MÉDICO DE ESQUADRÃO: UMA REVERÊNCIA TARDIA
(Poder Aéreo)
(Fórum no 19, nov/dez de 2007)


Nos passados e saudosos tempos do Campo dos Afonsos, voar e ser aviador tinha muito mais de romântico do que de profissional e soldado-do-ar. E de fisiologia do vôo, menos ainda, a não ser a psiquiatria do Cel. Schmit e suas doidas questões aos candidatos a Cadetes: "quantos parafusos tem um cruzador(1) ?". E o que dizer da medicina do Esquadrão?

Somente adentramos aos parâmetros e paradigmas impostos pelo MÉDICO do ESQUADRÃO quando fomos incorporados ao efetivo do 1o Grupo de Caça (Veteranos) e passamos a ouvir os conselhos (se não enquadramentos) provenientes da suas experiências de Guerra, sempre acompanhados de perto pelo Dr. Thomas Girdwood e Luthero Vargas. Em Santa Cruz, "incorporamos" ao nosso plantel o Dr. Pedro Luiz, figura bondosa e tímida que, até para nos aconselhar pedia permissão.

Da Medicina de Aviação recebíamos, permanentemente, as pastilhas de sal (para contrabalançar a perda pelo suor excessivo a bordo do P-47), e a orientação para se contrapor à sinusite, moléstia maldita que atingiu a muitos que insistiam em voar com congestão nasal proveniente dos resfriados e gripes: a famosa Esquadrilha MISTOL (vaso constritor da moda na época). Do restante, não se falava... As equipagens eram super-hígidas (fazíamos exame médico de controle de 3 em 3 meses, no antigo ISC - Instituto de Seleção e Controle) e o Médico do Esquadrão, em conseqüência, tinha poucos encargos a não ser de supervisão dos indisciplinados que teimavam em "consumir seus corpos e sistemas biológicos" nos exageros dos vôos de altitude sem pressurização ou nos efeitos amaldiçoados da carga "G"(2).

Ou então, nos orientar sobre os efeitos da visão noturna ou desorientação espacial. A chegada da câmara barométrica nos Afonsos, habilmente operada pelo "torturador" Dr. Lobão, é que nos abriu os olhos para a anóxia(3) e os efeitos da altitude. Nos Esquadrões Operacionais, o Médico do Esquadrão se transforma, na realidade, no "companheirão" que cuida da tropa para mantê-la sadia e resistente frente aos efeitos do vôo e das "ximbocas"(4) .

Nas Unidades de Instrução (Academia da Força Aérea e Esquadrão de Transição), o Médico de Aviação toma, aí sim, a feição de orientador e até mesmo confidente, passando a representar peça indispensável no "tabuleiro de xadrez" do progresso (ou não) do aviador na adaptação psicomotora exigida pela profissão. É um acompanhamento homem-a-homem, dia-a-dia. Exaustivo. Indispensável. Consultor permanente do Conselho de Instrução e balizador/neutralizador dos excessos para mais e para menos...

Nossa experiência, na formação de pilotos, nos diz que a assistência do "Doc" é indispensável e que haverá risco elevado para o processo de seleção que não contar com a participação dessa "entidade complexa" que mescla a medicina com:

aviação-bruxaria-adivinhação- araponga(5) -cumprimento de O. Frag(6) -confidente-parceiro-orientador-curacôco-receituário-quebra galho-acochambrador, amigo e camarada, copiloto-álibi-consultor (des)comprometido. E "otras cositas más..."

Como "velha águia" e ex-Comandante, sempre depositei enorme fé nesses "homens de branco", que passaram a envergar o macacão junto conosco, nas pistas. Fé que provém da certeza de que, a cada decolagem um pedaço de seus corações vai junto e a cada pouso, um sorriso de felicidade habita seus lábios. Que a cada "pega para capar em alto G", seus sentimentos lá estão, suando e sofrendo conosco. E que, conosco, na "ximboca", drenam nossas preocupações e curam nossos corpos e almas.

Rebusco meu álbum de "figuraças" que arrastaram seus "boots"(7) nas pistas, conosco, desde priscas eras e "temeroso em omitir" relembro com saudades de LOBÃO-ASSIS-AMARAL-MONTEROSSO-BARBIRATO- BALVÉ-PERRONE-NERY-PENHA-PAULO DE SOUZA-PAULO FERNANDES-KARAM. RENATO... E, por que não? DE MARCO e ... e ...

Maj. Brig. Ref. Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma de 1948


Notas do Gerente do Sítio:

(1) cruzador = classe de navios de grandes proporções. Hoje praticamente não existem mais. Os últimos cruzadores que o Brasil teve foram o "Barrozo" e o "Tamandaré". voltar

(2) "G" = símbolo de gravidade, medida de aceleração. Em aviação, refere-se às acelerações geradas pelas mudanças na direção de vôo da aeronave. "Puxar G" é fazer curvas apertadas, gerando acelerações anormais. voltar

(3) anóxia = Anóxia cerebral é a falta de oxigênio no cérebro. Em aviação esta deficiência é causada pela baixa pressão do ar nas grandes altitudes e a conseqüente dificuldade de absorção do O2 pelos glóbulos vermelhos do sangue. Nas "câmaras de baixa-pressão" os tripulantes treinam a percepção dos sintomas de anóxia. voltar

(4) ximboca = confraternização com cantoria, salgadinho e bebida. voltar

(5) araponga = "agente secreto". Este apelido é devido ao "codinome" de um agente fictício de uma novela de televisão que foi muito famosa. voltar

(6) O.Frag. = "Ordem Fragmentária", Ordem escrita para o cumprimento de uma missão que faz parte (fragmento) de uma "operação" maior. voltar

(7) boot = (ing.) bota de vôo, vem do inglês "Combat Boot" aportuguezado para "bute". Pode também se referir ao dispositivo para retirar gelo das aeronaves em vôo. Consultar o termo "galocha". voltar

 

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