MEU NOBRE COMANDANTE
(Fórum no 34, jul/ago 2012)


Pensei muito antes de decidir escrever-lhe, mas em nome da lealdade que um dia assumi para com meus comandantes aqui vão algumas considerações que submeto à sua consideração…

Refiro-me a seu artigo publicado na Revista Aeronáutica no 278: “Reequipamento, modernizações: E o avião de combate futuro?” onde, em certa parte, o senhor diz: “...O sempre citado programa binacional Itália-Brasil (AMX)... Foi extremamente caro e mais serviu à EMBRAER. O resultado aí está. Que a FAB responda...”.

Não é a primeira vez que o senhor se utiliza dessa expressão “Que a FAB responda” ou “Com a palavra a FAB”, etc. para questionar a validade do produto final – avião de caça – entregue à FAB por conta desse pAMX (A-1A) dando rasante no Anhembirograma de desenvolvimento.

Assim, como até agora ninguém resolveu respondê-lo em nome da FAB, resolvi fazê-lo na qualidade de primeiro comandante da unidade que implantou operacionalmente a aeronave AMX.

O senhor não precisa ter dúvidas, a par de todas as vicissitudes do programa de desenvolvimento da aeronave, a FAB, ao final de tudo, recebeu um excepcional caça-bombardeiro que mudou completamente a forma de combater que a Força até então utilizava. 

Para atestar isso, por que será que a FAB enviou a aeronave A-1 (AMX) para participar do primeiro exercício “Red Flag” e não o fez com as aeronaves Mirage III e F-5E então existentes há muito mais tempo e completamente operacionais? O senhor já se questionou a respeito?

Pois eu lhe digo, a aeronave AMX era a única no acervo da caça operacionalmente capacitada a participar e contribuir para os resultados finais de um exercício daquela complexidade. Era a única na FAB a possuir equipamentos de contramedidas eletrônicas ativos e passivos instalados, a única a possuir lançadores de "chaff" e "flares", a única a possuir um sistema de navegação e ataque integrados que permitia a realização de uma missão de ataque dentro dos parâmetros então exigidos para uma missão operacional num cenário operacional como a “Red Flag”. Em resumo, o AMX era o único avião que possuíamos que entraria no exercício (guerra?) e não seria motivo de preocupação em termos de segurança de voo e operacional para os demais participantes. O senhor já imaginou uma aeronave T-25, sem rádio, voando na TeAMX (A1-A) soltando 'flaresrminal São Paulo na hora de pico noturno?

Outros exemplos podem ser dados: por que a Força Aérea utilizou o AMX para destruir com munição real pistas e pontes clandestinas abertas na Amazônia e não o fez com as aeronaves F-5E ou Xavante há tanto tempo operacionais na Força? Pois eu lhe digo, fez assim porque precisão absoluta e danos colaterais mínimos eram exigidos e apenas o AMX era quem garantia tal performance!

Dirijo-me ao senhor como piloto da aeronave e primeiro comandante da unidade e não como partícipe do programa de desenvolvimento. O AMX é um excepcional caça-bombardeiro que cumpre todos os requisitos operacionais estabelecidos à época pela FAB e que devolveu à FAB, em termos de eficiência operacional, cada centavo investido no seu desenvolvimento. 

Recordo-me quando do nosso primeiro deslocamento para participar da FIDAE (Feira Internacional de Aeronáutica e Espaço), realizada bianualmente no Chile. Ao pousarmos em Santiago com duas aeronaves, nossos amigos chilenos, ao saberem que havíamos decolado de Santa Maria, nos questionaram onde havíamos feito um pouso intermediário até Santiago. Ao saberem que havíamos feito um voo direto, sem reabastecimento em voo, Santa Maria – Santiago, eles manifestaram surpresa e admiração com a capacidade demonstrada pelo avião. Naquele instante, com essa simples demonstração de capacidade operacional, a FAB mudava todo o equilíbrio de forças até então existente no nosso contexto operacional sul americano.

É preciso, entretanto, analisar as capacidades da aeronave à luz dos requisitos estabelecidos. Querer analisar o AMX como um caça de combate aéreo puro, querer que ele se comporte em altitude como um F-16, F-18, Mirage ou coisa que o valha, é misturar alhos com bugalhos que não nos leva a lugar algum, exceto a conclusões precipitadas e erradas. Da mesma forma que debitar ao avião os problemas ocorridos durante o programa de desenvolvimento, inerentes a qualquer programa dessa natureza, também não é justo!

Foi assim que nós quase matamos operacionalmente o avião. Foram alguns de nós que o chamaram de F-32 – aeronave duas vezes mais cara que o F-16 -, de APX – aeronave pior que o Xavante – etc., simplesmente porque queriam que a aeronave tivesse um desempenho do caça dos seus sonhos e não do avião que a FAB havia especificado – um avião de ataque leve (lembra-se do A-X?). Tanto falaram mal que tivemos imensa dificuldade em conseguir voluntários para guarnecer a nova unidade aérea e voar a aeronave mais moderna no então acervo da FAB! 

Reitero, a FAB recebeu com o AMX um excepcional caça-bombardeiro, nos mesmos níveis de um A-7, Jaguar, A-10 ou aeronave semelhante e que cumpre eficazmente a missão que a FAB necessita. NAMX (A1-A) e toda a sua capacidade de cargaão preciso recordar, mas avião de caça não é apenas aquela aeronave que sobe como um raio, navega quase na troposfera e intercepta uma aeronave inimiga o mais distante possível do nosso território. Há que haver alguém que navegue com precisão, voe o mais distante possível, despeje uma carga de munição letal, com precisão, num alvo pesadamente defendido pelo inimigo e retorne com segurança à base de origem. Quase igual aos nossos veteranos do 1o Grupo de Caça na Itália!

Em resumo, meu nobre comandante, o programa AMX, além de ter servido para o desenvolvimento tecnológico da EMBRAER (e do Brasil!), deu à FAB (e ao Brasil!) um excelente instrumento operacional de suporte aos nossos mais lídimos anseios como nação. Não tenha dúvidas a respeito!

Um outro aspecto que gostaria também de comentar com o senhor e que, de alguma forma, vai contra alguns de seus comentários, é a respeito daquilo que o senhor chama de “corrida ao encantamento tecnológico”.Quando substituímos nossos usados e ultrapassados F-47 pelo moderno avião a jato F-8, o fizemos pelo encantamento tecnológico ou por uma necessidade operacional real?

Quando substituímos nossos obsoletos T/TF-33 pelos modernos Mirage o fizemos pelo encantamento tecnológico do voo supersônico ou por uma necessidade operacional real de "chaff" e "flares", cAMX (A1-A e A1-B) reabastecendo em vooontramedidas eletrônicas, um radar que “enxergasse” além de 20 milhas e pudesse monitorar mais de um alvo, estávamos fazendo isso por encantamento tecnológico ou por uma necessidade operacional real? 

Buscar a capacidade operacional que atenda aos anseios da nação brasileira é encantamento tecnológico ou vontade de poder cumprir a missão que a sociedade espera da FAB?

Quem está dentro da nacele de um caça precisa ter o que há de mais moderno para sobreviver à arena de combate, embora tenha que haver alguém que defina para ele qual arena de combate ele vai operar, condicionando, portanto, a tecnologia então necessária!

Entendo que deve haver um balanceamento entre qualidade e quantidade – de nada vale a mais moderna tecnologia se somos incapazes de mantê-la ou de tê-la em número insuficiente – mas não há como entrar em combate com estilingues enquanto nossos possíveis adversários estão armados com metralhadoras, não importando a quantidade de estilingues que nós possamos ter! Nesse sentido, arrisco dizer que a meu ver a FAB tem conseguido, a duras penas, esse tão difícil equilíbrio.

Meu nobre chefe, não me leve a mal, espero que o senhor entenda minhas manifestações, feitas dentro do mais puro espírito de Tribuna Livre do Piloto de Caça, da mesma forma que entendo as suas.

É sempre um prazer “duelar” idéias com um ex-comandante como o senhor, caçador da mais nobre cepa, já que fica muito mais difícil duelar no espaço, vendo-o às 5 horas, caindo do poleiro. Invariavelmente eu acabaria torto de tanto “G”.

Um forte abraço.

Quírico - Adelphi 01
 
Teomar Fonseca Quírico - Brig. do Ar R-1
Piloto de Caça - Turma de 1970

 

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