capacete de piloto de Caça ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA  

(Estória 92)

 

 

 
 
 
 Uma Questão de Estilo (parte IV)
(Estória 92-1) 

 

Considerando que ninguém mais se arriscou a adivinhar o autor do texto e com a finalidade de encerrar, de uma vez por todas, esse “trem”, o próprio resolveu enviar sua versão de como os fatos do episódio “Nero On The Rocks” (Glenmorangie com Água do Rio Pó) de verdade ocorreram:

E foi assim que eu cruzei o rio Pó...

Cheguei como Tenente ao 1º Grupo de Caça, na Base Aérea de Santa Cruz, no inicio de 1971, e minha primeira função foi a de Chefe da Seção de Relações Publicas. Por conta disso, eu era responsável também pelo pequeno museu que havia ao lado da sala do Comandante, ainda dentro do hangar do Zepellin. Foi nessa ocasião que comecei a aprender mais sobre a história do Grupo de Caça, e sua atuação operando os P-47 Thunderbolt no norte da Itália, durante a II Guerra Mundial. Logicamente eu já conhecia alguma coisa, mas agora eu praticamente passava uma boa parte do dia dentro do museu, "escarafunchando" cada gaveta, e lendo tudo que podia sobre nossos antepassados: relatos de voos, mapas de missões, reportes dos pilotos, tudo enfim que pudesse me dar maiores informações sobre nossos heróis.

De tudo, o que mais me chamava a atenção era a importância do Rio Pó na vida daqueles pilotos! O Pó – que nasce nas encostas dos Alpes franceses e passa por Torino, Mantova, Ferrara e outras tantas cidades italianas até desaguar no Golfo de Veneza – estava em todos os planejamentos de missão: era referência nos voos, era ponto de controle da navegação, foi Linha de Contato durante boa parte da guerra, mas o interessante, é que o rio meio que exercia uma influência psicológica nos pilotos. Podia-se perceber claramente que o Vale do Pó fazia o papel de “porta de entrada” na guerra e, na volta das missões em território inimigo, cruzar o Pó era a certeza de estar “voltando para casa”, para o conforto (relativo...) das barracas de Pisa, e para o aconchego do Albergo Netuno!
Sobrevoar aquele rio na proa sul, mesmo com uma asa furada de balas, ou com o motor soltando fumaça e avariado pela FLAK alemã, significava mais um dia de vida, uma boa dose de Glenmorangie (o uísque “oficial” dos pilotos do 1º Grupo de Caça) ao final da tarde, e talvez – maravilha suprema – mais um encontro com a namorada... Enfim, cruzar o Pó era a garantia de mais 24 horas de vida, porque no dia seguinte tudo começava outra vez!

Na minha maneira de ver, o Rio Pó, para os nossos pilotos, tinha mais ou menos, o papel de um “portal” que marcava, claramente, a diferença entre a vida e a morte, o amor e o ódio, a paz e a guerra... cruzando o rio Po

Durante a minha vida na Caça, vez por outra, lá estava eu dando uma olhada no mapa do norte da Itália, conferindo os nomes das cidades sobrevoadas e/ou atacadas pelos P-47 brasileiros, como Casarsa, Bologna, Padova, e tantas outras. Imaginava as paisagens vistas pelos pilotos nas recuperações rasantes dos ataques, enfim imaginava como poderia ter sido aquela guerra... E o rio Pó ali presente, sereno e eterno, o mesmo Pó de sempre...

E então tomei a decisão: um dia ainda vou conhecer esta região, e também vou cruzar este “portal”, afinal o Rio Pó estava ali para ser cruzado!

Finalmente, quase 70 anos depois que a última esquadrilha de P-47 cruzou o Pó pela última vez, eu fui para a Itália com o objetivo de realizar a minha missão de reconhecimento e ataque no Vale do Rio Pó! Como não existia mais o estado de beligerância com a Itália, a missão deveria ser bastante tranquila, e poderia ate permitir outros objetivos, como por exemplo, tomar uma dose de Glenmorangie com gelo feito com a água do rio Pó... Why not? Cel Peixe Lima - em algum lugar da Toscana...

Depois de uma semana em Roma sob um calor de Madureira no verão, aluguei uma Mercedes biplace, e eu e Mary – minha esposa e excelente navegadora – partimos para Pienza, na Toscana, onde a ideia era ficar mais uns 5 ou 6 dias antes de seguir para o norte, na direção de Padova e Veneza. Assim foi feito. Pelo litoral subimos até Tarquinia – hoje um grande porto – demos um brake a direita, e tomamos a proa da Toscana.

Entre um Brunelo e outro, visitando as pequenas cidades-monumento da região, como a própria Pienza, Montalcino, Siena, Monteriggioni e outras, consegui planejar com detalhes meu deslocamento para a importante missão que se avizinhava: iríamos atravessar, saindo de PIENZA, uma boa parte da região sobrevoada pelos P-47 do 1º GAC, passando por cidades que viviam na minha memória, como Casalecchio, Bologna, Ferrara e Rovigo, sendo nosso objetivo final chegar a Padova. Nesse caminho, cruzaríamos o Rio Pó na região de OCCHIOBELLO, mantendo sempre a proa norte.

Verifiquei a meteorologia, conferi a navegação, fiz o cheque externo, conferi o combustível, rádios ligados na frequência local, e iniciei o táxi. A decolagem na Mercedes Benz foi bastante tranquila. A primeira plantação de girassóis passou como uma mancha amarelada na minha janela, quando atingi 150 km/hora já na “aerovia A1” (lá ainda não tem pardal nas estradas...). plantação de girassóis na Toscana...

Saindo de Pienza na proa norte, na direção de Firenze, minha intenção era passar por Bologna e Ferrara, dar uma olhada rápida, e só parar as margens do Rio Pó. Lá então, descer da viatura, recolher um pouco da água do rio, voltar ao carro e seguir viagem até Padova, onde o Glenmorangie seria tomado com o gelo feito da água do Rio Pó. A idéia era realmente encontrar-me com o “Santo Graal da Caça”!

Na realidade o que ocorreu comigo, foi muito além do que eu podia imaginar, tanto que eu esperei até hoje para relatar o fato. Meu “encontro” com os Veteranos quase atingiu as raias do sobrenatural...

Mantendo uma navegação tranqüila no GPS da Mercedes, me aproximava do Rio Pó, porém algumas preocupações rondavam meus pensamentos:
- a água desse rio já deve estar bastante poluída;
- se eu for fazer gelo dessa água pra botar no Glenmorangie, vou ter que ferver antes;
- onde vou conseguir um fogão?
- e se o rio tiver um barranco e não der para descer?
- e se eu tentar descer assim mesmo, e me estabacar dentro do rio? Bem, como bom caçador, a missão estava planejada, e ia ser cumprida.

Não havia objetivo secundário nem alvo de oportunidade: eu tinha que tomar uma dose de Glenmorangie com gelo do Pó, e câmbio! Pensei comigo: “quando eu subir no balsing, faço a avaliação final do objetivo...”.

E assim fui me aproximando do alvo, mas de repente uma sensação estranha tomou conta de mim: eu sentia claramente que estava sendo observado! Algum tempo atrás, quando eu ainda voava, em algumas situações eu sentia esta sensação, mas catzo, eu agora estava pilotando uma Mercedes numa autoestrada italiana, em tempo de paz, e não havia porque temer alguma aproximação pelas 6 horas...

Por via das dúvidas, instintivamente chequei o retrovisor, mas não havia nada a minha retaguarda. Mas aquela sensação esquisita persistia. Coisa mais estranha... Montalcino - Terra dos brunelos...

Bem ao longe, na proa, vislumbrei os Apeninos, e aí caiu a ficha: só pode ser o “velho” Brig Nero Moura e sua corriola da Guerra! Lógico, sem duvida nenhuma, seguramente estavam todos ali, me observando de cima daquelas montanhas! Esta guerra foi tão importante para aquele grupo, que com toda a certeza, depois que se foram para a outra dimensão, para o outro lado do muro, se reuniram todos ali, como se fora na grande sala do apartamento do Brig Nero de frente para o mar de Copacabana! Só que agora tinham o Vale do Pó como cenário, e por certo que as histórias que relembravam eram as mesmas, mas com um sabor muito especial: tinha diante de si a visualização de todo o T.O. onde combateram e, em alguns casos, morreram! Imaginem o Correa Neto olhando lá de cima e apontando para Casarsa e dizendo “...foi ali que aqueles sacanas me acertaram, e eu saltei de paraquedas...”, ou o Motta Paes – no seu silêncio habitual – olhando para San Benedetto, ao sul do Pó, e pensando como fora abatido e como tinha conseguido saltar a tempo, no sufoco...

Estes pensamentos passavam por minha cabeça, e já estava a menos de 1 quilômetro de cruzar o Pó, quando do nada, uma rajada atingiu a Mercedes!

 - “CARACA, estamos sendo atacados!” gritei.

Imediatamente dei motor, pisei fundo na Mercedes e já ia iniciar uma curva defensiva apertada para a esquerda, quando, na fração de segundo seguinte voltei ao normal, ao perceber que tinha sido atingido por uma tremenda chuva de granizo! As pedras eram enormes, quase do tamanho de um ovo de galinha. Muito estranho, porque até há alguns momentos, o sol estava brilhando, e de repente tudo ficou preto e as pedras caíram... o melhor gelo para um Glenmorangie vem do céu...

Providencialmente, há uns 200 metros da ponte sobre o Rio Pó, havia uma ponte ferroviária cruzando a estrada. Fui diminuindo a velocidade, flap de mergulho baixado, o trem já estava embaixo, e parei debaixo da ponte para me proteger daquela violentíssima chuva de granizo que mais parecia uma FLAK “di 40”!

Com essa eu não contava: como é que eu vou chegar até a margem do Pó e descer o barranco sem levar uma pedrada? Fiquei ali parado olhando para o Rio, e para aquele monte de pedras de gelo no chão, espalhadas pela estrada. Foi então que peguei um saco plástico na viatura, enchi com as pedras de granizo, e virando-me para os Apeninos, bati uma continência caprichada e falei baixinho: “Valeu, Comandante Nero, obrigado pelo gelo”

Minha mulher e navegadora não entendeu nada, e eu então expliquei:

com um brunelo especial à luz de velas tudo se explica...

Não acaba aí: entrei no carro, dei partida e lentamente voltei para a estrada. O rio Pó estava ali, bem na minha frente, e ainda caiam algumas pedras, agora menores. Fui acelerando para sair debaixo daquela chuva que poderia danificar a Mercedes, e quando eu estava exatamente sobre a ponte, o céu começou a abrir e um raio de sol bateu na minha cara. No outro lado do rio, não havia uma nuvem. A tempestade se foi tão rapidamente como tinha vindo...

Fiquei realmente impressionado, e por que não dizer, emocionado. Viajamos em silêncio por algum tempo, até que comentei com Mary: “Não é que ele sabia que eu estava querendo tomar Glenmorangie com a água do Rio Pó e me mandou o gelo já pronto?”. Mary – conhecedora dos mistérios da Caça – só falou assim: “Close myself! Acho que você continua prestigiado com os Veteranos...”.

Chegamos a Padova, fomos para o hotel, e antes de sair para jantar, preparei um Glenmorangie com as pedras de gelo gentilmente enviadas por Nero Moura e seus inseparáveis comandados. Sentado na varanda da suíte, ainda vislumbrando, na noite que caía, as encostas dos Apeninos, levantei um brinde aos Veteranos... (nessa hora, passou pela minha cabeça o seguinte: na dimensão onde eles se encontram, o uísque nunca acaba, e o gelo também nunca derrete: é o uísque perfeito!).

E foi aí que gritei bem baixinho, quase que comigo mesmo: “Senta a Pua!”, e juro que escutei, ao longe, um grito de “BRASIL!”, meio que ecoando pelos vales do norte da Itália.

Foi assim que eu cruzei o Rio Pó...

gaivota...final de texto



Reinaldo Peixe Lima - Cel R1
Piloto de Caça - Turma de 1969
 

capacete de piloto de Caça

 

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
 
  
  

 Voo da Saudade,
18 de dezembro de 2012 
(Estória 92-2)

 Tudo começou na “XIMBOCA DA SAUDADE”, no dia do PIF-PAF, em Santa Cruz, em novembro de 2011, quando, exclusivamente por obra e graça do destino (apesar do falatório do povo), eu e IRAN (TRALHA) fomos “sorteados” para voar F-5FM nos chamados “VOOS DA SAUDADE”, uma salutar atividade que já toma ares de tradição no 1º Grupo de Caça, fazendo a alegria de Pilotos de Caça de outrora.

Tal fato, imediatamente, aguçou a inveja e a desconfiança de outros companheiros, na medida em que, quando concretizado, colocaria a turma SETENTA A PUA, também conhecida como TURMA DO JOELHO VERDE (mas isto é outra história, cujo culpado é o SILVA LOBO) no patamar de ser a turma com mais gente na reserva, voando F-5.

A intenção era de que esses voos fossem realizados o mais rapidamente possível, porém, devido a problemas de disponibilidade somados à rotina do Grupo, deslocamentos para operações fora de sede e outros, a coisa foi se alongando e, finalmente, um ano depois, houve a possibilidade concreta de serem realizados no dia 18 de dezembro de 2012, coincidindo com o aniversário do 1º Grupo de Caça.

Rapidamente, e também com receio de “levar lastro”, dei a minha disponibilidade para voar na data planejada. Ajustei a programação de mergulho (atividade que exerço, como instrutor, em Cabo Frio) para não conflitar e comecei a minha preparação psicológica para o voo.

O TRALHA não teve esta disponibilidade, por força de suas atividades profissionais e conseguiu antecipar a sua ida a Santa Cruz, realizando o seu voo uma semana antes. Depois me ligou, feliz feito criança em dia de Natal, reportando as suas peripécias aviatórias.Cel. Bastos e os demais pilotos da Esqda

O que ele não me contou, mas fiquei sabendo, foi que o F-5FM quase não rodou na decolagem, devido ao curso de movimento do manche para trás ter ficado tremendamente reduzido, diante daquela reforçada musculatura abdominal trabalhada durante anos, à custa de muita cerveja e churrasco, e que sempre foi marca registrada da “configuração biotipística” deste querido amigo (se bem que o AYMONE “POPÓ”, outro querido amigo, está também correndo por fora em tamanho de pança).

Para mim, inicialmente, havia sido planejado um voo bem cedo, com 2 aeronaves e a realização de um perfil de interceptação com táticas de engajamento BVR, seguido de umas “firulas” na ala para descontrair. Mas, novamente, o destino me preparou surpresa melhor.

Por questões de disponibilidade, não foi possível programar o voo na área e eu fui escalado para guarnecer a nacele traseira do F-5FM 4808, na posição de No. 2 da esquadrilha JAMBOCK VERMELHO, que faria o sobrevoo da solenidade militar em comemoração ao aniversário do Grupo de Caça.

Fui informado desta mudança na véspera e, confesso, o sentimento foi uma mistura de júbilo e ansiedade. Voar numa esquadrilha sobre a Unidade Aérea que tive a honra de comandar, de março de 1996 a janeiro de 1998 exatamente no seu aniversário, estava além das minhas expectativas. Ao mesmo tempo, me trazia maior preocupação, haja vista que o “povo” que estaria observando lá de baixo, Caçadores da melhor estirpe, entre eles vários ex-comandantes do Grupo, seguramente morrendo de inveja (rsrsrs) mereciam serem brindados com uma bonita exibição, à altura do evento ao qual assistiam.

Tanto assim que, na noite anterior, sonhei com esse voo.

No sonho, o piloto escalado para voar comigo não me deixou por a mão no manche. Voltei do voo pau da vida e encontrei o PEO (Brig PAULO ÉRICO, então Comandante da III FAE, que havia sido o meu S3 no comando do Grupo), que me perguntou o que havia acontecido. Reportei o fato e o PEO me respondeu: - “Você deu azar, esse cara é assim mesmo. Ele disse que ia fazer isso mesmo com você”. Acordei sobressaltado, mas feliz por constatar que tinha sido apenas um pesadelo.

E com este espírito aproei Santa Cruz, bem cedo, na manhã de 18/ 12/2012.

A recepção não poderia ter sido melhor. Não somente por parte do Ten Cel FAZIO, comandante do Grupo ou por parte do Maj ANTUNES, S3. Todo o pessoal, oficiais, graduados e praças me dedicaram especial e carinhosa atenção.

Meu EQV já estava separado e, após alguns ajustes de capacete e anti G, tive um briefing na nacele sobre os comandos de comunicações e “pitocologia” do manche e manetes, referentes ao que eu teria de operar. Em seguida fomos para o briefing.

O piloto que voaria comigo (ou eu com ele, depende do ponto de vista), de qualquer modo, meu “anjo da guarda”, era o Cap RIBEIRO que, imediatamente, exterminou com qualquer resquício de temor oriundo, por ventura, daquele pesadelo da véspera: - “Coronel, eu vou decolar e pousar. O resto do voo estará com o senhor, na medida em que se sinta confortável”. Ao que retruquei: -“positivo”! Cel. Bastos

O JAMBOCK VERMELHO era composto pelo Cap BARBOSA (ÁS), Cap RIBEIRO/ BASTOS (2), Cap PASCOALINO (3) e Maj GONÇALVES (4). O perfil do voo seria fazer espera na Marambaia e, em coordenação com JOCA, realizar passagens sobre o local da solenidade militar em básica e diamante, todas com PC aberta, inicialmente sobre o eixo da pista e, ao final, em múltiplas passagens transversais.

Durante o guarnecer, conversando com o Cap RIBEIRO, este me perguntou quantas horas de F-5 eu tinha voado. “Setecentas”, respondi. Mas o que mais o surpreendeu foi a constatação de que ele havia ingressado na FAB em 1999, 1 ano após eu ter feito o meu último voo de F-5, no início de 1998, há exatamente 14 anos e 11 meses atrás, quando passei o comando do Grupo ao meu amigo PAULO RUSSO.

Lembrei-me da amarração e fiz tudo sozinho, sob supervisão atenta do mecânico e de outro piloto do Grupo, escalado para tal. De diferente, só o encaixe da traquéia da máscara, já que o antigo LPU foi substituído por outro tipo de colete.

Quanto à aviônica, apesar de não ter operado o F-5 na configuração modernizada, esta me era muito familiar, pelo fato de ter trabalhado na COPAC como gerente adjunto da modernização da aeronave, antes de ter assumido a gerência do projeto F-X1, minha última missão na ativa. Assim, apesar de não me recordar de toda a funcionalidade dos equipamentos, já havia estudado os MFCD, UFCP, EFI, HUD, etc.Cel. Bastos

Bem, vamos ao que interessa. Decolagem, reunião na Marambaia a 3000 pés, escalona pra lá, escalona pra cá, “TÁ CONTIGO”. Respirei fundo, “TÁ COMIGO, EU TENHO O AVIÃO”. Pronto, simples assim.

Já havia solicitado ao RIBEIRO (não que precisasse lembrá-lo, pois como piloto operacional, sabia exatamente o que tinha que fazer neste voo), que se mantivesse “arisco”. E assim o fez, com toda a deferência e boa prática do bom instrutor. Um bizú aqui, outro ali, relembrando as referências do voo de básica e rota, e ficamos circulando, em coordenação com o JOCA.

Fomos liberados para a primeira passagem, e o VERMELHO cantou abandonando o PE e enquadrando a final , descendo para a altura de sobrevoo da solenidade, e comandando “BÁSICA”.

Meu “anjo da guarda” nem se mexeu. Cerrei “launcher rail na entrada de ar”, como nos velhos tempos.

”VERMELHO ACELERAÇÃO”. O mar da Marambaia passando embaixo, cada vez mais próximo e rápido.

“VERMELHO PC TOP”. Joguei as “imbiricicas” pra frente. Senti o impulso da pós-combustão ligando. O mar ficou para trás. Adentramos a baixa altura o solo sagrado do “Vale do Pó”. Um ajuste fino de manete no curso de pós-combustão pra manter a posição e “mordi” o launcher-rail do líder. Mordi mesmo. Meu generoso “anjo da guarda” falou: - “Boa Coronel”!

Após a recuperação desta primeira passagem, o JOCA informou que o comandante da III FAE mandava dizer que a passagem tinha sido muito boa.

Já na posição de ROTA, de retorno ao PE, pude me regozijar, me concentrando na respiração lenta e profunda, conforme costumo fazer no mergulho autônomo, mas sabendo que daqui a pouco iríamos enquadrar para outra passagem, e desta vez em “diamante” e a adrenalina iria subir outra vez. Cel. Bastos e Cap. Ribeiro

E assim fizemos, ao longo de 1 hora e 20 minutos de voo, passagens baixas em básica e diamante, com PC aberta, para deleite do povo que participava e assistia à solenidade e para felicidade de um velho coronel que tinha a oportunidade de voltar a acariciar a pelagem do “TIGRE”.

Após a última passagem no eixo do desfile, o líder recuperou pela esquerda e avisou que ia apertar para o enquadramento perpendicular ao Zepelin. E apertou. Nessa hora, senti o reflexo da falta de um condicionamento físico específico para a atividade, além é claro de todos esse anos que já se passaram. Foi “G” e nós curvando. E eu por dentro. “Bangornei” mais do que considerei bonito para mim e para o brilhantismo da exibição. Senti que meu “anjo da guarda” acompanhava e, com uma fidalguia sem par, esperou até que eu falasse “RIBEIRO, TÁ CONTIGO”. Respondeu “TÁ COMIGO” e pude observar que ele também trabalhou bastante com o avião, porém mantendo a posição na ala neste novo enquadramento, de uma forma esteticamente polida, que eu não teria, naquele momento, sido capaz de executar, sem ter dado chance à gozação da platéia.

E logo estávamos entrando rasante na final para o pilofe de cabeceira, pouso, táxi, corte do motor, muitos abraços e fotos. Desci do avião encharcado de suor, como se estivesse voltado de um mergulho, mas alegre que nem pinto no lixo. Depois, debriefing e almoço no Cassino dos Oficiais, onde pude reencontrar os novos e velhos Caçadores do “Vale do Pó”.

Realmente, foi um dia muito feliz.

Para finalizar, queria, apenas, tecer alguns comentários inspirado pelo testemunho do grande amigo BUKO (Cel. BUKOWITZ) publicado no Nº 95 das Notícias ABRA-PC, sob o título “DOMANDO A JAMANTA”, em que, ao final, ele levanta o tema “voo da saudade X saúde dos velhinhos”.

Muito apropriado.

No meu caso, por coincidência, uns dois meses antes do agendamento do meu Voo da Saudade refiz meu checkup, eletrocardiograma e teste de esforço, mais por conta do Mergulho Autônomo Recreacional, que pratico profissionalmente como instrutor, em Cabo Frio, RJ. Tudo “nos conformes”. Confesso que nem tinha pensado no voo, e que se fosse somente pelo voo eu não teria me preocupado em atualizar meus exames.

Vejo com bons olhos tanto a adequação do perfil dos Voos da Saudade quanto, até mesmo, a adoção de uma “passagem baixa” pelo CEMAL, por exemplo, ou qualquer outra organização médica onde o candidato escalado ao voo possa, como medida salutar e preventiva, garantir a si mesmo e à sua Unidade Aérea a tranquilidade de momentos de reencontros,comemorações e ximbocas.

Fica para as considerações dos amigos.

Grande abraço a todos. gaivota...final de texto


 

  
Marcio Bastos Moreira – Cel R1
Piloto de Caça - Turma de 1977

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
  
  

 

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