APAGÃO AÉREO - IMPORTANTE NÃO PERDER O FOCO DE VISTA
(Fórum no 20, texto de 07 nov 2006)


Ao longo desses últimos dias temos sido bombardeados com várias reportagens cobrindo o chamado "Apagão Aéreo", com diversos pontos de vista sendo colocados, alguns com pertinência outros nem tanto. Inúmeras instituições e personalidades têm sido chamadas a opinar a respeito, porém uma delas, o Comando da Aeronáutica, talvez o órgão primeiro a ser ouvido durante a crise, por ser o maior e único responsável na gestão do controle do espaço aéreo brasileiro, estranhamente não tem se manifestado, seja porque não foi instado a fazê-lo, seja porque se recusou a tal.

Conhecendo a instituição da forma que conheço, sou levado a crer que a Aeronáutica, por meio do Departamento de Controle do Espaço Aéreo, não foi procurada para opinar a respeito dos problemas de tráfego aéreo ocorridos e, com isso, prestar contas à sociedade do porquê da sua ocorrência. Uma reportagem num programa de grande audiência deste último domingo, dia 5 de novembro, entrevistou muita gente ( pilotos, controladores de vôo, tanto militares como civis, presidentes de sindicatos, etc. ) mas nem uma palavra com as autoridades aeronáuticas responsáveis pela atividade.

Considerando a prática da mídia em casos desta natureza, sou levado a crer que se a autoridade aeronáutica tivesse se recusado a prestar depoimentos a respeito do fato isto certamente teria sido informado ao público. Como não foi, lamentei a reportagem ter ouvido apenas um lado da história, sonegando à sociedade as informações completas para uma adequada formação de juízo de valor a respeito. Mas não é sobre isso que gostaria de falar. Em verdade, minha motivação em escrever alguma coisa a respeito é por ver, ao longo desse dias, o foco da discussão mudar, levando-me a crer que passamos a discutir temas que embora pertinentes têm pouco a ver com as verdadeiras razões dos problemas ocorridos.

Passamos a discutir a desmilitarização do setor, como sendo isto a solução para os problemas, deixando de focar nas verdadeiras causas que tudo provocaram. A chamada "Operação Padrão" dos controladores de vôo, se é que realmente tal operação ocorreu, deveu-se exclusivamente à redução do número de aeronaves que cada controlador tinha sob sua responsabilidade, para diminuir o excesso de carga de trabalho individual e que pode ter sido fator contribuinte para a colisão em vôo de duas aeronaves recentemente.

E porque o excesso de trabalho individual? Certamente pelo número insuficiente de controladores para fazer face ao volume de tráfego aéreo existente, principalmente no quadrilátero Rio - São Paulo- Belo Horizonte - Brasília. Segundo a edição 1981 da revista Veja, de 8 de novembro de 2006, o sistema de controle de tráfego aéreo conta, hoje, com cerca de 2.700 controladores de vôo, quando seriam necessários pelo menos 3.500 para um serviço confiável. Eles poderiam ser todos civis, ou todos militares, ou mesmo uma combinação deles, que nada muda o fato de que com controlador de menos haverá sempre trabalho demais, por vezes acima do desejável. E por que temos controladores de menos?

A própria mídia identificou a causa em diversas reportagens ao longo desse dias, nenhuma contratação de pessoal nesses últimos anos, insuficiente aumento do efetivo de controladores militares, reduzida alocação de recursos financeiros para cobrir os gastos com o aumento de pessoal, civil e militar. Essas são as verdadeiras causas do chamado "Apagão Aéreo" e nenhuma outra! Segundo a mesma edição da revista Veja, o Brasil gasta com a proteção ao vôo menos do que o Orçamento autoriza, sendo que apenas R$ 285 milhões dos R$ 531 milhões autorizados foram efetivamente repassados. Ou seja, o foco do problema não é a militarização do setor, o foco do problema é a falta de recursos financeiros destinados para a atividade, função de contingenciamentos constantes de verbas para fazer superávits orçamentários.

O editorial do jornal O Globo, edição de 07 de novembro, cita que o "Apagão Aéreo" tem origem nas distorções da política de gastos públicos, generosa e farta para alguns, severa e inconseqüente para outros. Por favor, não percamos o foco de vista, esta é a razão do problema e se quisermos resolvê-lo temos que começar a discutir com seriedade a correta priorização na distribuição dos recursos públicos. Fala-se, ainda, que o tráfego aéreo brasileiro também é prejudicado por problemas técnicos e de infra-estrutura, e que estaria desatualizado em função dos novos softwares de controle de vôo existentes. É importante que se diga que isto é apenas uma meia-verdade.

A Força Aérea colocou em operação em 2002, ou seja, há apenas 4 anos, um conjunto moderno de sistemas de radares, equipamentos de comunicação e meteorológicos na Amazônia com o projeto SIVAM. Desde então, está empreendendo a modernização de outros sistemas nas demais áreas do Brasil, priorizando as regiões de tráfego mais intenso, num permanente regime de atualização tecnológica dos equipamentos existentes. Naturalmente que, também nessa área, os recursos financeiros são insuficientes, mas é bom que se diga que um sistema de controle de tráfego aéreo custa dezenas de milhões de dólares e por mais que se queira é totalmente impossível manter-se pari passu com a evolução tecnológica, principalmente na área da informática onde novos softwares surgem a todo instante.

O fato é que apesar de todos os problemas de ordem tecnológica, o nosso sistema de controle de tráfego aéreo está no mesmo patamar dos sistemas existentes nas regiões mais desenvolvidas do planeta, em especial nos Estados Unidos e na Europa. Nossos pilotos sabem disso, os pilotos estrangeiros que voam para o Brasil sabem disso, nossos controladores de vôo, sejam eles civis ou militares sabem disso, o presidente do sindicato dos controladores sabe disso.

Nossos índices de segurança de vôo no tráfego aéreo comercial estão nos mesmos níveis daqueles americanos ou europeus ... negar isso é cortina de fumaça para colocar outra agenda em discussão. Ele é perfeito, não precisa de nenhum aperfeiçoamento, tudo funciona adequadamente? Claro que não, como em qualquer sistema em que mais de 12.000 pessoas interagem, contando apenas o pessoal da Força Aérea, sem contar todos os demais profissionais que trabalham na aviação comercial brasileira. Naturalmente que um sistema desse tamanho está sempre precisando de correções, ajustes, orientações, etc.

Numa dessas reportagens que foram levadas às telas da televisão, apareceu um piloto manifestando a preocupação dele e de outros pilotos em voarem controlados por operadores que não passam segurança e estressados. Seria de bom alvitre que ele também soubesse o quanto um controlador sofre ao não ter as suas orientações prontamente atendidas por um piloto, o quanto ele pena em ter que instruir um piloto que não sabe voar numa área de grande movimento, que não sabe operar seu transponder, seu equipamento de comunicação, etc. A atividade aérea envolve a todos, pilotos, controladores de vôo, equipes de manutenção, meteorologistas, do soldado ao brigadeiro, do tratorista aos gestores de companhias aéreas, pelos passageiros e até mesmo pelos políticos desse nosso País.

Somente com uma discussão madura e responsável dos problemas envolvidos na atividade, sem um querer jogar a culpa e responsabilidade para o outro, é que chegaremos a um porto (aeroporto?) seguro nessa história. Quanto à desmilitarização da atividade de controlador de vôo, acho que é mesmo pertinente a discussão do tema, não que ela vá impedir o "Apagão Aéreo", mas porque se setores da sociedade trouxeram o tema à baila deve ser porque ele é importante e deve ser discutido.

Sobre isso alguns artigos já foram escritos; mas recorro novamente ao editorial do jornal O Globo, de 07 de novembro, para emitir minha opinião: "Discute-se a desmilitarização do controle aéreo. É uma possibilidade. Mas este profissional não pode ser um funcionário público qualquer num país em que, por tibieza de todos os governos desde a Constituição de 1988, o direito de greve do servidor não está regulamentado, tornando a população refém de movimentos grevistas impunes. O resultado da operação-padrão dos últimos dias é uma amostra do que poderá acontecer se certo sindicalismo estatal infiltrar-se nas torres de controle".

Nota do Autor Naturalmente que o presente artigo está superado pela evolução dos acontecimentos, e sua publicação serve mais para um registro histórico do que para suscitar qualquer tipo de elucubração. De todo o ocorrido, independente de qualquer posição de concordância ou discordância, mais ou menos radical, em relação aos fatos ocorridos, resta apenas a triste constatação de que um fino e precioso cristal foi irremediavelmente quebrado. Podemos juntar os cacos e colá-los, mas ele será sempre um cristal quebrado e remendado; podemos, ainda, moldar outro com base em novos parâmetros e novos insumos. Mas aquele que nós tínhamos jamais será o mesmo ... infelizmente!

Brig. do Ar R1. Teomar Fonseca Quírico
Piloto de Caça - Turma de 1970

 

Notas do Gerente do Sítio:

(1) cruzador = classe de navios de grandes proporções. Hoje praticamente não existem mais. Os últimos cruzadores que o Brasil teve foram o "Barrozo" e o "Tamandaré". voltar

(2) "G" = símbolo de gravidade, medida de aceleração. Em aviação, refere-se às acelerações geradas pelas mudanças na direção de vôo da aeronave. "Puxar G" é fazer curvas apertadas, gerando acelerações anormais. voltar

(3) anóxia = Anóxia cerebral é a falta de oxigênio no cérebro. Em aviação esta deficiência é causada pela baixa pressão do ar nas grandes altitudes e a conseqüente dificuldade de absorção do O2 pelos glóbulos vermelhos do sangue. Nas "câmaras de baixa-pressão" os tripulantes treinam a percepção dos sintomas de anóxia. voltar

(4) ximboca = confraternização com cantoria, salgadinho e bebida. voltar

(5) araponga = "agente secreto". Este apelido é devido ao "codinome" de um agente fictício de uma novela de televisão que foi muito famosa. voltar

(6) O.Frag. = "Ordem Fragmentária", Ordem escrita para o cumprimento de uma missão que faz parte (fragmento) de uma "operação" maior. voltar

(7) boot = (ing.) bota de vôo, vem do inglês "Combat Boot" aportuguezado para "bute". Pode também se referir ao dispositivo para retirar gelo das aeronaves em vôo. Consultar o termo "galocha". voltar

 

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