ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA  

(Estória 100) 

 
Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(100-1) As cinco sortes de um caçador na Marambaia
(100-2) Contatos imediatos sobre a Marambaia
 

As cinco sortes de um caçador na Marambaia

(Estória 100-1)   

capacete de piloto de caça

 Início do ano de 1984. Eu servia no 1º Grupo de Aviação de Caça, na Base Aérea de Santa Cruz (BASC), sendo Cap Av e Chefe da Área Operacional da FAN, na Restinga da Marambaia, e tinha todo aquele setor sob minha responsabilidade, indo da faixa mais estreita da Restinga até a vertente Leste do Morro da Marambaia, onde fazíamos divisa com a MB. Os FN volta e meia lá estavam em exercício, por vários dias.

Numa bela tarde houve um contato da minha guarnição, via HF, dizendo que o Cmt do Batalhão que lá estava precisava coordenar conosco horários de tiros de morteiros... não havia NOTAM expedido, pra variar.

Peguei um REGENTE U-42 e prá lá fui visando acertar as coisas em contato direto com eles, como de outras vezes já o fizera.

Do destacamento à beira da pista de grama – fazenda, onde os FN estavam acampados – a distância era de 8km, pela praia espremida entre a baía e a densa floresta.
Peguei um dos meus soldados para eventual apoio – volta e meia atolávamos na areia – e fui rápido pra fazenda, pois o dia terminava e a maré subia...

Fiz o contato com o Imediato e Oficial de Operações do Batalhão, declinei do convite para jantar, informando a questão da maré e do pôr do sol e iniciei o regresso ainda mais rápido; era já bem “lusco-fusco” e já usava farol (bem fraco) do JEEP, sem capota... a DEP seria fora do padrão: voo noturno saindo dali... 

O vento soprava bem forte de N e a praia já era varrida por pequenas ondas, com estreita faixa para o jipe, com muitos detritos (galhos) trazidos pela maré, que subia rápido mesmo.
Eu acelerei mais do que o normal e estava a uns 50km/h, quando de repente senti um tranco na parte anterior-inferior do jipe. O choque de meu tórax contra o volante e mais nada... Fui lançado por sobre o para-brisas, num voo de aproximadamente 20m, pela parada abrupta do jipe.

estoria100-1_1Caí na água a uns 15m da areia, desacordado. O soldado que me acompanhava foi também projetado, mas como não havia volante do seu lado, “voou” sem maiores problemas e caiu na linha da água-areia. O jipe ficou na areia, pois batera em uma robusta base de tronco de árvore que fora levada para a praia, camuflada debaixo de galhos-folhas, por sobre as quais iríamos passar, achando ser mais uns daqueles fracos arbustos na areia. Não era!

A primeira das sortes: próximo dali havia uma patrulha de Forças Especiais dos FN, que se infiltrava pela mata, na orla da praia, para um exercício de ataque ao acampamento. O seu Cmt, que por sinal era meu conhecido – CF Gabriel – usava um binóculo de visão noturna e acompanhava o nosso deslocamento. Viu tudo, no escuro, e correram para me buscar dentro d’água, me resgatando já que eu estava desacordado e poderia me afogar. Acordei com um sargento FN me segurando na areia e orando; Senhor receba essa alma... Eu ouvi aquilo e disse: “Epa! Estou vivo e não quero morrer agora, não!” Ele se assustou com a minha recobrada de consciência e logo chamou o Gabriel que já se comunicava com o acampamento de onde já vinha um veículo de lagartas M-113 que me transportou até aquele local.

A segunda das sortes: eles haviam montado, para exercitar seus médicos-enfermeiros, um ótimo hospital de campanha que estava muito bem equipado. Havia até um médico que era cirurgião plástico. Lá chegando iniciaram o meu atendimento. Em determinada hora recobrei a consciência de novo e os ouvi discutir o meu quadro, preocupados com ruptura de baço, já que a pancada fora muito forte no tórax-abdômen. Disseram inclusive que se aquilo ocorresse nada mais poderia ser feito pra me salvar... que incentivo ouvir aquilo. Apaguei de novo, mas ainda os ouvi ler o meu tipo sanguíneo na minha plaqueta de ID dog-tag e também que o Cmt do Batalhão, que estava no Centro de Adestramento da Marambaia, do lado Oeste do morro, já estava vindo a pé pela estrada, que ficara impraticável pelas chuvas; que “passeio” de 5km à noite, morro acima-abaixo e na lama, já que não poderia vir no helicóptero ESQUILO que para lá o transportara, por ser período noturno e a tripulação daquela aeronave não estar qualificada para aquele voo. Chegaram até a discutir se não poderia ser feito o voo e me levar para um hospital, mas foi decidido não fazê-lo.

Acordei já próximo ao nascer do sol, com a chegada do Cmt e mais uns 2 oficiais e os ouvi dizer que o helicóptero Esquilo decolaria logo que houvesse luz do dia e faria a minha evacuação. Passei a noite semi-sedado e com dores no corpo todo e depois também no olho direito. Havia tido um corte grande no supercílio, meu olho direito quase saiu de seu encaixe e tomei cerca de 30 pontos naquela área toda. Ainda bem que o médico era cirurgião plástico e não um fabricante de “Frankensteins”!

estoria100-1_2A terceira das sortes: o dia começou a raiar e eles começaram a me levar de maca para o heliponto, montado num gramado entre uns coqueiros da praia e a sede da fazenda. Ouvi o helicóptero se aproximar e de repente um estalo... o pessoal gritou que ele estava caindo na água... correram todos e me deixaram na maca... que expectativa... mas o piloto conseguira pousar em emergência de autorrotação na areia da praia, quase dentro d’água mesmo. Quando iniciou a aproximação, uma carenagem do motor se soltou, bateu no rotor de cauda e ele ficou desgovernado. Se tivesse decolado à noite pra me buscar poderia ter sido pior, e talvez até ocorresse quando estivéssemos sobre a Baía de Sepetiba...

A quarta das sortes: ficáramos, então, sem meios para me evacuar rapidamente para um hospital, o que se fazia necessário em função, ainda, do perigo do rompimento de órgãos internos. Seria preciso trazer outro helicóptero da Base Aeronaval de São Pedro da Aldeia, o que levaria, no mínimo, 02h... muito tempo para o meu quadro. Enquanto ouvia aquela discussão toda, lembrei que eu deveria estar decolando àquela hora com uma esquadrilha de 3 F-5E para uma missão de interceptação. Disse isso a eles e pedi que me levassem ao helicóptero na praia onde faria contato com a minha esquadrilha Jambock Azul. Assim foi feito.

Estávamos chegando lá quando ouvi o “rugido” dos F-5E decolando da BASC da então pista RWY-22, com proa do mar, e cujo perfil de subida passaria sobre a nossa posição. Esperei uns 2 minutos e na frequência da esquadrilha chamei o líder, meu colega – Rezende (68 BQ) – pelo seu apelido, sendo o ala o Bastos (70 BQ). Ele prontamente atendeu e, me chamando também por apelido, perguntou porque eu sumira e não aparecera para o voo, que era a primeira DEP do dia. Disse-lhe brevemente o que ocorrera e que precisava urgente de um helicóptero para me tirar dali em função de minha situação. Ele disse que o faria de imediato e que estaria na escuta até que fosse realmente mandado o resgate. Uma missão de interceptação supersônica com 3 aviões virou uma “ponte de comunicações”... Menos de 5 minutos depois ele me chamou de volta e disse que um helicóptero SUPER PUMA do 3º/8º GAv, da Base Aérea dos Afonsos (BAAF), já estava a caminho, devendo chegar em uns 15 minutos!

A quinta das sortes: um SUPER PUMA do 3º/8º GAv decolara ao nascer do sol, da BAAF, para um voo de experiência e assumir o Alerta SAR, e foi acionado em voo, deslocando-se para a Marambaia. Pouco depois ouvimos o seu barulho se aproximando... foi um dos sons mais bonitos que já ouvi e do qual me recordo perfeitamente. Sobrevoou nossa área e foi orientado para pouso no heliponto. Fui levado de maca até lá e embarcado, encontrando seu Cmt, o então Maj Av Heitor Sumida (turma de 65 em BQ). Um dos médicos da MB me acompanhou e fomos direto para o Hospital da Força Aérea do Galeão (HFAG).

Lá chegando, me desembarcaram, fizeram alguns rápidos exames clínicos e fiquei em uma maca num corredor. Dormia, acordava e dormia de novo, sem noção de tempo. De repente ouvi uma voz bem familiar, com forte sotaque gaúcho a me chamar pelo nome e perguntar o que eu estava fazendo ali naquela maca... era o meu amigo Ten Cel Med Albion, que servia no HFAG, e que ao ver uma pessoa de macacão de voo deitada na maca, perguntou o que era e foi dito que se tratava de um piloto de SC que havia se acidentado... foi ver quem era e me viu... a coisa então mudou logo; fui direcionado para vários exames e Raio-X, sendo levado para um apartamento e devidamente internado por 3 dias, sob excelentes cuidados desse meu saudoso amigo .

Tempos depois, o jornal da MB publicou a notícia da ocorrência com uma foto em que apareço sendo embarcado no SUPER PUMA, claro, sem maiores explicações-detalhes, como aqui relato, do que chamo: “As 5 Sortes de um Caçador na Marambaia”.

 

Marco A de M Rocha (Rocky) - Maj Av RR
Piloto de Caça – Turma 1976
 
gaivota1
 

 

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(100-1) As cinco sortes de um caçador na Marambaia
(100-2) Contatos imediatos sobre a Marambaia

 

 

 

 

 
 
   

Contatos imediatos sobre a Marambaia 

(Estória 100-2)

capacete de piloto de caça

Estava na casa de um colega de turma, o Souza Lima, que servia no 1º GpAvEmb, meu vizinho na vila da Rua Cap. Galvão na BASC, assistindo a um vídeo do filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”, e justamente na cena em que os OVNIs dão uns rasantes com suas luzes coloridas, toca o telefone a minha procura.

Era o Oficial de Operações, Ten Av Campos, colega recém chegado ao 1º GpAvCa, ligando pois havia algo urgente a informar. Uma aeronave ELECTRA da VARIG, ao sobrevoar o setor da Marambaia na rota SAO - RIO, avistara foguetes luminosos (rocket flare) vermelhos, sendo provável indicação de emergência naquela área, no setor da FAB.

Na época, como Cap Av antigo que eu era, servindo no Grupo desde 1º Ten novo, além de ser o Oficial de Sistema d’Armas do 2º/1º GpAvCa – ROMPE MATO, era também chefe da Área Operacional da Marambaia, e portanto tal assunto me era bem pertinente.

Pedi que ele fizesse contato com a TWR SC (PRIMAVE), verificando se os operadores tinham avistado algo, e também com o 1º ECA, e que fosse tentado contato HF com a nossa guarnição de serviço lá. Como nada fora avistado e o contato rádio não fora conseguido, o que era bem comum com o tipo de equipamento então utilizado, um HF antigo, resolvi agir!

Decidi sobrevoar aquela área com um dos nossos REGENTE U-42, pois assim poderia contatar a guarnição em VHF, ou mesmo tentar contato visual com quem por lá estivesse em emergência, podendo ser inclusive da nossa guarnição.

Rapidamente me aprontei e me dirigi para o pátio Norte do Hangar do Zeppelin, onde já havia um REGENTE pronto para mim. O Campos, como bom “alferes” caçador, agira rápido!

Tive um curto papo com ele e pedi que fosse para a TWR de onde nosso contato seria direto e mais fácil.

Decolei da RWY-22, curvei à direita, com proa da Ilha da Madeira, procurando manter boas referências visuais, pois a noite estava escura, sem lua, e o “breu” daquela área era famoso. Após a Ilha da Madeira curvei a esquerda e aproei o Campo da Marambaia, me fiando mais no “pau e bola” do que no horizonte artificial a vácuo do U-42, muito precessionável e nada confiável.

E lá fui eu sobre a escura Baía de Sepetiba procurando avistar algo de anormal no setor à frente... Nada!
Prossegui a 2500ft até a vertical da pista, mas estava tudo apagado no destacamento. Sobrevoei aquela área em 3 curvas de 360 graus e decidi regressar, chamando PRIMAVE já na proa de SC.

O Campos entrou na frequência. Confirmei nada ter visto e estar sendo avistado por ele, tendo eu já ligado o farol do REGENTE.
WOW! Foi quando ele transmitiu, com voz agitada:
- Rocha, olha atrás de você!

Curvei de imediato à esquerda e vi 3 “bolas luminosas” no céu, no lado do mar grosso, na direção do Morro da Marambaia!

OVNIs?!

Aquilo me lembrou a cena do vídeo que eu acabara de assistir... Bem sugestivo! Que visão! Três luzes, muito fortes, descendo... “pousando”?

Apaguei os faróis e o beacon do REGENTE e desci para 1.000ft. Mantive uma proa para o lado norte do Morro da Marambaia, mantendo contato visual com as luzes, e as vi “pousando” na praia...

Fiz contato com a TWR SC, informei ao Campos o que vira, e disse-lhe que iria investigar. estoria100-2

Baixei para 500ft e fui voando para circular por trás do Morro da Marambaia e “pegar” quem tinha pousado de surpresa, vindo de outra direção...

O breu daquela área era total e lá ia eu com meu “pau e bola”, altímetro, “climb” e muita vontade de ver de perto o que era “aquilo”!

Sai de trás do morro, baixei para 200ft sobre a arrebentação, me guiando bem pelo branco das ondas quebrando na praia... Nada à vista! Estava sobre o ponto onde os vira “pousar”. E... nada!

De repente o “mundo se iluminou”!

Três luzes bem fortes acima e uns 3 feixes de raios luminosos a subir para o céu. As luzes eram traçantes; era fogo antiaéreo; e eu no meio daquilo! Instintivamente baixei para uns 100ft e liguei o beacon e o farol do REGENTE, ainda sem saber direito o que era aquilo, mas que era “FLAK”, era.

Bem assustado com aquilo tudo (quem não ficaria?), prossegui à baixa altura passando sobre o bingo do estande. Curvei à esquerda e nada mais vi por lá.

Saí, aproei SBSC e comecei a subir para 1.500ft, chamando o Campos/PRIMAVE. Disse então:
- Foi fogo antiaéreo! Atiraram em rocket flares justo quando eu passava. Quase fui atingido. Foi por pouco!

Eles responderam que viram os flares e confirmaram nada haver de informação quanto a exercícios de tiro da Marinha/Fuzileiros Navais (FN) naquela área.

Então, de brincadeira, disse ao Campos que preparasse 2 F-5 bem armados, pois iríamos decolar pra revidar. Nessa hora, outro piloto do Grupo, Of de Ops do 1º/1º, estava em casa mexendo em seu aparelho de som, em FM, e captou a tal mensagem. Nada entendendo, e ficando preocupado com o que ouvira, saiu rapidamente para a Sala de Tráfego.

Pousei direto na RWY-04 e taxiei para o Pátio Norte, onde, ao cortar o motor, encontrei o Campos e os outros, sem bem saber do que se tratava, o que, após as devidas informações, gerou boas risadas.

No dia seguinte cedo decolei para a Marambaia, sobrevoei o setor da fazenda e vi um grande acampamento dos FN. Pousei e peguei o jipe do destacamento seguindo pela praia até o acampamento.  Lá fui muito bem recebido pelo comandante deles, um Capitão de Mar e Guerra, que ainda se mostrava surpreso pela súbita e inusitada aparição de um REGENTE no meio da noite, voando baixo, e passando bem na linha de tiro dos canhões antiaéreos de 20mm, exatamente quando abriram tiro!

Segundo eles, tiveram a impressão de eu ter sido atingido e só ficaram aliviados quando me viram subir, ligar as luzes e voar para SC! Eu lhes perguntei sobre qual coordenação havia sido feita, uma vez que não havia NOTAM de tal exercício, ao que responderam que haviam feito contato com o COMAT, que os passou para SC, onde contataram um oficial e deram as informações. Tal oficial baixou o HCA no mesmo dia, e a tal informação não foi coordenada, mesmo que totalmente fora de qualquer canal e procedimento adequado, os FN estavam certos que estava tudo OK.

Não estava!

O que me proporcionou uma emoção e tanto naquela noite escura sobre a Marambaia; quase...

  

Marco A de M Rocha (Rocky) - Maj Av RR
Piloto de Caça – Turma 1976
gaivota1
 

 

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(100-1) As cinco sortes de um caçador na Marambaia
(100-2) Contatos imediatos sobre a Marambaia
 
   
 

 

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