ECOS DE UMA PALESTRA
(Fórum no 14, Julho/agosto 2005)


Ano passado tivemos a oportunidade de assistir a uma palestra da Terceira Força Aérea relatando as experiências obtidas com exercícios com Forças Aéreas amigas e a contribuição deles para o desenvolvimento da Força Aérea Brasileira e, em especial, da sua aviação de combate.

A excelência do palestrante aliada aos ensinamentos apresentados ficaram ecoando em minha mente durante um bom tempo ao fim do qual lembrei-me de um artigo escrito há algum tempo e que vai ao encontro do que foi falado e, em especial, a um questionamento feito na fase de debates a respeito da forma com que a FAB vem atuando nesses exercícios "vis a vis" nossa Estrutura Militar de Guerra.

Assim dizia o artigo escrito em Abril de 1991.

ENSINAMENTOS DA GUERRA DO GOLFO ESTRUTURA MILITAR DE GUERRA


Encerradas as ações militares da recente Guerra do Golfo começamos nós, teóricos ou práticos, estrategistas ou táticos, políticos e militares a analisar apaixonadamente o ocorrido para dele tirar os ensinamentos devidos.

Naturalmente que há um sem número de facetas segundo as quais o conflito pode ser analisado, tanto no campo militar como em todos os outros campos. Pretendo, entretanto, ater-me exclusivamente à estrutura militar montada para a condução das ações militares e compará-la com a nossa atual Estrutura Militar de Guerra (EMG), traçando um paralelo em como ela poderia favorecer ou prejudicar as ações aéreas.

Certamente que nós, profissionais de Força Aérea, haveremos de dizer que a arma aérea venceu sozinha a guerra e que as ações de superfície só ocorreram para consolidar uma vitória já obtida. Por outro lado, nossos companheiros das demais Forças Singulares haverão de rebater dizendo que somente a invasão terrestre é que levou à rendição e que não há vitória sem ocupação.

Paixões a parte, o que ninguém discute e todos reconhecem é que as ações de superfície só puderam ser realizadas por que havia superioridade aérea absoluta, superioridade essa alcançada através da aplicação concentrada, permanente e coordenada da arma aérea.

Ninguém tem dúvidas de que o comando e controle centralizados dos meios aéreos favoreceu, decididamente, para que isso fosse alcançado, uma vez que permitiu a realização coordenada e simultânea de ações aeroestratégicas, de defesa aérea e aerotáticas independentes, conduzidas em todo o território do conflito, sobre a terra e sobre o mar.

Comparando esse aspecto da guerra com a nossa atual EMG, tenho dúvidas concretas se teríamos tido o mesmo sucesso, considerando-se exclusivamente o lado organizacional das forças, sem me ater, naturalmente, à capacidade dos meios envolvidos.

Analisando a nossa atual EMG vê-se que, contrariamente ao que preconiza a própria doutrina básica da FAB, onde o princípio de guerra da Unidade de Comando é considerado fundamental para o emprego racional e unificado dos meios aeroespaciais, a EMG pulveriza os meios aéreos existentes entre diversos comandos, comandos esses subordinados e coordenados diretamente pelo Comando Supremo.

Tal situação não me parece lógica:

  • ela divide entre comandos diferentes os poucos meios aéreos disponíveis ao invés de concentrá-los em apenas um, impedindo por completo o emprego racional dos mesmos e eliminando o aproveitamento das características essenciais de flexibilidade, velocidade e mobilidade;
  • ela divide o campo de batalha em territórios estanques e exclusivos, ao invés de considerá-lo como um todo uno e indivisível, onde ações conduzidas numa área podem afetar todo o conjunto e onde, necessariamente, ocorrerão ações simultâneas de ataque e de defesa;
  • ela pulveriza as ações de comando entre vários órgãos do mesmo nível, diluindo responsabilidades e levando à indefinição de quem é, em última instância, o comandante geral das ações;
  • ela leva, finalmente, a que o Presidente da República (PR) seja o coordenador direto das ações militares ao invés de mantê-lo, exclusivamente, na condução política do conflito.

Para cada um dos aspectos citados, a Guerra do Golfo nos apresenta a antítese vencedora:

  • enquanto nós pulverizamos os meios aéreos em vários comandos eles os concentraram num único comando responsável pela realização de todas as operações aéreas. Em verdade pergunto-me quem, em última instância, na nossa EMG, decidirá, na hora do conflito, a distribuição dos meios aéreos. Haverá um Teatro de Oerações (TO) mais importante do que outro?
  • nós dividimos o campo de batalha em vários TO, enquanto eles consideraram todo o território como um único espaço, onde ações de defesa aérea, estratégicas e aerotáticas foram conduzidas simultaneamente.
  • Aliás, nós ainda nos prendemos ao conceito acadêmico e ultrapassado da divisão do território em Teatro de Operações e Zona do Interior, sem considerarmos o fato de que, no caso de um conflito, todo o País estará sujeito a ações de guerra e, por isso, dependente de ações defensivas e contra-ofensivas, independente de onde as ações chamadas “periféricas” ocorrem;
  • nós fracionamos o comando geral (e a responsabilidade e autoridade) em vários comandos de mesmo nível subordinados diretamente ao PR, enquanto eles concentraram o comandamento (e a responsabilidade) num único nível, superior, este sim subordinado ao Comando Supremo;
  • nós colocamos o PR como coordenador direto das ações militares ao invés de deixá-lo, exclusivamente, com a condução política do conflito. É de se ressaltar que na última oportunidade em que os Estados-Unidos tiveram o PR influindo diretamente nas ações militares eles perderam a guerra (vide Vietnam).

Temos que ter uma estrutura que vá ao encontro dessas lições aprendidas no conflito. Recordo-me um pouco da estrutura que me ensinaram ainda como Tenente e que colocava como comandante do TO um oficial-general de qualquer das Forças Singulares, idealmente daquela Força que teria a predominância das ações, responsável direto pela concepção e coordenação das ações militares, inclusive aquelas envolvendo a defesa aérea do País.

Subordinado ao Comandante do TO tínhamos o comandamento de cada força singular, concentrando todos os meios afins disponíveis e responsável pela realização das operações militares respectivas. Eram a Força Aérea do Teatro de Operações (FATO), Força Terrestre do Teatro de Operações (FTTO) e a Força Naval do Teatro de Operações (FNTO).

Finalmente, dentro do comandamento individual de cada Força havia os elementos destinados à execução das tarefas operacionais necessárias.

A estrutura em questão colocava, efetivamente, todos os meios aéreos sob o comandamento único e exclusivo da Força Aérea. Assim , podíamos priorizar adequadamente nossos recursos existentes, utilizá-los ou remanejá-los de forma a permitir tanto a condução das nossas missões independentes de ataque ou de defesa, como o suporte às ações das forças de superfície, tanto sobre a terra como no mar.

Exploraríamos ao máximo as características inerentes à arma aérea, visando sempre vencer a guerra como um todo e não apenas a guerra num TO.

Bem companheiros, certamente a presente proposta é uma visão extremamente simplista de um problema por demais complexo. É, porém, a visão de quem não consegue imaginar como hoje, a Força Aérea Brasileira, com os meios disponíveis, poderia se multiplicar em várias Forças Aéreas para atender a vários TO.

Creio que se tivéssemos o comandamento centralizado e geral de todos os nossos meios, saberíamos priorizá-los adequadamente de forma a atender, com oportunidade, às diversas necessidades que surgirem.

Não sei por que, mas toda vez que analiso a nossa atual EMG vem-me sempre à mente a imagem de cada TO querendo ganhar a sua guerra. Chego ao cúmulo de imaginar que, no extremo, poderíamos inclusive ganhar a guerra num TO, porém perdermos a guerra como um todo. Seríamos vencedores morais do conflito, mas, creio, isso alteraria muito pouco na hora de assinar a rendição!

 

Brig. do Ar R-1 Teomar Fonseca Quírico

(à época T.Cel.Av. Cmt.do 1o/16o G.Av. - 30 de abril de 1991 )


Notas do Gerente do Sítio:

(1) surtida = ou "sortida", usa-se para designar uma missão de combate. voltar

 

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