Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA
(Fascículo no 58)

  

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(58-1) Ainda sobre a foto da Maria Boa
(58-2) Vôo da Coca-Cola
(58-3) Caçadores Submarinos - complemento 

  

 ...AINDA SOBRE A FOTO DA MARIA BOA
(Estória 58-1)

 

A versão do caçador Duncan sobre a foto da Maria Boa, a meu ver, merece algumas correções.
Primeiro, porque o amigo e Ten. Av. (Ref.) Graco Magalhães, residente há muitos anos em Natal, e que serviu na Base nos tempos da guerra, tem a versão primeira da origem da foto e que abaixo relatarei.
Segundo, porque fui participante da conquista da bela foto pelo 2o/5o G.Av. nos idos de 1954, numa partida de futebol de salão. Relato do Graco:  

Meu caro Brigadeiro Silas,

Quinta-feira, 5 de julho de 2007.


Entre os oficiais especialistas na nossa antiga Base Oeste havia um tenente fotógrafo da reserva: Durval Pacheco. Foi eliminado em vôo, tendo bom conceito e, sendo ótimo em matemática, foi mandado para a Universidade de Yale, fazer o curso de fotografia. Naquele tempo não havia satélite e a fonte de informação para a aviação era a fotografia. Muitas vezes conversei com ele sobre seus conhecimentos e ele, de posse de qualquer foto, sabendo a latitude do local, sabia dizer a hora em que foi feita e dava detalhes que nós não percebíamos...

O Durval Pacheco casou com moça daqui de Natal, ainda em 1946, e não me lembro o nome dela. Ele faleceu em acidente de B-25 em Fortaleza. Veio a entrega da Base Americana para nós, e com o Durval, o Vercillo e o Teixeira Rocha, passamos noites e noites procurando negativos de moças de Natal. E logo encontramos a foto da mulher nua, que um sargento americano garantiu ser da Maria Boa.

O T. Rocha se apossou da foto, colocou num quadro de madeira e ficou com ela na sua mesa. Neste tempo ele recebeu uma parte imensa da Base, o “Supply and Maintenance”, ou seja, suprimento e manutenção. Era um mundo e havia mais de 15 daqueles barracões de madeira com material sobressalente que teria de ser identificado, pois era muita coisa de B-17, de B-24, de C-46 e C-47.

Nessa ocasião, já estava criado o 5o Grupo de Bombardeio Médio, e o Grupo de Caça, constante com os P-40, foi transferido para o Rio Grande. Os P-40 foram levados por pilotos de Natal e o último deles foi levado pelo T. Rocha que gastou mais de 40 dias para voltar, retido por panes repetidas, e o material tinha que ser mandado daqui. Quero dizer que em conversa com ele, aqui, nos tempos de vocês com P-47, ele me disse diversas vezes que não entendia como não morreu de P-40, pois a instrução de 44 a fins de 45 era fraquíssima.

Eu mesmo voei duas horas de P-40 num sábado, e o Salvador Campos ficou em pé na asa me ensinando dar partida e deixou fazer algumas aterragens. Pois bem, quando o T. Rocha chegou a Natal o quadro já havia sumido de sua mesa. Daí para frente você sabe mais do que eu, pois ele foi ressuscitado pelo Hipólito, que o transformou em troféu a ser disputado Caça x Bombardeio... E vocês ganharam e o levaram para Fortaleza. É o que sei. Graco.

Maria de Oliveira Barros

 

 Passo agora a relatar o prosseguimento da estória...

Lá pelos idos de 1954, estávamos os caçadores do 2o/5o G.Av. (por coincidência, comandados pelo então Maj. T. Rocha), em expediente normal, quando chegou o então Maj. Hipólito com o quadro da Maria Boa. Ofereceu-o como troféu a ser disputado pelo Esquadrão contra o 1o/5o G.Av., Unidade de B-25, então comandada pelo Maj. Carrão, numa partida de futebol de salão a ser realizada no Campo da Navy, pois ali residiam quase todos os oficiais das Unidades.

Se bem me lembro, o juiz foi o então Maj. Amaral. As duas equipes tiveram como integrantes, respectivamente, o Côrtes, Operações do 1o/ 5o e Silas, Operações do 2o/5o. Jogo disputadíssimo e decidido num pênalti contra o 1o/5o, cujo goleiro era o Côrtes. Resultado, gol da Caça, batido pelo Silas. O quadro passou a ser do 2o/5o. Posteriormente essa Unidade foi transferida para Fortaleza e levou o troféu! Outros Caçadores podem relatar como a foto mudou de Esquadrões de Caça, mas a última vez que a vi, estava embutida em uma parede do 1o/4o G.Av. em Fortaleza.

Penso que deve estar em mãos de algum Caçador...

Nota do Gerente do Sítio:
Atualmente a foto original da "Maria Boa" é entregue ao vencendor de uma gincana entre os esquadrões. Esta gincana ocorre normalmente na "Semana do 22 de abril" em Santa Cruz. Durante o decorrer do ano porém, a regra diz que pode ser "surrupiada" por qualquer um dos perdedores...

  
A La Chasse !!!
  
  
Silas Rodrigues
Piloto de Caça - Turma de 1946
  

  

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(58-1) Ainda sobre a foto da Maria Boa
(58-2) Vôo da Coca-Cola
(58-3) Caçadores Submarinos - complemento

 

 VÔO DA COCA-COLA
(Estória 58-2)

Capitão Pralon (Hildebrando Pralon Ferreira Leite – Asp. Av. 1949 - Comandante da Esquadrilha Verde do 1o/1o Gp. Av. Ca. em Santa Cruz 1958). Esta história poderia ser chamada "Lei de Murphy" ou, o que tem possibilidade de acontecer, acontece.

O dia era festivo na BASC, talvez dia da criança, não lembro bem. Local, sala de “briefing” do 1o/1o Gp.Av.Ca., 07:00 horas da matina... Após a leitura da Ordem Fragmentária, nos familiarizamos com a missão a ser executada: ataque a alvos no mar (barcaças flutuantes) em frente à orla marítima das praias de Santos (SP), HSO 09:000 h local.

Seria uma missão operacional típica, real com oito aviões. Uma Esquadrilha com 4 F-8 Gloster Meteor para o Bombardeio Picado (BP),bombas de 500 libras e a outra com mais 4 F-8 para o Tiro Terrestre (TT), quatro canhões 20mm, um passe apenas, acabando com o que porventura sobrasse do BP. Lamentavelmente, após o “briefing” e acerto de relógios, o oficial de informações avisa que nosso controlador aéreo avançado em Santos,Tenente Aviador Enéas Camargo Neves, avisara que chovia torrencialmente no local, visibilidade muito baixa e sem possibilidade de efetuar a missão, devendo a mesma ser considerada abortiva no solo, causa MET (meteorologia) e seus pilotos dispensados.

Como disse era um feriado, um sábado possivelmente. Quase que de imediato começou a ser esboçada uma escala... de vôo para levar alguns residentes no R.J. ao Santos-Dumont, em aeronaves T-6D da Esquadrilha de Adestramento da Base.

Fomos escalados o Cap. Av. Pralon e eu para sermos os pilotos nessa missão, conhecida pelo nome de "Vôo da Coca-Cola"... Pralon, capitão antigo, era gente finíssima, filósofo e sempre terminava seus comentários pós-vôo com frases de efeito tipo: "...é melhor ser mendigo em Paris que milionário no Rio.", "boa é a Léa Massari". E por aí vai.

Nos encaminhamos para as aeronaves, os oficiais a serem transportados já esperando, um “briefing” rápido e uma decolagem mais rápida ainda. Logo após sair do chão, a curva fechada passando em cima do Cassino da Base antevia o que viria pela frente. Na ala do capitão percorremos rasante toda a orla marítima da Barra da Tijuca, Ipanema e Copacabana, subindo um pouco para um ou outro tunô barril ou “looping”, puxado com maestria por aquele ex-instrutor do Estágio Avançado da Escola de Aeronáutica.

Entre um giro e outro passamos o Pão de Açúcar, entrando pela boca da barra, subindo um pouco e nos posicionando na inicial para “pell-off” na pista 02, proa norte, no Aeroporto Santos Dumont. Já escalonado para a esquerda, 500 pés, sai o líder para o pouso. Saiu quente e apertando, trem em baixo, flapes e pouso com rápida parada em frente à torre, onde foi feita a notificação de vôo de volta por um dos passageiros transportados.

Decolagem na ala, mais ou menos o mesmo trajeto e os mesmos eventos no regresso. Pouso direto em SC (Santa Cruz), estacionamento na plataforma norte, sem cortar, aguardando a subida a bordo dos outros dois a serem transportados, tenentes João Mutti de Almeida e Anaclino Valério Alves, ambos de minha turma, aspirantes de 1956.

Lembro do Mutti, querendo ser engraçado, subiu na minha asa e disse: "Vou com o Pralon, é capitão e mais seguro". Embarcou no avião do líder, iria se arrepender! Eu trouxe o Valério. Esta perna seria a terceira e última a ser efetuada.

Mesmo padrão da etapa anterior, entrada pela boca da barra, dia lindo, pois a frente fria ainda não chegara ao Rio. Altitude de 500 pés, inicial para o “pell-off”, pista em uso a mesma, 02 proa norte.

Como antes, o líder saiu quente e apertando, mas agora com uma diferença: nos primeiros 90 graus reverteu, nivelando e aproando à Escola Naval (EN). Eu não entendi o que estava acontecendo e posicionei-me como se fosse "ataque dois", um pouco mais alto e chegando perto, seguindo o líder, fiquei à esquerda dele mantendo aquela posição, pois ele estava perdendo altura.

Pude ver trem em cima, capota aberta (assim permanecia o tempo todo dos vôos) e flapes em baixo. Pensei ainda, sem entender o que se passava: "vai pousar no mar?".

Ao mesmo tempo em que curvando na faca passava por cima dele, vi o nariz do T-6 entrando na água e, para espanto, a capota da frente fechada, a do Mutti aberta. Continuando na curva percebi o rápido afundamento do T-6, só restando o último terço da fuselagem e a deriva vertical onde, agarrado ao estabilizador, estava nosso colega Mutti.

Não os vi mais, tendo a aeronave submergido em meio à espuma e a uma porção de pequenos barcos que rumaram para o local. Pedi à torre que avisasse a SC, pousei e fui aguardar alguma possível orientação vinda do Grupo de Caça.

No saguão do aeroporto encontro o Mutti, sem seus sapatos de couro alemão e, é claro, ensopado! Informou que o velho "Praley". estava bem e iria chegar em breve, haviam sido resgatados por uma embarcação da Escola Naval.

É claro que passaram um sufoco danado. Nada mais tendo a acrescentar, com sua malinha de objetos pessoais ainda vazando água, pegou um táxi e foi embora, descalço.

Ainda falei para o "Menininho Sândalo", seu apelido:
"se tivesse vindo comigo não estaria molhado!".

"Quando me encaminhava para a sala de tráfego avisto o Cap. Pralon, de chinelos e com um uniforme da Escola Naval, uma espécie do atual “jogging”. Abraçamos-nos e aí contou que estava bem, que o motor parou por pane seca na subida do “pell-off”. Que na inicial havia trocado de tanque, do reserva (tomada mais alta) para o esquerdo (tomada mais baixa, ambos na asa esquerda), que foi uma bobeada dele, alimentando a aeronave com o tanque mais vazio, no caso seco...

Que no impacto com a água a capota correu e fechou, mas que mesmo com o avião afundando conseguiu abri-la e soltar-se do pára-quedas. Que os cintos e suspensórios estavam travados, o que possivelmente impediu o choque da cabeça com o painel. Estava sem colete salva vidas, o conhecido papo-amarelo, à época chamada de 'Mae West".

Foi um "sustão", mas consegui sair para a água, tirei os sapatos aguardando socorro, pois havia muitos barcos por perto, sendo em seguida resgatado por um bote da Escola Naval.

Perguntou-me então: "Vamos embora? Posso ir pilotando?".

Assim termina esta história, com o Cap. Pralon pilotando um T-6 vestido de EN, descalço, regressando à Santa Cruz.

  

Ajax Augusto Mendes Corrêa
Piloto de Caça - Turma de 1956


 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(58-1) Ainda sobre a foto da Maria Boa
(58-2) Vôo da Coca-Cola
(58-3) Caçadores Submarinos - complemento

  

 CAÇADORES SUBMARINOS
(COMPLEMENTO DA HISTÓRIA DO CÔRTES)
(Estória 58-3)

 

Em 1981, quando fui gerenciar a "Sorbonne" em FZ (Fortaleza), as aventuras de mergulho do Zé Bironga e patota, no navio Siqueira Campos, ainda eram assuntos bem recentes e bastante recordados pelo Côrtes e Kauffman.

Curiosamente, uma grande coincidência se apresentou quando, em 1982, convidei o "Mike Mike" para uma palestra no Esquadrão e ele discorreu sobre mil estórias dos tempos em que, durante a guerra, servia em Natal, apoiando a exposição com uma série de slides da época, absolutamente espetaculares. Em uma seqüência a cores (o MM estava sempre atualizado em tudo e creio que pouca gente no Brasil, em 1944, sequer conhecia o filme "kodachrome", ele nos mostrou fotos que tirou em uma ida com outro P-40 de Natal à Fortaleza.

Em meio a estes slides, de repente, ele projetou uma foto de um navio encalhado, tendo atracado a si, um rebocador. Era o Siqueira Campos que ele mencionou rapidamente como se a turma do Esquadrão não fosse dar importância. Comentou apenas que era um navio do Lóide que havia encalhado perto de Beberibe. Se eu já estava com uma pequena dose de sadia inveja por não ter participado da aventura do ano anterior, o papo do MM me despertou para procurar saber mais sobre o navio. E o que apurei, para início de conversa, foi que o Siqueira Campos era um navio azarado.

No início da guerra, antes do Brasil se declarar aliado (Ago 1942) ele já havia sido apreendido pela Marinha Inglesa porque transportava armamento comprado na Alemanha e metralhado, se não estou enganado, por um submarino alemão.
Em 1943, o navio à noite navegava sob escolta na região de Aracati junto com outra embarcação quando parece que alguém transmitiu qualquer coisa sobre submarino alemão na área e algum tipo de desentendimento fez com que se entendesse que um U-Boat os estava atacando.

Navio Siqueira Campos-destroçosO "barata-voa" foi total e na confusão subseqüente os navios se chocaram. O Siqueira Campos, fazendo água, tentou chegar a FZ (Fortaleza), mas quando o comandante viu ser impossível, deu um “break” à esquerda e encalhou o navio. Como disse Mark Twain, entre a verdade e a lenda, o bom jornalista publica a lenda. Daí surgiu essa fantasia passada de boca em boca sobre o torpedeamento. Durante os dias que se seguiram à colisão, embarcações menores foram utilizadas para transferir a carga e levá-la para o porto.

Foi em um momento desses que o MM passou por cima de P-40 e fotografou. Mas a estória não terminou aí. Como imagino que os "pacaus" e "pife-pafes" jurássicos saibam, o Zé Bironga era gaúcho, mas foi criado em FZ.

Em uma ocasião, conversando com ele sobre o que eu havia apurado (inclusive que o Siqueira Campos, originalmente, fora um navio alemão) ele me disse: "Pintinho, tem mais. E me contou que alguém das suas relações (não dá pra lembrar quem) lhe havia dito que tudo o que prestava e podia ser salvo do Siqueira Campos foi retirado na ocasião. Inclusive uma grande quantidade de chapas do costado. E que essas chapas foram utilizadas por um estaleiro de FZ, tradicional fabricante de cascos de madeira, para construir uma embarcação de aço, a sua primeira!

Pois bem, essa embarcação, quando saiu para o seu "vôo de experiência" inicial, ao virar a ponta do Mucuripe e encarar o mar menos abrigado, simplesmente, ao ser atingido pela primeira onda um pouquinho maior, emborcou! Naviozinho azarado esse!

Nota 1: MM, ou "Mike Mike", era como era conhecido o Brig. João Eduardo Magalhães Motta.
Nota 2: "Zé Bironga" é o Maj. Brig. José Salazar Primo, ex-comandante do 1o/4o G.Av.

  

Paulo José Pinto
Piloto de Caça - Turma de 1961


 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(58-1) Ainda sobre a foto da Maria Boa
(58-2) Vôo da Coca-Cola
(58-3) Caçadores Submarinos - complemento

 

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