PROJETO FX-2
ALGUNS COMENTÁRIOS A RESPEITO
(Fórum no 23, set 2008)


Num dos últimos boletins da ABRA-PC fiz algumas reflexões a respeito do Projeto FX-2, ao qual a Força Aérea recentemente deu início, que no meu entendimento ficaram incompletas; alguém poderia dizer que levantei a bola, mas acabei não dando a cortada. Os comentários que se seguem são mais uma tentativa de fazer algumas considerações para a reflexão daqueles que agora estão responsáveis pela condução do projeto.

O americano se utiliza muito de um conceito "Lessons Learned" (lições aprendidas) para analisar qualquer grande evento realizado, tirar dele os ensinamentos maiores de forma a evitar a repetição de erros em situações semelhantes no futuro. Eles aplicam isso para as guerras de que participaram, exercícios realizados, nos projetos desenvolvidos...

Exprime muito o espírito geral do americano em fazer as coisas. Nós, infelizmente, não temos muito desse espírito, e creio que no alvorecer do projeto FX-2 valeria a pena olharmos um pouco para trás e verificarmos o que fizemos de certo ou de errado em projetos passados. Que erros sejam cometidos é natural, mas que pelo menos que sejam novos erros e não os mesmos do passado!

Apenas para ser mais didático e não me perder nos comentários, permitam-me dividir em tópicos as idéias que desejo colocar:

1- Conceito Operacional

Para quê desejamos o novo avião, qual o ambiente operacional em que ele vai ser empregado, para qual “guerra” queremos que ele lute?????

Naturalmente que isso decorre de uma Política maior, de governo, dentro da qual a política de emprego da Força Aérea tem que estar inserida. Em verdade falo na Política Nacional de Defesa que, teoricamente, define o preparo e o emprego das Forças Armadas. O que fazer, conforme definido pelos teóricos!

Apenas para ilustrar, recentemente o Secretário da Força Aérea americana (cargo civil correspondente ao do nosso antigo Ministro da Aeronáutica) e o Chefe de Estado-Maior da USAF (cargo correspondente ao do atual Comandante da Aeronáutica) foram demitidos. Em meio às muitas explicações que se dá nessa hora, uma que sempre permeou em todos os instantes era que eles estavam muito preocupados em priorizar a tecnologia "stealth" (aeronaves invisíveis às ondas eletromagnéticas de radar), querendo adquirir mais aeronaves F-22, além daquelas autorizadas pelo Congresso, ao invés de centrar seus esforços no apoio às operações no Afeganistão e Iraque, com o emprego de UAV (aeronaves não tripuladas). Ou seja, eles estavam querendo empregar a USAF em um contexto operacional diferente daquele imaginado pelo poder político da nação.

Não adianta querermos a última tecnologia disponível, o caça da última geração se isso não estiver definido na Política Nacional de Defesa. Podemos até tentar, mas certamente não teremos a autorização para iniciar o projeto ou mesmo os recursos financeiros e a prioridade devida para bancarmos o desenvolvimento. Será que um pouco disso não aconteceu no projeto F-X?

2- Requisitos Operacionais

A partir do conceito operacional conforme definido pela Política Nacional de Defesa, ou dela deduzido, é que os requisitos operacionais de um novo sistema são definidos. Os teóricos diriam que uma vez definido “O que fazer” pela política de defesa, os requisitos operacionais seriam o “Como fazer” para atingir os objetivos traçados pela política.

Alguém poderia dizer que isso funciona em país desenvolvido e que se nós no Brasil formos aguardar a classe política se mexer para fazermos alguma coisa vamos morrer na praia. Talvez isso seja verdade mesmo, mas é bom lembrar que o tempo do “prendo e arrebento”, para o bem ou para o mal, já passou, e que vivemos dentro de uma nova realidade política. Nesse sentido, se os políticos não definem nada, temos que ter sensibilidade para não querermos alguma coisa fora da realidade brasileira. Não há como ter uma Força Aérea Suíça no Brasil, da mesma forma que não é possível termos um Congresso "a la Suíça" em nosso País.

Uma vez mais é interessante recorrermos à experiência das "Lessons Learned" dos nossos irmãos do norte. Recentemente a USAF teve cancelada uma licitação para a compra de novos aviões reabastecedores, denominados KC-45, para substituir os KC-135 há décadas em operação. Na concorrência realizada ganhou a versão reabastecedora do A-330, da EADS (Empresa Européia de Sistemas Aeronáuticos de Defesa), em detrimento da versão avião-tanque do 767, da Boeing.

A Boeing entrou com recurso e o "General Accouting Office" (GAO) americano, órgão correspondente ao nosso Tribunal de Contas da União (TCU), cancelou todo o processo licitatório com base no argumento de que os requisitos operacionais não estavam bem definidos e foram mudados ao longo do certame. Da mesma forma, a licitação para a USAF adquirir um novo helicóptero para a missão C-SAR (Combat Search and Rescue), ganha por uma versão do CH-47 Chinook, foi cancelada com a mesma justificativa.

De tudo isso, a experiência obtida é que se os requisitos não forem muito bem definidos, se eles não estiverem exatamente dentro dos objetivos pretendidos pelo poder político (há a tese de que a concorrência do avião-tanque foi cancelada apenas porque venceu um avião estrangeiro, em detrimento de um produto americano e da política do "Buy America" ou "compre americano" do Congresso americano), se não houver uma perfeita harmonia entre aqueles que definem os requisitos com aqueles que vão fazer a compra do sistema, as chances de insucesso são enormes.

Claro está que os tenentes e os capitães na ponta da linha têm o direito de querer e advogar pelo melhor, o mais atualizado, o mais operacional, a última geração etc., mas a pergunta que se faz é: realmente é isso que necessitamos? Alguém ao longo do processo tem que filtrar o desejável do possível, caso contrário corremos o risco de não ter nada. O perfeito é inimigo do bom. Será que um pouco disso também não ocorreu no projeto F-X?

3- Disciplina Intelectual

Talvez seja o item de maior dificuldade de se obter, de maior fragilidade, uma vez que envolve as pessoas e as organizações, e a forma de elas serem e atuarem.

Um projeto dessa natureza, com essa amplitude, naturalmente permeia comandos e organizações de diferentes estruturas administrativas. Nesse sentido, é importante que seja designado um gerente do projeto no maior nível hierárquico da Força, que por sua vez indicaria um gerente de nível intermediário para, depois, compor-se o grupo técnico de acompanhamento.

Todo esse pessoal deve funcionar nos mesmos moldes de uma Força Aérea Numerada ou Componente (acho que agora o termo é esse!), onde meios de diversos comandos atuam de forma integrada e harmônica sob um comando único. Não é preciso muita gente, mas é necessário que cada um saiba exatamente as suas atribuições e as suas responsabilidades no projeto.

Ciúmes, divergências pessoais, filosofias diferentes entre comandos e organizações, tendem a minar a participação coesa de todos em prol do objetivo maior que é levar a bom termo a implantação do novo sistema. É muito fácil que o projeto, ao longo do tempo, fique conhecido como sendo o projeto do Fulano de tal ou do tal comando.

A “Fulanização” de um projeto é um bom indício de que as coisas não estão andando bem! Não é raro isso acontecer e há que se ter muita disciplina intelectual para manter o entendimento de que o projeto é da Força como um todo, e que todos, em última instância, serão responsáveis, diretos ou indiretos, pelo seu sucesso ou fracasso.

Disciplina intelectual, também, para manter a atenção sempre voltada para os requisitos operacionais estabelecidos. Eles têm que ser uma verdadeira bíblia para o pessoal responsável pela implantação. É muito fácil no dia-a-dia perder esse referencial de vista, à luz das novas tecnologias e dos novos equipamentos que são lançados no mercado. Há uma pressão permanente em se adotar um novo sistema que acabou de ser desenvolvido, substituindo um, agora “obsoleto”, especificado!

Claro está que se pode fazer isso, nada é imutável, mas é preciso ter consciência de que isso certamente será cobrado, e muito, no futuro, tanto em termos de custo, de prazo ou até de performance! A cada mudança no objeto contratado (requisitos especificados), mais aumentam as nossas chances de termos problemas ao receber a nova aeronave.

Além do mais, é importante ressaltar que a busca cega do estado da arte é uma falácia, principalmente num ambiente como o aeroespacial, que lança uma nova tecnologia em curtos espaços de tempo! Ressalto uma vez mais, o F-22 de ontem já está obsoleto em relação ao F-35 de hoje, que já está obsoleto em relação ao F-XX de amanhã! Na busca do mais atualizado acabamos perdendo o momento político favorável, a verba disponível, o equipamento oferecido, etc., terminando com nada de novo na linha de vôo!

É importante, também, disciplina intelectual para manter o foco sempre ajustado no objetivo maior do porquê ou do para que estamos querendo um novo sistema. Se nossa necessidade é de um caça-bombardeiro, se foi isso o que especificamos em nossos requisitos, não há como e porque exigirmos dele uma performance de superioridade aérea e acharmos a aeronave um fracasso simplesmente porque ela não sustenta 7G a 25000 pés, 30o/seg de razão de curva, etc.!

Se temos vários produtos sendo ofertados, temos de escolher o melhor, à luz dos requisitos e especificações emitidos, e não ficarmos numa discussão infindável onde entra tudo, até a beleza ou feiúra do avião que está sendo escolhido! Disciplina intelectual, inclusive, para resistir àquela oferta feita na undécima hora, por um “galego” muy amigo, oferecendo mundos e fundos e o paraíso no céu!!!!

No mais, se dentro das opções consideradas escolhermos desenvolver um projeto dentro de casa, com a nossa indústria aeronáutica nacional – afinal temos a terceira maior produtora de aeronaves no mundo –, que pelo menos nos livremos de nosso complexo de vira-lata, conforme definido por Nelson Rodrigues, não achando que somente nós temos dificuldades e tropeços no desenvolvimento de uma aeronave e que tudo made in Brazil é pior.

Sempre é bom lembrar que um dos protótipos do F-22 acidentou-se num dos primeiros vôos de ensaio, que o projeto do A-400M, aeronave de transporte militar européia, está atrasado quase uma dezena de anos, que o contrato de produção do Rafale atrasou em mais de ano simplesmente porque ninguém queria pagar o custo de modernização de um projeto recém-desenvolvido! Isso para não falar do C-130J, do Airbus A-380, do Boeing 787... e de tantos outros!

Finalmente, até porque já me estendi em demasia, vale a pena citar as diversas fases de um projeto, conforme retratado numa pequena ilustração obtida por ocasião de experiência vivida no exterior, em atividade de desenvolvimento de uma nova aeronave.

Fases de um Projeto:

  1. Entusiasmo
  2. Desilusão
  3. Pânico
  4. Procura dos Culpados
  5. Punição dos Inocentes
  6. Recompensa aos Não-Participantes

Como podem ver, não é privilégio somente nosso as dificuldades vivenciadas no desenvolvimento e implantação de novos sistemas. Eu, particularmente, acrescentaria um item antes do Entusiasmo, haja vista que a passagem para a fase de Desilusão não é tão prematura e repentina como se dá a entender. Creio que a primeira fase é a fase da Esperança, onde todos imaginamos que dessa vez é para valer, que todos vão remar juntos na mesma direção e que, finalmente, teremos o equipamento dos nossos sonhos.

Neste instante em que damos início ao novo Projeto F-X2, creio que vale a pena relembrar um pensamento de Machiavel que exprime muito bem o sentimento de quem, uma vez, já participou do desenvolvimento de um novo projeto:


“Não há nada mais difícil de se conseguir, mais perigoso de se conduzir ou de êxito mais incerto, do que liderar a introdução de uma nova ordem de coisas”. 


Ao qual eu acrescentaria....


“Somente quem já participou da implantação de um projeto de desenvolvimento conhece o sentimento.....” 


Brig. do Ar R1 Teomar Fonseca Quírico
Piloto de Caça - Turma de 1970

 

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