FÓRUM

(no 45, mai/jun 2014)

 Implantação do Gripen: quebra de paradigmas da FAB

 
“O que conta não é o que acontece, mas a sua atitude em relação ao fato ocorrido
– a maneira como você responde ao que acontece.
Mude seu ponto de vista e você verá que o mundo não muda, mas você sim.
O segredo do sucesso é se adaptar.
Necessidades diferentes criam paradigmas diferentes.”
Dr. Lair Ribeiro

 

caneta..'. início de textoA notícia da definição do Gripen NG como a aeronave vencedora da concorrência do projeto FX2 encheu os pilotos de caça de alegria e esperanças. Mais do que uma nova e moderníssima máquina de guerra, é a oportunidade que temos de analisar e melhorar nossos processos e modelos. É chegada a hora de quebrarmos paradigmas!

Na sua essência, a Força Aérea é uma Força Armada pautada na flexibilidade e na adaptação a novos cenários. Desde sua criação, em 1941, a FAB já operou os mais variados tipos de aeronaves e nesse caminho foi se adaptando, para atingir a máxima operacionalidade possível. A seguir, seguem alguns exemplos ocorridos na história recente da Aviação de Caça:
Dados de desempenho do Gripena) Aquisição dos caças supersônicos F-5 e Mirage III, na década de 70, onde foi revista a formação e o preparo dos pilotos de aeronaves de alta performance, além da criação e estruturação do Sistema de Defesa Aérea Brasileiro, até hoje responsável por vigiar os céus do país;
b) Desenvolvimento e implantação do A-1, nas décadas de 80 e 90, incrementando sobremaneira a capacidade de ataque a alvos no solo e mostrando a necessidade da interoperabilidade entre as diferentes aeronaves e sistemas; e
c) Modernização do F-5 e aquisição do Mirage 2000, na última década, aumentando a capacidade de combate e o arsenal disponível, propiciando engajamentos até mesmo além do alcance visual (BVR – beyond visual range).

É notável que a mudança de cenário seja uma constante na FAB. A capacidade de crescer e se adaptar também estão presentes no trabalho diário de homens e mulheres que voam e fazem voar. Porém, a implantação do Gripen se mostra como uma oportunidade ímpar para promover não apenas um ganho operacional, mas sim um salto em conhecimento e profissionalismo de toda a Força Aérea Brasileira.

Com o objetivo de revisar e atualizar a estrutura da FAB, em especial da Aviação de Caça, seguem os paradigmas que merecem atenção e devem ser superados.

1 – Formação de pilotos de 1ª linha:
Pelas diversas Forças Aéreas do mundo, esse tema vem sendo tratado com todo o cuidado que merece, visto que o objetivo a ser atingido é o de proporcionar o melhor treinamento, no menor tempo e com custos reduzidos.

Para a solução desse desafio, as Forças Aéreas da Suécia, Estados Unidos, Canadá, Austrália, dentre outras, realizam a formação de seus pilotos de 1ª linha em uma Unidade Aérea dedicada exclusivamente a essa nobre e fundamental missão. O principal argumento para a adoção dessa estrutura é o ganho em qualidade, padronização e eficiência operacional, ou seja, novos pilotos muito bem formados. Além disso, desonera as Unidades operacionais da tarefa de formar seus pilotos, proporcionando meios e tempo para se concentrarem na missão fim de sua existência: treinar equipagens operacionais de combate.

2 – Preparo e treinamento do piloto de 1ª linha:
A atual rotina e as prioridades das Unidades Aéreas de 1ª linha merecem revisão e melhorias. A atividade aérea é a razão de ser de um Esquadrão de Caça então, nada mais sensato do que coordenar as demais atividades em torno dos voos, da escala de voo. Mas não em uma escala disponibilizada diariamente, no final do expediente, e sim em uma previsão semanal de voos, confeccionada com uma semana de antecedência.

O Gripen é uma aeronave da classe 9G, assim sendo, o treinamento em Centrífuga Humana se mostra essencial ao preparo dos pilotos de 1ª linha. Visto que os casos de G-LOC (perda de consciência em voo) são comumente reportados por pilotos que voam máquinas tão manobráveis e a possibilidade da perda de aeronaves é uma constante.Gripen NG

As maiores capacidades operacionais do caça sueco (alcance, autonomia e manobrabilidade) requerem um maior preparo do piloto, que geralmente estará voando sozinho, por horas a fio. A orientação nutricional, médica e principalmente visando o preparo físico deve ser uma constante nas Unidades de Caça. Afinal, mesmo após estar voando 4h ou mais de voo, o piloto deve estar preparado física e mentalmente para enfrentar o inimigo e empregar o seu armamento com precisão e eficiência.

Aeronaves com tecnologia no ‘estado da arte’ requerem muitas horas de estudo e dedicação. O Gripen foi projetado para proporcionar uma pilotagem fácil e intuitiva, com o propósito de reduzir a carga de trabalho motor realizada pelo piloto. As Forças Aéreas operadoras do Gripen C/D o consideram um avião dócil e de fácil pilotagem. Assim sendo, o preparo do piloto deve se concentrar no estudo dos sistemas da aeronave, táticas e doutrina de emprego, com o objetivo de maximizar a sua eficiência.

A Doutrina de uma Força Aérea sofre constante mudança e, nada melhor do que a incorporação do Gripen à frota da FAB para atualizarmos a Aviação de Caça. Porém, essa atividade demanda experiência dos
envolvidos, muitas horas de voo e tempo para avaliar e reescrever essa nova Doutrina.

3 – Constituição das Unidades Aéreas de Caça:
Com tanto trabalho a ser realizado (formar, treinar, combater, avaliar, reescrever...), aparentemente faltam horas no dia para realizar todas as tarefas. Se for mantida a atual constituição da UAe, essa possibilidade se tornará realidade, porém uma solução viável é a reestruturação das Unidades Aéreas de Caça, mantendo apenas os militares ligados à atividade fim (planejar – voar – debrifar) no efetivo. As atividades de planejamento, execução e análise dos voos devem ser o cerne de uma Unidade Aérea de Caça. A manutenção das aeronaves, administração do pessoal e demais serviços podem e devem ser delegados aos diversos setores da Base Aérea apoiadora.

4 – Papel da Base Aérea:
No contexto moderno de guerra, a Base Aérea provê o apoio para as Unidades (combatentes) que nela operam. Esse apoio se estende desde os serviços básicos (alimentação, manutenção e bem-estar) até os trabalhos de administração e financeiros. Assim sendo, assuntos referentes às Seções de Pessoal, Comunicação Social e Manutenção de aeronaves podem ser absorvidos pelas Bases Aéreas da FAB.

Gripen NG com as cores do BrasilComo hipótese primária de ação, o Gripen foi projetado para operar a partir de pistas curtas (<700m), visto que sua capacidade de pouso e decolagem a partir de rodopistas é uma grande vantagem operacional. As Bases Aéreas devem ter uma maior participação operacional junto às UAes nelas sediadas. Como exemplificação desse envolvimento, citamos as Bases Aéreas operadoras de Gripen na Suécia, que possuem um levantamento das rodopistas existentes no seu entorno e de como prover o apoio (segurança, transporte, combustível e armamento) para cada uma delas.

5 – Interoperabilidade:
O sucesso da atuação dos modernos vetores de combate (F-35, F- 22, Rafale, Eurofighter, Gripen, entre tantos outros) muito depende da troca de informações entre os diversos sistemas de defesa de um país.

Marinha, Exército e Aeronáutica são Forças Armadas subordinadas ao Ministério da Defesa desde o ano 1999. Porém, a atual integração entre essas Forças está aquém do desejável. Assim sendo, a necessidade de se buscar uma grande interoperabilidade é vital para o sucesso da utilização operacional do Gripen, sob pena de não termos condições de coordenar ações efetivas de emprego de armamentos aéreos em defesa às tropas em solo ou às esquadras no mar.

CONCLUSÃO
Muitos são os desafios que se apresentam à frente, em um futuro bem próximo, para a implantação do Gripen na Força Aérea Brasileira.

Rever a formação e treinamento dos pilotos, os papéis das Unidades e Bases Aéreas, além da interação entre as 3 Forças Armadas são assuntos que devem ser tratados desde agora. Com o objetivo de que, quando o primeiro Gripen pousar no Brasil, tenhamos uma nova FAB e uma Aviação de Caça bem estruturada para receber e implantar a mais moderna máquina de guerra do Brasil.

Essas mudanças não ocorrerão a um estalar de dedos. Serão o resultado do esforço coordenado entre os diversos setores do Comando da Aeronáutica e do trabalho de cada um, na direção de maximizar o emprego do Gripen e quebrar os atuais paradigmas.

Senta a Pua !

Miguel dos Santos Clarino – Cap Av
Piloto de Caça de 2004, atualmente no 1°/4°GAV (Manaus)
Instrutor de F-5M, com mais de 1.000h de Caça
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