AVIÕES DE CAÇA - "MEGA BUSINESS"
(Fórum no 21, texto anexo ao ABRA-PC Notícias no63)


A América Latina conta com cerca de 1.200 aviões militares, dos quais 600 são aviões de combate de várias fabricações. Menos da metade são aeronaves a jato e, a grande maioria foi submetida à modernização. O custo e a complexidade da revitalização desses “velhos guerreiros” se tornam cada vez mais discutíveis, já que foram ou serão executados sobre células que se encontram em mortalidade.

A despeito dos problemas orçamentários/financeiros com que se defrontam os países do continente, para os marchands de cannons o mercado se tornou atraente, a curto prazo. Tendo como horizonte o ano 2006, a aquisição de “novos aviões” pode chegar a 200 unidades, aos quais devem ser acrescentados apoio técnico, armamento, sistemas-de-armas e treinamento, e pelos quais estarão “lutando” as indústrias (e Governos) franceses, americanos, russos, britânicos, suecos, sul-americanos, espanhóis e israelenses. Uma belíssima "carteira de negócios"...

O sucateamento das estruturas militares latino-americanas vem sendo há muito alardeado. No Brasil, os últimos Governos, já tendo declarado entender que “nas Américas vem em primeiro lugar os Estados Unidos, secundado pelo Brasil”, têm a obrigação de reposicionar suas Forças Armadas em outro patamar que não o penoso 5o lugar em potencial ofensivo e peso específico na balança das decisões políticas do continente. Há, portanto, que ser encontrada uma fórmula capaz de tornar essa visão em um “fato real” e não, como tem sido, uma “oferta de recursos extra-orçamentários”, que sempre são contingenciados... Pelo próprio Governo!

Toda a frota da FAB (aeronaves de combate ou não) atinge seu limite gerontológico nos próximos 5 anos. Ou seja, as aeronaves em serviço estarão em obsolescência, desativação ou mortalidade, após 30 anos de serviços já prestados. Apesar da anunciada postergação do programa F-X, novo avião de combate, é imprescindível não descartar um retorno das mesmas indústrias concorrentes a esse cenário.

Os Governos Sul-americanos estão sendo direcionados para a solução de um problema considerado por todos inadiável: a renovação da sua frota de aeronaves de Caça ou seja, dar partida aos Programas F-X, sigla curiosamente adotada por todos os pretensos compradores. Entretanto, na análise da tempística para a execução desses projetos percebe-se que, mesmo que tomadas decisões imediatas, a finalização dos processos de licitação e dos trabalhos de produção (se aeronaves novas) e preparação de transferência (se usadas), adentrarão os anos 2005/2010. Até lá, todos continuarão mantendo em serviço aeronaves construídas nos anos 70.

A dissonância entre o cronograma de aquisições versus as exigências das Políticas de Defesa Nacional é evidente. A demanda “em bloco” dos compradores continentais provém dos continuados cortes nos recursos orçamentários acontecidos, conjugados à justificativa de “redução (?) da ameaça” a nível global. Em adendo, as novíssimas aeronaves de caça, destinadas a compor as frotas dos Grandes Países, atingiram patamares de custos tão elevados (US$ 80 a US$ 100 milhões por unidades), que as ordens de compra foram reduzidas por seus próprios Governos e, por conseqüência, suas próprias cadeias produtivas.

Portanto, há que vender. E há de haver quem comprar... Essa idéia-mestra passa pela indução (?) de uma “concorrência mundial”, colocando arsenais do 1o Mundo (produtos novos e/ou estocados), à disposição da clientela ávida e/ou menos abonada... Latinos, principalmente, que embarcarão no Leilão de “quanto quer pagar”... Para ter.

A licitação do F-X no Brasil ganhou mais sabor na medida em que mobilizou adeptos in house, para estimular o interesse do cliente que, além de comprar é convidado a participar da fabricação (montagem?) e usufruir da oferta do off set. A meta (?) é reduzir custos e/ou transferir tecnologia (de montadora?), além de “massagear” o ego da engenharia nativa que, em convocada a participar, adquire “foros de competência” internacional. É a tese da “capacitação do Parque Industrial Nacional”, uma falácia... Se não fizer parte de Programa de Governo e não das Forças Armadas Singulares. Diz a experiência passada que, de outra forma, fracassa...

Partindo da premissa que os avionneurs pouco se interessam pelo processo de up-grading (mesmo de seus aviões), uma nova “família industrial” desponta: plantas especializadas em serviços de “transformação e cirurgia de sistemas/células”. Não são, portanto, os “dobradores de chapa” que levam o melhor bocado e, sim, os industriais de equipamentos e sistemas, já que as caixas-pretas envelhecem mais rapidamente que as células...

Aqui os fornecedores de calculadores de tiro, visores, radares, sistemas de comunicações/navegação/ataque, telas multifunção, etc, são beneficiados, mas sempre enfrentando um “fantasma”: a capacidade de INTEGRAÇÃO DE SISTEMAS, que quase sempre ganha peso financeiro superior à modernização das células e que, da mesma forma, limita o acesso de pretendentes a esse novo campo: hay que tener plata y pecho...

No caso sul-americano, e em função de estarem os meios militares em geral em estado emergencial, é imperioso tomar decisões: a indefinição, já é tri-decenária... Como é uma situação continental e comum a vários operadores, a renovação das frotas gerou o “mega negócio aeronáutico do século”, pois cada Programa no continente pode vir a custar entre US$ 700 milhões a US$ 1.3 bilhões, totalizando 3 a 5 bilhões de dólares no total.

A “solucionática” da problemática de reequipamento sul-americano, como um todo, tem sido perigosamente retardada, e uma vontade política geral ainda não foi claramente demonstrada. O que não impede a espreita dos salesmen...

Nosso processo não difere da situação alhures. Mas, lá e cá, antes dos políticos e dos militares, que opine a Sociedade, à qual cabe decidir o tipo de DEFESA NACIONAL que deseja ter ... E prover! Caso contrário, voltará tudo à estaca zero daqui a 30 anos...

Maj.Brig. do Ar Ref. Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma de 1948


Notas do Gerente do Sítio:

(1) cruzador = classe de navios de grandes proporções. Hoje praticamente não existem mais. Os últimos cruzadores que o Brasil teve foram o "Barrozo" e o "Tamandaré". voltar


 

 

Temos 23 visitantes e Nenhum membro online