Pilotos após a missão  13kbytes  ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Fascículo no 61)

  

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(61-1) Ode ao P-47 "Thunderbolt" 

 

 ODE AO P-47 "THUNDERBOLT"
(Estória 61-1)

 

“Trator Voador”, “Bulldog Alado”, “Trozoba Voadora”, “Tijolo”, eram os apelidos carinhosos da grande máquina de guerra. Na verdade, ela era um pouco de cada um deles, mas era “bem boa de voar” (como diz o cancioneiro).

P-47 1Com ferocidade visível, aparência imponente e desafiadora, o P-47 gostava de mãos hábeis e tratamento atento e delicado. Impunha coordenação e negava-se a oferecer bons resultados, caso seu piloto não estabelecesse uma relação de compromissos: “voe-me bem e eu te levarei ao sucesso”...

Gostava de ser pilotado minuto a minuto e chegava a ser tão carente de atenção que, por raras vezes, concedia ao seu mestre o direito de desfrutar a paisagem e seu entorno: olhar para dentro era a obrigação. Fiel, sempre nos trouxe de volta à casa. Nunca nos traiu, mas, seguramente, quem o traiu pagou caro. Mas também sabia ser condescendente... Galgar o posto de pilotagem exigia bom preparo físico e a cabine era ampla, mesmo para os “grandões”...

P-47 A4Com o motor acionado, ganhava vida e impunha respeito. Movimentava-se qual um pesado mastodonte, obrigando a taxiar em “S” para ver o que se passava sob seu nariz. “Rolon” e “Decoloff”, era a regra para o “despegue”. Custava a acelerar e, até que o trem recolhesse, era o “tijolão”. Antes que a bequilha levantasse, o controle da reta era pela visão lateral e muito pé para compensar o torque...

Nos levava longe e alto (41.000 ft), nos transmitia a sensação de pujança. Habitava céus por ninguém ocupados, enchendo seus mestres de vaidade e orgulho por lhes ser permitido ver homens e terras de tão alto, tão diminutos. E, assim, nos induzia a bradar aos quatro ventos: “eu tenho o poder!” Voar formatura em altitude era um “sabão”: inércia de motor e turbo. “Asa livrando asa e motor na empenagem do líder” resultava em um belo "finger formation", principalmente com “alas carrapato”.

P-47 'envelope de vôo'Era veloz em cruzeiro (650 km/h, velocidade máxima) e suportava mergulhos incríveis em que, atingida sua velocidade limite, a recuperação impunha aplicar os flaps de compressibilidade (?). Seu “tounneaux barril”, com a bolinha no centro, era um poema...

Era tão robusto e parrudo que dava impressão que as suas asas estavam assentadas sobre trilhos de estrada de ferro. Aceitava tranqüilamente a aceleração da gravidade e entortou muita coluna vertebral de seus mestres, sem receber nenhum dano próprio. Aliás, nunca se soube de algum P-47 que tenha sido “punido” por excesso de "G".

Com seus oitocentos galões (US) a bordo, nos permitia o luxo de partir de Santa Cruz e atingir Natal em menos de seis horas, voando a 40.000ft, ainda conservando quase duas horas de combustível para alternar ou brincar na chegada.

Seu motor de dezoito cilindros com dois mil e quatrocentos cavalos de força, com um bom super-compressor e injeção d’água, o arrancava do chão pesando oito toneladas. Mas gostava de pista longa...

Sua carga de guerra fazia inveja a qualquer máquina de combate: mais de dois mil cartuchos ponto 50 para oito bocas de fogo, três bombas de 1.000 libras e seis foguetes de 5 polegadas. Assim, sua presença na liça do combate era o terror das tropas de superfície inimigas. Seu visor giro-computador era uma jóia tecnológica, difícil de manipular, porém lhe assegurava eficácia mortal, quando bem trabalhado. O tiro com as oito bocas de fogo jogava um jeep ao ar...

O bombardeio picado, realizado entre 60o a 80o e no “olhômetro”, era de elevada precisão e o bombardeio rasante, na base do “sentimento”, era excelente para espalhar as incendiárias...

Suas enormes 4 pás de hélice, girando a 2.700 rpm geravam um torque que impunha uma ponderável correção de pé, a despeito do compensador de direção sempre acionado para manter a bolinha no centro.

Sua “voz” era inconfundível, principalmente quando arfava e zunia para deixar o chão. Às vezes, comia tanta pista que dava a impressão de que dela não queria se separar.

P-47 rasante em Santa CruzSuas manobras e acrobacias exigiam prolongadas “embaladas”, e quando “amolecia” no dorso, criava uma sensação de eterna paz e silêncio. E aí, impunha muito carinho nos comandos... para evitar um parafuso de dorso.

Seu "canopy" de bolha assegurava plena visibilidade dos céus, apenas limitada pela poderosa armadura de duas polegadas de aço, nas costas do assento, para proteger os mestres de um ataque pela cauda, em que pese a existência de um dispositivo de alarme para indicar os “inimigos a ré”... Que alguns titulavam “radar de cauda”.

Sua iluminação de cabine tornava o vôo noturno um desafio, e a posição do velocímetro, escondido nas sombras do canto esquerdo superior do painel, tornava o pilofe noturno uma “manobra de assombro”. Sua iluminação externa de baixa intensidade, fez muita gente “entrar em forma” em alguma estrela mais brilhante ... E não na formatura.

P-47 painelSeu pilofe, por mais apertado que fosse, não tomava menos do que 35 segundos e os que experimentaram torcer mais do que isso, viraram “monumento à besteira” na cabeceira da pista...

Seu pouso, sempre com todo o flap, era “de atitude” e, uma vez alinhado na pista, normalmente obrigava uma espichada de pescoço para ver o que se passava à frente daquele narigão. O pouso curto obrigatoriamente exigia um toque de maestria três pontos e um bom consumo de freios, para conter a inércia daquela massa de ferro...

Os dutos do super-compressor, que conduziam os gases do escapamento para girar a turbina (implantada na fuselagem traseira e que passavam sob a cabine) faziam do posto de pilotagem um bom forno, e era impossível ver um mestre-piloto abandonar seu posto de comando sem ter tomado um banho de suor: era uma sauna voadora, que nem as pílulas de sal do Médico do Esquadrão (para compensar) conseguiam reverter as perdas...

Após o corte do motor, silente, nos permitia escorregar para o chão e, para os pilotos de pequeno porte, caminhar sob suas asas e acarinhar seu papo. Era quando os pequenos se sentiam grandes, e todos nós nos sentíamos HOMENS!

Meu amigo P-47: que saudades tenho de ti! Com seus comandos nas minhas mãos, esqueci-me do meu baixo porte: senti-me GRANDE, GRANDE!

P-47 no Municipal

  

Lauro Ney Menezes - Maj.Brig. do Ar
Piloto de Caça - Turma de 1948 


 

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