UM COMENTÁRIO SOBRE A PALESTRA DO ARAKEN
(Forum no07 , junho de 2001)


Esclarecimento:

Em dezembro de 2000, foi realizada uma Mesa Redonda proferida pelo Caçador Araken Hipólito da Costa e patrocinada pela ABRA-PC.
Araken discorreu sobre a possibilidade de se adequar os Cursos Militares de Aperfeiçoamento, Estado-Maior etc, para que que pudessem ser reconhecidos pelo Ministério da Educação, como níveis de Mestrado e Doutorado em Ciências Aeronáuticas.
Este fórum se refere àquele evento. 

"A roda da vida rodou
Descobri outros lugares
Mesmo distante do sonho
Sou um Filho Altivo dos Ares"


Estava arrumando a insistente confusão de minha "papelada" quando me deparei com os originais de um artigo do Araken, que, há algum tempo, ele havia me emprestado para ler. Se bem me lembro, esse artigo foi entregue à Revista da Aeronáutica e não foi publicado(1). Mas, isso é outra história. O que vale é o interessantíssimo conteúdo do texto, que segue o roteiro da palestra apresentada na ABRA-PC.

Pensando nisso, veio-me à memória a conversa que tivemos, Araken e eu, na nossa volta para casa depois da palestra. Ele insistiu muito na simplicidade de sua proposta, chamando a atenção para o fato de não haver motivos aparentes, para não adotá-la. Um motivo forte poderia ser a reorganização dos currículos das Escolas. Contudo, repetia, sua proposta não afetava os currículos existentes na época.

De fato, relendo agora seu artigo, fica claro que ele tem completa razão. Hoje, gostaria de colocar mais um tijolo nessa construção, fazendo um pequeno "giro" nos argumentos apresentados até agora. Antes porém, é preciso que se evidencie que o que passo a apresentar é um complemento à idéia original do Araken, não havendo aqui novidades importantes.

Naquela nossa última conversa, argumentei que seria necessário, antes de tudo, definir-se Ciência Aeronáutica e caracterizar-se seu Objeto de Estudo. A partir daí, ficaria mais fácil estruturar-se a graduação e a pós-graduação em Ciência Aeronáutica. Esse argumento é sugerido em seu artigo "não publicado"(1), não tendo sido por ele aprofundado. De qualquer forma, persiste a necessidade dessas definições, antes de discutirmos a validade de se realizar a pós-graduação na Aeronáutica seguindo as "regras" do Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Não pretendo ser exaustivo na argumentação, mas, é preciso chamar a atenção de que existem dois campos de pesquisa claramente definidos para essa Ciência, balizados pelos interesses civis e pelos interesses militares. Portanto, o caminho mais curto para definir-se Ciência Aeronáutica seria levar-se em conta tais interesses.

Como exemplo, poderíamos citar as diferentes faces de alguns assuntos:

Bases e Aeroportos - ex: administração e segurança;
O Controle do Espaço Aéreo - ex: Gestão do Espaço Aéreo e Defesa Aérea;
A Atividade Fim - ex: Transporte de Passageiros, Carga e Superioridade Aérea.

São campos, que permitem dizer-se que é possível conceituar-se Ciência Aeronáutica e definir-se claramente seu Objeto de Estudo. Além disso, suas interfaces com as outras ciências, que darão suporte às pesquisas, ficariam claras.

Paro por aqui, já que esse é o meu limite intelectual, deixando a discussão sobre tais definições para as Universidades, que tratam do assunto, e para a Universidade da Força Aérea (UNIFA)(2).

Um outro assunto, que percorreu nossa conversa na volta para casa naquele dia, foi a abordagem sobre os benefícios, que, eventualmente, poderiam alcançar os Oficiais da Reserva com tais títulos. Concordei em parte com esse argumento, mas chamei a atenção para o mais importante no meu entender, ou seja, a possibilidade de se preparar um grupo de pesquisadores em Ciência Aeronáutica, seja pesquisando soluções a serem aplicadas, seja em pesquisa pura.

O universo de trabalho de tais pesquisadores, Civis, Oficiais da Ativa, ou da Reserva, seria necessariamente junto às Universidades e à UNIFA, organizando e fazendo funcionar Centros de Pesquisa em Ciência Aeronáutica e ministrando Cursos.

Comentamos que as pós-graduações em Mestrado e Doutorado na Aeronáutica não deveriam ser obrigatórias. Querendo dizer com isto que não seria para todos os matriculados nos Cursos de Carreira, mas, dirigidos àqueles que se candidatassem e passassem por um processo de seleção.

Assim, as necessidades imediatas da Aeronáutica seriam atendidas pelos Cursos de Carreira, enquanto as pesquisas seriam desenvolvidas pelos Centros de Pesquisa coordenados pelos Mestres e Doutores, que seriam os naturais professores dos Cursos de Carreira e das Pós-graduações, tal como preconiza o MEC. Quanto às pesquisas em si, seriam definidas pelos interesses daqueles, que as financiassem, tal como o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPQ) e a Organização de Aviação Civil Internacional (OACI), ou pelo Comando da Aeronáutica (COMAER) no caso da UNIFA, por exemplo.

Pode parecer um pouco elitista escolher os pesquisadores entre candidatos, que se apresentassem para a seleção. Contudo, essa é uma prática já difundida em todas as Universidades, no Brasil e no exterior. Sobre esse assunto, há um argumento forte, que pode ser usado de forma contrária à nossa posição. Em geral, os financiadores das pós-graduações exigem dedicação exclusiva. Se aplicado para os Oficiais da Ativa, talvez contrariasse a atual Política de Ensino.

Por outro lado, a pós-graduação em Ciência Aeronáutica, seja balizada pelos interesses civis, seja pelos interesses militares, não pode ficar restrita a um só grupo. É preciso que se abra o espectro das pós-graduações para todos aqueles, que possuírem os pré-requisitos, para realizá-las, considerando-se a dedicação exclusiva, ou não.

Levando-se em conta que a disponibilidade eventual dos Civis e dos Oficiais da Reserva possa ser consideravelmente maior do que a dos Oficiais da Ativa, é possível que tais pós-graduações tenham em seus Cursos a maioria de alunos dessas categorias. Nesse caso, o benefício conseguido pelo Oficial da Reserva fica bastante claro. O argumento principal, contudo, é que se tratariam de pesquisas do interesse do Comando da Aeronáutica, no caso da UNIFA, não importando se o pesquisador é Civil, Oficial da Ativa, ou da Reserva.

Quanto ao currículo das pós-graduações, a pesquisa do Araken foi exaustiva. Nela, ficou provado que o número de horas exigido pelo MEC, para que um Curso de Pós-graduação fosse reconhecido, era folgadamente alcançado pelos Cursos de Carreira. Considerando os currículos da época em que o Araken realizou sua pesquisa, faltaria somente uma complementação relacionada, por exemplo, à Metodologia da Pesquisa e à elaboração de um Discurso de Mestrado, ou Pesquisa de Doutorado.

Como se sabe, o objetivo principal de um Mestrado é formar pesquisadores em determinada Ciência, enquanto o Doutorado retrata um pesquisador em plena atividade, descobrindo coisas novas A complementação acima aventada pode ser de início conseguida com uma articulação entre as Universidades e a UNIFA, no sentido de capacitar os Pesquisadores segundo as exigências do MEC.

Depois que os primeiros Mestres e Doutores em Ciência Aeronáutica estivessem formados, a UNIFA se encarregaria de realizar a complementação, segundo os interesses do Comando da Aeronáutica; enquanto as Universidades o fariam segundo os órgãos, que financiassem suas pesquisas. Isso tudo considerando que a face militar e a face civil dessa Ciência estivessem claramente definidas.

Apenas como uma idéia, acreditamos que os Instrutores Acadêmicos das Escolas de Graduação (Academia da Força Aérea - AFA) e de Pós-graduação (Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais da Aeronáutica - EAOAR e Escola de Comando e Estado da Aeronáutica - ECEMAR), dependendo do nível, devam ser, ou Especialistas, ou Mestres, ou Doutores, em Ciência Aeronáutica.

É importante chamar a atenção para o fato das Especializações e MBA's ("Master in Business Administration") serem LATO SENSU(3), enquanto os Mestrados são STRICTO SENSU(4), havendo, portanto, características peculiares importantes, que diferenciam profundamente tais cursos.

Como exemplo, poderíamos citar o MBA em Gestão de Finanças Corporativas da Fundação Getúlio Vargas - FGV (lato sensu) e o Mestrado em Finanças e Economia Empresarial (stricto sensu) da mesma Fundação. Quando se fala em pesquisa, fala-se em Mestrado (stricto sensu), que forma o pesquisador, enquanto, por outro lado, o Especialista é um conhecedor de uma área específica de uma determinada Ciência.

Finalizando, acreditamos que o Programa de Desenvolvimento Profissional Continuado (PDPC) poderia se apropriar da idéia do Araken, complementada com o aqui apresentado, "energizando" a organização e o funcionamento de um Centro de Pesquisa em Ciência Aeronáutica na UNIFA. Se os Oficiais da Reserva forem os beneficiados, que assim seja para o bem da Aeronáutica.

Cel.Av.R.R. Tacarijú Tomé de Paula
Piloto de Caça - Turma 1967


Notas do Gerente do Sítio:

(1) O Artigo foi posteriormente publicado no número 228 (julho de 2001) da Revista da Aeronáutica.
(2) Na Universidade da Força Aérea (UNIFA), são dados somente cursos de pós-graduação. A formação de oficiais de carreira é feita na Academia da Força Aérea (AFA).
(3) Latu Sensu = "em sentido amplo"
(4) Stricto Sensu = "em sentido restrito"

 

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