ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA 

 

(Estória 99) 

 
Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(99-1) E por falar em Maria Boa
(99-2) Angel Vivas
(99-3) Discussão por Sinais Visuais
 

E por falar em Maria Boa

(Estória 99-1)   

capacete de piloto de caça

Vejam uma vantagem(?) da velhice: pelo visto, devo ser um dos poucos que conheceu a Maria Boa em pessoa e em atividade social (mesmo), e que não tenha tido um “entrevero” com a dita cuja pois, a dama(?) era a “namorada” (?) do então Cmt do 2º/5º GAV, o Ten Cel Av José Carlos Teixeira Rocha. Uma foto da Maria Boa, “nua Maria Boaem pelo e de costas” (dizem) fotografada pelo próprio T Rocha, enfeitou, por muito tempo, a parede do Comando do 2º/5º e a Sala dos Pilotos do 1º/4º GAV (FZ). E, até onde é possível lembrar, foi sorteada durante uma cervejada em Natal, e alguém do 1º/4º a ganhou e levou... Quem mais conviveu com T Rocha no 2º/5º foi o Cel Av Silas Rodrigues, que era o seu Operações. Para a época, Maria Boa fazia “boa figura e gostava dos aviadores”.

São conhecidas as “tertúlias” por ela patrocinadas, em homenagem aos FABinhos, e com presença maciça dos candidatos a Piloto de Caça do 2º/5º GAV... Ainda há uma outra versão de que diz que a foto era da esposa de um FABinho fotografada pelo próprio marido e que curtia o “nu artístico”... A ser comprovado...

Antecedentes históricos:

Para os novinhos, quando o P47 foi transferido para Natal (por força da chegada dos Gloster), o então Maj Av Teixeira Rocha (Asp 1943) era o Major mais moderno no efetivo Grupo e a ele coube realizar a transferência e implantação dos “bulldog alados” em Parnamirim. Teixeira Rocha era uma figura agradável, gozador, colega de turma de alguns Veteranos (Meira, Keller) solteiro e “comedor campeão”... Sua lábia era terrivelmente convincente e creio que, por isso, era muito cobiçado pelas “moçoilas do aratacal”. Fez parte de um grupo de “antigões” (poucos) que se habilitou a fazer o Curso de Caça (Moura, T. Rocha, Cassiano, Arildo). À época, tivemos a honra de ter sido designado para compor o grupo de Instrutores para ditos antigões (apesar de ser efetivo do 1º/1º GpAvCa). Esses quatro aviadores não passaram pelo ESPC e – como previsto – somente 2 concluíram o “Curso(?)”: T. Rocha e Cassiano.

T. Rocha era figura elegante, de “proa” e contumaz frequentador do bar Alcazar, na praia de Copacabana (Posto 6) em companhia de Motta Paes (o “moita”), Veterano de Guerra.

Quanto à “senhorítica” em questão (Maria Boa), ela andou frequentando alguns “sonhos eróticos” da mocidade da época vindo a se tornar, como diz a matéria descritiva, figura de apelo sexual de muitos jovens Tenentes do Esqd PACAU (P47) e Esqd RUMBA (B25).

 

Lauro Ney Menezes - Maj Brig Ar Ref
Piloto de Caça – Turma 1948
 
gaivota1
 

 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(99-1) E por falar em Maria Boa
(99-2) Angel Vivas
(99-3) Discussão por Sinais Visuais

 

 

 

 
 
   

Angel Vivas 

(Estória 99-2)

capacete de piloto de caça

Em 1975, fui ao Festival Sul-Americano de Cadetes em Caracas, Venezuela, competindo pela natação. Na NAVAMAER do mesmo ano eu havia sido o vencedor da prova de 100m nado livre, disputada na Escola Naval.

Meus competidores diretos e também convocados eram o Malan (Cadedé), irmão do Alfredo, piloto de caça, e o Pinto, ambos do Exército. E o Luciano Riquet (Flecha), da Marinha.

Juntos compúnhamos o revezamento brasileiro, recordista sul-americano. Da FAB ainda foram convocados Eitel (piloto de caça e recordista sul-americano de nado peito) e o Hamilton, de nado costas.

A delegação brasileira, que também tinha os Caçadores Bevegnu e o Lopes Alves (Maguila), de atletismo, saiu num C-130, em voo direto do Galeão. O comandante era o então CMG Barreira.

Em Caracas, ficamos hospedados na própria Academia Militar, no Vale de Los Próceres. Cada esporte alojava-se em separado com sua subdelegação.

A natação era comandada pelo então Cap Sparta, atleta lendário do EB e instrutor da AMAN.

Sparta, um gauchão daqueles que frequenta CTG, nos acordava todos os dias às 05:00 da manhã, cantando músicas folclóricas.

Mal o sol enviava suas primeiras luzes e já se ouvia a cantoria. “Amigo boleie a perna, puxe um banco e vá sentando, enquanto a chaleira chia e o amargo vai cevando…”

Essa alvorada está entre uma das, na época piores e hoje melhores, lembranças que levo comigo.

Malan era mais sério, mas eu, Pinto e Riquet, fazíamos uma trinca da pesada. 

A camaraderie, como diz o Brig Menezes, que havia entre os cadetes brasileiros, há pouco antagônicos durante a NAVAMAER, era total.

Treinávamos juntos e saíamos juntos numa cidade cosmopolita e avançada.

Comprava-se qualquer produto, de qualquer parte do mundo, a bom preço. Havia fartura de tudo.

Culturalmente, estavam muito mais avançados do que nós, pois as modas chegavam direto dos Estados Unidos e da Europa, para uma sociedade sedenta de novidades.

As ruas eram seguras.

Lá pude assistir ao filme mais badalado da época, Emanuele, com a Silvia Kristel, sem censuras. Incluindo a famosa cena da transada na primeira classe do 747.

No Brasil, a censura não havia liberado o filme.

Angel VivasTambém aprendi a dançar o “cadeiru”, um ritmo em que os casais se balançavam e batiam as bundas alternadamente (meus melhores alunos, na volta, foram Bastos – Cepo – e sua esposa, D. Beth, então sua namorada) e disputei uma competição de tomar chope a metro num pub holandês, vencida pelo Riquet.

Ou seja, além da competição esportiva em si, vencida pelo Brasil e comemorada com um salto conjunto da plataforma de dez metros onde passei do ponto e caí de costas, foram quinze dias fantásticos de integração com os cadetes das outras forças, de outros países, e com as civis venezuelanas.

Cada subdelegação tinha um cadete do primeiro ano da Venezuela, encarregado como ligação. E o nosso era o cadete Angel Vivas Perdomo, um tipo que à primeira vista parecia sério, mas que tinha um incrível senso de humor.

Os militares venezuelanos eram extremamente formais e ainda marchavam em passo de ganso, herança da passagem de Ernest Rohm por lá, pouco antes da Segunda Guerra.

O inimigo potencial da Venezuela era a Colômbia, mais ou menos como a rivalidade que havia entre nós e os argentinos.

Quase sempre que alguma coisa não dava certo, Angel Vivas lançava seu curioso bordão: “Puta que pariu Colombiano!”.

E isso virou praticamente um viral entre nós, ao ponto de que há cinco anos atrás, ao nos reencontrarmos, eu, empresário de maricultura, e Riquet, então Capitão dos Portos do Rio, na Praça D’Armas do Arsenal de Marinha, os almirantes ficaram todos surpresos quando ele, levantando-se espalhafatosamente da mesa, lançou o bordão venezuelano em alto brado ao me ver entrando.

Os pais de Angel Vivas eram agricultores, fato de que ele muito se orgulhava, e ele também adorava cantar e dançar músicas folclóricas, como o ”joropo”, uma espécie de valsa com sapateado.

Num dos dias, fomos ao alojamento do Sparta e o acordamos às 04:00 da manhã com uma de suas melodias de que até hoje me lembro.
“Haja enel rancho alegre, haja onde vivia, haja una rancherita...”

Saímos todos rindo após receber um balde d’água de nosso comandante, que se vingou puxando uma corrida de cinco quilômetros, de que o cadete de ligação participou, por solidariedade.

Quando nos despedimos, cantando em coro uma de suas canções prediletas (“Maria Antonia es una mujer, que está loca de remate...”), o cadete Angel Vivas quase chorou…

O tempo passou, Angel Vivas se formou três anos depois e nos mandou convites para seu juramento de defesa de la Pátria e de las Instituciones.

Depois fez uma bela carreira, servindo em postos ermos de fronteira e notabilizou-se como patriota e líder militar.

Há cerca de três anos pediu passagem para a reserva por não concordar com a influência cubana nas forças armadas e com a adoção do bordão cubano “Pátria, Socialismo o Muerte!”, pela Guarda Nacional, criada por Hugo Chavez.

Há alguns dias atrás, o velho Angel Vivas teve que defender sua família e sua casa, de metralhadora em punho, contra um colectivo de sicários do governo, que pretendia prendê-lo por críticas feitas numa entrevista da CNN.

Enfrentando os vagabundos de Maduro, inicialmente só, disposto a matar ou morrer, Vivas conseguiu afugentá-los devido à ajuda de moradores de seu bairro e vários de seus antigos subordinados.

Fico pensando que  Angel Vivas deve ter, ao longo do tempo, mudado seu adversário e seu bordão: “Puta que pariu bolivariano!”

 

Flavio C. Kauffmann – Ten Cel RR
Piloto de Caça – Turma 1976

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Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(99-1) E por falar em Maria Boa
(99-2) Angel Vivas
(99-3) Discussão por Sinais Visuais

 

 

 
 
 

 

Discussão por Sinais Visuais

 (Estória 99-3)

 capacete de piloto de caça

Como todos sabem... a Caça de outrora, antes do advento dos sistemas de enlace de dados, se baseava muito no Silêncio Rádio, para evitar a detecção e alarme prévio por parte do “inimigo”. Por isso, havia muita ênfase nos Sinais Visuais que, começando do bê-a-bá de positivo e negativo, desenvolveram-se muito além do que supunha nossa vã filosofia.

Os teóricos do absurdo levaram a doutrina de Sinais Visuais a um ponto onde eu já vislumbrava a necessidade de implante de dedos para todos os pilotos de Caça, ou da exigência nas IRIS para acesso à Aviação de Caça de polidactilia, estilo Daniela Cicarelli, para sermos capazes de transmitir todas as possibilidades de problemas que a aeronave pudesse apresentar.

Assim surgiu em Fortaleza, a partir do HECOM, o HECOMAI, depois o HECOMAIRP e, tenho certeza, outros sistemas que tais, visando tornar cada vez mais confuso e impossível decorar todas as possibilidades. Aliás, essa confusão de Sinais Visuais possíveis, contribuiu para uma Ficha Deficiente que levei do Rigobil em FZ, como número Três, quando o Rigobello, meu Ala, fechou o punho apoiado na testa ao contrário e levantou três dedos. Até hoje não sei o que ele queria dizer!

Todavia, esse artigo quer comprovar que, apesar da minha aversão aos Sinais Visuais, eles são essenciais para a Aviação de Caça, como vocês poderão confirmar no episódio descrito a seguir...

Esquadrilha de F-5Estava eu, em 1983, participando em mais uma das efemérides da Caça que, até onde eu saiba e por mais que eu tenha estimulado o Líder do Esquadrão em tela a fazê-lo, nunca foi escrita. Tratava-se de um deslocamento de Santa Cruz para Anápolis, para a campanha de Combate Dissimilar com o 1º GDA, com dezoito (isso mesmo, 18!) F-5 do 1º GAC (ou 1ºGpAvCa, para os saudosistas).

Eu era o líder de uma ESQDA de quatro F-5B que, salvo na chegada dos F-5 ao Brasil, creio que também foi um caso único no 1º GAC. Naquele deslocamento, nossa ESQDA contava com, no melhor estilo Memphis Belle, uma ESQDA na Escolta próxima, à esquerda, liderada pelo Judeu; outra, liderada pelo Coré, na Escolta média, à direita; o Líder do ESQD na Escolta afastada, à esquerda; e dois F-5E em Escolta Radar, 2 a 3 NM atrás de nós, em Cobrinha Radar.

Decolei da BASC, pela pista 22 (número da pista que apontava para o mar, naquela época, antes de o mundo rodar e a pista se tornar a 23), reuni a quadrilha de F-5B e fomos para o ponto de reunião com a Escolta, sobre Rezende (não me lembro quais eram as altitudes previstas, por segurança, para cada uma das ESQDA. Um dos F-5 da Escolta Radar deu pane e não decolou (creio que era o Maravilha).

Fiz um 360º sobre Rezende e prossegui para Anápolis, como brifado. Durante a circulada, a Escolta próxima se posicionou rapidamente, a Escolta Radar, agora com apenas um F-5E, também, a Escolta afastada avistou todo mundo e começou a reunir e a Escolta média, não conseguindo avistar nenhum dos outros 13 F-5, colocou a proa de Anápolis, dentro da altitude de segurança, para tentar reunir em rota.

Logo em seguida, todos os Líderes de ESQDA e o Líder de ESQD já avistavam a ESQDA do Coré do lado direito da força escoltada. Até mesmo o Três e os dois Alas da ESQDA do Coré já avistavam todo mundo. Só o Coré não conseguia avistar aquele mundaréu de aviões de Caça no céu.

O papo rádio com todos tentando ajudar o ceguinho, só serviu para atrapalhar mais, até que o Líder do ESQD deu um “cobre e alinha” e, finalmente, a Escolta média conseguiu avistar a força escoltada e posicionou-se adequadamente, antes de atingirmos a metade do caminho para Anápolis.

Neste ponto, como combinado em brifim, eu comandei “- ESQDA Azul, Box!”, que seria a formatura que os quatro F-5B deveriam empregar, como força escoltada (até hoje me arrependo de não ter comandado “-ESQDA Azul, Batalha!”). Com isso, o Três, que era o Pizzo, com o Hemorragia de “saco”, deveria ir para trás da minha aeronave, a 1 NM, e o Dois e o Quatro deveriam ir para o lado esquerdo, em Linha de Frente Tática com seus respectivos Líderes.

Por isso, só olhei para a esquerda, para checar o posicionamento dos Alas, e me surpreendi quando o Líder do ESQD falou “- Ás Azul, o Três não foi!”. Olhando espantado para a direita, vejo meu número Três ainda em Formatura Básica, ao meu lado, com o Pizzo, na nacele dianteira, lendo tranquilamente um jornal.

Ainda olhando para o Três, repeti no canal tático “- Azul, Box!”, e nada. Estupefato, repeti mais alto ainda no rádio (como se fizesse diferença) “- AZUL, BOX!”. Depois de mais algumas tentativas, o Hemorragia, que estava de fato pilotando, já que o Pizzo continuava lendo o seu jornal, notou que eu estava tentando contato e informou pelo interfone à cabine dianteira.sinais visuais

O Pizzo colocou o jornal de lado e fez um sinal visual despadronizado, dando uma levantada de cabeça, para saber o que eu queria. Repeti no rádio “- BOX!” e pensei “cacete!”. Novamente fui contemplado com o sinal visual de levantada de cabeça significando que ele não estava me ouvindo (tenho até receio de escrever sobre isso porque vai que algum teórico do absurdo decida padronizar também esse sinal).

Aí começou a sequência que deu título a esse artigo. Apontei para o Pizzo, para a minha orelha e fiz o sinal de negativo. Para quem não está versado na complicação dos Sinais Visuais, esta sequência significa: Você está com pane de recepção. Imediatamente, fui brindado com a seguinte sequência de sinais: o Pizzo apontou para ele, para a própria orelha e fez o sinal de positivo, significando: Minha recepção está boa!

Pacientemente, apontei para minha orelha, para o Pizzo e fiz, mais veementemente agora, o sinal de negativo. Para minha surpresa o Pizzo repetiu, por sinais, que a recepção dele estava boa. Já sem paciência, repeti os sinais com grande ênfase e bastante estressado. Novamente o Pizzo informou por sinais que estava ouvindo bem. Toda a sequência foi ainda repetida, já meio histericamente, ainda mais uma vez.

Daí em diante os sinais visuais foram impublicáveis, comigo tentando resolver o problema, até o momento em que o Pizzo, dobrando e guardando o jornal na caixa que os F-5B tinham no painel do lado direito, fez um sinal para eu esperar (Sinal esse que também não está padronizado. Aparentemente vamos ter que usar também os dedos dos pés).

Abaixando-se, o surdinho mexeu no painel dos rádios do F-5B e, corrigindo o problema, me brindou com a seguinte mensagem rádio “- U que qui é Zega?”. “- BOX!”, respondi, e vi, finalmente, o Três fazer uma Manobra de Valssalvo para ir para a posição prevista.

O que aconteceu foi que o Pizzo, para poder ler sem preocupações o seu jornal, passou a pilotagem para o Hemorragia, na nacele traseira. Entretanto, passou também o controle dos rádios para trás. O problema é que o Hemorragia não havia ligado os rádios no painel da nacele traseira e com isso, de fato, o F-5B, que tinha esse detalhe técnico, ficou sem comunicações, apesar de estar sem qualquer problema de rádio.

Terminada a nossa discussão por Sinais Visuais e corrigida a discrepância técnica, o restante da viagem para Anápolis ocorreu sem problemas, até porque o Alerta do 1º GDA não iria “dar chance” contra tantos F-5.

 

Álvaro Luiz Pinheiro da Costa – Maj Brig Ar R1
Piloto de Caça – Turma de 1976
gaivota1  
 

 
Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(99-1) E por falar em Maria Boa
(99-2) Angel Vivas
(99-3) Discussão por Sinais Visuais
   
 

 

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