ENCANTAMENTO VERSUS REALIDADE
(Fórum no 29, fev 2011)

O mundo aeronáutico militar vem, cada vez mais, demonstrando seu encantamento com o crescimento multiplicativo da tecnologia que apóia a capacidade operacional e do armamento de bordo de suas aeronaves de combate. A tal ponto vai esse encantamento que até, por absurdo, o tripulante – o combatente – e sua presença a bordo começa (?) a ser questionada. Possivelmente vem daí a titulação de “gerente de sistema” para o soldado-do-ar do futuro.

“Menas força”, diria um profissional que acredita na realidade proveniente do “estar em combate” já que – quase sempre – essa postura acadêmica (acima mencionada) não condiz com os testemunhos e relatos captados dos “homens em armas” que habitaram os céus nas refegas das guerras mundiais. Ou qualquer guerra...

A tal ponto chegou o “encantamento pela tecnologia embarcada” (e seus resultados), que essa mesma “comunidade acadêmica”, (não os combatentes) , tem sido totalmente dominada pelo “endeusamento “desses sistemas e, com isso, vende teses que somente poderão vir a ser comprovadas no pós-combate, e para ser relatada pelos que “dele voltaram...”

Vencer uma batalha no ar (ou qualquer batalha) sobrevem de diversos fatores, porém, o mais crucial – a despeito de quantos “giga” estejam a bordo – é a motivação do Piloto de Combate e sua crença na causa... Que é o que pode levá-lo, por decisão própria, até ao “supremo sacrifício”. E nada mais... E a história – além da nossa visão antecipativa – aí está para provar: o rumo da batalha muda em função do peso da vontade do guerreiro. Muito mais do quê... Mercenários são uma paupérrima e falaciosa substituição dos patriotas. A crença na causa transcende às diversas formas de motivação, e é grande impulsora do homem na guerra. A história do mundo está repleta de batalhas em que soldados extremamente profissionais foram derrotados por grupos maltrapilhos e mal equipados, que se moviam e guerreavam movidos pela (e na) crença!

“Espírito indômito, corajoso e heróico” não freqüentam os teclados dos computadores de bordo, mas são a força – motriz que faz com os cérebros e os membros respondam aos comandos, estimulados pela fé...

Os combates no ar duram intensos e mínimos segundos de tempo e é difícil, se não impossível, contestar que, no calor da batalha, o guerreiro estará – antes de mais nada – concentrando todas suas energias, pensamentos e funções vitais para se contrapor ao oponente. Nestes segundos, a convicção, que sustenta os seus propósitos, não está inserida na capacidade da memória dos computadores de sua máquina de fazer guerra...

Lealdade é outro sentimento que solda as peças que são capazes de conduzir o combate com determinação. E intimorato... A indispensável liderança é outra capaz de induzir os homens ao cumprimento de seu destino de combatente: a missão, “além do dever”...

A despeito da tecnificação oferecida a bordo do vetor, as características do combatente não mudaram através dos tempos e não há dissensão quando se diz que ele “deve possuir uma alma de bravo e um coração de guerreiro”.

Porque coração e não um banco de dados? Os atributos tradicionais permanecem irretocáveis: queremos um Gestor ou um Piloto em Comando? As Forças Aéreas (FAB inclusa) dedicam um grandioso esforço na familiarização dos seus Pilotos com os sistemas eletrônicos embarcados. Não será oportuno, somatoriamente, trabalhar e transformar cada “gatinho em um tigre?

Maj. Brig. do Ar Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma de 1948


 

 

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