Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA 

(Fascículo no 66)





Este fascículo contém somente 2 (duas) estórias:
(66-1) Do Coroné e o Lobisome - autores
(66-2) Outras histórias  
  

 

 

 DO CORONÉ E O LOBISOME, DE SEUS AUTORES
E OUTRAS "COSITAS MAS"
(Estória 66-1)

 

 Prezados amigos da ABRA-PC,

Recebi o exemplar do 3o livro das “Estórias Informais da Caça” e, antes de mais nada, parabenizo pelo excelente trabalho. Escrevo, no entanto, solicitando uma correção num dos próximos boletins, se assim concordarem. Na página 139, o conto “O Coroné e O Lobisome” é citado como de autoria desconhecida e situado no tempo como “provavelmente em 1975”.

A peça de cordel, apócrifa como “sói” acontecer a toda “marreta de pica-fumo” (eu sei, o hífen está em decadência...), não tinha qualquer pretensão à época, a não ser registrar a bronca (que como bem diria o personagem principal do texto: é a arma do otário!) contra a disciplina intelectual de nosso comandante, Coronel Paulo Pinto, em cumprir com a costumeira eficiência uma ordem do Comando Geral do Ar de formar uma leva de pilotos de caça em curtíssimo prazo (os primeiros em três meses, outros em três dias e os últimos em 3 horas) para equipar novas unidades de caça recém-criadas (olha o hífen, de novo), os ditos “lobisomens”.

O tempo cuidou de demonstrar que pilotos de caça no Brasil só podem ser formados seguindo a velha receita de Nero Moura, criada no Vale do Pó e aprimorada posteriormente em Santa Cruz, como bem contado nas maravilhosas crônicas do elo personificado da aviação de caça, o Brigadeiro Menezes. Ou seja: com tempo, rigor e exemplo.Mas voltando à razão dessa carta, resolvi arriscar o pescoço 26 anos depois (o cordel é de 1983) para revelar que o autor dos mal-ajambrados versos de pé-quebrado (agora que o hífen praticamente acabou, encontrei seu uso...) sou eu mesmo, Flavio C. Kaufmann (Kau), na época comandante da Esquadrilha D’Ouros, na Sorbonne da Caça, tendo o Paulo Russo como operações.

Na verdade o risco não é tão grande, pois ambos como caçadores de pijama, a única punição que o admirado comandante poderia aplicar hoje a seu antigo e indisciplinado capitão, seria oferecer um salgadinho envenenado no Picadinho de 6 de Outubro...) ou mesmo ficar zangado, mas isso sua enorme elegância não permitiria. Além do mais, ele sabe do apreço que lhe tenho. O motivo da revelação não é buscar candidatura pessoal ao prêmio Pulitzer ou Nobel de Literatura, mas sim identificar o autor dos desenhos, esse, justo merecedor de todas as homenagens possíveis: o saudoso César Bombonato.

Coroné e o Lobisome


Dono de um traço fantástico e de um acurado senso estético para fotografia, Bombonato era o terceiro homem da esquadrilha e um dos melhores instrutores daquele ano de 1983. Sua facilidade para as charges fazia dele meu cúmplice certo toda vez em que identificávamos algum fato merecedor de gozação no quadro de avisos do Esquadrão Pacau.

Assim fizemos tanto no episódio da “cola” do Bittencourt (Macarrinha) no vôo de instrumentos sob capota, quanto na reinauguração da Praça Berthier, quando em solenidade paralela batizamos a árvore existente de “cajueiro Zé Araújo”, na época o tenente responsável pelas obras (vejam que parece que foi ontem).

Desnecessário enumerar as qualidades do Bombonato, hoje certamente habitando algum ponto do Valhalla, mas acontece que junto com o exemplar do livro recebi também o número 71 do boletim da ABRA-PC (como vai ficar o hífen nesse caso?) em que o Tenente José de Almeida Pimentel do 14 (ou do “caça de Canoas”, no dialeto de quem como eu já foi de lá, ou ainda dos “romanos”, na mordacidade de quem já foi do Grupo de Caça) faz uma competentíssima descrição da participação brasileira (bem, os gaúchos ainda não se separaram do Brasil, não é?) na ReLobisome pilotod Flag, que enche de orgulho qualquer integrante da Força Aérea Brasileira.

Ao ler o relato do tenente Pimentel, não pude deixar de recordar meu encontro com Bombonato, já em 1998 no hangar do Zepellin durante um fim de semana onde eu, já na reserva, montava um de nossos dirigíveis e ele acabara de assumir o 1o /16o, com a tarefa inicial de conduzir nossas cores (ele mesmo havia desenhado a bolacha do Esquadrão Adelfi) pela primeira vez numa operação Red Flag.

Seu entusiasmo natural e a minúcia com que se preparava para a missão forneceram motivo para um delicioso papo de mais de uma hora, atrasando seu almoço de domingo com a família. Infelizmente ele faleceu num acidente aéreo na Marambaia naquela mesma semana e quem terminou por conduzir a missão (com todo brilho, diga-se) foi seu oficial de operações e meu antigo tenente do Esquadrão Jambock, Salvatore (“Boneco”). 
 
Vejam, portanto, que, na síntese de uma doutrina histórica que começou lá atrás com o “Avestruz” na Guerra da Itália, certamente aquela esmerada preparação iniciada pelo Bombonato no Esquadrão Adelphi, dez anos antes, terá sido a semente que germinou no brilhante trabalho do Esquadrão Pampa em 2008. Bem, de qualquer modo, o cordel é meu e do Bombonato. Perdoe-nos Coronel Paulo, nós éramos jovens e pilotos de caça... Atenciosamente,

  

Flavio Catoira Kauffmann – Ten. Cel. R1
Piloto de Caça - Turma de 1978


 

Este fascículo contém somente 2 (duas) estórias:
(66-1) Do Coroné e o Lobisome - autores
(66-2) Outras histórias

   

 OUTRAS HISTÓRIAS...2
(Estória 66-2)

 

Já faz algum tempo que não escrevo alguma estória para o nosso ABRA-PC Notícias. Não sei se por preguiça ou falta de inspiração, mas ao ler um dos últimos números – o sugestivo no 69, Jul/ Ago 2008 – deparei-me com o relato – real – sobre um dos últimos encontros do pessoal da “Orla” onde, durante o batepapo, foi plotado que em uma das laterais da mesa, estava ocorrendo uma troca de informações culinárias!

Porra! Em reunião de Pilotos de Caça, não se pode admitir esse tipo de vacilo! Mas o mal estava feito: o Duprat tinha acabado de dar a receita do “Ovo do Caçador” aos seus interlocutores! Eu ainda fui checar se alguém tinha anotado no guardanapo, mas felizmente não chegaram a esse extremo. Não foi só o Ribeirnho que chiou: alguém ponderou: “... em outros tempos, o papo aqui seria a respeito de avião, mulher, Aviação de Caça, mulher, Força Aérea, puteiros nacionais e estrangeiros, mulher e avião.” Só tenho medo é de que na próxima reunião, mantendo este ritmo, alguém apareça com um novo ponto de “tricot” ou de bordado, ou com um tabuleiro de jogo de damas...

Bem, mudando de rumo, eu estava lembrando alguns lances gaiatos que ocorreram em Santa Cruz (o período deve ter sido entre 1971 e 1973). Naquela época, o Grupo de Caça recebeu um bando de tenentes solteiros. Ganhava-se relativamente bem, e nosso objetivo era, basicamente, voar e viver a vida do Rio de Janeiro, que era outra cidade, muito diferente do que é hoje, só que para melhor! Dentro deste raciocínio, era fundamental que o Piloto de Caça tivesse uma viatura de alta performance que também lhe garantisse sucesso nas missões, digamos, “sociais noturnas”.

E o carro que se prestava a esse papel – aliás, se encaixava exatamente dentro das especificações e dos objetivos do solteiral – era o PUMA: esportivo, linhas arrojadas, bi-place, e com um potente motor VW 1600, com carburação dupla! Quando cheguei em Santa Cruz em 1971, o Araken já tinha o dele, equipado com uma novidade espetacular: um manche descarregado de Gloster (F-8) adaptado no lugar da alavanca de câmbio! Ficou oPuma amarelo maior barato, pois acho até que os botões do manche comandavam farol e outros equipamentos... Firula maior,impossível.

Em seguida eu comprei o meu PUMA, e logo no primeiro dia que fui à Base, descobri que o carro conseguia passar, quase raspando, por baixo da cancela do Portão da Guarda. Passei então a oferecer carona para os companheiros que iam para a cidade – e às vezes aos gaúchos do Quatorze em viagem para o Rio – só para ver o susto que levavam, pois eu me aproximava devagar do Portão, e de repente acelerava, e passava por baixo da cancela, não dando tempo do sentinela levantá-la. De dentro do carro, a impressão que se tinha era de que a cancela ia bater na sua testa.

A estória se espalhou, e em pouco tempo ninguém mais aceitava as minhas gentis ofertas de carona... Logo depois o Flávio Passos chegou também com um Puma, e os seguintes a comprar a viatura foram o Camargo, e depois o Conrado. Os dois últimos – Camargo e Conrado – moravam no Cassino da Base, mas eu e o Passos diariamente íamos e voltávamos de carro. E o caminho era pela recém-inaugurada estrada Rio-Santos, passando pela Barra da Tijuca, serra da Grota Funda, o retão no través de Sepetiba (onde hoje está o CTEx), até Santa Cruz.

O percurso era completamente ermo, na Barra não existia quase nada (apenas algumas construções logo no início, perto da Igreja) e raramente cruzávamos com alguém. Não precisa dizer que as idas e vindas para o trabalho aos poucos se transformaram em grandes “pegas”, e corridas contra o tempo para bater algum recorde...

Como as estradas estavam quase sempre vazias, os exageros e a loucuras nas ultrapassagens a toda velocidade começaram a ficar perigosos. Alguns acidentes ficaram no “quase”, e por conta disso, pouco a pouco fomos diminuindo o ritmo. Mas eu e o Passos tínhamos uma disputa interna do Segundo Esquadrão, uma rixa que sempre estava presente, principalmente quando um via o outro no retrovisor...

E aí não havia juízo nem razão que nos fizesse tirar o pé do acelerador antes de cruzar o portão da guarda – considerado a linha de chegada daquele “Grande Prêmio” que disputávamos quase que diariamente. E quem chegava na frente tinha o direito de sacanear o outro durante o dia todo, até o resultado da próxima corrida, no dia seguinte.

Insanidade total e completa de jovens que tinham a certeza de que a morte só existia para os outros! Bem, depois de alguns meses, resolvi trocar o meu carro por um Puma novo, e assim fui a S. Paulo num fim de semana, de onde voltei com uma viatura zero Km, com tudo o que tinha direito, estalando de bonita. 
 
A cor, um “discretíssimo” amarelo ovo brilhante. Naquele tempo, os carros novos vinham com uma recomendação de que o motor tinha que ser “amaciado” (acho que isso não existe mais hoje), o que queria dizer que você tinha que rodar alguns quilômetros poupando o motor, mantendo no máximo 80 Km/h. Na segunda feira, já na Barra, indo cedo para a Base e curtindo o carro novo, mantinha os 80 por hora cumprindo a recomendação de amaciamento.

Distraído e ouvindo uma fita K-7 no toca-fitas TKR (era o máximo em som de automóvel...), nem me lembrava do Grande Prêmio diário. De repente, sem que eu desse conta, levei uma fechada do Passos, que veio por trás sem que eu percebesse, e passou tão perto que, se o carro tivesse levado mais uma mão de tinta, teria batido! Devia estar a uns 130 km por hora ou mais.

Refeito do susto – que me fez botar adrenalina pelo ouvido – minha intenção foi sentar o pau atrás dele e devolver o trancPistola Colt .45o. Mas resolvi me segurar e deixei rolar, mas disse para mim mesmo: “Guenta malandro, que tem volta...” Durante o expediente naquele dia, o Passos não deu trégua: me sacaneou o que pode, e ameaçava, dizendo que se me encontrasse pela frente na volta, ia passar por cima. Eu me fazendo de vítima, dizia que não tinha outra opção, o motor estava amaciando, etc., que eu só voltaria a disputaras corridas na semana seguinte.

Nesta tarde, quando acabou o expediente, fiz questão de tomar um banho rápido e me mandar um pouco antes do bandão, para que a ultrapassagem do Passos só pudesse acontecer lá pelos lados da Grota Funda ou Barra. Fui pilotando o Puma a 80 por hora, mas agora com o olho grudado no retrovisor e com a pistola Colt .45 engatilhada em cima do banco do carona. 
 
Não deu outra: eu descia a grota Funda quando o Puma do Passos apareceu e colou na minha traseira. Ele fez exatamente o que eu esperava que fizesse: ficar atrás buzinando e tentando “empurrar” meu carro para fora da estrada. Quando acabou a serra e chegamos na área plana, o Passos abriu para ultrapassar.

Foi então que coloquei a Colt para fora da janela e comecei a atirar. Duas ameixas .45 pipocaram no asfalto, um metro adiante do nariz do Puma. Imediatamente o Passos voltou para a posição anterior, agora um pouco mais afastado... De vez em quando ele abria para tentar ultrapassar, e eu novamente abria fogo.

Fomos assim até encontrar civilização novamente, já no início da Barra, e ele respeitosamente, mantendo a posição de “cobrinha afastada”. Só me ultrapassou, mesmo assim “devagarinho” e muito cabreiro, após ser autorizado por mim quase em S. Conrado. Nesse dia ele ficou sabendo que o meu Puma novo tinha vindo de fábrica equipado com armamento para tiro lateral... Outros tempos, outras cabeças. Por sorte, sobrevivemos para contar...

  

  Nota: Antes que eu esqueça: o ovo da receita do Duprat é sensacional...

Reinaldo Peixe Lima – Cel. Av. R1
Piloto de Caça - Turma de 1969


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