MISSILÍSTICA/BALÍSTICA E NUCLEARIZAÇÃO
(Fórum no 33, mar/abr 2012)


A notícia vinda a público, confirmando que a Índia testou sua capacidade de portar ogivas nucleares com o lançamento do míssil AGNI, acirrou questões com vizinhos e trouxe, a reboque, a questão da missilística e da nuclearização de alguns Estados. E o(s) possíveis processo(s) para contenção dessas conquistas.

A produção de artefatos espaciais nos países não listados como potências militares, há algum tempo ocupa espaço nas análises político-militares da atualidade, assim como também preocupa a “comunidad desenvolvida” do mundo. Porque, com o espalhamento das tecnologias nuclear e espacial (o número de países listados como fabricantes aeroespaciais mais que dobrou na última década), essa possibilidade deixou de ser remota – como o era – para representar algo factível neste novo milênio, para quase uma dezena de novos pretendentes: Índia, Brasil, Paquistão, Argentina, Coréia do Norte, Taiwan, Iraque e Afeganistão...

O domínio da missilística de grande porte, com qualquer tipo de “carga paga”, dará a esses países, a capacidade de penetrar e romper os sistemas de defesa de vizinhos e atacar alvos em profundidade. Há que ser notado que alguns desses “new-arrivals” estão à beira de conquistar o domínio da grande precisão (controle e guiagem dos artefatos), com cabeças-de-guerra de grande força destrutiva (convencionais ou nucleares), incorporadas aos seus vetores. E, tudo isso, poderá vir a ocorrer em curto espaço de tempo. Se já não está!...

Para a comunidade dos “grandes detentores da tecnologia”, essa hipótese assume uma feição de “ameaça” aos seus interesses já que, em algumas áreas, essa possibilidade gera uma ponderável alteração no “balanço do poder” criado por eles próprios, e preservado no status quo que lhes tem sido conveniente.

Foram as Grandes Potências que cederam aos Estados menos aquinhoados, o acesso ao mundo dos artefatos balísticos e de tecnologia nuclear. E esse acesso foi garantido através de duas formas: transferência de tecnologia voltada para atividades puramente espaciais e científicas e desenvolvimento de tecnologia direcionada para objetivos de interesse militar. Duas conotações aparecem nesse cenário de “concessões tecnológicas”. A primeira provém da ideia de – em transferindo tecnologia – iniciar-se, ao mesmo tempo, um forte programa de comercialização de sistemas, equipamentos, componentes e assessoria técnica. Como os “programas espaciais de gente pobre” se eternizam (o do Brasil já cruzou o seu 50o ano), não fica difícil detectar o peso comercial que pode adquirir essa atividade. A segunda, provém da ganância que os “grandes proprietários” de know-how têm em poder direcionar, limitar e/ou utilizar esses programas terceiromundistas em seus próprios benefícios...

Os programas de transferência de tecnologia puramente espaciais (ciência e tecnologia) estão sempre ancorados nas “aspirações e expectativas” das comunidades científicas subdesenvolvidas, e que se destinam à conquista da “capacidade e competência” para produzir e operacionalizar lançadores para sondagens meteorológicas e/ou atmosféricas. Ou para sensoriamento de dados. Ou mesmo, para romper “barreiras tecnológicas”, cujos resíduos irão se debruçar sobre outros programas.

Por decorrência, é possível imaginar que com essa transferência, alguns países poderão aprimorar bem mais a sua atual capacidade de lançar artefatos, atirar uma carga paga qualquer, a uma determinada distância e em uma determinada direção. E, além disso, prover meios para o aumento da tecnologia missilística-balística desses artefatos de sua propriedade para uso mais amplo.

Para os projetos militares, o processo de transferência teve outra origem: proveio da formação dos blocos regionais de defesa e segurança. Diversos países menores passaram a ser “clientes ou usuários” de tecnologia missilística de ponta. Esse know-how lhes foi transferido via treinamento operacional ou de suporte logístico, como membros desse novo bloco de defesa e com sustentação dos Grandes. Porém, sempre sob supervisão e controle...

Se esses países menores já desenvolveram sua capacidade industrial espacial (caso da Índia e do Brasil), é inevitável aceitar a possibilidade desse know-how vir a se transformar em “estímulo” para uma escalada em busca de nível superior de proficiência. Em um grande número de casos, esses países, não só já desenvolviam metodologia própria, como tentavam a “customização” dos equipamentos importados já existentes no seu patrimônio. São iniciativas “grosseiras”. Mas, às vezes, funcionam...

A “expansão do arsenal missilístico-balístico”, portanto, nada tem de diferente daquilo que aconteceu com o espalhamento de tecnologias de aplicação militar: Ao invés de estar sob “estrito controle”, hoje se encontram ao alcance de uma comunidade amplificadamente maior. Entretanto, algo mais existe naquilo que concerne às opiniões “pró e contra” os programas espaciais do tipo brasileiro e indiano.

Esses programas foram (e ainda o são) desenvolvidos sob inspiração e orquestração dos militares. Além disso, grande parte dos recursos provêm dos orçamentos das Forças Armadas, caracterizando (na visão internacional) “militarização” dos referidos programas. Isso porque há dificuldade de clarificação da linha que fixa os limites entre um programa de interesse “puramente científico” daquele de “aplicação militar”...

No entender mundial (?), cabe restringir os programas espaciais do tipo brasileiro, indiano e semelhantes, já que poderão conduzir à busca da “ocupação de lugar” no restrito Clube das Nações capazes de produzir artefatos não-tripulados e de transportar, pelo menos, (até) 500kg a 300km de distância em direção pré-estabelecida. Assim, em aplicadas restrições, as plantas de fabricação de sistemas de lançamento, sistemas de propulsão, de veículos de reentrada, motores-foguete, sistemas de guiagem, controladores de vetoração de empuxo, sistemas de segurança, espoletagem e disparo de cabeças-de-guerra, sistemas e subsistemas em geral, passarão a não mais ser exportados pelo Clube. Brasil e Índia, etc. inclusos...

A tese é que, estando o país (ou os países) desenvolvendo, com algum sucesso (mesmo que lentamente), programas de enriquecimento de combustível nuclear (caso da Índia, Brasil e outros poucos), e concomitantemente tendo se colocado na linha-de-partida daqueles que produzem e conseguem lançar artefatos balísticos (espaciais) com eficácia, o que lhes falta para dar o “grande salto?”... A quem, então, (não) interessam os programas espaciais terceiromundistas?...

Lauro Ney Menezes - Maj. Brig. Ref.
Piloto de Caça - Turma de 1948

 

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