RESPOSTA À CARTA ABERTA DO CEL. LUIZ ROBERTO
A HISTÓRIA RECENTE DO CANCIONEIRO, COMO EU A VI
(Fórum no 24, fev 2009)

Capa do cancioneiro anos 80
Caríssimo Cel. Luiz Roberto, ou Francês, ou Liró (LRO)

Fiquei muito feliz em ler a sua carta no boletim da nossa ABRA-PC, pois imaginava que o Sr. tivesse perdido completamente o contato com a nossa gente. Eu pensava em escrever para a ABRA-PC como acompanhei o cancioneiro nos meus 15 anos na Caça, e sua carta me fez apressar essa escrita e respondê-lo ao mesmo tempo.

Em 1993, mesmo surubado com os pepinos de Chefe da Secretaria do saudoso Brig. Starling, no CATRE, o Sr. foi, juntamente com o Maj. Egito, o grande mestre do cancioneiro para a minha turma, com a imprescindível colaboração dos Tenentes Leonardo, Campos, Vilela, Rezende, Fontenelle, Melo, Alexandre e outros. Às sextas-feiras, bastava alguém ameaçar puxar uma música, e lá ia o Vilelinha para a Informática imprimir o arquivo txt do “Pornocancioneiro”, que abrangia também as músicas “socila” posteriores à primeira impressão do livreto branco, feita pelo Maj. Brig. Menezes quando presidia a Infraero, ainda na década de 80. 

O que fazia um bando de marmanjos embriagados juntarem-se para cantar músicas que reproduziam fatos de épocas e pessoas por vezes totalmente desconhecidas? Não sei. Talvez proclamar o orgulho de pertencer a essa tropa de elite fechada e mafiosa chamada Aviação de Caça; talvez imitar inconscientemente nossos Veteranos, que faziam isso na Itália para se unirem e se protegerem dos medos e tensões da guerra; talvez sacanear o próximo, que servia em locais não tão próximos assim. O fato é que nós pegamos gosto pelo Cancioneiro!

Em 1994, toda a minha turma permaneceu na Unidade, e recebemos mais entusiastas das Ximbocaças: Montandon, Berto, Freire, Pralon, ..., e os estagiários Cramer, Geandro, Gama, Fábio Leite, entre outros. E mais: recebemos um grande Comandante, que mantinha entre suas prioridades de Comando a preservação das tradições da Caça: o Sr.

Cito apenas dois fatos:

1. Em 06/10/94, o Sr. organizou na Toca o Picadinho da região NE, para aqueles que não pudessem ir para o do RJ, mas quisessem também homenagear o Grupo de Caça da Itália. Pena que não vinCapa da Ópera do Danilogou nos outros comandos... 

2. Nesse Picadinho, e também no final do curso, os estagiários encenaram a Ópera do Danilo. É inacreditável, mas poucos foram os anos em que isso voltou a ocorrer. Nesses dois anos, quando o 1o/4o G.Av. deslocava para NT, recebíamos o reforço do Almeida, Barbacovi, Lorenzo, Augusto César, Travassos, Xibiu, Rodrigo, Velasco, Giancarlo, Macedão, Alves, Cláudio Chiquinho e outros; e tome cerveja e cancioneiro!

Em 1995, os dez que foram para o 1o/4o G.Av. levaram consigo o entusiasmo pelo cancioneiro, e eu, particularmente, um disquete com uma cópia do txt do Vilelinha. Os pilotos que nos receberam lá absorveram a cantoria, e o cancioneiro passou a embalar as tardes e noites de sexta-feira no bar do Tetéu. Lembro com imotivado orgulho que uma comissão de novinhos embarcava na SIGA-ME e levava cerveja para o pessoal do Joker, que após pousar de Xavante, bebia a primeira gelada logo após desligar o interruptor da bateria, ainda amarrado na nacele.

Nem preciso falar que, ao entrarem no bar, eram recebidos com um sonoro “Bem-vindo, ...” Lembro também quando, recém-chegado do TAC, o próprio Cmt, Ten. Cel. Sperb, sacou do macacão um guardanapo com um manuscrito da “Pacáudia”, recém-criada pelo Penedo, que cantamos em altíssimo e alegre tom (desculpem, Centauros da época, eu sei que para vocês esse assunto é sério...).

Em 1996, por sugestão do Barbacovi e para conhecê-la melhor, passamos a cantar também partes da Ópera do Danilo nas cervejadas, e aí eu comecei a admirar essa obra-prima dos nossos Veteranos. E me pergunto: como é que não conseguimos ainda dar a ela um vulto nacional na sociedade civil? 

Ainda em 96, em uma das paradas do Xavante por problemas de motor, eu e o Martins reeditamos e encadernamos o chamado “pornocancioneiro”, que reunia também as músicas recém-criadas, como a do Barrica e do Pato Rouco. O Sr. nos ajudou a corrigir alguns erros do original, e na capa tinha uma americana muito bonita, de chapéu, semi-nua, lembra? Deu um trabalhão, mas mandei um exemplar para cada Esquadrão e uma cópia personalizada para cada piloto contemporâneo que eu considerava merecedor, além do Maj. Brig. Menezes (37 ao todo).

Nesse mesmo ano, o Sr. já havia saído da Caça e servia em Recife (RF). Por enorme coincidência, realizando um cheque pelo SERAC, o Sr. estava passando por Fortaleza (FZ) na noite de 23 de outubro. O traje para o coquetel no Cassino dos Oficiasi (CASOF) era o 3oB, mas o Sr. só dispunha de um paisano muito brejo. Como “o Erro de Halo existe e deve ser cultivado”, seu ingresso foi autorizado pelo Cmt. da BAFZ após apelCapa do Cancioneiro Pornôo dos seus ex-comandados, e puxamos ali todo o Cancioneiro, incluindo a Rosinha e a homenagem da nossa geração à D. Alvani. Ali torcemos pela sua volta à Caça, quem sabe no comando do Grupo? Acabou não dando certo, mas pelo menos o Sr. “perdeu” para um brilhante amigo de turma, o Jordãozinho, sobre quem ainda escreverei para a ABRA-PC.

Em 1998, fui transferido para o Grupo, e levei comigo outro disquete com o Cancioneiro atualizado. Em SC, reencontrei o Nelson, o Macedão, o Rodrigo, o Almeida e muitos outros, além do Denison, que pagava aluguel prá gente mesmo sendo do 1o/16o G.Av. Por aí já seriam três Unidades de Caça a cantar freqüentemente o cancioneiro, não fosse a proibição do então Cmt. do 2o/5o de que seus jovens instrutores levassem o cancioneiro aos estagiários (fiquei muito feliz quando o filho desse Cmt, 2o Ten, numa Reunião da Aviação de Caça (RAC) alguns anos depois, pediu-me um exemplar de cada livreto).

Em 2000, o 1o/4o G.Av, por influência dos Jaguares que por lá habitavam (sempre o GDA...), passou a ximboca para as quintas-feiras, iniciando aí o assassinato do cancioneiro. Segundo relatos dos novinhos de lá, quem não ia às sextas continuou não indo às quintas; e quem ia, continuou indo; só que a bebedeira ficou restrita porque não era legal chegar tarde em casa, com a novinha emburrada, tendo que acordar cedo e de ressaca no dia seguinte, para trabalhar e voar com ficha.

A coisa esfriou...

Também em 2000, no Grupo, eu e o Newton fizemos nova reedição do “pornocancioneiro”, incluindo a Despedida de FZ, Casados x Solteiros e outras. Com patrocínio pessoal e anônimo até hoje do Maj. Brig. Menezes, imprimimos e encadernamos uns 200 e distribuímos na RAC.

Em 2002, a pá de cal: o 2o/5o G.Av. transfere a ximboca da sexta para a quinta-feira. O Sr. consegue imaginar o clima de descontração dos estagiários nas noite de quinta, sabendo a rotina que os aguardava na sexta? Pois é, velório é mais animado. E permanece assim até hoje. 

Em 2005 eu era o responsável pelo Almoço do Caçador, e, atendendo a uma sugestão do Cel. Peixe Lima, criei coragem para separar o cancioneiro do porno, refazendo e revisando todos os dois livretos. PediCapa do Cancioneiro de 2005 ajuda a todos os conhecedores, a todas as Unidades, à ABRA-PC e aos ases da Terceira Força Aérea (FAE 3), mas somente o Kaufmann e o Denison entraram no cheque-rádio, com valiosíssimas contribuições.

Consertamos e separei tudo, acrescentando as explicações sobre as origens de todas as músicas. Foram distribuídos 200 exemplares do normal, mais 30 do porno, que idealmente deve ficar num círculo mais restrito às Unidades.

E nessa RAC introduzimos no Almoço a projeção na parede das letras das músicas para acompanhamento geral. Era uma tentativa de salvar nosso cancioneiro do "nose down" a que a inépcia do 2o/5o G.Av. por vários anos o condenara. A FAE 3 poderia ter ajudado nas RAC de 2007 e 2008, dando maior peso ao cancioneiro e à Ópera nas provas no Torneio Informal, em que se disputa a “Maria Boa”, mas não o fez, embora tenhamos bolado até provas para ela.

Em 2007, o último resquício do 1o/4o G.Av, com Sobral, Sá e Lordelo, ainda tentou dar um gás com os estagiários do Joker, mas sem muito eco entre novinhos e instrutores, infelizmente. Atualizando o Sr. num papo de cerveja, de 96 para cá tivemos o seguinte quadro:

1) Os dois esquadrões de ataque e a 2ª ELO viraram Unidades de Caça equipadas pelo A-29, e hoje são responsáveis por formar nossos Líderes de Esquadrilha. São essas as únicas opções de destino que os estagiários têm após o curso no 2o/5o G.Av, quadro pior do que aquele trote frustrado que o Sr. tentou aplicar na minha turma em 1994 (ver http://www.abra-pc.com.br/estoria41.html#411);

2) Para suprir a óbvia falta de voluntários para guarnecer essas Unidades, decidiu-se por ressuscitar os Lobisomens, aproveitando os pilotos de ataque que lá já estavam;

3) Após voltar da reciclagem no 2o/5o G.Av., onde se transformava em Líder de Esquadrilha de Caça em dez meses, esse povo ganhava prioridade na transferência para a 1a linha, em comparação aos companheiros de turma (pois é, deixaram...), e em pouco tempo partia das Unidades de origem, deixando frustrados os pares de sangue puro e os instrutores de Natal (NT), estes com a última prioridade para transferência (é verdade, inverteu-se tudo em relação à sua época); 

4) O A-1 tornou-se o avião de Caça mais atrasado (o Xavante é café com leite) e, como Santa Cruz (SC) e Santa Maria (SM) não são lá essas coisas, poucos são os voluntários para ele;

5) Todas as Unidades de Caça fazem a sua Ximboca às quintas-feiras, à exceção do nosso glorioso Grupo de Caça, que a mantém na sexta;Capa do Cancioneiro de 2007

6) O Melo, o Leonardo, o Campos, o Augusto César, o Giancarlo viraram Comandantes; o Macedão, o Fábio Leite, o Tanaka viraram Operações; mas não conseguiram reverter o dia da ximboca nem gerar no novilhal o entusiasmo pelo cancioneiro que eles mesmos tinham; e

7) Na RAC e nos eventos cervejísticos da Caça, normalmente quem fica até o final é o pessoal mais antigo. Qualquer Tenente é exceção raríssima.

Escrevi tudo isso para mostra que o Sr. fez muita falta nesses últimos anos, pela sua liderança, pelas suas histórias e pelo seu entusiasmo pelas nossas tradições. Creio que a ida da cervejada do 2o/5o G.Av. para a quinta-feira tenha sido o ponto da irreversibilidade para o desaparecimento do cancioneiro, que eu prevejo para 2010 ou 2011, quando os remanescentes da nossa época não mais estiverem nas Unidades.

Ah, quase me esqueci: quem convida para a RAC é a BASC, não a ABRA-PC. O nome do Sr. está em duas relações: “Caçadores da Reserva” e “Ex-Integrante do Grupo”, mas com endereço da Barreira do Inferno, que o Sr. nunca atualizou. Mas após a sua “carta”, o S-3 do Grupo, seu ex-comandado Cramer, providenciou a atualização ainda a tempo para que o Sr. recebesse o convite para a Ximboca da Saudade e Dia do Pif-Paf, que ocorrerão no "Jink Out" Bar no dia 21/11.

Até lá, e um forte abraço!

A LA CHASSE !
(como o Sr. nos ensinou)

SENTA A PÚA !
(como os Veteranos nos ensinaram, e nós acrescentamos logo após o tradicional grito francês)

Maj. Av. Carlos Alberto Ronconi Júnior
Piloto de Caça - Turma de 1993
Jambock Honorário 128

 

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