UMA MERECIDÍSSIMA HOMENAGEM!
(Fórum no 15, set/outubro 2005)


O Presidente Vargas não foi muito generoso com o Grupo de Caça quando criou a nossa Unidade num 18 de dezembro.

Anualmente, as notícias alusivas às comemorações do nosso aniversário concorrem, no "site" do Comando da Aeronáutica (COMAER), com outras da importância de:

“OM tal realiza confraternização de Natal com os familiares de seus integrantes”,
“Chegada do Papai Noel traz alegria às crianças na OM tal”, ou então
“U.Ae. tal promove o encerramento da sua Taça Eficiência”.

Por isso, desisti de ajudar o nosso Relações Públicas na confecção de uma nota para o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (CECOMSAER) e resolvi escrever este artigo a ABRA-PC, a fim de relatar os fatos e as minhas impressões acerca do que aconteceu no aniversário do 1o Gp.Av.Ca. em 2004.

17 de dezembro de 2004. 10o aniversário do falecimento do Brig Nero Moura. Véspera do 61o aniversário da criação do 1o G.Av.Ca.. Coincidentemente, uma sexta-feira (a última antes do Natal), dia consagradamente destinado às comemorações na FAB.

A Unidade programou, além do tradicional formatura–desfile aéreo–coquetel, uma missa em homenagem ao Patrono da Aviação de Caça (com a aquiescência dos Veteranos, naturalmente; nos anos anteriores, essa missa era realizada no INCAER, fora das festividades do aniversário do Grupo).

Entretanto, na semana dos eventos, recebemos a notícia de que nenhum Oficial General da ativa compareceria às festividades. Uma reunião do Comandante da Aeronáutica com todos os Oficiais Generais da área Rio seria realizada no mesmo dia das comemorações do aniversário do Grupo.

Talvez os Caçadores que serviam no Gabinete do Comandante da Aeronáutica (GABAER) não tenham atentado para a data.

Talvez até, face aos inúmeros “inputs” com os quais os oficiais do GABAER se defrontam diariamente para a confecção da agenda do Comandante, a data tenha passado despercebida.

Talvez essa reunião pudesse ter acontecido em Santa Cruz!

Ou talvez essa data não tenha a importância que nós do Vale do Pó atribuímos a ela (na minha inocência de Capitão-que-vibra-com-a-Caça-como-nos-tempos-de-Aspirante, gostaria de poder eliminar essa hipótese).

O fato é que a tal reunião foi realizada no RJ, na mesma data/hora. Só que na UNIFA...

Mas o que poderia ser o prenúncio de um evento esvaziado (alguém aí consegue imaginar um Bródio sem Brigadeiros?) acabou por se transformar na mais emocionante homenagem a um militar que eu já vi nestes curtos 19 anos de serviço.

Tudo começou com a missa em homenagem ao nosso Patrono. Aos pés do P-47 "C5" do Ten. Lima Mendes, ao lado da bolacha do Cap. Fortunato e em frente ao monumento do Niemeyer, com direito ao canto do Carnaval em Veneza, “Adelphi” para os que já nos deixaram e flores na urna do Jambock 01, onde estão os seus despojos mortais.

Tudo simples e bonito.

Antes da formatura, o impasse: entre Brigadeiros da reserva e Coronéis da ativa, quem presidiria a solenidade? Nem sei se é isso o que preconiza o cerimonial, mas decidiu-se pelo Oficial General com a data de Aspirante mais antiga, o que fatalmente recairia sobre um Veterano da Campanha da Itália.

O Maj. Brig. Miranda Correa (aquele do “não é isso, o Miranda disse prá eu não falar!”)(1) , Veterano mais antigo entre os vivos, estava presente, mas, com o pretexto de que se encontrava há muito tempo afastado do militarismo, resolveu ele mesmo iniciar a supracitada homenagem, delegando a honra de presidir a solenidade ao 2o mais antigo presente e 3o mais antigo entre os vivos: Maj Brig Rui Moreira Lima.

Já na revista à tropa, percebi que aquela seria uma formatura diferente.

A marcialidade com que o Brig Rui iniciou seus passos e prestou continência à Bandeira Nacional foi daquelas que não se vê mais desde que a modernidade, as ONG e os direitos humanos contaminaram o militarismo: impecável, não obstante seus 85 anos à época. Quando ele chegou próximo ao través do grupamento do 1o Gp.Av.Ca, uma inesperada quebra de protocolo: visivelmente emocionado, o Brig. Rui interrompeu o passo marcial, caminhou na direção do estandarte da nossa Unidade e beijou-o.

Por ser o mais antigo do grupamento, assisti a essa cena a meio metro de distância, e vendo o nosso Veterano cerrar os olhos para não chorar, tive eu também que me segurar para não dar vexame. Naquele momento, quantas recordações e emoções não estariam chacoalhando o grande piloto do "D4"? Depois disso, a formatura correu normalmente, até o desfile da tropa.

Como nos outros anos, a banda iniciou o “Carnaval em Veneza” na distância exata para que nós o cantássemos por inteiro e o finalizássemos no “olhar à direita”, emendando o grito de guerra: SENTA A PÚA! BRASIL! Quando fiz a continência e olhei à direita, vi no Brig. Rui um enorme e incontrolável sorriso, e ele me respondeu com um forte sinal de positivo, não sei se elogiando o desfile ou agradecendo a reverência. Caro Brig. Rui:

Se foi para elogiar o desfile, saiba que o seu padrão militar foi muito melhor que o nosso.Rui Moreira Lima - 'Air Medal' foto Action Editora

  1. Se foi para agradecer, não precisa não. Muito pelo contrário, nós, os Jambocks de hoje, é que temos muito a agradecer ao senhor:
  2. Pelas 94 missões de guerra que o sr. voou com a nossa bolacha no peito e na carenagem do seu avião; 
  3. Por ser um dos compositores do nosso hino, “CARNAVAL EM VENEZA”, hoje “emprestado” a toda a Aviação de Caça brasileira;
  4. Por ser co-autor da “ÓPERA DO DANILO”, verdadeira obra de arte, emocionante e histórica, que permanece e permanecerá cantada e encenada por todas as gerações de Caçadores do Brasil;
  5. Por ter trazido para o seio da nossa Unidade a expressão “ADELPHI”, inicialmente uma brincadeira, transformada ao longo do tempo na mais nobre homenagem que um Piloto de Caça brasileiro pode receber;
  6. Pela promessa feita na Itália e cumprida aqui de implantar no Brasil a formação dos novos Caçadores da FAB;
  7. Por não ter desistido dessa promessa, mesmo após a perda de três irmãos de guerra em acidentes na instrução;
  8. Por ter permanecido após a guerra na Unidade, vindo a ser um dos fundadores, instrutores e Comandantes do nosso Esquadrão-irmão, o PIF-PAF;
  9. Pela paciência e pelo preciosismo com que escreveu o livro “SENTA A PÚA !”, referência obrigatória para qualquer pesquisa dessa parte da História do Brasil, eternizando assim os feitos dos nossos homens na IIa Guerra Mundial; Por, mesmo após ter sido obrigado a afastar-se prematuramente das nossas fileiras, não ter diminuído seu exemplar entusiasmo por nossa Unidade, nossa Aviação, nossa Força e nosso País; e
  10. Principalmente, por permanecer incansável ao nosso lado, após mais de 40 anos da sua passagem para a reserva, freqüentando nossas Bases e recebendo-nos em sua casa, transmitindo aos mais jovens a sua experiência, os seus valores e o seu exemplo de dedicação e amor ao Brasil.

Por tudo isso, amigos Caçadores, não sei se verei outra formatura com momentos tão emocionantes como essa. E hoje, lembrando da nossa decepção com a notícia da reunião, em contrapartida com a figura imponente do nosso Veterano no centro do palanque da BASC, atestei ser perfeito o velho ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas.”

SENTA A PÚA, BRASIL !

Cap.Av. Carlos Roberto Ronconi Junior

Piloto de Caça em 1993


Notas do Gerente do Sítio

(1) “não é isso, o Miranda disse prá eu não falar!” = Frase famosa atribuida ao Tenete Danilo Moura, consulte a "Ópera do Danilo" na nossa "homepage".

 

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