível Estado-Maior.

As Escolas de Estado-Maior e as de alto nível representam a síntese de elaboração do pensamento militar. Das suas pesquisas, dos seus estudos, das suas análises devem frutificar as normas que pautem as doutrinas do emprego, execução e administração. Para bem cumprir seus altos propósitos, às Escolas de nível Estado-Maior e de alto nível caberia estabelecer um processo altamente seletivo para admissão dos seus membros permanentes, consequentemente, dos homens que, no futuro, “regerão” o Plano Educacional Permanente. Esse Plano seria, assim um “circuito fechado” funcionando por consenso e não institucionalizadamente (em tese), e que garantiria uma orientação e ampliação intelectual permitindo o que a Força Aérea Brasileira, en masse percebidamente já requer: uma ação educativa permanente (não episódica), visando ao aprimoramento profissional, mantendo seus membros – antes de mais nada – continuamente comprometidos com as manifestações intelectuais de interesse da carreira... e não apenas com as escolhas (aleatórias) individuais, como é o caso que se tentou retratar nestas notas e que, em nossa opinião são muito mais fruto de uma postura adequada ao passado do que ajustada à modernidade da era da comunicação e da informação...

Outrossim, a título de complementação do raciocínio, é imperioso saber que um sem-número de Forças Aéreas só asseguram o acesso ao generalato para aqueles que, além de haverem cumprido os compromissos regulamentares com o seu Plano Educacional, ainda apresentam um diploma universitário...  

Vale repensar, não?

 

Senta a Pua !

Lauro Ney Menezes – Maj Brig Ar Ref
Piloto de Caça  - Turma 1948
 gaivota...final de artigo

 

 

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