Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Fascículo no 63)

  

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(63-1) O Fairchildão
(63-2) Desert Lil'
(63-3) Nem só de caviar vive a Caça 

 O FAIRCHILDÃO
(Estória 63-1)

 

Na realidade o título deveria ser - Entrega de aviões Gloster (TF-7 ou F-8) ao Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (Parque de Marte no popular), mas a missão ficou conhecida com a designação acima.

Pousar um Gloster no Parque de Marte (SBMT) na era dos anos sessenta era um tabu que se concretizou durante muitos anos. Normalmente os componentes do 1o Grupo de Aviação de Caça (1o Gp. Av. Ca.) tinham que executar um traslado de seus aviões Gloster, para entrega naquele Parque, com vistas a efetuar inspeções de 4o Escalão.

Da mesma maneira, quando do recebimento das mesmas aeronaves, depois da devida inspeção, cabia ao efetivo do Grupo realizar vôos de experiência e trasladar os referidos aviões para a Base Aérea de Santa Cruz (SBSC). Como foi dito no início, o mito era grande, pois todos os pilotos que fossem escalados para pousar naquele Parque com aquelas aeronaves tinham que receber um briefing detalhado, efetuado por companheiros com mais experiência ou pelos próprios Oficiais de Operações dos Esquadrões.

Para completar ou dificultar mais as missões, os aviões eram entregues com todas as maleficências possíveis. Para exemplificar: o tanque suplementar (belly tank) ou estava furado ou sem condições de receber combustível; os pneus, provavelmente, ou estavam na lona ou próximos a ela; o rádio (VHF) só possuía condições de falar com a torre (TWR) de Santa Cruz (Primave) e com a TWR de Marte; o rádio (ADF) geralmente estava defeituoso e, assim, não tinha condições de receber nenhuma informação; os instrumentos de vôo, em sua maioria, apresentavam defasagens; etc, etc.

Dessa maneira o piloto designado tinha que efetuar o traslado (SC – MT) após ter sido “brifado” sobre as condições de pouso (pista curta, morro na cabeceira predominante e estrada com fios na cabeceira oposta), navegando precisamente, pois, além de não possuir meios de comunicação adequados, também era tolhido por uma restrita autonomia de vôo.

É importante informar que a escala para efetuar estas missões, independente das demais, era corrida e não cabia ao piloto escolher qual a mais adequada ou qual a que lhe atendesse melhor. Estávamos no mês de agosto do ano de 1961, mais precisamente no dia 9, e, por escala, dois pilotos foram designados para efetuar dois traslados para o Parque de Marte. Esses pilotos eram: 1o Tenente Luiz Fernando Cabral e 1o Tenente Pedro Baptista.

Fazendo um parêntese, estávamos na época em que as panes eram cíclicas e, assim, aconteciam casos e mais casos de ocorrências idênticas nos Esquadrões de vôo.

Retornando ao relato, o 1o Gp. Av. Ca. estava na fase em que não havia canopi para aumentar a disponibilidade, já que existiam diversas aeronaves com falta daquele equipamento, em razão de inúmeras rachaduras acontecidas em vôo, que proporcionaram uma razoável quantidade de despressurizações. A missão para os dois pilotos escalados era de trasladar para o Parque de Marte dois aviões com as maleficências descritas acrescidas de não terem o canopi.

O "briefing" foi dado e nele foram reportados todos os problemas já expostos, adicionado da necessidade de uma boa navegação, porquanto não se poderia planejar, com exatidão, em que altura e a que velocidade se poderia realizar a referida viagem. Tais fatores poderiam comprometer a autonomia do vôo, acontecimento que, durante a sua execução, vimos que de fato o fizeram. O Cabral decolou cerca de cinco minutos à minha frente e, posteriormente, soube que ele conseguiu atingir uma altura maior que a minha, pois efetuou a viagem vestindo um blusão de vôo, embora estivéssemos em um dia com a temperatura bastante alta.

O meu traslado foi bastante pitoresco e, porque não dizer, muito preocupante. O F-8 4449, já na decolagem, mostrou que a quantidade de sujeira existente suplantou de muito a expectativa. Assim, além dela, todo o meu planejamento que estava na prancheta da perna voou, bem como a bolacha com o seu devido pino (protege a cadeira no estacionamento para evitar uma possível ejeção) que, por padronização, é colocada no seu suporte antes do piloto adentrar na cabine.

A altura máxima atingida, devido ao frio intenso, foi de 7.000 pés. A velocidade não pode ser maior que 180 kt, pois o turbilhonamento dentro da carlinga, acima dela, tornava o vôo insuportável. Sabia que a navegação tinha que ser precisa, pois, como não tinha combustível no tanque ventral (belly tank), a minha autonomia era bastante limitada. Naquela hora o tempo não passava, o destino não chegava e a adrenalina me mantinha cada vez mais aceso e, porque não dizer, temeroso.

Passei por São José dos Campos com olho no indicador de combustível ainda existente no tanque central. Em Cumbica (Guarulhos) deveria decidir se prosseguia ou pousava. Resolvi continuar e cheguei na vertical de Marte com tão pouca autonomia que não tinha direito a uma arremetida.

Ao pousar tive uma sensação de alívio muito grande e ao mesmo tempo fiquei muito apreensivo quando vi uma grande quantidade de bombeiros me seguindo, fato que, imediatamente, me fez presumir que algo de errado e preocupante havia acontecido sem que fosse por mim observado, isto porque a torre de controle (TWR) havia declarado emergência sem que eu houvesse solicitado.

A missão foi cumprida, mas, com certeza, julgo que envelheci bastante naqueles cinqüenta minutos que transcorreram o vôo, especialmente ao seu final. No mesmo instante prometi a mim mesmo que outra missão igual não faria, a menos que possuísse mais combustível, fato que permitiria um possível erro de navegação ou um improvável mau tempo na rota, para que a segurança não fosse afetada.

  

Pedro Baptista - Cel.Av.Ref.
Piloto de Caça - Aspirante de 1958 


Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(63-1) O Fairchildão
(63-2) Desert Lil'
(63-3) Nem só de caviar vive a Caça

  

 DESERT LIL'
(Estória 63-2)

 

Desert Lil´ foi o apelido dado pela primeira tripulação de um North American B-25C Mitchell (número de série: 41-12872) que pertencia ao 82o Esquadrão de Bombardeio (82nd Bomber Squadron) “Bulldogs” do 12o Grupo de Bombardeio (12th Bomb Group), o famoso “Earthquakers” que atuou no Norte da África e no Mediterrâneo.

Desert Lilly - pin up


Já no início de 1945, este avião era então considerado “cansado de guerra” e foi cedido ao 1o Grupo de Aviação de Caça brasileiro, operando em Pisa, Itália, sob o comando do 350o Grupo de Caça (350th Fighter Group), para servir como aeronave de transporte de pessoal.O Major John W. Buyers, oficial de ligação entre a USAF e a FAB, foi o responsável pela escolha e traslado desse B-25. Buyers se apegou ao “surrado” Desert Lil´, e o considerava como “seu” avião.

Desert Lilly - pin-up censurada


A mais célebre e derradeira missão do Desert Lil´ na guerra, teve início em 11 de maio de 1945, quando o Major Buyers, juntamente com os capitães Lagares, Pessoa Ramos e Borges, decolaram de Pisa com destino à Áustria a fim de resgatar dois de seus membros, os tenentes Assis e Correa Netto, pilotos abatidos em combate e que haviam saltado de páraquedas e feitos prisioneiros pelos alemães.

Desert Lilly - acidentada


No fim da guerra na Europa eles foram libertados por tropas aliadas, de um campo de concentração nazista na Áustria. Após intensa busca, os dois oficiais foram finalmente localizados na França. Todos então, aproveitaram a ocasião para conhecer a Europa a bordo do Desert Lil´. No aeroporto de Atenas, antes do seu retorno para a Base Aérea de Pisa, porém, o Desert Lil´ sofreu quebra no trem de aterragem principal e lá foi deixado para posterior sucateamento.

Desert Lilly - sobre os Alpes


Recentemente, soube-se que o B-25 foi recuperado pelos americanos e que voltou para os Estados Unidos onde ainda foi útil por alguns anos. Totalmente baseada em fotos coloridas tiradas pelo próprio Major John W. Buyers na ocasião, a gravura mostra o momento em que o Desert Lil´sobrevoava os Alpes Austríacos no dia 11 de maio de 1945. Quando o avião foi entregue ao 1o Grupo de aviação de caça a pin-up foi coberta...

Abraço a todos, bom fim de semana.

   

Danilo Paiva Álvares - Brig. do Ar R1
Piloto de Caça - Turma de 1963 


 Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(63-1) O Fairchildão
(63-2) Desert Lil'
(63-3) Nem só de caviar vive a Caça

   

 Nem só de caviar vive a Caça
(Estória 63-3)

 Na primeira quinta-feira de cada mês acontece um momento feliz dos Caçadores da Zona Sul do Rio de Janeiro: é uma espécie de “regional” da ABRA-PC que se reúne no Porcão da Barão da Torre em Ipanema.

É um encontro informal com muita conversa sobre os assuntos e que assuntos... Vai de acidente nuclear ao relançamento do angu do Gomes, que mudou de nome e está na esquina de N. Sª. de Copacabana com Sá Ferreira, onde existe, também, um pastel popular da melhor qualidade, desde que não se entre na cozinha.

O encontro das gerações de Caçadores é algo imperdível: o Pereirão, que é piloto de avião (há pilotos de outras coisas) até hoje – invejável –, o Peixe, com suas histórias inarráveis, o Hortêncio, com a fleuma britânica de um guaraná, o Patinho e suas histórias “fantárnicas”, o Potengy e seus elogios desbragados, enfim, tudo de bom para quem gosta do laisser faire regado a bom chope.

Até os traslados de F-5 foram relembrados, afinal foi o último supersônico zero quilômetro da FAB, e lá se vão quase quarenta anos. A lembrança das enrascEduardo Dupratadas que só eram solucionadas pela grande perícia dos Pilotos de Caça, sempre com uma carta na manga. Planejamento e preparação mesmo, que é bom, só na teoria – muita pelada no fim das contas.

Essa conversa fiada toda tem por alvo convidar os Caçadores a participar do happy hour, lembrando que somente é necessário ter vontade, obter guia da patroa para ausência das 18:00 até as 22:00 na primeira quinta de cada mês, cerca de R$ 50,00 para saldar o prejuízo e muita disposição para falar, rir, beber e comer muito.

Por falar em comer muito, um dos temas que surgiu ao longo do caminho das bolachas de chope, vejam só, foi um dos Caçadores aposentados que se diverte pilotando um fogão semiprofissional, comentando as delícias de criar um prato gostoso.

Para alguns, um triste fim, porém devo declarar que é algo interessante e desafiador, afinal podemos colocar gemas de ovo e açúcar à disposição de qualquer pessoa, e raríssimas serão capazes de fazer papos de anjo deliciosos. Como diria o Ribeirinho, crítico feroz das manias de sexo duvidoso, assim não dá (talvez só com viagra).

Mas, no correr dos chopes, foi apresentada uma receita (aí o Ribeirinho quase se retirou do recinto - realmente é o fim da picada em uma reunião de Caçadores acontecer troca de receitas culinárias), uma receita, então, de um ovo rápido e eficiente, especial para aqueles que não conseguem nem esquentar água:

1 - numa xícara de chá (média) coloque um fio de azeite de oliva e uma pitada de sal, cuidando para não exceder a cota da hipertensão;

2 - gire a xícara com o azeite e o sal, de modo que estes se espalhem pelas laterais;

3 - quebre um ovo, retirado direto da geladeira, e o coloque, sem casca, na xícara;

4 - coloque a xícara com o ovo no microondas e aplique o botão para trinta segundos de potência máxima (até que enfim algo compreensível para os Caçadores);

5 - saboreie o ovo do Caçador e até a próxima receita.

 

A la Chasse!!!

 

Eduardo Duprat, Caçador, FZ - 1972

  

REFERÊNCIAS:

1) . . . . Para esculachar o autor: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. .
 
2) . . . . Nem só de caviar vive o homem!, de Johannes Mario Simmel, ROMANCE,Nova Fronteira, 524 páginas.
SINOPSE: As aventuras de Thomas Lieven narradas neste romance de espionagem são verdadeiras. O personagem existiu de fato:
era um jovem burguês, tranqüilo, destinado a uma brilhante carreira como banqueiro, mas que durante a Segunda Guerra Mundial vai
atuar nos serviços secretos dos principais países envolvidos no conflito. Entra, então, em perigosas situações, das quais só consegue
se livrar devido ao seu amor pela vida e pelas coisas belas que ela lhe dá. O livro contém algumas receitas de pratos que Thomas
Lieven preparava em suas aventuras.
 
3) . . . . Extraído do Aulete digital:
 
• laisser faire - sm2n. 1Econ. Doutrina ou prática de não-interferência do Estado nas atividades econômicas; 2 Atitude ou
conceito de não intervir em processo, atividade etc.
• inarrável - a2g. 1 Que não se pode narrar; INDIZÍVEL; INENARRÁVEL. 
  
4) . . . . Neologismo caçador:
 
• fantárnico - fantástico
 

 Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(63-1) O Fairchildão
(63-2) Desert Lil'
(63-3) Nem só de caviar vive a Caça

 

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