REEQUIPAMENTO, TECNOLOGIA E ELEFANTES BRANCOS...
(Fórum no 25, ago 2009)


Recentemente, a mídia tornou público os Planos de Reequipamento das Forças Armadas. Matéria anteriormente mantida como de “prioridade e domínio interno”, passou a figurar (natural nas democracias maduras) como um assunto que requer – compulsoriamente – conhecimento e a participação da Sociedade. Que, afinal, “pagará a conta”. Um dos atuais dilemas das Nações Modernas, ao ter que dimensionar suas ForçBoeing F-18 Hornetas Armadas, é a decisão a tomar quanto à quantidade e qualidade da estrutura/meios a manter em serviço.

“Tamanho, sofisticação” (e custos) além do necessário, dificilmente encontram sociedades dispostas a pagar. Desde os últimos conflitos, os governos do mundo vêm tentando compensar o "gap" quantitativo porventura existente impondo a maior qualidade técnica possível aos seus Sistemas-de-Armas e Equipamentos. Evidentemente, a tecnologia de ponta também tem valor elevado, sendo possível imaginar que o custo final das Forças Armadas “de qualidade” seja bem maior do que o custo daquelas “de quantidade”. 

De qualquer forma, parece ser muito mais fácil às Forças Armadas (1o Mundo) a obtenção de verbas para a primeira linha de ação do que para a segunda! E é a partir desse ponto que parecem se originar os parâmetros que intervêm no processo de renovação mundial do material militar. Entre eles, o Brasil. Em que pese essa situação conjuntural, é óbvio que as indústrias bélicas do 1o Mundo não produzem seus Sistema-de-Armas e Equipamentos tendo como destinatário, exclusivamente, o seu mercado interno. E não o fazem somente por razões de ordem econômico-financeira, mas, também, por razões estratégicas, já que tudo é produzido visando, também, a exportação: “manutenção de área de influência”?

O Brasil aparece embutido nesse processo de duas formas: é um país emergente, que vive e sobrevive sob os percalços de membro dessa comunidade mas, ao mesmo tempo, é detentor de uma indústria militar de reconhecida competência e capacidade produtiva. Em que pese essa posição, o Brasil ainda é um grande comprador de equipamentos de combate de primeira linha. E, além disso, participa – associadamente – de programas multinacionais destinados a prover Sistemas-de-Armas para suas Forças Armadas e, também, para a (possível) exportação. Isso significa “ser capaz de especificar tecnicamente esses produtos e produzi-los”. 

Entretanto, e adotando a citada prática mundial, estabelece requisitos além da sua necessidade, de forma a procurar acompanhar a “corrida” de vendas de produtos militares. Sendo, no entanto, detentoSAAB-Gripen Dr de um mercado interno incapaz de absorver o "break-even" dos programas da linha industrial militar, é natural que seja compelido a elaborar especificações técnicas que devam atender às demandas das F. Armadas do Brasil e, além disso, disputar uma posição de exportador e fornecedor internacional.

“Encurralado” no contexto em que a meta é “quanto mais sofisticado melhor”, o Brasil termina por não poder se liberar desse círculo vicioso, mergulha no território das soluções extrarrefinadas para seu material de 1a linha em que, até as modernizações/revitalizações praticadas (supostamente baratas) custam fortunas! Com recursos financeiros limitados, quase nenhuma nova aquisição foi recentemente realizada pelo Brasil, tendo a Alta Administração Militar optado pela modernização/rDassault - Rafaleevitalização das frotas aéreas, navais e terrestres. Mas, mesmo sob essa tônica, as modernizações/revitalizações vêm sofrendo dos efeitos da mencionada circunstancialidade, já que a tendência tem sido incorporar tecnologia além do necessário. 

Além disso tudo, em todo o momento em que é aventada a hipótese de reequipamento das Forças Armadas, vem à tona a famosa (e falaciosa) tese da “transferência de tecnologia” vinculada à mencionada compra. Pergunta-se: transferência de qual tecnologia? É possível crer que um projeto de desenvolvimento de tecnologia de ponta para qualquer Sistema-de-Armas, que já consumiu bilhões de dólares e, às vezes, dezenas de anos de desenvolvimento, venha a ser entregue “na bandeja” para um pobre comprador que só vai adquirir 12 a 18 aviões de uma cadeia produtiva, cujo "break-even" exige um mínimo de 250 aviões para ser economicamente viável? Só na cabeça dos sonhadores... ou teóricos.

O sempre citado programa binacional Itália-Brasil, (AMX) não resultou em transferência de tecnologia e sim na transferência de “conhecimento de métodos e processos” de produção e industrialização. Foi extremamente caro e mais serviu à EMBRAER. O resultado aí está.

Que a FAB responda... Portanto, para manter os programas de reequipamento militar atualizados é imprescindível prever o quê serão as nossas Forças Armadas nos próximos 30 anos. Aí cabe, então, optar por soluções que sejam compatíveis com os nossos problemas, com o nosso cenário, sem nos ofuscarmos pelo brilho do avanço tecnológico excessivo, pois poderemos estar à procura dos populares “elefantes brancos”, sem dúvida incompatíveis com o nosso bolso e, mais do que isso, com o nosso cenário e a nossa política de Defesa!

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Maj. Brig. do Ar Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma de 1948
Jambock Honorário 128

 

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