Águas

 

Estagnadas

 

(Fórum no 42, nov/dez 2013)

 caneta..'. início de texto

 

No sábado retrasado (n.e: 14 de setembro) um pequeno, mas seleto, grupo de pilotos de caça da reserva se reuniu no Clube de Aeronáutica da Barra, para discutir a educação do oficial combatente da FAB.

Era um dia de sol, o mar estava com cor caribenha e um swell de um metrão, bem servido, convidava mais ao surf do que a uma reunião.

Essa iniciativa, do Schittini e abraçada pela ABRA-PC, propõe um debate orientado e apoiado em informações de algumas iniciativas semelhantes em forças aéreas de países mais desenvolvidos, objetivando alertar nossos companheiros da ativa sobre a necessidade de mudança na bagagem intelectual que deverá ter o piloto de combate do futuro, para lidar com um ambiente que se imagina de grande complexidade e que estará por exigir uma nova maneira de pensar. E, por decorrência, reorientar os métodos de treinamento para esse fim.

Essas oportunidades, de encontrar alguns ex-comandantes, a quem muito admiramos e outros parceiros contemporâneos dos tempos operacionais, são sempre gratificantes. Há sempre o que aprender...

A conversa, enriquecida pela multiplicidade de experiências de todos ali presentes, facilitou o encontro do enfoque adequado e culminou com a decisão de aprofundar a pesquisa e o debate, para a elaboração desse “brado de alerta”, através de um documento produzido pela associação, a ser apresentado formalmente ao comando da FAB, em ocasião oportuna.

Entre as preocupações que afloraram no decorrer da conversa, ressalte-se aquela com a reação de nossos colegas da ativa, a quem cabe realmente as decisões. Poderiam considerar uma interferência? Presunção de um bando de “velhinhos”, ociosos e anacrônicos?

Mas isso foi resolvido facilmente com o entendimento de que não haveria qualquer intenção de crítica nesse alerta, tendo em vista sobretudo o fato de que essa mesma demanda está também na ordem do dia das forças aéreas mais avançadas, como por exemplo a norte-americana.

Mas a cautela determinou a decisão de limitar a iniciativa apenas à confecção e à apresentação do documento, única e exclusivamente como uma sugestão. A partir daí, sem maiores expectativas, nossa consciência “azul barateia”, estaria “aplacada”.

Vamos simplesmente colocar o bode na sala deles, ou melhor ainda, avisar que o bode já está por lá, se é que eles já não tenham se apercebido disso!

news101-3Houve também, fruto do estado político das coisas e da atual orientação ideológica do governo federal, uma dúvida sobre se valeria a pena fazer sugestões de cunho filosófico, Kant, Hegel, Descartes, Clausewitz, Creveld, Tofler, Douhet, para uma FAB que está longe de receber das autoridades governamentais o prestígio e respeito que seriam devidos a uma organização tão importante para a defesa da nação. Faria algum sentido?

Mas após algum debate, ficou claro que, seja lá qual for a estrutura administrativa e o equipamento disponível, o combatente do futuro necessitará uma bagagem intelectual diferente, sobretudo tendo em vista a complexidade do cenário de guerra.

Ouvindo e opinando, principalmente para entender do que se tratava a ideia, concluí ao final que não possuo qualquer gabarito para participar do grupo.

Não tenho experiência docente, a não ser como instrutor na Sorbonne da Caça, e na ativa afastei-me no posto de major, antes mesmo de fazer ECEMAR. Minhas experiências de vida, como executivo e empresário, não me parecem de fácil aplicação na área militar, e gerariam sem dúvida um grande conflito.

Já em paz com essa constatação, saí batido a tempo de pegar minhas ondas de final da manhã, antes da entrada do vento leste, que as encrespa e as torna menos prazerosas. E foi lá, em meio à espuma que me ocorreu, como última colaboração, um enfoque diferente do assunto.

A sensação de que o futuro combatente terá que pensar diferente, para enfrentar um ambiente de alta complexidade, tem vindo sempre através do enfoque da natureza da guerra. Será trinitária? Fracionada? E do inevitável avanço tecnológico. Será feita com drones? As informações de combate serão em tempo real?

Mas, em minha humilde opinião, um enfoque muito mais importante a ser considerado seria a natureza do homem (mulher) como profissional. E sob esse aspecto, o assunto transcende até mesmo a possibilidade de guerra, pois as chances dessa ocorrência em países desenvolvidos são cada vez menores.

Explico-me...

A FAB que eu vivi, desde meu nascimento no HCA até minha passagem para a reserva em 1994, foi planejada sob a ótica de uma geração social específica do pós-guerra (segunda), segundo sua
própria maneira filosófica. E desde então, vem sofrendo pequenos reajustes de proa, que, se a fizeram atender as expectativas da geração social seguinte (a de meu pai), não atenderam as da minha, da subsequente e muito menos atenderão as expectativas da geração social atual de combatentes.

Quando falo em geração social, em ciclos aproximados de vinte anos cada, eu o faço com base nos conceitos iniciais de Augusto Comte, Stuart Mills, Wilhelm Dilthey, Ortega Y Gasset, Robert Capa e, mais recentemente, de William Strauss e Neil Howe.

Para efeito de escopo, meu enfoque abrange a Silence Generation, que lançou as bases de treinamento da FAB no pós-guerra, passa pela minha, a dos Baby Boomers, hoje no alto comando e responsável pelo futuro, passa ainda pela Generation X, hoje no comando das unidades aéreas, e pela geração dos Millenials, hoje ocupando as funções de oficial subalterno nas unidades aéreas. “ ...a qualidade do oficial é o único diferencial possível.”

Cada uma delas tem características distintas e, por isso mesmo, necessita distintos estímulos intelectuais.

A “Geração Silenciosa”, com os veteranos e o Ortegal, nos anos cinquenta,  lançou as bases de treinamento da FAB, apoiada na experiência do Jambock no 350th do USAAF, que sequer admitira, até então, a prevalência do pensamento estratégico de Douhet, Seversky e Mitchell. O último foi inclusive à corte marcial, por suas ideias, posteriormente adotadas como dogmas.

Nos anos setenta, nossas bases intelectuais de pensamento sofreram localmente a notada influência de um grupo de instrutores da EAO, com sólida formação em psicologia no mundo civil, e encontraram ainda na aproximação com os militares norte-americanos o impacto dos programas de treinamento de liderança do Airmen Leadership Course (hoje Warrior Leadership Course), adotados na AFA em 1974.

Minha geração social, os Boomers, antes mesmo de chegar ao comando das unidades, já demonstrava o gap intelectual entre o treinamento que recebeu desde sua entrada na FAB, pensamento lógico aristotélico, cartesiano e “clausewitziano”, e a bagagem necessária para a tomada de decisões em combate, sistemas dinâmicos. E vejam que os F-5 e CINDACTAS trouxeram junto uma oxigenação de conceitos, que embora táticos, permitiam, aos mais interessados no assunto, emular suas fontes conceituais, estrategicamente mais avançadas.

Em todo o mundo, a geração dos Boomers é vista como uma “onda de choque”, por sua tendência à rejeição e à recriação de valores. O ponto de partida na vida civil são os beatniks, na sequência o movimento mundial de contestação estudantil de 68 e, o ápice, o movimento hippie. Seu conformismo na FAB demonstra sintomaticamente a incongruência filosófica de sua formação intelectual como combatente.

A geração social seguinte, a “X”, uma geração menor em número do que a anterior, recebeu a mesmíssima bagagem que a minha, e só ficou um pouco mais capacitada na prática pelos adventos do A-1 e do SIVAM. A influência norte-americana ficou menor, embora o mundo tenha paradoxalmente perdido a bipolaridade. news101-4

Essa geração social, embora mais tradicionalista, menos propensa a mudanças e valorizando mais as instituições do que a anterior, teve um forte impacto inicial da evolução tecnológica, sobretudo nas comunicações.

Dela a exigência é não apenas de sistemas dinâmicos, mas também do trato em ambientes caóticos.

Hoje no comando das unidades aéreas, como base de treinamento recebido não teve seu potencial desenvolvido como deveria. Sua única vantagem é a maior facilidade em entendimento com a geração social seguinte.

A geração dos Millenials, que comandará as unidades aéreas em quinze anos e equipará o alto comando em trinta anos, será a mais atingida pelo anacronismo da base de pensamento intelectual da FAB.

Essa última geração, que se assemelha em tamanho a dos Boomers, tem características que a diferem em muito de todas as outras, sobretudo devido ao gigantesco salto na área de informações e conexões sociais trazidos pela internet. Vem com imensas expectativas e com um fabuloso potencial a ser desenvolvido.

E é aí que está o meu enfoque: se não houver uma sensível mudança nas bases conceituais do pensamento intelectual e do treinamento do combatente, não seremos capazes de extrair das novas gerações sociais os seus melhores atributos.

E, numa força aérea de aeronaves menos qualitativas, a qualidade do oficial é o único diferencial possível. Havendo guerra, ou não!

No mais, há sempre a necessidade de mudar, pois, como dizia John Donne: “Águas estagnadas favorecem moléstias...”
Kau

 

Flávio C. Kauffmann – Ten Cel R1
Piloto de Caça – Turma 1978

 gaivota...final de artigo

 

 

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