capacete de piloto de Caça

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Estória 93)

 

 

 

 A "antiga" Aviação de Caça (e põe antiga nisso...)
(Estória 93-1)
  

 

Recentemente, ao redigir a mensagem comemorativa do aniversário da criação do 1º Grupo de Aviação de Caça, fui levado – em um fugaz e inconsciente segundo – a volver aos meus tempos (felizes e saudosos) de Aspirante a Oficial Aviador, recém brevetado no inesquecível Berço das Águias, o Campo dos Afonsos. Lembro-me bem: àquela época, diziam, Afonsos era “habitáculo das almas dos Aviadores que tiveram suas asas fraturadas em voo, deixaram a condição de terráqueos e passaram a viver na Valhala dos heróis alados. E que – por vezes – voltavam às plagas do velho campo para rever suas máquinas e seus audazes homens...”

Neste fugaz momento, revi acontecimentos:

1- Minha primeira escolha profissional: a Aviação de Caça

Como todo bom e atualizado jovem da época, e apesar de ser um paulista do interior (Itapetininga), as tardes dos sábados (em que não estávamos de serviço no Corpo de Cadetes) eram “consumidas” nas calçadas da praia de Copacabana, à frente do cinema RIAN, o top da época... e também, a passarela de desfile das “moçoilas” paqueráveis.

Era “missão invasiva” pois o território era ocupado por diferentes e variados seres, inclusive aviadores militares (à época, figuras utópicas e desconhecidas do grande público). E “eles” eram de turmas mais antigas e, por azar dos “bichos”, veteranos dos Afonsos. No caso específico, liderados por “ases” do tipo Berthier, Antonio Henrique, Seild e outros. Adentrar a área do papo era inaceitável (por eles) e impensável (para nós): a não ser que houvesse um convite... E, numa dessas – e por total condescendência dos Veteranos dos Afonsos – nos vimos participando de uma peleja verbal em que a matéria girava em torno dos Veteranos de Guerra (dos quais eu nunca havia ouvido falar), o P-47 (idem, idem) e o ESPC – Estágio de Seleção de Pilotos de Caça (idem, idem, idem...)

Eis que senão quando, o Veterano de quem eu fora “valete” nos Afonsos (SEIDL – T-45) lançou uma questão inopinada para o imberbe Aspirante:

- “Ô bicho, já escolheu o destino?"

E sem que houvesse muito tempo para gaguejar a resposta, o Veterano compulsou:

 - “Vai para Santa Cruz ser Piloto de Caça!”.

 E o “bicho”, sem ter nem tempo para articular a resposta, confirmou:

 - Certo, Chefe!

 No dia seguinte, fui à DIRAP (na Rua México, 147) e assinei “meu contrato”, que viria se tornar meu “modo de vida”: 1º Grupo de Caça – BASC.

 E assim, me tornei um deles!...  

 2- Meu primeiro uniforme 5º A: o Euclydes...  

 O ano era 1949: havia concluído o Curso de Caça no 1º/1º GpAvCa e – pela regra – sem destino: não tinha nenhuma noção do que viria a seguir. Nesse entreato uma formatura militar em DEZ/1949 para comemorar o aniversário da criação do 1º Grupo de Caça. E todo o efetivo em forma, de uniforme 5º A (caqui). E eu, como todos nós, envergava um garboso (?) completo cortado e costurado na “Casa Festas”, ninho da alfaiataria (?) militar da época e especializada em fazer farda para Asp Of Av que mais queria era usar a “ajuda de custo para uniforme” para dar entrada para comprar um carro (ou moto), do que envergar um “decente 5º A”. Resultado: um espantalho fardado...

 Faz-se a formatura, dispensa-se a tropa e – sem mais aquela – surge Berthier e, no meu ouvido sussurra: “Você vai para a Esquadrilha d’Ouros do Operacional. Porém, antes vai ter que se apresentar com um 5º uniforme compatível com a d’Ouros! Essa figura de AMIGO da ONÇA (caricatura gaiata que frequentava a Revista CRUZEIRO da época) não passou no meu crivo!”

 Expliquei e interroguei: como vou sair dessa? Sou paulista, nunca fiz (e vesti) um terno e, muito menos, uma farda completa!

 Dali surgiu o EUCLYDES ALFAIATE na minha vida militar...  Maj Brig Menezes 

 Meu 5º uniforme e o EUCLYDES alfaiate...  

 O veterano (e Líder d’Ouros) BERTHIER, captando minha angústia – gentilmente (?) – me deu a dica:

 - Você vai à Av. Rio Branco, no prédio do Jornal do Brasil (para paulista do interior era o mesmo que buscar a “Champs Elyssées em Paris”) e procura a “alfaiataria do Euclydes”. Diga-se de passagem, EUCLYDES fora colega de ginásio de Berthier e – naquele momento – ensaiava seus primeiros passos como “mestre da tesoura”, como veio a ser.

 A missão era para cumprir e lá fui eu atrás do “alvo”: encontrar o Euclydes e encomendar um “completo”, caso contrário a d’Ouros não me receberia em seu efetivo. Que por sinal era só composta de FERAS... Sem GPS e só no “me informe, por favor” encontrei o dito “mestre”. Ao explicar a razão de minha busca e ao atender à minha súplica para que se dignasse a costurar um completo para o manicaca, o mestre (na realidade ainda auxiliar de alfaiate) disse peremptoriamente:

 - Diga ao Bethier que esse é o único completo que farei: eu já disse a ele que não sou alfaiate militar!...

 E deu no que deu: ele costurou (com primor) centenas de completos para a Força Aérea e foi o responsável pela conquista da “qualidade em elegância” que invadiu o guarda-roupa da época. E marcou “grife”...

 E eu fui para a d’Ouros com o completo do Euclydes (supostamente o último).  

 3- Meu boné de Piloto de Caça  

 Para ser possível entender o título que encima este capítulo faz-se necessário ir ao Histórico FOTOGRÁFICO do 1º Grupo de Caça – Itália e dar uma olhada no boné (branco) envergado pelo LIMA MENDES, o RUI, PERDIGÃO e outros. Essa “tampa” era conhecida como sendo “boné dos Pilotos de Caça ou do rasgadão (atrevido)”...

 Todos nós, “auxiliares de feiticeiros”, queríamos envergar algo similar, que desse o “charme e a marca”...

 Só que as armações regulamentares (em uso pela Intendência da FAB) não tinham estrutura capaz de adquirir o formato que caracterizava a dita “tampa”: só as armações (?) americanas que – na realidade – nada tinham de boné pois eram fabricadas para ser “amassadas e enroladas com estrutura flexível capaz de caber no bolso (?)”, por exagero...

 Havia – então – uma “caçada” em torno de encontrar uma “tampa americana” que adquirisse o jeitão desejado (ou ambicionado). Um dia, um companheiro Aviador do Quadro da Reserva da FAB e formado na USAF (portanto, usuário da referida tampa) resolveu dar baixa e eu (muito pidão e exibido) já havia tomado o 1º lugar da fila dos herdeiros. E o herdei... Porém, eram necessárias adaptações que as fiz, manual e cuidadosamente. E, um dia, surgi no Esquadrão faceiro e feliz e trajando meu “boné de Caça”... Mal havia feito meu desfile perante a tropa (invejosa) chamou-me o Comandante do Esquadrão (Helio Keller) e – germânica e peremptoriamente – vaticinou e ordenou:

 - essa tampa parece um “emplasto ou boina”: jamais uma cobertura militar.

 Suma com ela!

 E ela sumiu...

 gaivota...final de texto

 

   
Lauro Ney Menezes - Maj Brig Av R1
Piloto de Caça - Turma de 1949

 


capacete de piloto de Caça

 

  Harmonia de Comandos

(Estória 93-2)

No ano de 1963, em Fortaleza, assumiu o comando do 1º/4º GAv, o major Lauro Ney Menezes, declarado aspirante em 1947 e, portanto, membro de uma das primeiras turmas de caçadores do pós-guerra na FAB. Oficial articulado nas altas esferas do Ministério da Aeronáutica, piloto de caça doutrinador por excelência, Menezes trouxe grande alento para os demais componentes do esquadrão. 

Em verdade, continuei ocupando a função de Chefe do Material enquanto outros se aclimatavam a novas funções, após as recentes transferências do major Antônio Henrique e do capitão Ivan Moacyr da Frota, respectivamente comandante e oficial de operações daquela unidade aérea.

O estado das instalações, da infraestrutura e do material aéreo e de apoio estava a requerer recursos que, aparentemente, não existiam. Ademais, em função de obras na pista de Fortaleza, deveríamos deslocar os T-33A e F-80C para Natal (RN), a fim de realizarmos a chamada Operação Natal. E assim o fizemos.

Lá, passávamos de segunda a sexta dando instrução e retornávamos para Fortaleza nos finais de semana. Um efeito colateral da Operação Natal foi um baby boom que resultou no nascimento de diversos nenéns, inclusive da minha caçula Tatiana, de Janine, filha do casal Meneses e de Mabel, filha do casal Resende.

Frequentemente executávamos missões administrativas utilizando o B-25 Mitchell ou o C-45 Mata Sete da Base. Na Operação Natal, transportávamos quantos passageiros coubessem nos compartimentos de carga e no de bombas (bomb bay), respeitando sempre os limites de peso, principalmente nos voos de fim de semana, regressando para Fortaleza.

Dezembro, missão cumprida, trouxemos tudo de volta de Natal para Fortaleza e nos concentramos nas eventuais transferências que normalmente ocorrem a cada final de ano. Eu, os capitães Carlos Rubens de Resende e Luiz Thomas Carrilho optamos pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). De minha parte, desejando evoluir profissionalmente e resistindo aos apelos para me tornar piloto de transporte ou oficial de gabinete, resolvi aproveitar a última chance que a FAB me oferecia de me formar em engenharia no ITA.

O major Menezes ficou longo tempo no comando do 1º/4º GAv e só fui reencontrá-lo já como major-brigadeiro, diretor do CTA, e eu piloto de provas da Embraer. Ele fundou e ocupou até recentemente a posição de Presidente da Associação Brasileira de Pilotos de Caça (ABRAPC).

Como já sabíamos, os comandos do F-47 eram harmoniosos: as forças eram leves e os deslocamentos suaves geravam prontas respostas da aeronave.

Em sentido lato, “harmonia de comandos” pode ser aplicada à cadeia de comando de organizações militares também.

Para comemorar o encerramento das atividades de instrução de 1963, foi programado para a última sexta-feira do mês de novembro daquele ano um voo em que eu lideraria uma formação de oito aviões F-80C. Embora eu já estivesse qualificado para isso desde outubro de 1961, antes mesmo de ser transferido do 1º Grupo de Aviação de Caça, a missão tinha um significado todo especial para mim, pois talvez fosse meu primeiro e último voo liderando uma formação desse tipo, o que coroaria minha carreira como líder de esquadrão.

Iniciado o briefing, pomposamente eu ia explicando aos demais componentes da formação os procedimentos sequenciais de como seria desenvolvido aquele voo, tão cuidadosamente planejado.

Eis que, quando menos esperava, adentra o recinto, de surpresa, ninguém menos que o Menezes, comandante do 1°/4º GAv, recém-chegado de Fortaleza. Levantamo-nos e o cumprimentamos enquanto ele tomava assento na platéia.

Fiz um resumo do que já tinha adiantado no briefing e, formalmente, ofereci a ele a minha posição como líder da formação, num gesto de pura fidalguia.

Menezes prontamente aceitou e assumiu a condução do voo, o que me causou muita satisfação, uma vez que reconhecia nele todo o mérito de termos levado a bom termo o desafio que foi a Operação Natal.  

gaivota...final de texto  

  

Luiz Fernando Cabral – Ten Cel Ref
Piloto de Caça - Turma de 1955

capacete de piloto de Caça

 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:

 

 A Manobra de Gontijo

(Estória 93-3)

  Caçadoras e Caçadores,

Novamente, por sorte e coincidência, tenho a contribuir para a história da Caça, talvez com a chance de reparar uma grande injustiça. Eu estava presente no momento em que a Manobra de Gontijo recebeu o seu nome e, até hoje, me espanto pela velocidade e abrangência com que o termo foi incorporado na Caça, até por caçadores que sequer conheceram o Gontijo.

O cenário era Combate 1x1, durante a instrução de Líder de Elemento de Caça em FZ, no 1º/4º GAv (que ainda era sediado naquela localidade, em 1977). Os participantes eram: O Coalhada (aluno), o Chefe SANDIM (instrutor) e eu PINHEIRO (de saco com o instrutor).

A manobra do treinamento era o Ataque em Tonneaux, onde o aluno caía do poleiro, o instrutor entrava em curva e o aluno faria um tonneaux lag, caindo às seis horas do Alvo, em posição de tiro.

Manobra de Gontijo

Figura: Rara representação gráfica da Manobra de Gontijo original.

O Coalhada iniciou a manobra com perfeição, começou o giro de asa espetacularmente e, sabe-se lá como, caiu exatamente às doze horas do Alvo (talvez o relógio dele estivesse no outro braço), por duas vezes seguidas, antes que conseguisse completar a manobra satisfatoriamente, na terceira tentativa.

Durante o debriefing, naturalmente, o Coalhada foi motivo de grande chiste, quando os demais Estagiários ouviram o IN discutindo o que havia acontecido. Utilizando o teorema de que “é melhor no do amigo do que no meu”, o Coalhada saiu-se com a pérola que atribuiu o injusto nome à manobra:

- É verdade, eu fiz aquela “Manobra de Gontijo” e me dei mal!

Conversando com Pilotos de Caça do 3º/3º GAv, na BACG, quando tive a honra de participar das comemorações de um aniversário daquela Unidade Aérea, ouvi um deles falando que tinha feito uma “Manobra de Gontijo” e se dado mal em um exercício. Considerando que quando o Gontijo saiu da FAB aquele Caçador provavelmente não tinha sequer entrado na Academia da Força Aérea, me surpreendi ao ouvi-lo falar da Manobra, que tive a oportunidade de ver nascer na Caça.

Quando comentei o assunto, descobri que, após a incorporação ao Glossário Informal da Caça, a Manobra em tela foi analisada pelos especialistas em Combate Aéreo e foi denominada também como Manobra de Penúltima Chance (porque depois dela você é obrigado a fazer uma Manobra de Última Chance).

Em outro e-mail contarei porque os gaúchos (1º/14º GAv) são conhecidos como “Romanos”, a tal ponto que passaram a utilizar esse codinome, orgulhosamente, como código-rádio para seus T-27. Quem quiser uma pista, é só procurar nos livros do Asterix, o que o Obelix fala a respeito (il sont foux ses romans!).

Um abraço,

Pinheiro.

gaivota...final de texto 

Alvaro L. Pinheiro da Costa – Maj Brig R1
Piloto de Caça - Turma de 1976

 

 

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