DOUTRINA: PRINCÍPIO OU PROCEDIMENTO?
(Fórum no 09 , dezembro de 2001)

 

Há um lugar em minha estante, onde costumo deixar os livros, que não tenham relação com o que está me interessando no momento. Não sei bem a razão, mas fui levado a "fuçar" o passado representado em tais livros. Romance clássico, "best-seller", livros de psicologia aplicada, religião, filosofia, circularam em minhas mãos naquele dia, trazendo-me à lembrança os momentos em que fazia a "arqueologia" destes assuntos.

De repente, peguei um volume meio desconjuntado, caindo a capa e algumas folhas, no qual, em algum momento do passado, assinalei alguns trechos, que julguei importantes. Era o livro do Vice-marechal-do-ar J. E. Johnson sobre a história da aviação de caça: Guerra no Ar (Full Circle em inglês).

Abri a primeira página e estava lá: Tacariju, 1o/4o G.Av., maio de 67. Como num sonho, a realidade do presente se afastou e deu lugar ao devaneio e às lembranças. Tinha então 25 anos de fantasias, que previam para mim um futuro de ás da caça. Felizmente, descobri com aquele livro nas mãos, que o Aspirante que o comprara dera lugar a alguém de cabelos brancos que sonha menos, é verdade, mas ainda se emociona com sonhos antigos.

Johnson foi o piloto aliado com mais vitórias na Europa durante a 2a guerra, além de ter lutado na Coréia. Seu livro fala de acontecimentos, estratégias e táticas, que "habitaram" seus momentos de combate, e de suas pesquisas sobre o passado da caça, principalmente a 1a guerra. Suas palavras serviram de argumento para mim durante várias conversas tidas naquele tempo em que comprei o livro. Conversas sobre a melhor maneira de se lutar como um guerreiro-herói de uma idéia e de uma nação. 

Ainda devaneando, sentei-me no sofá e abri a Guerra no Ar de Johnson sem escolher a página. Surpreendentemente, a frase que li misturava Filosofia e Psicologia, assuntos que me despertam da sonolência do cotidiano. A frase era a seguinte: "Quanto tempo fora preciso para reaprender a doutrina de Oswald Boelcke!" Imediatamente, a memória percorreu os diferentes capítulos e localizou Boelcke em 1916 voando com o lendário Imellmann. A doutrina desse caçador era simples: Apoio Mútuo! Fiquei me perguntando, já que a memória falhava, o que Johnson queria mesmo dizer com reaprender a doutrina do apoio mútuo.Capt. Oswald Boelcke

A frase que me chamou a atenção finaliza o capítulo 15 Folhas de outono, que trata da dura lição sofrida pelos ingleses, ao esquecerem o apoio mútuo como princípio doutrinário. Suas formaturas eram rígidas de três aviões, fáceis de serem observadas à distância, e se desfaziam ao serem atacadas pelos alemães. Daí para frente, era cada um por si. Sua rigidez dificultava a vigilância do espaço e, quase sempre, a R.A.F. (Royal Air Force) era surpreendida pela LUFTWAFFE, que voava em linha de frente de dois elementos garantindo o apoio mútuo e a flexibilidade.

Antes de prosseguir, gostaria de falar um pouco de uma discussão que participei, quando fazia um curso de Filosofia. O assunto era se a doutrina é um princípio, ou se está relacionada com um conjunto sistemático de concepções e procedimentos. Fazendo uma analogia, o apoio mútuo seria um princípio e a formatura (disposição dos caças no espaço) seria um conjunto sistemático de concepções e procedimentos.

Ocorre que é o conjunto sistemático que dá sentido ao princípio, que, por sua vez, dá o atributo ao conjunto. Isso quer dizer, que um não pode existir sem o outro. A questão, portanto, é saber se a formatura possui tal atributo. Parece que os ingleses esqueceram disso!... Por que teria havido tal esquecimento?

Fazendo um pequeno giro, talvez seja interessante relatar o que se passou com os alemães. Será que esqueceram o apoio mútuo? Vejamos o que disse Johnson na página 88 de seu livro:
"Uma das mais importantes lições extraídas da luta aérea na Guerra do Kaiser(1) apontava como a melhor formação de combate a linha de frente, com os escoteiros(2) lado a lado e um afastamento de cinqüenta ou sessenta metros entre um e outro, de modo que os pilotos podiam conservar seus lugares pela observação recíproca, voar perto do chefe sem risco de colisão, vigiar o céu em volta para precaver-se contra ataques de surpresa e virar uns por dentro dos outros para fazer frente a um ataque vindo de trás. Esta fórmula, incutida nos pilotos tanto britânicos como alemães pelo malhar constante e implacável da batalha, registrada em milhares de memórias e memorandos, pareceu perder-se à ordem de cessar fogo.

Com efeito, quando os Messerschmitts começaram a lutar na Espanha, voavam numa formação cerrada de ponta de asa contra ponta de asa, absolutamente inadequada ao combate pela falta de espaço para manobrar e pela ausência de cruzamento".

Lendo essa passagem, parece que existe uma espécie de vírus, que ataca a memória do guerreiro e o impede de se lembrar das lições doutrinárias do passado. O paradoxal é que, quando o guerreiro no começo se lembra de alguma coisa, volta-lhe a imagem do conjunto sistemático de concepções e procedimentos, escondendo-se o princípio em algum lugar, do qual só sai depois das derrotas e do sofrimento.

Como o contexto se altera no tempo e no lugar, concepções e procedimentos que servem para um não servem para outro. Diferentes aviões em tamanho, poder e potência, voando em épocas e lugares diferentes, aplicam diferentes procedimentos, sem esquecer o princípio do apoio mútuo. Contudo, alemães e ingleses trilharam o caminho do esquecimento do princípio e sofreram com o sangue de suas perdas ao imitar procedimentos anacrônicos e sem sentido.

Fechei o livro e pensei no meu tempo. Será que o vírus alcançou a caça que conheci? Parece que sim. Entre 67 e 75 voei a linha de frente mais preocupado com a posição em relação ao líder do que "ligado" à vigilância do espaço. A estética era mais importante do que a operacionalidade da formatura. Durante uma curva, nem é bom pensar... Se a curva fosse para cima do ala, não se via mais nada até que o líder cruzasse pelas seis horas.

Um dia, em 1975, alguns caçadores brasileiros chegaram ao 425o em Williams AFB, Arizona, para voar o F-5. Durante o treinamento, conheceram a "tactical spread", ou linha de frente tática. A diferença da nossa linha de frente estava basicamente na forma de fazer as curvas. O caça de fora iniciava a curva, até quase desaparecer às seis horas do outro caça, quando, então, o outro caça fazia sua curva de 90 graus.

Com isso, mais tempo é dedicado ao apoio mútuo do que a manutenção da posição na formatura, ao contrário de minha preocupação entre 67 e 75. Essa história não teria o menor interesse se o livro de Johnson não revelasse o mais surpreendente. Primeiro porque considerei naquele tempo (1975) que a linha de frente tática era uma tremenda novidade e, segundo, por que descobri no último capítulo que, já na Coréia, se voava desse modo. Isso quer dizer que, desde 1954, a linha de frente tática não era novidade em combate e nós não a conhecíamos. Não precisa dizer que o livro "Full Circle" foi editado na Inglaterra em 1964, três anos antes de me tornar um piloto de caça.

Se não me falha a memória, ouvi de um americano em 75 que, se não fosse a guerra dos Seis Dias e a do "Yom Kipur", não haveria o resgate da linha de frente tática. A memória pode ter me falhado ao contar essa história, mas faz um tremendo sentido...

Aos garimpeiros do passado, sugiro procurar na página 254 deste livro maravilhoso um esquema representando a curva em linha de frente. Vão se surpreender com a semelhança entre os desenhos que foram trazidos pelos pilotos brasileiros, que voaram no 425o, e o desenho de David Shepherd, que ilustrou o livro de Johnson.

Na verdade, entre lembranças e interpretações, fiquei atento à psicologia do esquecimento, o tal vírus que assola a memória dos guerreiros de todas as nações em todos os tempos. Foi por isso que relacionei Filosofia, Psicologia e Doutrina naquela pequena frase, que li ao abrir a Guerra no Ar.

De qualquer forma, foi uma leitura que me levou a um universo, que atravessei por algum tempo num passado não tão distante. Vivi o esquecimento do princípio, da doutrina, tal como os guerreiros alemães, ingleses e muitos outros o fizeram. Junto comigo, nessa falta de memória, estavam meus mais caros amigos da caça, que me ensinaram, ou foram ensinados por mim.

Lembrar não é repetir procedimentos anacrônicos, mas sustentar princípios de combate, que, por serem atemporais, não podem ser esquecidos.

Quem sabe onde está a cura desse vírus?

Tacariju Thomé de Paula Filho - Cel.Av.R.R.
Piloto de Caça de 1967

Notas do Gerente do Sítio:

(1) Kaiser = refere-se à Primeira Guerra Mundial. Os imperadores da Alemanha tinham o título de "Kaiser" (Cesar).
(2) escoteiros = aviões de escolta

 

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