ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Estória 95) 

capacete de piloto de caça
  
 
Uma Questão de Estilo (parte V) 
final, assim esperamos... 

(Estória 95-1)   

 

O texto abaixo faz parte de uma trilogia (ou seria pentologia?) que começou com a descrição, feita pelo Peixe Lima (Piloto de Caça – Turma de 1969), de uma viagem de férias ao Vale do Pó e já contada por aqui (Estória 92a-1). Nessa última parte (espera-se!), Kauffmann faz a releitura do episódio por um novo e inusitado ângulo, aventando a possibilidade de vingança de uma antiga namorada, um risco sempre provável e  inerente, como a Flak, à profissão de Piloto de Caça.


Ele vai cruzar o PÓ...


Orson Welles foi quem primeiro chamou a atenção para a cena idílica da Mercedes Benz branca, que deslizava com suavidade pela Pianura Padano. Girassóis, trigais e, sobretudo vinícolas de todas as cepas, iam ficando para trás naquele dia de primavera, sem uma única nuvem a turbar o azul do céu do norte da Itália. Um cenário de novela!

A bordo, num enlevo quase que juvenil, o casal se entreolhava apaixonado. O tempo não reduzira em nada o ímpeto inicial. Enésima lua
de mel, a primeira fora na Rota 66, seguida de outra centena delas, na Rota da Seda, no Caminho de Santiago ou simplesmente ali adiante, no Vip’s da Niemeyer. Mary apenas aprecia a paisagem distraída, mas Peixe Lima, o motorista do bólido, tem uma agenda oculta: pretende descer o barranco do Rio Pó e coletar água, para tomar com Glenmorangie, e, desse modo, alcançar o Santo Graal da Caça. No rádio soam as primeiras notas de Volare, como se fosse um sinal divino. E na verdade era...

Aboletado em sua enorme cadeira giratória, a trilhões de anos luz acima dos Apeninos e debruçado sobre a infinita abóbada do universo, Pedro cumpre parte da rotina diária, cercado por um séquito quase sem fim de assessores. É, é a ele mesmo que me refiro: São Pedro. É que no Céu, Paraíso, Walhala, Nirvana, ou como melhor lhe aprouver, ninguém costuma usar as platinas. Pedro é Pedro, Paulo é Paulo, e Judas, bem, Judas é chamado apenas de “aquele  argentino ali do canto”, e só está lá porque foi perdoado.

A atividade era corriqueira, mas, entre todas as tarefas, essa era das que mais agradava a Pedro, depois que Deus delegara a seu oficial de operações a condução do dia a dia lá em cima. Explico: já fazia algumas décadas que o Criador não era visto, pois, irritado com o comentário de Einstein de que “não jogava dados com o universo”, que, aliás, era o que mais fazia, Ele havia se recolhido em meditação.

As tarefas diuturnas no Céu eram a bem dizer um “pé no saco”. Julgamento de aplicação para santo, interferências no destino da humanidade, para que não se matassem muito, bomba no Afeganistão, bomba na Síria, emergências e contingências de todos os tipos, fora a administração do orçamento e do ego dos  moradores, tudo era muito chato, à exceção da tarefa daquele dia...

Todos sabem que os Santos costumam criar roteiros de cinema, que são vividos em tempo real pelo pessoal do andar de baixo. E em determinados dias, nessas sessões, sempre aguardadas com ansiedade, esses roteiros são estabelecidos inicialmente por Pedro, como eu disse assessorado por um bando de escritores, cineastas e desocupados em geral, todos é claro, já desencarnados. Era essa a atividade daquele dia.

Bem, a Mercedes esportiva seguia seu rumo sob o sol da Toscana, e como eu dizia, Orson Welles foi o primeiro a chamar a atenção dos demais.

“Vejam essa cena, isso parece certinho demais! Um casal apaixonado, na Toscana, em plena primavera, um belo carro, etc”, lançou com ironia, já sabendo que essa era a isca certa para fisgar Hitchcock, que até então dormia a sono solto, curando a ressaca do pileque com Churchill, na véspera.

“Sugiro botar um bando de pássaros no meio da autoestrada e...”, nem conseguiu completar a frase, tamanha foi a vaia que recebeu da galera da Nouvelle Vague, Chabrol e Goddard à frente. Pouco afeito a críticas, o gordo inglês, aplicou uma gravata em Trufault e já partia de porrada para cima da malta, quando Felini, um assessor importante quando se tratava de cenário italiano, interferiu.

“Desvia o casal para Veneza! Vamos botá-los num navio de gordas e corcundas, todos com roupa de circo e...”

“Nada disso”, interrompeu Visconti, “se for a Veneza tem que haver morte e viadagem!”, sentenciou aplaudido por uma incrível claque que surgiu como por  encanto e onde pontificavam Thomas Mann, Nijinsky, Oscar Wilde, e uma legião de homoafetivos de todas as cores do arco-íris.

Pedro ouvia calado e pensativo. Não estava convicto, mas uma coisa era certa, tudo aquilo parecia irreal demais para ser verdade. Em volta a discussão ganhava corpo...

“Bota mafioso no script, que é sucesso certo!”, disse Mario Puzo. Mas Pedro continuava em dúvida, todos aqueles temas assemelhavam-se a gastos clichês italianos,  principalmente quando Sergio Leone passou a tocar uma gaita, sugerindo um spaghetti western, o que terminou por atrair John Wayne, que, com sua costumeira finesse, insistia que houvesse muito tiro e que, ao final, o mocinho beijasse a mocinha e cavalgassem em direção ao pôr do sol.

Pedro botou ordem no galinheiro e chamou a produção. “Ô esse menino, diga aí o que é que esse cara que dirige a Mercedes está pretendendo”. “Ele vai cruzar o Pó!”, disse o aspone celeste, um querubim, após consultar a ficha do motorista num fichário daqueles grandes, de metal.“

Nacionalidade?” “Brasileiro!” E isso já deixou Pedro um pouco cabreiro, pois Deus andava a dizer que era brasileiro havia alguns anos. Até o último Papa que havia subido, talvez por pura puxação de saco, afirmava ser  carioca. Pois sim, o saco do chefe é o corrimão da vida, ou da morte, refletiu o antigo Pescador...

Nesse meio tempo a discussão já havia tomado o andar inteiro, com todo o mundo querendo dar pitaco no assunto.

“Bota mulher pelada, que dá bilheteria!”, disse um obscuro diretor da Boca do Lixo que morrera de fome, e por isso galgara os píncaros da  Glória, embora preferisse os da Darlene. Enfim, o bochicho era geral e o alarido já incomodava a grande maioria, que estava ali em busca de paz e oração.

“Silêncio!”, determinou Pedro, botando ordem no galinheiro. 

Que cacete que esse cara quer cruzando o Pó? Profissão?” “Chefe, aqui diz Piloto de Caça, assim mesmo com ‘P’ e ‘C’ maiúsculos”. E nesse momento, o negócio virou algazarra.

Um grupo de vinicultores surgido do nada, já que no Céu, como vocês agora sabem, as coisas acontecem na velocidade do pensamento, já mobilizou uma passeata reclamando que a última vez que deixaram Pilotos de Caça brasileiros frequentarem aquela região, em 1944, a safra de Brunelo fora completamente perdida, tamanha era a quantidade de chumbo nas bagas.“

Chama o Nero!”, comandou Pedro em altos brados, organizando a zona novamente. Afinal, pensou, esse departamento estava em boas mãos desde a chegada do Patrono da Caça Brasileira lá em cima.

“Impossível!”, respondeu o querubim, “eles estão discutindo o programa do FX2 já faz um tempão. E pelo jeito a reunião não vai acabar nessa década!”

E essa agora, pensou Pedro. Mas antes que ele tomasse uma iniciativa, Getulio Vargas, entrando de surpresa no recinto abraçado com Virgínia Lane, mandou na lata: “Nem olhe pro meu lado, que eu não interfiro na Caça desde que o Nero resolveu criar essa tal reserva moral lá em Santa Cruz, na volta da guerra! Em time que está ganhando não se mexe. E além disso, no meu tempo eles voavam caças de primeira linha, como o  Gloster”.

“Aqui diz que o motorista da Mercedes voou Gloster!”, informou o aspone querubim, sem ser perguntado.

“Impossível!”, respondeu Getulio. “O Gloster não voa há muito tempo. Ninguém pode ser tão velho. Como é que o cara se chama?” “Peixe Lima”. “Bem, Pedro eu se fosse você, esperava pelo Nero”, finalizou Getúlio, saindo da sala.

Quanto tempo duraria a tal discussão do FX2?  Ninguém, nem mesmo o Todo Poderoso, se arriscava a precisar. Ainda assim tinha que criar um roteiro, o mais rápido possível. Mas, de todo o modo, ponderou, era melhor deixar para depois do  almoço.

Corta para a laje do Céu, onde inúmeras mulheres bonitas ficam pegando sol e fofocando, enquanto douram as partes. Na verdade, um desperdício, já que no Céu não pode haver pecado...

Virgínia entra “sassaricando”, passa a área hollywoodiana, e vai direto para o setor das atrizes da Globo. Passa sobre os belos corpos ectoplasmáticos de Dina Sfat e Odete Lara, deitadas e besuntadas de Rayito de Sol e lança o maldoso comentário, sem se dirigir a ninguém especificamente, mas como é comum às mulheres rápidas e cavalos lentos, fazendo um grande estrago. “Tem um Piloto de Caça brasileiro passeando com a esposa na Toscana, que vai cruzar o Pó”.

Em geral, pouca atenção foi prestada ao comentário, mas, na ponta da laje, como esperado, os comentários caíram em ouvidos férteis...

Linda, longilínea, cara de anjo, cabelos castanhos e com um corpo escultural, ela, à simples menção de um Piloto de Caça brasileiro, sente o coração baquear e seguir descompassado. Seria possível que a emoção sobrevivesse à própria eternidade? Não sabia dizer. Havia tido uma vida bem vivida, namorados inúmeros, amantes muitos, amores alguns, mas apenas um único Piloto de Caça. Seria ele? Seu sexto sentido de mulher bonita apitava, como um aviso de cauda de míssil. Só podia ser ele! E, nesse momento, embora quebrando a regra primordial do Céu de nunca pensar em besteira, não consegue reprimir a lembrança daquela incrível transada na nacele do P-47 do Lima Mendes, no museu da Caça no Hangar do Zeppelin, na agora distante década de setenta, pouco antes do Baile da Caça no Cassino da BASC. Pelo corpo, sobe uma sensação há muito esquecida, um arrepio, se ainda fosse novinha, mas hoje sabia que a coisa tem um outro nome, impronunciável nessas altitudes celestes. Mas como o princípio da ação e reação newtoniana também funciona no Céu, logo lembra da tristeza, do abandono, e dos momentos em vão. Nas longas noites de vigília, esperando solitária, de baby-doll, para saber no dia seguinte que ele havia sido visto abraçado com o KJU e duas marafonas, tomando Logan no gargalo e fechando O Chico’s Bar, na Lagoa. A hora bíblica de dar o troco havia finalmente chegado!

O almoço acabou e a Mercedes branca havia andado apenas dois centímetros, porque como já foi explicado, a velocidade do tempo no Céu...

De volta à sala de operações, Pedro dispensa a assessoria e fica só novamente, em frente à cena da Mercedes no Vale do Pó. À La Tacariju, resolve se aprofundar na psique do tal Piloto. Que tipo de vida vivera? E assim, a seu comando, o filme passa ligeiro, Mirages, F-5s e até F-8s, as viaturas mais pobres foram editadas para ganhar tempo, mais por hábito de economia do que por necessidade, glamour, ralação. Bem, essa era a vida usual desse tipo de profissional, concluiu. Nada esclarecedor. Que roteiro seria o mais adequado. Foi nesse exato instante, que ouviu aquela vozinha melosa, vinda das seis horas. “Seu Pedro, dá licença de falar?”.

Embora tivesse acostumado com as beldades que frequentavam o Paraíso desde que Ele, na verdade Him, como O Criador gostava de ser chamado, resolvera autorizar a entrada de moças bonitas para dar uma melhorada no visual do local, já que ninguém aguentava mais Madres de Calcutá e Irmãs Paulas, todas feias e desengonçadas, Pedro tremeu na base quando encarou Sandra Brea, em sua eterna fantasia de coelhinha da capa da Playboy do carnaval de 1978. estoria95-1

Sandra, ladina como toda mulher bonita, sentiu que o Porteiro do Céu já estava no papo! Desfiou um rosário de problemas, fez caras e bocas, mostrou até uma marquinha na coxa que adquirira na infância, numa queda de patins em Paquetá, em suma, mais circunvolvente do que burro de olaria, começou a  sedução do pobre homem, digo Santo, que há muito não molhava o biscoito, se assim se pode dizer.

E o que ela queria? O que todas as mulheres querem, mais cedo ou mais tarde. A pura e simples vingança, que provém do amor, assim como o vinagre vem do vinho...

Pedro, atônito, passou a escutar uma série de  sugestões macabras de roteiro, nenhuma delas com final feliz. Chegou a pensar que em vez daquela bela mulher, estivesse diante de Quentin Tarantino, mas lembrou de que esse ainda estava bem vivo, em terra firme, lá embaixo, filmando Django.

Crucificação, explosão, impotência, incêndio, difícil crer que essas propostas tão duras brotassem tão naturalmente da boca de uma mulher, como já disse, tão bela. Era certamente enorme sua mágoa, pensou Pedro. E enquanto fingia ouvir Sandra falando sem parar, lembrou de um poema de Manoel Bandeira, sobre o assunto: “Belo, belo, tenho tudo que quero, e se não tenho, odeio...”

Corta agora para a sala de briefing do Céu, onde Magalhães Motta apresenta um complexo diagrama de adaptação do A-29 para voo supersônico, sob o olhar cético do Keller e de outros que acham que a volta do finado P-47 era ainda a melhor solução para o FX2. Pareciam estar ali há milênios, pensava Joel Miranda impaciente...

“Tok, tok, tok”, bate alguém à porta, e Correia Neto, já irritado, grita para fora lembrando que a luz vermelha da porta está acesa, o que indica
uma reunião classificada e que não pode ser interrompida. Mas imediatamente engole o grito, ao ver aparecer na porta entreaberta a cabeça careca de  Quiricalho, o padroeiro dos Pilotos de Caça brasileiros, e único que Nero recebe a qualquer hora do dia ou da noite, pois para Pilotos de Caça, o risco de brochar é mil vezes pior do que o de enfrentar as piores “flaks Di 40”.

“A bênção meu Santo!”, Nero já fala, pedindo ao eterno aspirante Canário que sirva um gole de  Glemorangie com gelo e clubsoda a esse Santo, que, todos sabem, ainda não conseguiu se desligar totalmente dos prazeres mundanos.

“Nero, eu acho melhor você ir até a sala de operações porque estão tramando uma arapuca para um Piloto de Caça brasileiro, que vai cruzar o Pó!”, lançou de supetão Quiricalho, a quem todos chamam apenas de Q, para não ter que dizer o predicado.

“Cruzar o Pó? Impossível!”, retrucou o Patrono da Caça. “Ô Pamplona, ficou alguém para trás lá na Itália?” “De modo algum Chefe, os únicos que aguardam lá embaixo são o Rui e o Meira, mas esses a gente já pediu para ficar mais tempo e inspirar a rapaziada”, respondeu Pamplona sem sequer consultar os alfarrábios.

“Olha, eu ouvi dizer que o cara é inclusive teu peixe!”, falou Q impaciente.

“Impossível!”, falou novamente Nero. “Esse negócio de peixe é com a turma do Eduardo. Na Caça simpatia não importa, o que conta é a competência!”, disse Nero com firmeza. “Qual é o nome do cara?”

“Peixe Lima, foi o que eu ouvi”, respondeu Q, causando um enorme tumulto na audiência.

“Bem, esse foi comandante do Grupo e, tenho que admitir, é meu peixe mesmo! Vamos para a sala de operações!”

E saíram todos em comitiva pela escada abaixo, à exceção do Danilo Moura, que por estar de cadeira de rodas teve que esperar pelo elevador. E antes que me perguntem, no Céu o cara não envelhece, mas também não rejuvenesce, daí o fato do Danilo não ser aquele mesmo lépido tenente que de certa feita cruzou a Itália quase toda a pé.

Na sala de operações a pantomima de Sandra continuava. Hora ria, outra chorava, fazia beicinho e muxoxo, em suma, todos aqueles trejeitos que mulher bonita faz provocando o override do raciocínio masculino, para a cabeça de baixo. Mas não a Pedro, um dos pilares da Igreja, um cara incorruptível, que a tudo escutava impassível.

Mas mesmo os melhores Santos têm suas fraquezas e, ao sentir que o papel de gueixa não estava dando resultado, Sandra tentou a última cartada, sussurrando docemente ao pé do ouvido do Pescador, que se ele a ajudasse em seu projeto de vingança, faria uma carne assada com molho ferrugem de comer rezando, embora rezar já fosse o default naquelas paragens celestes. E, presto! Pedro caiu, pelo pecado da gula!

Ainda assim, buscando, como num condenado do mensalão, salvaguardar o que lhe restava de integridade, explicou a Sandra que sua autonomia alcançava no máximo o controle da meteorologia, e que, para punições mais graves, teria que consultar o Chefe, que não ia gostar nada de ser acordado para resolver um assunto tão rastaquera.

“Tufão, tsunami, avalanche...”, pediu Sandra sofregamente, mas após alguma negociação, fecharam numa chuva de granizo do tamanho de bolas de golfe, para arrasar com a Mercedes e dar um enorme prejuízo ao locatário, que como todo Piloto de Caça, certamente não havia feito seguro, apenas pelo prazer do risco. Sandra se deu por satisfeita em causar um rombo no bolso do ex-amante, e até porque entendeu ser uma grande deferência de Pedro, que teria que conjurar uma tempestade do nada, já que o dia era absolutamente ensolarado na Toscana.

“Mas tem uma coisita mais”, lançou como último argumento. “Eu faço questão de apertar o botão vermelho!”

Va bene!”, falou Pedro, já de saco cheio com o imbróglio, estendendo o Ipad para que Sandra lançasse a chuva de pedras sobre a Mercedes branca e seus dois ocupantes apaixonados, que nesse momento escutavam Al Di La, com Pepino Di Capri.

A tenebrosa risada de Sandra quando apertou o famigerado botão, lançando a saraivada de gelo, foi apenas comparável às de Goldfinger, no romance de Ian Fleming. Assustado, Pedro sentiu que havia feito merda e já ia se esgueirando para fora da sala quando, no momento exato em que as primeiras pedras de gelo caíam no Vale do Pó, Nero e os demais veteranos, Q à frente, entram, como um estouro da boiada.

Quo vades, Pedro?”,  perguntou Nero dramaticamente, emulando Cecil B. De Mile. “Você cria um roteiro para um dos meus guris, manda bombardear o coitado e a dona patroa, sem sequer me consultar? Já rasgaram o regulamento?”

“Nero, eu entendo sua bronca, eu bem que tentei te chamar, mas essa reunião do FX2 não acaba nunca!”, gaguejou Pedro, pego claramente no contrapé.

“Além disso”, insistiu Nero, “você sabe que o que mais têm esses Pilotos de Caça são ex-namoradas, agregadas, amantes e casos, todas malamadas e querendo algum tipo de vingança...”

Vingada e célere, Sandra já havia se evadido do local, pois a vida havia lhe ensinado que na briga entre o mar e o rochedo, pagava sempre o marisco, sobretudo se usasse peruca.

Enquanto isso a discussão ganhava ares de furdunço no Céu. Os passantes engrossavam a turba, tomando partido desse ou daquele. Lenine, abraçado a Camilo Cienfuegos, inicia uma passeata contra os militares, enquanto Castro Alves aproveita a audiência para declamar Navio Negreiro, “S’tamos em pleno mar...”, num claro ato de protesto contra Deus, esse completamente alheio ao tumulto. “Miseráveis!!!”, Victor Hugo vocifera do alto das barricadas, que Cohn-Bendit e sua trupe de estudantes começam a montar.

“Nero, o que foi feito, feito está, e não há como voltar o tempo, nem para Deus, embora o chato do Einstein esteja dizendo por aí que já tem uma teoria sobre isso.”, disse Pedro  tentando cortar o papo.

“Pedro, entendo que não dá para segurar a tempestade de granizo. Mas quebra o galho do Peixe Lima e arranja aí uma ponte para ele se
esconder.”, pediu Nero.

“OK, OK! “Ô esse menino, onde é que eles estão no momento?”

“Chegando a Occhiobello, Sua Santidade.”

Ao ouvir o nome da cidade, o Armando abre um sorriso e grita para Diomar Menezes: “Menezes, lembra daquelas duas italianas peitudas e daquele porre de vinho de San Benedetto que  tomamos naquele fifinup no dia seguinte do dia da vitória em Occhiobello?” Menezes já ia responder, mas desistiu, diante do olhar fuzilante de Pedro, denotando a clara impropriedade do comentário.

Peixe Lima e Mary se assustam com a saraivada de pedras de gelo que cai sobre a Mercedes, mas, como por encanto, uma ponte ferroviária, que na verdade nem existe, se materializa subitamente, provendo esconderijo seguro contra a hecatombe que desaba.

“Obrigado, Pedro!”, fala Nero. “É o mínimo que eu posso fazer!”, responde Pedro, agora francamente arrependido de ter entrado na baba de quiabo da vedete brasileira.

Os áulicos de  plantão, que também existem no Céu, já começam a puxar o saco, mas Nero está triste. “Agora vão dizer que eu sequer sou capaz de proteger um Piloto de Caça brasileiro que quer cruzar o Pó! Isso afeta minha credibilidade como Patrono deles.” “E a minha, mais ainda!”, emenda de bico São Quiricalho.

Mas exatamente nesse momento, o querubim chama a atenção de todos para a cena milagrosa que se desenrola abaixo.

De joelhos, braços abertos, uma cascata de lágrimas nos olhos, e com um balde cheio de pedras de granizo, Peixe Lima, no estilo épico de Moisés ao cruzar o Mar Vermelho, clama aos céus; “Chefe Nero, obrigado por me poupar da descida no Pó e mandar essas pedras de gelo para que eu tome com Glemorangie!”

No Céu, ninguém acredita no que vê. Todos gritam de alegria! E Berthier, que lá é considerado novinho, puxa um “Senta a Pua!”, ao que todos gritam “Brasil!”, tão alto que dá a impressão que o próprio Peixe tenha escutado lá embaixo. Tudo resolvido, confraternizam Pedro e Nero abraçados.

“Que bom que você tenha saído dessa mais prestigiado ainda, hein Nero.” Pois é Pedro, eu havia me esquecido que Pilotos de Caça brasileiros são extremamente crédulos e otimistas. Você manda um limão e eles fazem uma caipirinha, e ainda agradecem. Veja que até hoje eles voam o F5 com um canhão a menos, mais pesado e com a performance aerodinâmica comprometida, mas acham um super avião! E isso me deu uma ideia...”

“Ô Piu-piu!”, grita Nero para Magalhães Motta. “Vamos cancelar essa discussão do FX2.” “Mas Chefe, se nós não  influenciarmos a decisão da Dilma e do Saito, esse avião não virá nunca!” “Eu sei, mas vendo como nossos guris são otimistas, melhor não fazer nada. Qual é a próxima pauta?” “É um seminário sobre a qualidade do oficial.”

“Cauby, engrena uma ximboca para mais tarde, que hoje eu já ganhei meu dia. Ah, e convida a mulherada da laje.”

“OK Chefe!”, responde o intendente solícito. “Pode convidar a Sandra Brea?”

“Pode! E diz para ela vir com aquele biquíni que ela usou na novela Assim na Terra Como no Céu!”

Embaixo, como vocês já sabem que o tempo passa muito mais lento, Peixe ainda continua de joelhos à beira da rodovia, agradecendo aos céus, diante de uma Mary incrédula e dos passantes italianos que não entendem a cena. Guarda, mama, quel pazzo braziliano!

Filha também de Piloto de Caça, Mary tenta se lembrar do último mico como aquele que havia pago. Havia sido há muito tempo atrás: dançando um Hully Gully da Caça com os pais, na TAC de Canoas.

Caçadores. Definitivamente, não se pode reclamar de monotonia em suas alas...


Flávio C. Kauffmann – Ten Cel R1
Piloto de Caça – Turma de 1978

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Este fascículo contém 4 (quatro) estórias:
(95-1) Uma Questão de Estilo (parte V)
(95-2) Experiências Vividas: Nós e os Veteranos de Guerra
(95-3) O bom filho a casa torna
(95-4) Ultra leve Motorizado - Origem e Evolução -

 

 
 
 
 
 
 
Experiências Vividas: Nós e os Veteranos de Guerra 
capacete de piloto de caça
 
(Estória 95-2)  
 

Introdução

“Matando o tempo”, passo os olhos naquela publicação anual cuidadosamente atualizada pelo 2º /5º GAV, atual CELEIRO das FERAS e herdeiro do nosso ESPC de antigamente (uhuh! O grito da velhinha...) e vejo meu nome constando nas primeiras páginas do dito cadastro dos Pilotos de Caça formados pela FAB a partir de 1942. Cáspite! Porém, verdade: sou parte integrante da turma vibrante do 3º ESPC (Estágio de Seleção de Pilotos de Caça). E orgulho-me disso! E ponho-me
a lucubrar... por óbvio!

No meu entendimento, para os Veteranos do 1º Grupo de Aviação de Caça da Itália, a 2ª Grande Guerra não terminou em 08 Maio de 1945. Na verdade, em uma segunda moda, ela começou naquela data... Explica-se.

Retornando dos céus europeus, possível seria imaginar que – após tantos brilhantes feitos e galardões recebidos – lhes coubesse repousar em “berço esplêndido” e usufruir de suas conquistas para desdém dos que aqui ficaram inclusive (e principalmente) para os que os titularam de “Grupo Caça Níqueis”... Inveja mata...

Mas não: nossos Veteranos de Guerra, imunes a tudo e a todos, buscaram sua nova Tarquínia (que assim poderia ser nomeada longínqua a Planície de Santa Cruz): inóspita, terra do degredo profissional, o fim do mundo FABIANO da época.... E, apesar do pântano, dos parquitos (misto de pardal com mosquito), do matagal, da Maria-fumaça, do telefone de manivela da Maria, da manutenção do velho Mouzinho (herança do Hangar) e de outros tantos heróis (hoje anônimos), ali decidiram fincar seus trens de pouso e suas gloriosas máquinas de guerra tisnadas pelo fogo das metralhas. Todas ainda com suas armas lambuzadas com a graxa que veio “das Oropas”. E ansiosas por cuspir fogo novamente... 

Volto atrás em meus pensamentos e, interrogativo, proponho-me a descobrir o PORQUÊ e QUAL a RAZÃO pela qual após tanta “braveza na liça do Vale do Pó”, esses barões em armas voltariam a empunhar seus manches, apertar suas curvas nas cobrinhas, suar em seus macacões de voo e dedicar-se ao preparo de novos soldados-do-ar numa época em que a FORÇA AÉREA se entendia (tão somente) como uma (inferida) prestadora de serviços de interesse público(?) aéreo”. No trajeto para minha apresentação regulamentar à BASC, e após mais de uma hora de trafegar no combinado ônibus-trem-táxi adentro o vistoso Hangar do Zeppelin (que nunca havia visto): envergava meu 5º A (àquela época de cor cáqui), portando minhas folhas de (parcas) alterações, minha caderneta (pobre)
de voo, e dirijo-me às instalações do 2º/1º Grupo de Aviação de Caça (berço do ESPC) que, àquela época, ocupava as instalações do referido Hangar e que – um dia – nos foram tomadas pelo Grupo de Aviação Embarcada...

Cruzo os umbrais de entrada da Sala dos Pilotos (nós éramos 24 candidatos a Piloto de Caça) e – aí, então – pela primeira vez, os vi: os HEROIS DO 1º GRUPO DE AVIAÇÃO DE CAÇA em pessoa. Retesamo-nos (retesei-me) e os saudamos com uma marcial continência e nos tornamos seus pupilos, por escolha nossa e opção e aceitação DELES...

Por súbito, e sem nenhum intervalo, fomos à faina já programada por
ELES...

Recebemos nossos equipamentos de voo (macacão, capacete, máscara, papo-amarelo, luvas, equipamento de sobrevivência, dogtag) artefatos que a FAB da época desconhecia pois – por incrível que pareça – a dita Força Aérea(?) voava de bermudas, sandálias de dedo, mangas arregaçadas e capacete de pano branco e, alguns, com óculos de sol tipo Ipanema Beach...

Então, ainda, por mais impossível que pareça, aqueles HERÓIS – com o peito pleno de  condecorações e medalhas – nos acolheram como suas crias e, a despeito de tudo e de todos, iniciaram sua MISSÃO INFERIDA de nos transformar em seus herdeiros: Pilotos de Caça!

CUSTASSE o que CUSTASSE! E nós, sem que disso nos apercebêssemos, adentramos a uma ESCOLA de EXCELÊNCIA PROFISSIONAL! Com naturalidade...

Assim, os conheci a todos e com todos convivi. E então, aprendi a respeitá-los e a tentar imitá-los, pois ÊLES nos indicavam o caminho a seguir na busca da profissão do Aviador Militar. Algo ambicionado por NÓS e que quase ninguém na FAB sabia como fazer: à época a FAB só imitava Jean  Mermoz... e St. Exupéry. Ou o Correio Aéreo Militar (CAM) do tempo do verde-oliva!

Ainda manuseando o já mencionado cadastro elaborado pelo 2º/5º GAV, e relendo os nomes dos Veteranos de Guerra e recordando experiências com ÊLES vividas, decidi contar um pouco dessa minha convivência com aqueles  VETERANOS do 1º GRUPO DE AVIAÇÃO DE CAÇA. ELES, já começavam a nos deixar e a NÓS, portanto, cabia relatar o que foi esse nosso conviver. Assim, inferi a tarefa de repassá-las para que os que os que nos seguiram (e seguem) não tenham dúvidas do vigor e profundidade de suas RAÍZES. É uma missão de  benemerência e reverência”... assim pensei com meus zippers do macacão...

Empunhei a caneta e dei partida a essa missão inferida!

E o faço, antes que seja tarde, não só para mim (um de NÓS) como por aqueles que também tiveram o privilégio de desfrutar da honra e do prazer de, através dessas vivências que todos NÓS tivemos com ÊLES, descrevê-los por completo e além das FOLHAS de ALTERAÇÕES, dos LIVROS de HISTÓRIA INSTITUCIONAIS ou dos obituários (que já existem)... Descrevê-los em vida!

Esta é a razão-primeira destas EXPERIÊNCIAS VIVIDAS: NÓS... e quem foram ELES... narradas por seus “aprendizes de feiticeiros” e com base nas “experiências (realmente) vividas: em suma, um pouco de nossas vidas...

Tão simples quanto isto, se isto for realmente simples! Porém, antes de tentar começar, levo minha mão à pala e cumprimento a ÊLES efusivamente:

VELHOS AVESTRUZES: MISSÃO (missão mais do que) BEM CUMPRIDA!

NÓS somos testemunhas...

 

(*1) Primeira matéria de uma série de “experiências vividas” pelo autor. (segue)

 

Lauro Ney Menezes – Maj Brig
Pinguim 34 – Piloto de Caça – Turma 1948

 

gaivota1

 

 


Este fascículo contém 4 (quatro) estórias:
(95-1) Uma Questão de Estilo (parte V)
(95-2) Experiências Vividas: Nós e os Veteranos de Guerra
(95-3) O bom filho a casa torna
(95-4) Ultra leve Motorizado - Origem e Evolução -

 

 
 
 
 
 
 O bom filho a casa torna  
 
(Estória 95-3)  

 capacete de piloto de caça 

A sensacional Esquadrilha de Demonstração CEU, formada em sua maioria por Pilotos de Caça, passou a partir desse ano a ficar sediada no Clube de Aeronáutica da Barra da Tijuca.
Operando aeronaves experimentais RV 7 e RV 8, a esquadrilha tem abrilhantado diversos eventos públicos, como as recentes festividades do Dia do Aviador no MUSAL.

Liderada pelo Albrecht (Piloto de Caça – Turma 1972), a formação básica tem ainda: Salvatore (Piloto de Caça – Turma 1984), como Nº 3; Gonzaga (Piloto de Caça – Turma 1964 e Fumaceiro) como 2; e o lendário Azzi (Piloto de Caça – Turma 1974), como 4. Na formação expandida a esquadrilha conta ainda com Max Mendes (Piloto de Caça – Turma 1983) e Laerte (Piloto Civil – ex-aluno da AFA).

O interesse dos Caçadores por esse esporte é antigo e começou em 1980 com a construção do Clube de Ultraleves na Sede do Clube de Aeronáutica da Barra, conforme nos conta o Cel João Luiz no texto abaixo.

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Este fascículo contém 4 (quatro) estórias:
(95-1) Uma Questão de Estilo (parte V)
(95-2) Experiências Vividas: Nós e os Veteranos de Guerra
(95-3) O bom filho a casa torna
(95-4) Ultra leve Motorizado - Origem e Evolução -

 

 
 
 
 
 
 
 
ULTRA LEVE MOTORIZADO  
- Origem e Evolução -
 
capacete de piloto de caça
(Estória 95-4)  

 Introdução

 

Há uma semelhança entre ULM e Brasília. Ou se ama quando lá se chega para morar, ou se abomina a Capital do nosso Brasil. O mesmo acontece com relação ao ULM quando se tem o primeiro contato com esse tipo de aeronave, principalmente, quando tratar-se de piloto experimentado em outros aviões.

Dizem que o ULM teve origem nos EUA. Pai e filho voavam em uma empresa de Transporte Aéreo e o filho sofreu um acidente e ficou paraplégico. O pai, master e engenheiro  aeronáutico, sensibilizado com o sofrimento do seu filho pelas restrições impostas, decidiu construir um pequeno avião que dispensasse o uso das pernas para acionar o leme de direção.

Planejou, então, instalar o comando do leme de direção no manche que, com movimento lateral acionaria este leme. As asas não teriam aileron, cuja função é baixar e elevar as asas. Assim criou o ULM com apenas dois eixos e não com três como nos demais aviões.

A restrição de somente ter dois eixos é evidente na fase de decolagem e pouso com vento lateral mais forte, uma vez que não há como usar a técnica de comando cruzadoestoria95-2.

 Na década de 80, o Ten Brig do Ar Waldyr Vasconcellos, Diretor do Departamento de Aviação Civil e Presidente do Clube da  Aeronáutica, marcou sua presença pelo entusiasmo em criar a atividade aerodesportiva na Sede da Barra da Tijuca. Para tanto, convidou o Maj Brig do Ar Lauro Ney Menezes para executar seu sonho.

Menezes havia sido Cmt da AFA – Academia da Força Aérea – tendo dado origem à atividade aerodesportiva para os cadetes com a ativação do Clube de ULM e planadores da AFA.

Com total apoio do Presidente do Clube de Aeronáutica, Menezes no início dos anos 80,  providenciou pistas de grama no sítio de voo, construção do hangar, bem como, as demais necessidades relativas à operação dos ULM.

Em novembro de 1984 assumiu a função de Coordenador da Divisão de ULM, tendo como auxiliar o eficiente Intendente/Aviador José Augusto Santana de Oliveira, hoje Superintendente da Sede da Barra.

Com experiência de mais de 27 anos de voo de ultraleves e observando a implantação de diversas escolas de pilotagem, Menezes assim se expressou em artigo publicado na Revista da Aeronáutica: “No que tange à sua pilotagem, as horas de voo acumuladas, (o CAER, neste ponto é professor…) os acidentes (poucos), os incidentes (muitos), permitem concluir que o manuseio dos ULM – apesar de cândida e complacente aparência – não dá muita margem a erros. Mesmo os pilotos (de avião) experimentados são unânimes em reconhecer as marginalidades das máquinas voadoras…Com certeza, isso implica em uma operação atenta, disciplinada e séria. E aqui, o CAER esmerou-se…”

 

Pilotos com Restrições Físicas

Considero uma grande iniciativa da Divisão de ULM de adaptar um ULM biplace side by side - 2 assentos lado a lado – para permitir que seja pilotado por deficientes físicos.

Na época, o Ten Av Franklin, acidentado de moto em Natal, frequentava com a família assiduamente a Sede da Barra.

Franklin ficara paraplégico em consequência do acidente. Convidado para ter instrução nesse ULM que tinha o comando do leme de direção no  manche, aceitou com grande satisfação. Solou a “garça” e voou por muito tempo na Barra da Tijuca.

Anos após, já em estoria95-31999, tive a satisfação de dar instrução, no ULM de dois eixos ao Wanthuyr Zanotti Filho, portador de restrição nos membros inferiores.

Como é de praxe na FAB, um voo de instrução ou missão operacional, é precedido de um briefing e após o voo, o instrutor faz um debriefing comentando o voo realizado. O objetivo desse procedimento é dar uma ideia das manobras que serão realizadas e, após o voo, comentar o desempenho do piloto e tirar dúvidas que possam surgir durante o voo.

Todos nós instrutores sabemos que o aluno no seu primeiro voo, não tem condições de memorizar tudo que foi dito no briefing. Wanthuyr, no entanto, com muita tranquilidade, executou a maioria das manobras com desempenho satisfatório. 

No solo, perguntei a ele se na realidade, era o seu primeiro voo de ULM. Com muita simplicidade disse ser o primeiro voo, no entanto, julgava que, como praticava muito em simulador de voo, possivelmente havia ajudado no voo real com ULM.

Wanthuyr cumpriu com facilidade o programa de instrução e, tão logo completou o número de horas previsto para o solo, tive a satisfação de liberá-lo para voar sozinho.

Em 11 de março de 2001, fiz um voo de cheque com o Wanthuyr, objetivando torná-lo instrutor de ULM com dois eixos.

Pilotando no assento da esquerda (assento de instrutor), demonstrou estar apto a dar instrução no dois eixos. Na ficha de cheque consta na parte final: “Ótimo voo, tem todas as condições para dar instrução”.

Atualmente, Wanthuyr trabalha na ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil, mantendo-se sempre ligado aos assuntos aeronáuticos.

 

Evolução do ULM

A tecnologia de ponta aplicada no ULM os torna mais robustos e velozes.

Com o aumento de limite de peso ora estabelecido, permite a utilização de motores de quatro tempos, bem mais confiáveis que os de dois tempos anteriormente usados.

Os tanques de combustível com maior capacidade proporcionam mais autonomia, permitindo, quando em viagem, etapas mais longas, facilitando a escolha de campos de pouso com mais opções de apoio, tanto para o aparelho como para os tripulantes.

Além desses aspectos realçados, a robustez dos atuais ULM dá grande segurança aos pilotos quando enfrentam turbulência mais severa, muitas vezes inevitável, principalmente quando sobrevoando terreno montanhoso.

Como exemplo de ULMs avançados podemos citar os importados FK9 e SUPER ECHO. Entre os de fabricação nacional lembramos o CONQUEST e o ACS-SORA.

Em contrapartida às vantagens anteriormente expressas, o custo das aeronaves ULM passou a ser mais dispendioso.

Conclusão

Falamos de muitas pessoas que com seu entusiasmo e trabalho eficiente criaram e mantiveram atividade de voo com ULM na Sestoria95-4ede Campestre, como era chamado o sítio de voo do Clube de Aeronáutica.

Além daquelas já citadas, é justo fazer referência a outras que muito colaboraram para o êxito da atividade  aerodesportiva no Clube de Aeronáutica.

Assim, reconhecemos de grande valor a dedicação do então Cel Eng Adyr da Silva na construção do excelente hangar na Sede Campestre, possibilitando a hangaragem dos nossos frágeis ULM e a realização dos serviços de manutenção e revisões periódicas aos mesmos. 

Quanto à manutenção, para nossa tranquilidade, está nas mãos do Sílvio César Kelly, mais conhecido como Silvinho, de grande experiência profissional, proporcionando uma disponibilidade média mensal de 90%. 

Outro que me ocorre lembrar, com muito carinho, é o saudoso Cel Av Euro Campos Duncan Rodrigues. Servindo no  Departamento de Aviação Civil, realizou de maneira muito objetiva, na própria Sede Campestre, a prova de Conhecimento das Regras de Tráfego Aéreo aos pilotos mais voados do Cube de Aeronáutica e coordenando com a divisão de ULM as viagens de cheque, para os aprovados receberem o Certificado de Piloto de Recreio.

Como simples curiosidade, recordo de ter recebido este certificado de número 282, com data de emissão em 21 de janeiro de 2003, das mãos do amigo Duncan.

Finalizando, confesso que com os meus 89 anos, a memória já está um pouco mais lenta, motivo pelo qual deixei de citar outros eficientes colaboradores, aos quais peço desculpas.


João Luiz Moreira da Fonseca – Cel Av Ref
Piloto de Caça – Turma de 1947

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