A LIDERANÇA NA AVIAÇÃO DE CAÇA
(Fórum no 31, out 2011)

A FAB, atualmente, passa por um grande processo de modernização. Novas aeronaves, novos conceitos de guerra, novas táticas. Mas talvez exista uma entidade dentro da CAÇA que deva continuar incólume: A FIGURA DO LÍDER.

E como falar de liderança sem mencionar os heróis do 1o GpAvCa. A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial teve seus motivos políticos e econômicos que não são o foco deste artigo. Mas a volta dos nossos heróis da Itália e a atuação deles no pós-guerra, ah, isso sim, nos interessa muito. Fartamo-nos com seus contos, regozijos e gozações mas, acima de tudo, nos alimentamos de seus exemplos e atitudes forjadas com o calor da batalha.

Muito tempo após a Guerra, já em sua longínqua terra, Santa Maria, em 1963, o Veterano Fernando Péreyron Mocellin, que realizou 59 missões pelo 1o GpAvCa, escreveu o Livro “Missão 60”. Ele relatou que, certa vez, era o reserva de uma esquadrilha e que não esperava decolar. Porém, após várias panes de alguns colegas ele recebera a ordem do Oficial de Operações para liderar um elemento durante um ataque à ponte de Cazarsa, que ficou assim registrado:

Duas Esquadrilhas iam sair sob o comando do Maj Pamplona... Havia um feiticeiro no Campo aquele dia. Éramos nove. Rolamos, fizemos o check. Quatro apresentaram defeitos e o Maj Pamplona me ordenou que liderasse um elemento. Vibrei. Eu era um simples pica-fumo, mas desejava liderar uma Esquadrilha, mesmo que fossem dois aviões... quem diria, líder de Esquadrilha” (MOCELLIM; FERNANDO PÉREYRON, 2010, p. 174).
Que orgulho! Liderar!

Como passar pela campanha da Itália e não falar em Nero Moura! Mocellin (1963) contou que NOSSO COMANDANTE era um cavalheiro. Em certa missão de ataque, perto de Alessandria, Nero era seu líder de esquadrilha e ordenou-lhe um mergulho sobre três viaturas. Mas Mocellin sabia que ali não havia FLACK. Se tivesse, tinha certeza que não o mandaria. Ele teria descido primeiro. Sim, ele em pessoa, Nero Moura (MOCELLIM; FERNANDO PÉREYRON, 2010, p. 195).

Que orgulho! Que honra, ter sido liderado por Nero Moura!

Cabe nesse momento avançar no tempo e usar esses exemplos para algumas análises conceituais.

No curso de Ala Operacional e no Curso de Liderança de Esquadrilha de Caça o “pica-fumo”, “pixoxó”, “novinho”, “aspira”, ou outro termo que indique a situação de piloto em formação, aprende que a figura do Líder da Esquadrilha tem total prevalência sobre seus liderados.

Por projeção, ocorrem situações semelhantes para os Líderes de Missões Aéreas Compostas na condução dos voos de Pacote. Os outros componentes da formação projetam nessas pessoas um referencial de competência e de liderança situacional que os conduzirão ao sucesso da missão.

Mas será que somente pelo fato de um piloto ter sido designado para liderar formações e possuir centenas de horas de voo o habilitam a ser considerado pelas outras equipagens de combate como um LÍDER?

Poderíamos questionar se a conduta desses profissionais durante voos, campeonatos e demonstrações, foi suficiente para despertar nos seus liderados o respeito, a admiração e a confiança. E como é vista, hoje em dia, a atividade da liderança na aviação de caça?

Nossos pilotos em formação ainda se sentem motivados pela busca dessa condição?

A capacitação técnica, sem sombra de dúvidas é extremamente necessária para que o processo de condução de um voo de esquadrilha seja executado com sucesso, mas quando dissociado da habilidadehumana de se relacionar com seus pilotos, se torna ineficaz.

E como são vistos nossos líderes? Como se relacionam com seus liderados?

Existe competência no relacionamento humano para que sejam vistos como líderes ideais que são capazes de vender suas intenções e métodos e de conquistar a confiança dos seus alas em prol do cumprimento da missão?

Tentando responder a tantos questionamentos, buscamos na maneira pragmática de Peter F. Druker (autor consagrado sobre liderança e administração) tratar o termo LIDERANÇA, analisando certas situações tão corriqueiras para nós caçadores.

Peter F. Druker (1996) mencionou que dentre todos os líderes com quem trabalhou pôde observar uma qualidade indispensável na condução de equipes para o sucesso: RESPONSABILIDADE.

A questão também pode ser tratada assim: líderes natos podem existir, mas com certeza poucos dependerão deles. A liderança pode e deve ser aprendida, segundo Peter F. Drucker (1996). Teria sido o Ten Mocellin designado para liderar pela primeira vez, durante a Guerra, pelo seu Oficial de Operações, de forma leviana? Teria a Guerra dado àquele “pica-fumo”o amadurecimento necessário ao desempenho da função? Liderança não quer dizer posição, privilégios ou títulos. Significa RESPONSABILIDADE.

Os líderes são bastante visíveis, portanto servem de exemplo, segundo Peter F. Drucker (1996). Essa definição retoma a cavalheiresca postura adotada por Nero Moura diante do seu Tenente ao enviá-lo ao ataque às viaturas. Ele, Nero Moura, o LÍDER, focado no cumprimento da missão, jamais colocaria seu ala numa situação desfavorável!

No intuito de valorizar a formação dos líderes da aviação de caça, assim como ressaltar a importância e a RESPONSABILIDADE dessas pessoas na condução de seus alas e comandados, esse texto visou criar questionamentos e suscitar nossos líderes à reflexão.

Como frase de fecho, cita-se mais uma vez Peter F. Drucker (1996) que afirmou:

“LÍDER É ALGUÉM QUE POSSUI SEGUIDORES”

Helmer Barbosa Gilberto - Maj. Av.
Piloto de Caça - Turma de 1996
Comandante do Corpo de Alunos da EAOAR

 

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