caneta..'. início de texto título: Nós temos data-limk?

(Fórum no 39, mai/jun 2013)

  
Aliás, temos muito mais Data-Links do que precisamos, mas, infelizmente, não temos ainda o Sistema de Enlace de Dados em Rede de que a FAB tanto necessita. 

 LinK-BR1 ou LInk-BR2 

A CCSIVAM/CISCEA, durante a coordenação do Projeto SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia), teve a oportunidade de gerenciar e acompanhar os trabalhos técnicos do desenvolvimento e implantação do primeiro sistema de enlace de dados da FAB, Ponto-a-Ponto, que ficou conhecido como Link-BR1 e que envolvia os R-99 e E-99, e o CINDACTA IV.

A partir daquele trabalho, a CISCEA aplicou o conhecimento adquirido para ajudar a FAB a conseguir implantar o próximo passo operacional lógico daquela tecnologia; contratando da Embraer a documentação de protocolo e um emulador de testes (DLE) para um enlace de dados em Rede, que foi denominado pela Aeronáutica como Link-BR2.

Possíveis participantes do Enlace de Dados em Rede para a FAB.
Figura: Possíveis participantes do Enlace de Dados em Rede para a FAB.

Faltava apenas a definição dos requisitos específicos para cada possível participante do enlace, quando, com a ingerência dos “Teóricos do Absurdo” e a contínua interferência de empresas estrangeiras, os requisitos do Link-BR2 começaram a ficar cada vez mais complexos, acima até das características do Link-16.

AVanÇos ou reCuOs

Contudo, mercê do conhecimento adquirido durante o Projeto SIVAM por parte da CISCEA, foram obtidos significativos avanços: 1) a documentação de protocolo para o Link-BR2; 2) o fornecimento de uma bancada de testes para o sistema e interoperabilidade de cada participante, conhecida como DLE-2 (Data Link Emulator - tipo 2); e 3) um catálogo de mensagens elaborado em conjunto com representantes do Exército Brasileiro e da Marinha do Brasil.

Em face das exigências de transferência de tecnologia do Projeto SIVAM, a CISCEA conseguiu até mesmo finalizar, com o apoio do CTA e da PUC-RJ, um algoritmo Brasileiro, que passou a definir os processos de salto de frequência e de criptografia para o rádio que já equipava diversas outras aeronaves da FAB, para tornar nossas comunicações de voz e dados mais seguras, com tecnologia nacional.

Entretanto, a definição dos requisitos específicos para cada participante (técnicos e operacionais), que deveria ter sido realizada em paralelo, não avançou, enquanto setores da FAB, ao invés, buscavam se livrar da dependência do rádio que já tínhamos operando integradamente nas nossas aeronaves, sem problemas, em comunicações seguras de voz.

PREconCeitO ou deScoNheCImento

Exatamente esse rádio que já tínhamos era o que teria permitido a implantação do Link-BR2 rapidamente, permitindo à FAB treinar a operação de um enlace de dados em Rede e amadurecer os respectivos conceitos, até que surgisse uma doutrina consolidada sobre o assunto e que pudéssemos realizar o próximo salto tecnológico, definindo, por exemplo, uma interface que permitisse a utilização de rádios programáveis (software radios), de diferentes fabricantes.

Assim, termos como: Data Link Tático, Data Link Intraesquadrilha, Data Link Estratégico, Data Link na Banda L, Data Link para guiagem de mísseis BVR, SISTED (Sistema Tático de Enlace de Dados), “Ponte” de Protocolo, Gateway e outros que tais foram sendo utilizados confusamente e, em paralelo com a argumentação de empresas estrangeiras contra a Banda de UHF, que, por exemplo, é a Banda utilizada no Link-16, dizendo que a solução deveria ser na Banda L, findaram por atrapalhar e, até recentemente, inviabilizar a evolução do assunto na FAB.

NóS teMoS ou Não TemOs DatA-lInk!

Felizmente, a Embraer, com o conhecimento adquirido durante a implantação do Link-BR1 no Projeto SIVAM, notou o potencial do rádio que já tínhamos a bordo dos Super-Tucanos e criou o Link-A29, em Rede, que demorou a ser utilizado operacionalmente pela FAB.

Por acaso, depois de muito tempo instalado sem ser operado, uma iniciativa do, então, Comandante do 1º/3º GAv, permitiu que os “Terceiros”, com seus A-29, passassem a aproveitar muito bem essa ferramenta operacional insubstituível. Contraditoriamente, a Embraer implantou nos F-5 modernizados um novo sistema de enlace de dados em rede, o Link-F5, com tecnologia de empresa estrangeira, que não era interoperável com o Link-A29.

Assim, naquele momento, já tínhamos o Link-BR1 (Ponto-a-Ponto), o Link-A29 (em Rede) e o Link-F5 (em Rede), não interoperáveis.

Continuando no caminho da confusão, foram adquiridos os P-3, com um Link-P3, incrivelmente também incapaz de se comunicar com os demais, apesar de as aeronaves também estarem equipadas com o rádio que já tem a provisão para um enlace de dados em Rede.

Em paralelo, trabalhamos na coordenação do SISTED com o Exército e a Marinha e estranhamente conseguimos convencê-los a adquirir os mesmos rádios dos quais estávamos tentando nos livrar.

A FAB, em seguidas tentativas, continuou tentando a implantação de um enlace de dados em Rede e anunciou recentemente que uma empresa ganhou o Link-BR2.

CoMplexO ou SImpleS

Um complexo sistema de enlace de dados é contraditoriamente simples, porque sua função é apenas transmitir uma informação entre dois Operadores. É complexo, mas isso é o que, hoje em dia, fazemos cotidianamente com e-mails, por exemplo.

Os dois Operadores de um enlace de dados operacional podem estar em diferentes tipos de consoles, cabines ou postos de trabalho, e contarem com diferentes tipos de interface homem-máquina, mas precisam ter sistemas interoperáveis, que possam trocar informações entre si, confiável e seguramente. A sequência é simples:

 Exemplo de Enlace de Dados entre dois Operadores.
Figura: Exemplo de Enlace de Dados entre dois Operadores.

O Operador A seleciona uma informação que deseja transmitir para o Operador B ou para uma Rede com vários Operadores. O Sistema Operacional de A converte a informação selecionada em uma sequência de bits, que são enviados para o Subsistema de Enlace de Dados de A.

O Subsistema de Enlace de Dados A reformata esse trem de bits em pacotes, de modo a que possa ser compreendido e transmitido pelo Rádio de A.

O Rádio A transmite os pacotes de bits para o rádio de B (ponto-aponto) ou para os rádios de vários Operadores (rede).O Rádio B recebe a transmissão do Rádio A e recompõe os pacotes de bits, que são encaminhados ao Subsistema de Enlace de Dados B.

O Subsistema de Enlace de Dados B recebe os pacotes do Rádio B e recompõe o trem de bits original de A, que é encaminhado para o Sistema Operacional de B.O Subsistema Operacional B recebe o trem de bits original, que é convertido para a informação original, transmitida pelo Operador A, e entendido pelo Operador B ou pelos demais Operadores, no caso de uma Rede.

É claro que os “Teóricos do Absurdo” têm a capacidade de tornar muito mais complexa essa simples descrição de um sistema, incluindo diversas outras camadas tão complicadas quanto possível, em conformidade com seja lá qual for a teoria de tecnologia de informação do momento, transformando-a em algo ininteligível para os não iniciados.

sImpleSMente CoMpleXo

Naturalmente, considerando que o Link-BR2 será em Rede, com vários possíveis participantes, somente a respeito do protocolo de transmissão e recepção da Rede ainda temos que nos preocupar com a sincronização e sequenciamento das transmissões, com as chaves de segurança para as comunicações seguras e para definição da rede, com a alocação de canais e slots, com a geração, transmissão segura, atualização e implantação das chaves de segurança, o tamanho dos slots, a quantidade de participantes e o número de slots na rede, dentre outros itens.

O curioso é que o rádio do qual a FAB quer se tornar independente, antes mesmo de utilizá-lo operacionalmente em um enlace de dados padronizado, já tem todas essas soluções de rede embutidas e integradas, o que evitaria termos que definir requisitos complexos, antes de a FAB adquirir alguma experiência real no assunto.

Como exemplo, a Força Aérea da Suécia operou um sistema de enlace de dados simples durante mais de vinte anos, aceitando algumas limitações, antes de definir e implantar o TARAS, seu atual sistema, que é dotado de capacidade e funcionalidades excepcionais.

Além dos itens de protocolo de transmissão e recepção da Rede já citados, ainda precisamos nos preocupar com endereçamentos simples e múltiplos, fragmentação, armazenagem e desfragmentação das informações, dependendo do tamanho do que se quer transmitir, limites de tempo de vida das mensagens, filas e prioridades, retransmissões, pontes de transmissões, precisão e resolução dos dados, etc.

Para cada participante ainda seria necessário definir a simbologia na interface homem-máquina, o modo de entrada de dados, a integração dos dados nos diversos sistemas da plataforma, que dados seriam transmitidos ou retransmitidos, que dados seriam recebidos, etc.

inTeropeRabiLidaDE

Finalmente, temos que ter certeza de que os enlaces de dados implantados em cada plataforma sejam realmente interoperáveis, possam de fato trocar as mensagens previstas entre si corretamente, considerando que cada um dos participantes pode ter e provavelmente terá subsistemas (visualização de dados, interface homem-máquina, entrada de comandos, hardware etc.) completamente distintos de alguns dos demais.

É exatamente essa possível variedade de plataformas, cada uma com seus próprios subsistemas e condicionantes, que exige a definição de requisitos específicos para cada participante, apesar de já existir a documentação de protocolo, o catálogo de mensagem e o DLE-2 para os testes.

A implantação do Link-BR2 nos Órgãos de Controle de Operações Aéreas Militares (OCOAM), por exemplo, terá que considerar, além da própria complexidade do sistema, que os rádios terrestres estão em localidades remotas, normalmente conectadas ao centro operacional por enlaces satelitais, que incluem variados retardos na transmissão e que irão exigir soluções diferentes das aplicadas às aeronaves.

O Link-A29 é o que está mais próximo do Link-BR2, com algumas ressalvas. Não permite a transmissão de mensagens que exijam fragmentação, não possui retransmissão de mensagens e não inclui mensagens mais abrangentes de combate eletrônico, por exemplo.

EsTamoS quAsE Lá ou nÃo

Só falta que a FAB defina os requisitos técnicos e operacionais específicos para cada participante do Link-BR2, para que possa contratar o desenvolvimento, implantação e testes desse enlace para cada plataforma, de acordo com o fabricante/desenvolvedor do seu Sistema Operacional.

De acordo com o participante selecionado, quais mensagens ele deverá receber, transmitir ou retransmitir? O que o Sistema Operacional de cada participante deverá fazer com as Informações recebidas e como apresentá-las ao Operador? Como assegurar que as “chaves” sejam comuns e possam ser atualizadas oportunamente em todos os possíveis participantes do Link-BR2, sem riscos de segurança?

Diversidade de Plataformas e Sistemas envolvidos no Link-BR2.
Figura: Diversidade de Plataformas e Sistemas envolvidos no Link-BR2.

Como o Sistema Operacional de cada participante deverá estabelecer, entrar ou sair de um enlace de dados? Como definir quem será o gerente(Master ou até se haverá um ou mais gerentes da Rede? Quem será responsável pelo sincronismo dos participantes? Como fazer se houver perda de sincronismo? Como atualizar as chaves criptográficas com segurança? Quem será responsável por gerar e controlar a atualização das chaves criptográficas? Como dividir essa responsabilidade entre as Forças Armadas?

É FácIl ou dIfíCiL

É fácil. O Link-BR1 já mostrou o caminho e foi entregue com documentação completa, que poderia ser utilizada como modelo para o Link-BR2, mas exige dedicação, conhecimento e decisão, além de disponibilidade de uma equipe para trabalhar no assunto por período acima de dois anos.

Por exigências da carreira, a FAB tem dificuldade em manter seus Oficiais na mesma função por muito tempo, o que é essencial para o desenvolvimento de um programa com a complexidade do Link-BR2.

Por isso, a solução óbvia é terceirizar os serviços que exijam pessoal experiente e permanente, mantendo os requisitos operacionais sob controle dos especialistas da FAB, para finalmente definirmos os Requisitos Específicos para cada participante do enlace de dados em Rede da FAB e, tudo seguindo como deveria, do enlace comum às Forças Armadas.

O Governo já tem diversas soluções legais para esse tipo de terceirização de serviços, onde o trabalho de quem já tem ou teve experiência no assunto poderia ser aproveitado, com a elaboração de documentos e execução de serviços que não sejam de responsabilidade exclusiva do órgão público, mas sob a sua supervisão e fiscalização.

Além disso, seria possível utilizar a experiência da CISCEA com o Link-BR1 e da Embraer com o Link-A29, para manter o processo simples e prosseguir com a implantação do Link-BR2, ao invés de continuarmos a “perseguir o ótimo, sem nunca conseguirmos ter o bom”.

gaivota...final de artigo

Alvaro Luiz Pinheiro da Costa – MB (R1)
Piloto de Caça - Turma 1976
    
 

 

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