MÁGICA NEGATIVA
(Fórum no 17, Jan/Fev 2006)


Há pouco tempo tive a oportunidade de visitar a Academia da Força Aérea com a finalidade de me atualizar com a atual sistemática de formação de nossos oficiais, ocasião em que assisti à formatura de passagem de serviço de cadete de dia ao Corpo de Cadetes.

Não há como não se emocionar com a vibração, marcialidade e entusiasmo demonstrados por todos os cadetes, emoção igualmente sentida em todas as solenidades de formatura de que participei ao longo da carreira, seja ela de incorporação de novos recrutas à Força Aérea, seja ela de formação de sargentos especialistas da aeronáutica, seja ela de formação de novos oficiais, de novos pilotos de caça etc.

Em todas elas sentia uma vibração imensa daqueles jovens que naquele instante concluíam uma etapa de sua formação dentro da Força Aérea e uma sensação de que não havia Força Aérea melhor no mundo do que a nossa, haja vista o profissionalismo e vibração que aquele grupo demonstrava.

Entretanto, o passar dos anos fez com que eu fosse, também, ser invadido, nesses instantes, por uma questão que me atormentava e que tive a oportunidade de dividir com amigos mais próximos, quase sempre sem chegar a nenhuma conclusão.

A questão que se me colocava naqueles instantes era qual a mágica que nós, mais antigos, fazíamos para, em pouco tempo, levarmos vários daqueles jovens a perderem a vibração, o entusiasmo, a dedicação, o idealismo, o profissionalismo enfim. O que de errado fazíamos para rapidamente termos alguns daqueles jovens desuniformizados, desmarcializados, displicentes, de cabelo grande, atrasando-se para compromissos, despadronizados etc, maus militares enfim!

Volta e meia vinha a discussão de que faltava motivação; outras vezes vinha argumento do nível salarial; em outras ocasiões, ficava a dúvida se faltava motivação por que o nível salarial era inadequado ou se o nível salarial era inadequado por que faltava motivação. Na verdade nunca chegamos a alguma conclusão a não ser a constatação de que alguma coisa acontecia, alguma mágica nós, mais antigos, fazíamos para perdermos em pouco tempo tantos e tão bons profissionais.

Naturalmente que participar dessa visita à AFA e vivenciar uma vez mais esses sentimentos que me invadiam quando na ativa fez-me, novamente, pensar sobre o assunto, remoer um pouco as angústias vividas e, agora, com a irresponsabilidade da reserva, colocar outras considerações à reflexão de outros, inclusive daqueles que, na ativa, têm a responsabilidade de conduzir os destinos da nossa querida Força.

Claro está que não há uma causa isolada para isso, se é que isso de fato acontece. Mas, partindo da premissa de que o problema de fato ocorre, e para mim ocorre, certamente não haverá um fator isolado mas um conjunto de fatores que levam a essa perda prematura de alguns. Desmotivação já foi falado, nível salarial inadequado também. Mas que tal considerarmos, também, o binômio exemplo / cobrança como motivos adicionais para tal!

Como podemos querer que nossos oficiais mais jovens sejam padronizados se nós, por vezes, não o somos? Como podemos querer que nossos sargentos recém-formados andem bem fardados se nós, mais antigos, não andamos? Como queremos que nossos mais jovens recrutas cumpram horários (e ordens) se nós, mais antigos, algumas vezes não cumprimos? E esses nós não significa, em absoluto, apenas os oficiais.

Somos todos nós, oficiais, sargentos, cabos e soldados mais antigos que não damos o exemplo devido aos mais modernos, demonstrando a eles, erradamente, que as exigências colocadas nos cursos de formação podem ser flexibilizadas, uma vez formados.

A questão que se coloca é: até quanto pode ser flexibilizada? Fica a critério de cada um ou de cada chefe? É sempre bom lembrar aquele antigo pensamento de que o exemplo é a pregação silenciosa! Entretanto, exemplo por si só não basta!

E aí se coloca a outra face do binômio da equação: cobrança. Quantos de nós advertimos um militar mais moderno por estar desunifomizado?

Bibico na cabeça, sapato melissinha , tarjeta enfirulada, mochila da moda ..... a lista é grande, todos sabemos, mas poucos cobramos! Quantos de nós chamamos a atenção por um atraso na entrega de um serviço, por uma postura indevida na formatura, por uma atitude passiva frente a determinadas situações?

E, novamente, não se está falando apenas de oficiais, mas de qualquer mais antigo, de qualquer nível, frente a um mais moderno, ressalvando-se, apenas, que tal fato se torna mais evidente quanto mais antigo for o militar em falta! Várias explicações podem ser dadas para isso

– talvez vergonha que sentimos ao ter que admoestar um militar em falta, principalmente sendo ele antigo e vivido na Força. O fato é que nesse ambiente de não cobrança daquilo que está errado viceja um caldo de cultura de relaxamento que nos leva a perder bons profissionais em pouco tempo.

Claro está que estar com bibico na cabeça não significa ser bom militar; claro está que estar bem uniformizado não significa ser bom profissional; certamente há coisas mais importantes no serviço do que apenas chegar no horário, cumprir prazos e estar com o cabelo cortado; entretanto, é sempre bom recordar que uma bela catedral assenta-se sobre pequenos tijolos e que bastam uns poucos fraquejarem para fazer tudo desabar!

Recordo-me de um antigo chefe que dizia que o dia que encontrasse a “tal” da Força Aérea na rua ia cair de pancada nela, afinal dizíamos sempre que tudo era culpa da Força Aérea:

“a força aérea isso, a força aérea, aquilo, a força aérea precisa, a força aérea está ....”, esquecendo-nos de que a Força Aérea não é uma coisa etérea, ela é uma organização palpável, composta de homens e mulheres e que será tão boa ou melhor quanto forem bons e melhores os homens e mulheres que a compõem.

Considerando que motivação e nível salarial são variáveis difíceis de se mensurar, trabalhar e definir, que tal se manobrarmos com o binômio exemplo e cobrança para invertermos o resultado dessa equação, desta mágica negativa que nos leva à perda prematura da vibração e entusiasmo de jovens militares que, um dia, chegaram a jurar dedicar-se inteiramente ao serviço da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderiam com o sacrifício, até, da própria vida!

Macte animo generose puer, sic itur ad astra!

À reflexão!

 
Brig.R1. Teomar Fonseca Quírico
Piloto de Caça


 

 

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