ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA 

 

(Estória 96) 

capacete de piloto de caça  
 
 
Senta a Pua!
O último desejo do Brig Rui? 
 
(Estória 96-1)   

 

"Senta a Pua, minha gente!” Essa parte do Hino da Aviação de Caça, reflete o que talvez seja o último desejo do nosso saudoso Brigadeiro Rui. Não me cabe aqui  contar a história de como o grito de guerra foi criado, até porque isto já foi muito bem feito por nossos heróis. Mas o intuito é nos fazer refletir sobre o que nos faz “gritar” algo que enalteça o espírito, a garra e a origem da Aviação de Caça Brasileira.Picadinho "Jesus Tá Chamando": Brig Rui apresenta a história de São "Quiricalho" aos caçadores

Segundo a Wikipedia: “Um grito de guerra ou grito de armas é, normalmente, uma palavra ou frase simples, de uma entidade, para juntar ou incentivar ao combate ou à ação (sic), os seus membros ou seguidores. Na heráldica o grito de guerra é colocado, normalmente, num listel sobre o brasão.” Não à toa, então, os heróis que criaram a aviação de caça utilizaram-se desta célebre frase para dar identidade aos atos que todos conhecemos, aclamando a todos com o “minha gente”, seus membros, pilotos brasileiros. Pronto, foi criado, junto com a aviação de caça, genuinamente brasileiro, como a FAB. PAIM 85 - Pôster de época - Senta a Pua - Brasil!

Todos que conviveram com os nossos veteranos nos últimos, pelo menos, dez anos, sabem que toda vez que eles se dirigiam aos caçadores mais novos (sejam da reserva ou da ativa), eles veementemente reforçavam a perpetuação de nosso grito de guerra. Não desdenhavam os outros gritos xenofobicamente, mas faziam um embutido apelo de que nossas tradições fossem, por que não dizer, mais tradicionais. Interessantemente, sempre havia um brincalhão ou outro, que puxavam um grito mais sonoro, por teimosia ou por não entender o que clamavam os nossos heróis. Compreensível, sim. É natural termos uma resistência à quebra de paradigma.

Hoje, subtraídos da presença física de nossos veteranos de guerra, precisamos de uma nova referência. Acho que, por cronologia, devem ser aqueles que tiveram o privilégio de voar com os heróis do Vale do Pó. Ou qualquer outro ícone que tenhamos, líderes nas suas épocas e nas atuais. Mas estes devem, antes de tudo, em reverência à nossa história, perpetuar o último pedido do Brigadeiro Rui: sedimentar o grito de guerra “Senta a Pua!”. Fortalecer a nossa identidade no Brasil e no mundo, como fizeram quando estamparam a frase nos P-47 nos céus da Itália. Não é “À La Chasse”, não é “À Caça”. Isso faz parte, fez parte. Não nos esquecemos do que é inerente a cada um, a cada Unidade com sua história. Mas acho que não podemos deixar de lado a herança e os derradeiros anseios de quem criou a Aviação de Caça no Brasil. Caçadores, lembremos o que disseram: “Senta a Pua, minha gente. Que ainda tenho que estreifar!” Assim, manteremos o foco, levando a chama acesa, independente da máquina, mas conscientes do nosso dever. A Caça como um todo, unidos mesmo espalhados pelo país, e até fora dele, sempre gritará da mesma forma, como tudo começou.

Newton – Maj Av – S3 do Esquadrão Flecha
Piloto de Caça – Turma de 1997

gaivota1

 

Adendo:

Poucos sabem, mas o grito de guerra “Senta a Pua! Brasil!”, hoje popularizado e rivalizando com o tradicional “À la Chasse! Bordel!” da Caça Francesa, não foi criado na Campanha da Itália, e sim em 1985, numa campanha publicitária para o PAIM, naquele ano acontecendo no Brasil, pelo então Maj Av Flavio C. Kauffmann, Piloto de Caça de 1978, por Rogério Steinberg, gênio da publicidade brasileira e falecido em acidente de automóvel, e por Aloysio Legey, diretor da Rede Globo de Televisão, piloto de ultraleve e entusiasta de aviação. Vejam a foto do pôster promocional da época. 


 

Este fascículo contém 4 (quatro) estórias:
(96-1) Senta a Pua! O último desejo do Brig Rui?
(96-2) Experiências Vividas: Motta Paes: um Jambock em tempo de paz
(96-3) O batismo do pornocancioneiro
(96-4) Jink-out sobre a caatinga

 

 
 
 
 
 
 

Experiências Vividas: 

Motta Paes: um Jambock em tempo de paz

 
(Estória 96-2)
  
capacete de piloto de caça

...Quem dos senhores tirou um rasante em Copacabana na quinta-feira?"

 Tenente Aviador Ismael da Motta Paes. Ouvi falar dele pela primeira vez quando foi abatido pela AAAe alemã em 1944. Na minha Turma da Escola de Aeronáutica estava seu irmão Antonio ensaiando seus primeiros voos como Cadete do primeiro ano. A consternação tomou conta de todos nós, solidários com o colega, o que me ligou mais ao fato. Foi quando sobreveio o primeiro sentimento de apreensão ou de medo, de orgulho ou de vontade de ser igual a ele. Não sei. Dúvidas de adolescente.

Quando a Guerra na Europa terminou, logo chegou a notícia do resgate do Tenente Motta Paes libertado de um campo de prisioneiros de guerra.

Compartilhando da alegria do Cadete Antonio da Motta Paes Jr., a turma recebeu a notícia como um estímulo. No fundo, porém, a frustração pelo fim da guerra: nenhum de nós teria chance de uma história de vida igual à do Tenente Motta Paes.

Em 1948, ao ser matriculado no estágio de seleção para piloto de caça (ESPC), vim a conhecê-lo pessoalmente. Ele era o Oficial de Operações do 2° Esquadrão, Unidade responsável pela seleção de novos pilotos de caça. Em pouco tempo percebi que havia uma empatia entre nós dois; talvez pelo meu temperamento sisudo(?), parecido, mas não tanto quanto o dele; talvez pela preferência pelos carros Mercury – ele possuía um – e eu imaginava logo poder comprar o meu; ou talvez porque nos cruzávamos nos fins de semana, quando eu transitava de passagem pelo posto 5 e o cumprimentava onde o cupê Mercury cinza estacionado em frente ao restaurante Alcazar denunciava sua presença.

MB Motta Paes - foto de época - Oficial de Operações do 2° Esquadrão do  1° GAvAvCa.Homem de poucas palavras, as reações de Ismael normalmente limitavam-se ao franzir das sobrancelhas ou ao sorriso discreto, conforme um fato o aborrecesse ou alegrasse. Por mais engraçada que fosse a piada ele apenas sorria; por mais preocupante que fosse o fato, continuava o mesmo. A fisionomia só expressava reação pela sua forma de olhar.

Quando o ESPC chegou à fase de Combate de Elementos fui escalado para voar na sua ala como número 2. No primeiro combate, quando o Motta Paes começou a apertar a curva, tratei de posicionar-me de forma a não espirrar de jeito nenhum; a melhor posição que encontrei foi colocando o meu T-6 atrás e abaixo dele, onde me mantive colado. Fomos encaudados e perdemos o combate para a outra dupla.

Depois de reagrupar a Esquadrilha veio a advertência de Motta Paes pelo rádio, com o microfone encostado à boca, olhando para mim: - “Pacau 2 de Copas, se você continuar escondido atrás do meu avião eu não vou poder apertar a curva. Preciso saber aonde você está...”

Ao comandar a separação dos elementos para novo combate, ele  sinalizou com a mão até que eu me colocasse na posição certa. Fechou o punho esquerdo indicando que eu deveria manter aquela posição. E mais nada. Ganhamos os outros dois combates porque ele apertava a curva muito forte, mas de forma coordenada e progressiva. Era uma mão de seda que me ajudava a não descolar da sua ala. Na crítica da missão sua fisionomia impenetrável não demonstrou a impressão que teria tido do  meu voo. Na calada da noite, não resisti à tentação de recorrer ao “serviço de informações dos Aspirantes Estagiários”. Pedi para que os colegas agentes descobrissem a nota sigilosa que o Motta Paes me dera naquele combate. A resposta não tardou: quatro e meio ou seja, meio ponto abaixo do excelente.

Nesse conceito estava a tradução das palavras que economizara na crítica e deixava transparecer a benevolência que escondia atrás da sua fisionomia austera.

Quando Motta Paes me escalou para ajudá-lo na instalação do balizamento noturno de emergência na pista de Santa Cruz, fomos num jipe sem capota para a cabeceira 04 transportando uma tralha de fios enrolados num enorme carretel. Motta Paes dirigia, eu no banco do carona e o fiel e prestativo cabo Dalmário atrás, mais enrolado do que aquela bobina de fios. A tarefa seria cumprida com o capitão dirigindo o jipe devagarinho, eu girando a manivela do carretel para estender a fiação à margem da pista e o cabo Dalmário a pé, seguindo o jipe e alinhando o balizamento na posição correta. Não deu certo, por falta de sincronização entre a velocidade do jipe, o desenrolar do carretel e os tropeços do Dalmário. Motta Paes decidiu, então, trocar de posição comigo, para ele próprio desenrolar o fio e comandar o Dalmário. Acontece, porém, que eu não sabia dirigir, não me perguntou e eu também não disse nada. Assumi a direção, engrenei a marcha e o jipe saiu aos solavancos; não sabia como fazê-lo andar devagar. Motta Paes não se alterou, mas apenas falou calmamente: - “se você for controlando a pressão do pé no pedal da embreagem vai conseguir andar devagar!” e assim foi instalado o balizamento luminoso para que fizéssemos voo noturno. E eu aprendi a dirigir...

Essa experiência, outros voos na sua ala e a convivência diária permitiram-me conhecê-lo melhor. A imagem do Oficial frio, de poucas palavras e circunspecto perdurava. Entretanto, num pernoite semanal obrigatório estávamos no rancho da Base sentados ao longo de uma mesa comprida, a única onde estava sendo servido o jantar. O taifeiro nos atendia muito solícito – não chegávamos a mais de 10 oficiais – e exagerava nos adjetivos:
- Taifeiro, tem mais sopa? – perguntava o tenente Chaves de Miranda
- Casualmente, hoje não temos senhor!
- Taifeiro, esse bife é filé mignon? – indagava o tenente Bertier
- Casualmente, vou perguntar ao mestre cozinheiro!
- Taifeiro, já saiu a sobremesa? – queria saber o tenente Antonio Henrique
- Casualmente está saindo, meu chefe!
Motta Paes, que estava à mesa, mas até aquele momento não dera uma só palavra, esticou-se para ser bem ouvido pelo taifeiro e disparou:
- Ô casualmente, traz o cafezinho...
Enquanto Motta Paes apenas esboçava um sorriso, os participantes da mesa desabaram em estrondosas gargalhadas. O taifeiro congelou-se numa cara de espanto e incredulidade, certamente por vir de onde veio a piada certa no momento certo: passou a ser conhecido na Base como “taifeiro casualmente”. O Capitão Motta Paes tinha senso de humor e sabíamos.
A 24 de junho de 1948, uma quinta-feira, realizou-se uma das últimas missões do ESPC: viagem de ida e volta a Vitória. Já havíamos completado 80% das horas previstas; 20% restantes seriam preenchidos depois de solarmos o P47, fazendo no T6 missões de treinamento de voo noturno (4), de tiro contra alvo terrestre (10), de tiro aéreo contra alvo rebocado (10) e de voo por instrumentos (10). Na tarde daquele “dia de São João”, o aspirante Paulo Grube A. Lima, Estagiário como eu, regressou da viagem trazendo pendurados no seu T6 pedaços de fios da iluminação pública daquela cidade, o que viria a deixá-la às escuras. O incidente e a indisciplina de voo do colega, flagradas pelas mais altas autoridades  da Base quando o Aspirante Paulo Grube parou o seu avião no pátio de estacionamento, geraram um grande mal-estar naquele final de expediente: todo mundo o viu trancado dentro da nacele pela capota do T6 emperrada por um emaranhado de fio; e o pior, porém, se saberia na segunda-feira.

No sábado à noite, na boate do Clube de Aeronáutica que funcionava no edifício do Hotel Serrador, um major aviador que era ajudante de ordem do Presidente da República comentou, entre colegas de farda, que um T6, às 6 horas da ‘matina” da última quinta-feira passara na altura da janela do seu apartamento no Posto 6. Pela hora só poderia ser de Santa Cruz; pelo dia só podia ter sido um Aspirante em viagem para Vitória.

Na chamada das 9 horas da segunda-feira, Motta Paes, com a fisionomia mais fechada que nunca, abriu aquela reunião de rotina com a pergunta fatal, dirigida solenemente aos aspirantes:
- “Quem dos senhores tirou um rasante em Copacabana na quinta-feira?”
Sentado num fileira ao fundo da sala levantei o braço, fiquei de pé e me acusei:
- “Fui eu, Capitão...”
A fisionomia de Motta Paes transformou-se de forma surpreendente; ao invés de tornar-se colérico ou explosivo, ele denotou susto, decepção, tristeza, sei lá o quê: tudo, menos ódio. Guardo até hoje a imagem do seu semblante naquele momento. Nunca tive a coragem de lhe perguntar, mas fiquei certo de que, nem de longe passara pela sua cabeça que o segundo Aspirante indisciplinado seria eu. Peguei 15 dias de prisão cumprindo minhas atribuições de serviço.

Recebi o diploma de conclusão do ESPC realizado no período de 1° de março a 9 de julho de 1948, como consta no “pergaminho” assinado pelo comandante do 2° esquadrão – capitão Josino Maia de Assis – incluída a transição de voo solo no P47, que ocorrera a 30 de junho. Mas, a 5 de julho eu estava sendo “recolhido ao xadrez” por duas semanas, cumprindo as minhas atribuições normais durante o expediente, inclusive o treinamento de voo; junto comigo o companheiro Paulo Grube... exceto quanto ao voo, do qual ele foi suspenso, desligado do ESPC. Foi uma pena... era um “pilotaço”!

Vim a ser, novamente, subordinado do Motta Paes em 1968, na área de Política, Estratégia e Doutrina, do Estado-Maior da Aeronáutica, em Brasília; ele full Coronel e eu Tenente Coronel. Trabalhávamos na aplicação da Reforma Administrativa de 1967 ao Ministério da Aeronáutica, sob a sua orientação, o Tenente Coronel Tabyra e eu, em busca de uma redação para as Políticas de Pessoal e para a Política dos Sistemas, essa tratando da implantação de uma nova filosofia de administração pública preconizada pelo ministro Hélio Beltrão. Motta Paes ensinou-nos como estruturar o texto de uma Política, coisa que pouca gente na FAB teve a oportunidade de encontrar quem lhes ensinasse; é uma constatação pessoal.

Em 1988 escrevi um artigo para a Revista da UNIFA sobre a Política dos Sistemas; enviei um exemplar para o Motta Paes, já na reserva, cujo recebimento ele acusou com palavras de agradecimento. Meu gesto trouxe lhe alegria e boas lembranças; depois disso, quando o encontrei, fui saudado com um abraço e, coisa rara, com um largo sorriso.

Pouco antes de passar para a reserva, Motta Paes foi alvo de uma homenagem inédita. Já Major Brigadeiro, foi convidado e aceitou o desafio de solar o Mirage, o caça que equipava o Comando Aéreo de Defesa Aérea, sob suas ordens; tornou-se o único Oficial General da FAB que pilotou um Mirage monoplace, ostentando o peso das três estrelas na gola do seu macacão de voo. Por isso fez jus ao código pessoal ad eternum: é o Jaguar 35 e poucos sabem disso; ora, ele não contou a ninguém!

Hoje sinto muito não ter podido dar-lhe o meu último abraço. Resta-me, porém, agradecer ao amigo alemão, cuja sopa rala com minguadas torradas de pão dormido permitiu que Motta Paes sobrevivesse às agruras do Campo de Concentração de Prisioneiros de Guerra Stalagluft n° 1, na Prússia Oriental, durante quase cinco meses, e permitiu, também, que eu viesse a participar dos fatos que relatei.

A 4ª estrela, que ele não recebeu aqui na Terra, certamente foi-lhe outorgada lá em cima...

 

João Soares Nunes – Ten Brig RR
Piloto de Caça – Turma 1948

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Este fascículo contém 4 (quatro) estórias:
(96-1) Senta a Pua! O último desejo do Brig Rui?
(96-2) Experiências Vividas: Motta Paes: um Jambock em tempo de paz
(96-3) O batismo do pornocancioneiro
(96-4) Jink-out sobre a caatinga

 

 
 
 
 
 
 
O batismo do Pornocancioneiro
 
(Estória 96-3) 
 

 capacete de piloto de caçaDa ideia de reunir aquelas obras primas de “melodias de zona”, já consagradas em alcova e indispensáveis, como diz o Egito, “nos momentos de furor das ximbocas”, num documento formal (até nessas ocasiões há certa formalidade, vide Schneider), nasceu no “picafumal” apócrifo da Sorbonne da Caça, a partir da impressão do Cancioneiro de verdade, e foi realmente apoiada pelo Alberto Cortes (Bidon), nosso operações no 1°/4° GAv em 1982, que além de excelente piloto de caça, reunia a competência funcional a um lado humano inigualável.

Veja que ser operações de um Curso de Caça, onde a maior parte do pessoal acaba desligado e o corpo de instrutores ainda acha pouco, e ser querido por todos, é coisa rara. E o Cortes era!

E além disso, como bem lembrou nosso antigo comandante PPI: seu talento na “cuíca de pornobanda” apenas era segundo para os floreios de Pablo Casals no violoncelo.

Brig Nero Moura é apresentado ao pornocancioneiro, assistido pelo MB Menezes. Integrantes da turma de 70 ao fundo. Kauffmann bem atrás, de copo na mão...para variar.O sucesso era tanto, que a pornobanda do Pacau já havia inventado naquela época, anos antes da Mangueira, a “paradona” da bateria, com solo de cuíca!

Impresso o pornocancioneiro, nós (eu, Ferraz-Serrinha, Machado- Machareca, e outros) o levamos para distribuir na RAC em Santa Cruz.

No entanto, lá chegando, aconteceu o mesmo caso daquela música do “Chumbinho de FZ” em homenagem ao Brig Frota, ou seja: “peito pra fazer eu sei que há. Eu quero ver é quem tem peito pra cantar!”

Foi aí que o Brigadeiro Menezes viu a “turma unida” de 70 timidamente ensaiando o porno antes daquele histórico Almoço do Caçador e resolveu não apenas paraninfar a iniciativa, mas também arranjar um patrono de peso: o Brigadeiro Nero Moura. E ambos assinaram (com a caneta do finado “Véio” Almeida, sob o testemunho do Brig Rosa Filho e o olhar de nojo do Cmt da BASC, “Cheveux de Poupée”) a bandeira da turma (onde o sabre alado foi substituído por outro símbolo fálico!) e que anos depois terminou roubada do Arsand (Grosso), naquela época servindo no 14. Vejam a foto do ato cerimonial.

Portanto, bem antes de se tornar Patrono da Aviação de Caça, o Brig Nero já era patrono do “pornocancioneiro”.

Nesse mesmo almoço, escorada na peixada de Lauro Ney Menezes e Nero Moura, nossa turma lançou oficialmente o famigerado cancioneiro (até a Major Elsa da FEB cantarolou o “Penico para José Meu Mano”!), o que causou pruridos conservadores e uma certa crítica das turmas mais antigas (Cima, Morosini, Casimiro, Peres, etc.) que nos pregaram a alcunha de “A Pornoturma”.

E por isso, provocados na saída do rancho, e sendo maioria nas unidades de Caça naquele ano, o Silva Lobo (sempre ele, o Tattoo) resolveu desafiar a Caça inteira para um jogo de futebol “de vida ou morte” onde, em caso de derrota, a Caça pagaria (na verdade o COMAT pagaria, que se não me engano era comandado pelo Brig Silas, “O Encaudador”, com o Quírico, como 2P) uma chopada no cassino.

Se nossa turma perdesse, o que, segundo Tatoo, era “impossível”, daríamos uma volta inteira no campo, de joelhos.

E, por essa razão, nossa turma é também conhecida na Caça como: “A Turma do Joelho Verde”...

Flavio C. Kauffmann – Ten Cel RR
Piloto de Caça – Turma 1978

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Este fascículo contém 4 (quatro) estórias:
(96-1) Senta a Pua! O último desejo do Brig Rui?
(96-2) Experiências Vividas: Motta Paes: um Jambock em tempo de paz
(96-3) O batismo do pornocancioneiro
(96-4) Jink-out sobre a caatinga

 

 
 
 
 
 
 
 
 
Jink-out sobre a caatinga 
 

(Estória 96-4)  

capacete de piloto de caça

Ano de 1976 e fazíamos o nosso Curso de Caça, no Esquadrão SETA (3º EIA), CATRE (Centro de Aplicações Táticas e Recompletamento de Equipagens), em Natal – Parnamirim, voando o AT-26 XAVANTE.

Iniciada a Fase de Combate Aéreo (11F), ainda nas táticas e técnicas da Segunda Guerra/Coreia, com manobras bem elementares de YO-YO DE ALTA/BAIXA, ATAQUE EM BARRIL, TOUNNEAUX DE G, etc.

Eram basicamente 3 tipos de combates – ALFA, onde se iniciava como atacante saindo de um “poleiro” às 5/7h alta, BRAVO se invertendo as posições passando a defensor e CHARLIE com abertura de 180 graus, afastamento até o limite visual e “fechamento” com cruzamento frente a frente.

A coisa era sempre levada para baixas velocidades e quase sempre se acabava em “tesouras” descendentes, sem a menor consideração com manutenção de energia e se buscando sim “encaudar” o oponente. Como manobra de “última instância” restava o TONNEAUX DE G, quando se tinha alguma energia para isso ou reversões rápidas e fortes para se negar solução de tiro ao atacante, então “grudado” na cauda de sua “presa”.

AT-26´s "Xavante" - Voo em formaçãoBasicamente assim eram os combates daquela época, empregando-se um jato como o XAVANTE nos moldes dos P-47 ou SABRE F-86, havendo também a se considerar que não dispúnhamos, para todas as aeronaves, de um visor que computasse soluções de tiro aéreo, que era o K-14C (também da época da Guerra da Coreia) que só usávamos nas missões de Tiro Aéreo mesmo. O jeito era voar com o visor fixo DF VASCONCELOS...

Nosso Cmt de Esquadrão era o então Maj Av Jose Carlos Pereira “Jota Carlos”, famoso por sua criatividade, iniciativa e capacidade de empreender. Mandou que pintassem uns 2 ou 3 XAVANTES com os TPA vermelhos para servirem de “agressores”... podemos dizer que tivemos os nossos Agressors em 1976...

Tarde em Natal e decolamos com um elemento de XAVANTES para uma missão já na fase mais avançada de 11F, onde seríamos atacados. Eu voava duplo com o nosso Oficial de Operações, Cap Av Cavalcante “Cavuca” (Asp 1969) e o meu colega-amigo de turma Manzoni” KOALHADA” com um outro IN que não me recordo.

Iniciamos o exercício e fomos atacados pelo Agressor, que era o nosso Cmt, e iniciamos nossas manobras defensivas, sendo eu o alvo primário dele. Em determinado momento o atacante trocou de mim para o Manzoni, que, ao se ver sob ataque, iniciou sua “manobra de última instância”, revertendo e girando de nariz baixo. Nesse momento o Agressor desengajou e separou em proa oposta, mas o nosso bravo defensor lá continuou a fazer suas evasivas “furiosamente”, na proa do interior, a despeito de várias de nossas chamadas – até aonde ainda não sei – mas deve ter ido longe, pois demorou a voltar!

Bom, demos todos boas risadas e vimos como uma situação de dogfight é bem fluida e você pode se ver “sozinho no espaço”, segundos após estar se “engalfinhando” com outras aeronaves.

Isso melhor vimos depois quando passamos a voar F-5 e adotamos as técnicas e táticas trazidas pelos dois oficiais da USAF, veteranos do Vietnã, que voaram conosco em 1978, introduzindo nossa Caça nas técnicas e táticas de dogfight com aeronaves de alta performance.

Assim, como tivemos a criação da famosa Manobra de Gontijo, podemos considerar que o seu “criador” também teve a sua invenção em combate aéreo; qual poderia ser o nome ??? ... Jink-out de Koalhada???

 

Marco Rocha “Rocky” – Maj Av RR
Piloto de Caça – Turma de 1976

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