FÓRUM

(no 44, mar/abr 2014)

 

Este fórum contém 2 (dois) artigos:
(44-1) O avião de combate do futuro. Será assim? E o combatente...?
(44-2) Porque a compra dos Gripen é a vilã da FAB?

 

 

O avião de combate do futuro

Será assim? E o combatente...?

caneta..'. início de texto

Pelo menos há mais de uma década, a FAB (leia-se a Aviação de Caça) vive (?) “embalada” pela saga dos Programas FX-1 e FX-2. Que – de quase inexequíveis e inimagináveis – produzem uma família enorme de grandes teses, ilações, abreviaturas, conceitos, etc., etc. que trouxeram à baila um universo de opiniões recheadas daquilo que alguns analistas nomeiam “furor e encantamento tecnológico” tipo “Guerra nas Estrelas”...

Em sendo esse o ambiente da “conversa profissional” dos dias de hoje, põe-se o escriba a lucubrar: “AVIÃO de COMBATE futuro – que máquina será essa?”... Em recolhendo tudo que se pensa (e publica) a respeito, cremos valer a pena viajar no tempo da futura (?) tecnologia e tentar conceituar ou definir o que – nos parece – virá a ser a “máquina dos sonhos do combatente dos anos 2020”... Assunto que, por indispensável, não cabe só à COPAC ou à EMBRAER, e sim a todos nós profissionais por opção. Senão vejamos...

forum44-1Os resultados positivos (Kills) obtidos nos combates aéreos, desde priscas eras, devem – compulsoriamente – ser creditados às conquistas oferecidas pelas tecnologias embarcadas nas plataformas voadoras.

Inconteste... Desde que a engenharia fez abandonar as armas de bordo disparadas pelo “artilheiro à ré” das aeronaves enteladas da I Guerra Mundial, e permitiu apontar e disparar os canhões através do plano de rotação das hélices, o combate no ar adquiriu uma evolução multiplicativa incomensurável.

Somando às conquistas do domínio do ar por meio de dons e dotes do ser humano, além de reflexos, experiência, treinamento e uma avassaladora pletora de fatores, inclusive a “perícia” dos combatentes, o soldado-do-ar surgiu como fator de equilíbrio/desequilíbrio das guerras... A tudo isso devem ser somados os sistemas de armas e as crescentes conquistas no desempenho dos aviões (velocidade, razão de subida, desempenho e agilidade) que fez tender o prato da balança para aqueles que melhor desempenho aéreo obtivessem.

Em tendo se transformado em “real ameaça”, as aeronaves de combate transpuseram a “liça” dos gentis combates, em que os contendores aéreos se cumprimentavam antes da primeira curva, vindo a se transformar em um “embate de vida ou morte”... sanguinário.

Daí provém a tentativa de blindar as aeronaves de combate ou, inteligentemente, usar seu padrão de camuflagem/pintura para evitar serem vistos “antes”... Os projetistas passaram a buscar meios para utilizar a tecnologia do BVR (beyond visual range). Daí surge o radar de bordo e que, adicionado à tecnologia IR (infrared) reduziu a “assinatura” das máquinas no escopo dos sistemas de detecção e ataque de terra e ar. Era o início da busca pela aeronave furtiva (stealth) que usava formas exóticas (pouco aerodinâmicas) e material absorvente para “dissipar” sua presença. Ainda para isso cabia evitar a detecção de terra, e os motores foram “mesclados” às estruturas e as tomadas de ar e os exaustores “enterrados” na fuselagem.

Fumaça, rastros de vapor e som foram subtraídos, assim como as cargas externas e o armamento (sagazmente) passaram a ser internados ou perfeitamente adaptados ao perfil da aeronave (“conformal”).

Os probes de reabastecimento no ar foram escamoteados e/ou cobertos. Assim “encapuzados”, os aviões de combate deixaram (?) de ser avistados. As antenas passaram a ser eletrônicas e os sensores (de qualquer tipo) passaram a habitar o interior das fuselagens. A tecnologia laser foi incorporada ao sistema de visada, assim como as comunicações dobraram de capacidade. Por óbvio, os meios de perturbação nos sistemas de visada do inimigo (jamming), assim como as contramedidas eletrônicas foram adicionadas aos combates aéreos. Além disso – e transformando as aeronaves de combate em um “saco de gatos” – surgiram os despistadores – radar e infravermelhos (chaffs e flares).

Na medida em que o combate se expande e abrange maior largueza de território, as bases aéreas e sítios utilizados para a operação dos meios aéreos passaram a representar alvos prioritários, e sua destruição e/ou inoperabilidade passou a frequentar o cardápio dos objetivos de alta prioridade: imobilizar os meios aéreos ganhou foros de grandes valores.

Mas não parou por aí: complementando, surge a aeronave avançada de decolagem e pouso vertical (V/STOL) que, incorporando um revolucionário sistema de propulsão, pode decolar quase verticalmente com sua carga paga (combustível e armamento) em plenitude! forum44-2

Decorrente dessa fórmula surgem os sistemas de vetoração de empuxo que permitem manobrar as tubeiras de exaustão em busca não só da expandindo seu envelope. Além disso, o futuro avião de combate pode atingir elevadíssimos ângulos de ataque (AOA) na manobra de decolagem, também com o emprego da vetoração. E não só isso...

A vetoração do empuxo passa a ser um “plus” no combate aéreo, já que adquire a capacidade de direcionar o vetor no ar, permitindo a construção de (como aconteceu) bólidos aéreos sem empenagem!! Mas não parou aí a busca das soluções para “manobrar em combate”: a adição de reforçadores de empuxo montados no nariz das máquinas permite reduzir violentamente sua velocidade de perda e admite vê-las voar quase de “nariz empinado”!

O voo supercruise, quando a velocidade supersônica é atingida SEM o uso do requeimador, é a nova meta atingida, e passa a ser empregada apenas em momentos episódicos. Para dominar todas essas inovações, o sistema de autoridade eletrônica total (FADEC) passa a ser compulsório a bordo do novo guerreiro.

Com um salto colossal, as estruturas em material não metálico (compostos e super compostos) passam a oferecer resistência superior, com menor peso e imunes à corrosão. Dessa forma, com a economia de peso surge o aumento de combustível/armamento a bordo. E melhor manobrabilidade!

Com base nessas novas composições de não-metálicos surgem – por óbvio – as “estruturas inteligentes” que, agindo como sensores, mantêm a tripulação totalmente informada daquilo que se passa com seu arcabouço: danos de combate e fadiga de uso.

O posto de pilotagem terá sempre glasscockpit para alojar sistemas digitalizados oferecidos em painéis multifunção. Para não aumentar a carga de trabalho da tripulação, as informações de voo somente serão oferecidas quando solicitadas através de sistemas push-buttons que configuram o deslocamento da máquina em voo para qualquer fase. Sistemas duplicados de segurança alertarão as tripulações e apresentarão os procedimentos recomendados para superar emergências.

Todas as informações vitais para o desempenho aéreo serão projetadas no capacete do tripulante (HMD) e repetirão aquilo que está exposto no HUD (painel holográfico). Todas essas apresentações serão oferecidas em voo diurno e noturno.

O sistema de detecção e visada estará sempre alerta e, no caso de ameaça, além de reportá-la ao piloto, identifica o tipo de ameaça que se avizinha e participa no processo de defesa e contra-ataque, contraposição e revanche.

Com o posto de pilotagem “inundado” por switches e botões, a tripulação tem a opção de utilizar o comando de voz para todas as fases de manobra desejadas.

forum44-3O ambiente terrestre de operação estará conectado a uma base de dados que oferece a visualização da localização geográfica dos alvos, assim como o computador de bordo elabora uma proposta de metodologia para executar o contra-ataque. Incorporadas, também estarão as informações relativas ao inimigo e suas defesas.

Na busca da maior velocidade e confiabilidade no trânsito das informações, o barramento de dados das aeronaves passa a utilizar a tecnologia fotônica, através da fibra ótica (FBL). Além de mais leves, consomem menos energia do que a tecnologia por fio (FBW), acrescido ao fato de que no FBL o combatente está imune a interferências, radiações e efeitos eletromagnéticos (principalmente provenientes das explosões atômicas).

Ao final, qualquer avião de combate futuro não terá obtido nenhuma vantagem na batalha aérea, a não ser que sua panóplia de armas embarcadas tenha acompanhado a elevação tecnológica que foi aplicada à plataforma. Assim, a nova geração de armas deve ter tal acuracidade que permita “atirar e esquecer”... e cada vez a maiores distâncias.

O que tem sido provado pelos estrategos é que – a despeito do aumento da tecnologia disponível – em caso de igualarmos a implantação de “meios e firulas” entre combatentes, o embate aéreo (sem questionamento) retornará à luta de “gato e rato” do tipo da I Guerra Mundial.

A operação e o custo de produção do avião de combate futuro serão tão elevados que ninguém tentará outra forma de adestramento que não seja através da simulação.

No caso do armamento ar-solo, haverá sempre a dramática busca pelo “acerto na mosca”, o que estimula o surgimento das armas precisas, os avanços na tecnologia laser, as ondas milimétricas, o laser e o radar como pontaria/guiagem e controle, etc., etc...

Com os programas (tipo FX-1 e FX-2) de custos bilionários, a tendência da indústria é fabricar aeronaves multimissão (omni-mission) que – dizem os críticos – fazem de tudo um pouco e mal feito! Além disso – e pior (ou melhor?) – a aeronave multimissão poderá ser usada por qualquer operador: Exército – Força Aérea, Fuzileiros e... Marinha (desde que incorporado um aparato de lançamento e parada. E bons freios e um sistema de reverso...)

Assim dizem os ideólogos e teóricos... pois tudo aí está: disponível...

Para um observador – analista bem avisado (e a despeito de tudo antes listado), cabe uma simplória pergunta:
- A FAB vai guarnecer essas aeronaves da “família FX” com QUE TIPO de HOMEM? E ele já está à vista?

 

Lauro Ney Menezes – Maj Brig RR
Piloto de Caça – Turma de 1948

 gaivota...final de artigo


 

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(44-1) O avião de combate do futuro. Será assim? E o combatente...?
(44-2) Porque a compra dos Gripen é a vilã da FAB?

 

Porque a compra dos Gripen é a vilã da FAB?

caneta..'. início de texto 

Ultimamente, temos lido em vários meios de comunicação manifestações contra a compra do nosso novo avião de caça (Gripen NG), transformando essa aquisição na vilã da história da FAB e, segundo alguns, até da história do Brasil.

Frequentemente tenho lançado a seguinte pergunta em alguns círculos – “Por que não se acusar a compra dos C-105 Amazonas ou dos P-3 comprados da Espanha, ou dos novos helicópteros sendo montados na Helibras, ou dos helicópteros Sabre comprados da Rússia, ou dos C-99/A comprados da Embraer, ou ainda dos VANT, ou ainda dos A-29, ou dos Black Hawk, ou do futuro cargueiro reabastecedor da Embraer, ou ainda, do próximo Boeing 767 reabastecedor, ou ainda do Airbus da presidência da República, ou ainda da modernização dos C-95M, dos F-5M, ou dos A- 1M”.... enfim, todas as compras da FAB que têm a mesma característica da compra dos Gripen, ou seja, o alto valor.

Não é possível pensar que a compra de qualquer avião moderno possa ser feita a “troco de banana”, embora já tenhamos comprado aviões em troca de algodão. De qualquer forma, um país, para ocupar um lugar no mundo e proteger esse lugar, seja geográfico ou político, deve possuir forças armadas capazes (equipadas e treinadas) para garantir a sua soberania do terreno, do mar e do ar.

Dentro desse cenário, o que eu julgo mais interessante, é que não se vê, ou não se ouve, quase nenhum caçador defender o interesse da FAB em receber esses caças; da necessidade nacional de manter uma frota de aviões adequados como base do necessário poder de dissuasão, poder esse sempre ensinado nas salas de aula por onde os nossos caçadores necessariamente passam ou passaram.

Sabemos que seria muita ingenuidade pensar que a defesa aérea possa ser mantida com os aviões F-5 que se destinam a outro tipo de missão, por isso, o seu cenário de atuação é muito limitado para a missão de defesa aérea.

Apesar disso, os leigos (e alguns ditos entendidos) continuam fazendo afirmações que em nada contribuem e até agridem a integridade daqueles queforum44-4 decidiram pelo Gripen, como se as outras opções pudessem ser fornecidas gratuitamente. E o pior é que algumas dessas opiniões saem de oficiais já inativos, que deveriam estar zelando pelos nossos valores ou necessidades, a menos que preferissem ficar calados. Isso é predatório.

Recentemente li dois textos escritos por brilhantes e conhecidos caçadores que foram atuantes na nossa aviação e que eu pude constatar, nos anos de convívio com eles, o seu envolvimento e a sua integridade de caráter, por isso, sinto-me confortável para confirmar o crédito que eles merecem ao se expressarem favoravelmente à compra dos Gripen.

Alegra-me ver que esses oficiais (já na reserva) não se omitiram e manifestaram a sua opinião em defesa da ação que, também no meu ponto de vista, é a solução para garantir que a FAB esteja à altura de uma força aérea da atualidade, e não mais comprando aviões que nos foram empurrados por questões políticas ou mesmo de barganha para atender a outros interesses, ainda que nacionais.

O fato de estarmos insatisfeitos com muitas questões governamentais não pode invalidar as ações positivas, pois dessa maneira estaríamos defendendo nossos focos individuais e não o bem da Força ou do país.

A FAB está sendo vítima de agressões que parecem abafar as glórias do passado remoto e também recente, como os voos para a conquista do interior do Brasil com as linhas pioneiras do CAN, passando pela luta nos céus da Europa (Itália); a brilhante campanha no Congo; as missões para São Domingos, sem contar com as ações realizadas em nosso território e que considero tão gloriosas e de igual importância, como nos céus do Rio Grande do Sul, apoiando as vítimas do incêndio ocorrido na boate Kiss; nos céus de Santa Catarina, em apoio às vítimas da enchente em 1982; atualmente, nos céus do Espírito Santo e outras anteriores em que os protagonistas permanecem no anonimato, como no caso do resgate do C- 47 2068; na interceptação do avião cubano que tentava cruzar o Brasil sem autorização; no atendimento às populações de diversas localidades da região amazônica; no salvamento em navios em alto mar; e em muitas outras.

Já ouvi, em mais de uma ocasião, que a venda das bases aéreas estaria sendo realizada para pagar os Gripen, como se isso fosse atender tanto em valores como em cronograma de pagamento.

Também há quem diga que a construção dos estádios (arenas para a copa de 2014) esteja sendo muito mais danosa ao Brasil do que qualquer outra compra já feita e que talvez pudessem ter sido trocados por escolas ou hospitais; mas deixo isso para quem entende do assunto.

Entendo que a conjuntura atual gera insatisfações, frustrações, decepções e muitos outros sentimentos negativos, mas será que não deveríamos acusar as pessoas que realmente são as responsáveis por tais circunstâncias? Será que os pilotos de caça (defesa aérea), que terão de esperar ainda uns 5 anos para que o avião adequado chegue ao Brasil, não estão sofrendo tanto quanto aqueles que acusam essa compra como sendo a vilã da FAB?

Por que não sofrermos juntos essa demora e o descaso havido até agora quanto a essa compra que já está muito atrasada? Por isso, clamo a todos os caçadores que se disponham a levantar a voz contra essas acusações e se manifestem em defesa dessa nossa vitória, ainda que tardia

– a compra de um avião necessário para a defesa aérea do Brasil.

 

Luiz Alberto de Athayde Bohrer – Jaguar 73
Piloto de Caça – Turma de 1974
gaivota...final de artigo

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(44-2) Porque a compra dos Gripen é a vilã da FAB?

 


 

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