4pilotos

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Fascículo no 67)




Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(67-1) Maj.Av. Berthier Figueiredo Prates
(67-2) O dia em que um soldadinho foi a Buenos Aires
(67-3) Um Gloster operando em pista de grama? 

  

  

 MAJOR AVIADOR BERTHIER FIGUEIREDO PRATES
(Estória 67-1)

 

 Nem “O Belo” nem “O Sol’’, como alguns o chamam; apenas um major, uma grande figura humana. Estamos em fins de 1956, e eu, cadete do último ano na Escola de Aeronáutica, Campo dos Afonsos, em conversa de final de curso com meu instrutor de voo no Estágio Avançado, Tenente Cipriano (1) , quando tomei conhecimento de sua existência. Em tom informal, procurava orientar-me no que imaginava ele, eu deveria encontrar no 1o/4o G.Av. em Fortaleza.

Indicado como estagiário para o Curso de Aviação de Caça, iria voar a máquina que à época separava os meninos dos homens, o F-47 Thunderbolt. Foram várias as recomendações, ainda me lembro: – “Nos voos de formatura, se for dito para voar mais perto ou mais longe, não discuta, ande sempre bem uniformizado, estará sendo observado”. “Nunca se atrase, preste atenção aos briefings...” E por aí foi, me preparando. Descreveu brevemente como seria a instrução, os instrutores, e algumas observações do comandante.

Um pouco vaidoso, bom piloto, no momento nos USA fazendo um curso de instrumentos em aeronaves a jato (novidade à época). Reconhecido por suas qualidades de liderança, dizem que é “mascarado”... Falou mais e mais, parecia conhecer tudo e a todos. Finalmente encerrou com o refrão “faça o que digo, você vai se dar bem’’! Essa dica proveitosa despertou minha curiosidade e comecei a imaginar como seria o cara. Alto, forte, tipo John Wayne, como seria? E com esses pensamentos na cabeça embarquei na madrugada de um dia de janeiro de 1957, num C- 47 do CAN, na Ponta do Calabouço.
Major Berthier
O transporte dos aspirantes para FZ era aos poucos, de acordo com a disponibilidade apresentada pelo COMTA à Diretoria do Pessoal que providenciava o embarque. Na bagagem, uniformes, uma pistola .45, presente de meu tio e o livro "Voo noturno", de Exupéry. Era o único passageiro militar a bordo e a aeronave, sem atrasos, cumprindo as escalas VT, SV, RF, e NT pousou finalmente, ao pôr do sol, em Fortaleza. Ao desembarcar, apenas o Oficial de Operações, Tenente Wellington Carvalho(2) estava presente.

No pátio do estacionamento, impecavelmente alinhados, imponentes e a meu ver, até um pouco ameaçadores, os F-47. Como que dizendo, vais ter que nos domar! Sabedor de minha intenção de ver de perto aquela maravilhosa linha de aviões o Oficial de Operações cortou-me o barato dizendo “vai ter muito tempo” e despachou-me para o alojamento na Base Aérea, onde encontrei alguns colegas de turma chegados anteriormente. Entre perguntas e curiosidades trocadas, o carro chefe – e o nosso comandante? – tinha como resposta “está nos States”!

Dos instrutores conhecíamos somente um, o Oficial de Operações, Cap. João Luiz Moreira da Fonseca, piloto de caça, líder da Esquadrilha da Fumaça, nosso antigo chefe do Estágio Avançado e uma figura muito admirada entre os cadetes. Tudo era novidade, o tempo passando, nós vinculados à Base Aérea e sempre a pergunta, cadê o Comandante? Finalmente numa manhã chuvosa, ao chegar ao rancho para o café, soube da nova: ‘‘O cara chegou e está aí”. E aí eu o vi. Era o Humphrey Bogart em “Casablanca” inclusive com a mesma capa de chuva, evidentemente fora do uniforme.

Estatura mediana, moreno, muito bem fardado, sorridente, simpático, boa pinta. Aparentemente um cara normal. Passou o receio, a preocupação e a curiosidade. A chegada do chefe foi o início de nossas atividades no Esquadrão. A fera era de carne e osso; mais tarde eu iria conhecer o conteúdo. Em julho daquele ano, o curso em sua metade, já deveríamos estar promovidos a segundo tenente. Meu casamento estava marcado para o dia 27 e sendo ainda aspirante estava com um problema sério. Era indispensável aquela promoção e esta não saía e ninguém dizia quando ou se aconteceria.

A razão, soubemos depois, é que um colega, em determinado vôo declarou emergência informando que estava cego. Foi uma confusão danada, acarretando a decolagem de um F-47 para escoltar o cavalheiro de volta à Base onde pousou sem maiores problemas. Em consequência foi desligado do curso, afastado do esquadrão e pelo conceito negativo não seria promovido. Acontece que era aparentado de uma autoridade, e sua não promoção segurou a de todos, impedindo a nossa que deveria ser seis meses após o aspirantado. É o que consta!

Nessa altura dividia os aposentos no Cassino dos Oficiais com um instrutor, Ten. Tarso(3) , meu chefe na seção de equipamento de voo. Naquele tempo, falar para o Rio era uma gincana e o imprescindível contato para dar ciência do que estava havendo não ocorria. Telefone Western na Praça do Ferreira nem pensar! Horas e horas de espera, caro e não se ouvia nada! Os troncos sempre caíam e a ligação ruim ficava pior, pois não completava. Nova tentativa amanhã... Visivelmente angustiado, longe, sem condições e com tudo agendado, igreja, proclamas, padre, convites etc, nada da promoção e o dia 27 chegando.

Resolvi então apresentar o problema ao companheiro de quarto, Ten. Tarso, na busca de uma orientação. Ouviu atentamente e percebendo minha agonia, deu sua opinião: “Somente uma pessoa no mundo pode resolver teu problema, fala com o Major”.

A princípio achei a ideia um absurdo, quase uma loucura, mas era uma tentativa, embora esquisita, a única aparentemente possível. Eu já conhecia o Major. Havia sido seu ala em dois voos, um de elemento e outro de 4 aviões e percebi que voar na ala dele era diferente. Ensinava, gostava de uma firula, muito calmo, normalmente terminava o voo com uma vitrine em cima da pista. Voar com ele era aprender e no "debriefing", paciente e tolerante, sem nenhum afetamento, completava com perfeição aquilo que nos havia mostrado em voo. Sabia o que fazia, o bicho era muito bom!

Queiramos ou não, todos os que o conheceram tivemos ou pretendíamos ter incorporado alguns de seus atributos. Comecei então o preparo para a difícil missão de levar o problema ao meu comandante. Bem fardado, roupa do Euclides, sapato Clark, decidi que aguardaria uma oportunidade em que ele estivesse sozinho em seu gabinete. Essa foi a estratégia. Finalmente, numa tarde, a oportunidade surgiu – ele sozinho e como sempre impecavelmente vestido. E eu iria desafiar a fera, um salto de paraquedas no escuro. Parado na porta de entrada do Comando do 1o/4o apresentei-me:

–”Major, com licença”.

O homem escrevendo estava, escrevendo ficou, nem me olhou! Após alguns instantes para recarregar minha bateria, segunda tentativa, também não deu em nada! Terceira e possivelmente última tentativa antes de uma fuga desastrada, dessa vez com voz mais alta e um pigarro de garganta

– “Major, com licença”!Parando seu trabalho, olhou-me nos olhos e disse:
Berthier e o Gloster F-8
– “Prossiga aspirante....

”E passei a contar toda a longa história, para mim, um problemão.

– “Você sabe que é passível de punição, que está me propondo uma transgressão do regulamento, que você é aspirante, não pode casar, etc, etc, etc...”

E eu ouvindo aquilo tudo, o que fazer? Ante a minha insistência e meus argumentos, ele perguntou se eu tinha casa, carro, móveis etc. Respondi, com a voz baixa, tenho uma moto, e ele:

– “Ah! Então você é um desses malucos que faz corrida na pista à noite, quebrando lâmpadas do balizamento?”

O homem sabia de tudo, eu realmente estava numa enrascada. Após um silêncio interminável de alguns segundos aconteceu o incrível e de uma só vez, muito calmo e seguro, falou:

– “Vou te dar uma semana de dispensa. Você desce num Beechcraft C-45 que está subindo. O piloto é da minha turma, ofereceu uma vaga, você vai com ele para o Rio. Vou falar com o prefeito para ‘preparar’ uma casa no Cocorote. Escala um colega teu para acompanhar os serviços e procura na cidade fulano, é um turco amigo meu, ele aluga móveis. Conversa com ele.”

E, prosseguindo:

– “Como pretende voltar?”

Respondi, vou abrir um credi Panair.

Diz ele:– “Negativo, vai na Aerovias Brasil, procura cicrano, ele vai fazer um preço camarada para você e a Sra. e, muito importante mesmo, no regresso, em cada pouso, passe um rádio dando tua estimada de chegada para que o Operações planeje tua escala de vôo.....’’

Ainda sem acreditar no ocorrido saí correndo para contar ao Tarso que a missão impossível fora realizada. Com êxito!

Cheguei à noitinha em FZ, C-46 da Aerovias Brasil, ainda de uniforme cáqui, platinas de 2o tenente no ombro e casado. Como não podia fazê-lo como aspirante resolvi o problema na Randall.(4) No aeroporto, presentes o Oficial de Operações, Ten. José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, instrutor de voo e ele, o Major com a esposa D. Eugênia, a qual ofereceu a minha mulher um buquê de flores. Após os cumprimentos e felicitações nos despedimos. Mal havia dado uns passos em direção à mansão ali perto, no Cocorote, quando ele, gentil e reservadamente, chamou-me e disse baixinho:

– “Tira essa m... do ombro que você ainda é aspirante!”

Naquela emoção da chegada eu havia esquecido de trocar as platinas! Esta foi uma faceta do perfil do Maj. Berthier.

Ainda conheço outros eventos com ele que merecem e serão registrados para conhecimento das novas gerações. Infelizmente em agosto de 1964 nos deixou prematuramente. Como Tenente Coronel e Comandante do Grupo de Caça faleceu em uma aeronave Gloster Meteor, F-8 4453. Era num voo de experiência onde por sua própria iniciativa envolvesse num combate simulado com uma esquadrilha. Possivelmente tentando evasivas entrou em uma nuvem, não reverteu ou o fez tardiamente colidindo com uma elevação.

Ficam as lembranças, os ensinamentos e o exemplo de sua correção. E mais que tudo, num jovem tenente, no início de carreira, o despertar daquela magia de transformar coisas difíceis e impossíveis em fáceis e possíveis. Em razão dessa liderança carismática é que pilotos de caça daquela geração foram e são um pouco de Berthier.



Um ADELPHI pra ele!

Museu da TAM Gloster F-8

Obs: Existe hoje, no Museu da TAM “Asas de um Sonho”, uma aeronave Gloster Meteor, F-8, com o nome Ten. Cel. BERTHIER pintado na fuselagem.

  

Ajax Augusto Mendes Corrêa – Cel. Ref.
Piloto de Caça - Turma de 1957

NOTAS:
1 -Tenente Aviador Cypriano Elcyo Antunes da Penha Nunes da Silva, Aspirante de 1951, instrutor de vôo na Escola de Aeronáutica, falecido em acidente com a Esquadrilha da Fumaça, em Salvador, Bahia , em dezembro de 1956.
2 -Tenente Aviador Paulo de Tarso Albuquerque Araújo, aspirante de 1952, instrutor no 1o/4o G.Av.
3 -Ten Wellington de Carvalho, aspirante de 1953, instrutor no 11o/41o G.Av.
4 - Randall - loja em RJ especializada em artigos militares.


  

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(67-1) Maj.Av. Berthier Figueiredo Prates
(67-2) O dia em que um soldadinho foi a Buenos Aires
(67-3) Um Gloster operando em pista de grama?

 

  O DIA EM QUE UM SOLDADINHO FOI A BUENOS AIRES
(Estória 67-2)

 

1980.
Brigadeiro Délio, Ministro da Aeronáutica.
Ele decidiu.
Nós tínhamos que nos conhecer.
Sul-americanos.
O 1o Gp.Av.Ca. (Fleury) iria ao Chile.
O 1o/14o G.Av. (Trompowsky) à Argentina.
O 1o/4o G.Av. (Salazar) à Venezuela.
O 1o GDA (Blower) à Colômbia.

 

Caçador, imagine o “puta merda”!
Mas não foi tanto. As regras, muito simples.
06 aviões, apoiados por 01 C-95, Bandeirante Cargueiro.
Número máximo de pessoal de apoio: 09.

 

A aritmética era simples: disponibilidade do Bandeirante, menos 09 mecânicos e o que sobrava: material de apoio (ferramental, pneus, óleos, etc).
Alguma dúvida?
Eu imagino que nenhuma.

 

Mas teve um problema: eu resolvi levar um soldadinho!
Agora a conta não fechava.
Ao invés de 09 sargentos, eram 08 e 01 soldadinho.

 

Gromori (Chefe do Material), Morosini (Informações), Peres (Aux. do Material), Burnier (Aux. de Operações) vêm a minha sala.
– “Coronel, está dando 'luz e calor' essa sua decisão de levar um soldadinho”.
Escuto.
Trocamos 'figurinhas'.
Decido.
– “Reúna todos os mecânicos na Sala da Manutenção”.

 

A Sala de Reuniões da Manutenção era na ala frontal às salas operacionais dos pilotos (Operações, Ajudância, Informações, Sala de briefing, etc).
Eu subo as escadas.

 

Essas escadas, esse hangar, Marion viu construir.
1947-1948. Brigadeiro Marion.
Esse piloto tem estória.
Ninguém voou mais o P-40 do que ele.
Ninguém se apaixonou mais pelo P-40 do que ele!
Ele foi um dos pilotos selecionados para ir à Inglaterra voar o "Gloster Meteor".
1952.
O 1o caça a reação de nossa Força, a primeira aeronave a jato a voar na América do Sul.
Eu tenho muito respeito por ele.
Eu estava na Base Aérea de Santa Cruz com o 1o/14o G.Av, quando ele fez seu último voo.
1980.
Ele, um Oficial General, voando um caça supersônico.
F-5E.
Quando pousou, a TWR SC (Primave) fez menção a esse fato!

 

Auditório lotado.
Do melhor que existe em nossa Força.
A manutenção do “catorze”! Eu voei com eles o F-8 "Gloster Meteor", o T-33 "Shooting Star" e os comandava agora, no "Tiger" F-5E!
O que eu desejo transmitir é que nós nos conhecíamos!
Nesses quase 02 anos de comando, eu “tirei o couro deles”.
Marchas (inclusive uma noturna, desdobrado em barracas em Itajaí- SC), fizemos o Estande de Emprego Terrestre de São Jerônimo (Butiá) tornar-se operacional para emprego noturno (TT, BP, BR e foguetes).

 

Brigadeiro Carrão (Cmt. do COMGAR), quando me encontrava, perguntava:
– “Como é que vão os ‘corujinhas’?”
Bacana.
As viagens eram à noite.
Os REVOS, à noite.
– “O que você fizer de noite, de dia é mais fácil!”

 

Eu sabia perfeitamente o porquê da “luz e calor”.
Eles raramente vão ao exterior.
Cinco, dez, quinze anos, aparece uma oportunidade.
E esse “filho da mãe” tira um de nós e coloca um soldadinho!

 

Para esse tipo de gente, que acorda de madrugada, fria, úmida, para apoiar o “voo do picolé” (07:00h), para esse tipo de gente, que aguarda a última Esquadrilha pousar (23:00h/23:30h), você só ganha se falar a verdade.
Vaselina, escorregadio, enrolador, perde!

 

– “No meio da noite, quando eu estaciono a minha aeronave, corto o motor e abro o meu canopy, eu vejo duas pessoas".
Eu não identifico seus rostos.
Vocês o cobrem com cachecóis, mantas.
Eu começo a sentir frio.
Antes, eu tinha 25ºC na minha cabine.
Agora eu tenho 2oC/0oC.
O soldadinho que eu quero levar é aquele que sente frio com vocês!”.

 

Escolheram o soldadinho.
Que eu nunca soube quem era.
Ele mesmo se apresentou. No meio do Hangar.
_ “Cel, eu mandei recortar minha farda. Vai ficar muito bonita”.
O meu soldadinho era caprichoso.
E eu o vi pela primeira vez. Alemão.
Um alemão já meio moreno.
Miscigenação natural, ali no Vale dos Sinos, São Leopoldo, Novo Hamburgo.
Bonito. O soldadinho do catorze era bonito.
Buenos Aires? Européia, sofisticada, linda!

 

Deslocamento? Beleza! (Atrasamos 20 min. Uma aeronave deu pane na partida...)
Chegada?
Dez! (Base Aérea nº 1) – Mirages. Defesa Aérea. Distante.
A Santa Cruz dos Argentinos.
Recebidos com carinho. Abraços fortes. Nos sentimos em casa!

 

Manhã seguinte sou levado ao imponente prédio da Força Aérea. Para apresentar-me ao Comandante da Força Aérea Argentina.
Rapidamente, sou levado ao seu gabinete.
Me recebe gentilmente. Me pergunta:
_ “Como é que lhe estão tratando, você e seu Esquadrão?”
Eu não esperava essa pergunta. Respondi sem pensar:
_ “Argentina 1 X 0, Brigadeiro. Vai ser difícil virar esse jogo no 2º tempo”.
Ele sorriu.
Era um amigo do Brasil.

 

Amigo do Brigadeiro Délio.
Talvez ele não soubesse.
Talvez!

 

Um ano antes, eu e Gromori interceptamos seu Fokker F-28 a 40.000 pés, após o bloqueio de Bagé.
Nós a 38.000 pés, e ele a 40.000.
Logicamente, em instrumentos!
Uns “cumulus” enormes, negros.

 

Você que está lendo, com certeza ficaria em uma ÓRBITA perpendicular ao deslocamento do Fokker.
Nós ficamos...
De repente, uma trilha de condensação.
Curva de 90º, contato
Radar, Visual.
– “Fantasma às 12:00h”.
Caçador, não havia cobertura radar naquela época, lá no Sul!
Entramos na ala.
Com ele na cabine, transmiti a mensagem de boas vindas (o Gabinete enviou um texto de nosso Ministro).
Quando retornamos para Canoas, o GCA nos trouxe para o pouso, nos mínimos.
Um sufoco!

 

– “Eles farão um voo de helicóptero pela área da grande Buenos Aires?”
– “Não está previsto, Brigadeiro!”
– “Liga para o Exército, solicita um helicóptero para um vôo panorâmico” (mandaram um CH-47 – Chinook – Salsichão).
Todo mundo foi.
Inclusive meu soldadinho.
Um belo passeio.
A lembrança (de) que eu mais gosto daquela viagem não é alegre.
Mas eu gosto assim mesmo.
É de um moço.
Um capitão aviador.
Um piloto de caça.
Ele veio me buscar, na primeira manhã.
Ele dirigia a viatura.
Bonita.
Alugada, talvez.
Cumprimentou-me.
Sentei-me ao seu lado.
Ele seria meu acompanhante durante toda aquela semana.
Educado.
Logo na saída do estacionamento do Hotel, eu vi.
Ele tinha uma metralhadora apoiada sobre suas pernas.
Ele viu que eu vi!
A Argentina vivia uma guerra civil.
E eu ali! Perguntei a ele:
– “Tem alguma arma que eu possa usar?”
E ele:
– “Coronel, aí no porta luvas tem uma 45!”
Dois anos depois, “Guerra das Malvinas”.
Eu já li bastante sobre ela.
O que eu penso?
Os pilotos argentinos foram dez!
Eu gostaria de ser um deles!

 

Nós temos uma reunião no Rio de Janeiro bimensal, dos Pampas.
Pilotos que voaram no Catorze.
Brig. Marion.
Sempre ele!
Encontro Peres (Brigadeiro Peres).
– “Coronel, lembra-se daquele Capitão que foi seu ‘Ajudante de Ordens’ na Argentina?”
– “Lembro.”
– “Ele foi abatido, com seu Mirage, pela Antiaérea Argentina nas Ilhas Malvinas.
Fogo amigo.
Ele estava em um "Dog Fight", a baixa altura, encaudando um "Harrier", e atiraram nele.”
Uma merda, não é?

 

No meio daquela semana, o Comandante do Esquadrão de Mirages (iria ser Adido Aeronáutico na Itália), me pergunta:
– “Trompowsky, vamos fazer um voo, um grupão, Mirages e F-5 juntos, um voo de demonstração?”
É gostoso, não é?
A meteoro estava dez.
Azul.
E eu disse (quem me conhece sabe como foi difícil dizer):
– “Vamos não!”
– "Vamos pro baile, dançar!”

 

Fleury aceitou o convite do Comandante do Esquadrão Chileno.

 

Eles nos receberam principescamente.
O termo é esse.
No sábado, nos levaram ao “Delta do Prata”.
Residências majestosas, cinematográficas, de uma Argentina dos anos 20, poderosa, rica.
Nós fomos transportados por uma embarcação da Marinha Argentina, moderna, rápida.
Na proa, guarnecendo uma baita metralhadora 50mm, montada em um tripé, um jovem marinheiro, olhar atento para as margens do Delta...
E nós ali, inclusive meu soldadinho!
Nos levaram a um restaurante enorme.
– “Uma parrillada.”
Muita gente.
Música.
Danças.
Vou ao banheiro.
Era um baile muito animado.
Enquanto caminho, vejo meu soldadinho dançando.
“Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço”.
Uma ova!
Meu soldadinho estava “encaixado” nas coxas de uma mocinha portenha.
Linda!
Quando retornei, cruzei com ele.
Abriu os olhos, me viu e disse:
– “Cel, está bom demais!”
Eu ainda fiz um comentário:
– “Eu imagino!”

 

Vale um “A la chasse”, não vale?
Ainda não!
Eu ainda vou comprar uma briga.
O bom combate!
O “catorze”, o 1o/14o G.Av, o Esquadrão Pampa, o Esquadrão do Brigadeiro Marion, foi a 2a Unidade Aérea de Caça Brasileira, a levar um soldadinho ao exterior.

 

O 1o Gp.Av.Ca, com Nero Moura, em 1944, foi a primeira.

 

O 1o/14o G.Av, com Trompowsky, em 1980, foi a segunda.
Que se apresentem “os peleadores”.
Senão, que se calem para sempre!!
– “Ficou bonito, não ficou?”
Agora vale!

 

A La Chasse
  
  
   
Ivan Von Trompowsky Douat Taulois Cel. Ref.
Piloto de Caça - Turma de 1959
 

 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(67-1) Maj.Av. Berthier Figueiredo Prates
(67-2) O dia em que um soldadinho foi a Buenos Aires
(67-3) Um Gloster operando em pista de grama?

 

 GLOSTER OPERANDO EM PISTA DE GRAMA?
(Estória 67-3)

 

Como já comentei em relatos anteriores, o ano de 1966 foi marcado por dois acontecimentos significativos no 1o/14o G.Av, em sua histórica existência. Na semana festiva do 1o GAC, na Base Aérea de Santa Cruz, o Quatorze sagrou-se campeão do 1o Torneio de Aviação de Caça e, no segundo semestre, teve que conviver com o trágico processo da desativação dos seus instrumentos de trabalho, os Gloster Meteor F-8.

A despeito da pouca idade desses aviões, que na época ultrapassavam a marca de doze anos de continuado emprego operacional, eles passaram a ter sua estrutura colocada sob suspeita, num processo que veio a resultar na paralisação definitiva de toda a frota. No período em que eles eram submetidos a inspeções pelos técnicos do Parque de Material Aeronáutico de São Paulo e, simultaneamente, medidas para tentar sustar a progressão das rachaduras constatadas nos pontos de fixação das asas eram introduzidas, o Esquadrão passou a contar com apenas um avião que permanecia dentro dos padrões de segurança estabelecidos.

Ele era um Gloster Meteor TF-7 que, por ser um biplace, era empregado, principalmente, na adaptação de novos pilotos na nascente era do jato na FAB e na instrução do voo por instrumentos. Sem sofrer as elevadas carga “G” que caracterizavam as missões operacionais de emprego na Aviação de Caça, ele não tivera sua estrutura penalizada como acontecera com os F-8. Tratava-se, especificamente, do TF-7 4304 que, naquele período sombrio em termos de atividades aéreas, se tornou protagonista de um fato curioso.
Gloster TF-7
No dia 20 de junho, como vinha acontecendo diariamente, o 4304 foi escalado em uma missão de voo por instrumentos que tinha o Tenente Ivan Von Trompowsky Douat Taulois ocupando a nacele traseira e o Tenente Othmard Luyet na dianteira, desempenhando a função de instrutor. As condições atmosféricas apresentavam uma cobertura geral na região de Porto Alegre e arredores. O aeródromo de Gravataí operava por instrumentos, mas isso não preocupava os pilotos que eram antigos e experientes.

Naquele ano, o Esquadrão não havia recebido novos oficiais, devido à precariedade dos meios aéreos. A missão transcorria normalmente e no decorrer da instrução estava prevista a realização de procedimento de descida em Gravataí, o conhecido GRAVAJATO. Depois de concluídos os exercícios estabelecidos para a missão e já na execução do procedimento GRAVAJATO, os pilotos foram surpreendidos com o aviso da Torre de Controle de que o aeródromo havia fechado para operações por instrumentos.

Diante dessa situação inesperada, eles imediatamente fizeram contato com o Controle de Aproximação de Porto Alegre, informando sobre a necessidade de pousar naquele aeródromo. A resposta os deixou sobressaltados. O aeródromo de Porto Alegre também estava fechado! A tensão a bordo, estabelecida pelo duplo susto, só foi amenizada com a oportuna e proverbial tranquilidade do Luyet, assim expressa:

– “Eh! Eh! Trompowsky. Estamos enrascados!”

O Controle PA sugeriu ainda que alternassem em Florianópolis, mas para tanto a autonomia era insuficiente. Nesse ínterim, entrou no diálogo-rádio um VARIG que escutava o drama aflitivo dos dois caçadores.

– “Ôh FAB, sugiro que se dirijam para o litoral já que Tramandaí está aberto. Acabei de passar por lá!”

Sem pestanejar, mesmo porque não havia nenhuma outra alternativa, eles tomaram o rumo sugerido, calculando se o combustível disponível seria suficiente para atingir o objetivo. No solo, através do posto-rádio do Esquadrão, nós acompanhávamos com expectativa o desenrolar daquele pesadelo até que se verificou a perda de contato entre eles e o Controle PA, consequência do afastamento do 4304 da área. Enquanto era tentado, por todos os meios, restabelecer um contato para superar a interminável agonia da incerteza, eis que um telefonema da Sala de Tráfego da Base informava ter recebido a notícia de que o TF-7 havia pousado no aeródromo de Tramandaí.

O Comandante do Esquadrão, Major Ernani Ferraz D’Almeida, tão logo teve a confirmação de que a tripulação se encontrava ilesa e o TF-7 intacto, incumbiu-me das providências para buscar a equipagem e a aeronave. O dia seguinte amanheceu límpido, permitindo a ativação de uma operação de resgate, logo cedo, com toda a equipe de manutenção e acessórios instalados a bordo do C-47 2033, pilotado pelo próprio Major Ernani e, eu, seu Oficial de Operações, com todo o meu equipamento de voo necessário para o traslado do TF-7.

De véspera, tentei preparar um planejamento para a decolagem a partir de uma pista gramada. Porém, por mais que vasculhasse a biblioteca técnica não encontrei nenhum registro sobre os parâmetros a serem adotados em tal caso. Quando chegamos a Tramandaí, rapidamente a equipe de manutenção iniciou a preparação do avião, de maneira que a decolagem fosse feita com toda segurança possível.

Em primeiro lugar, para aliviar o peso do 4304, foram retirados o tanque ventral e o paraquedas do segundo posto. Em seguida, foi realizado o reabastecimento com o mínimo de querosene (JP-1) que havia sido transportado em tonéis no C-47. Concluídas as verificações dos itens do pré-voo, tomei assento no TF- 7, dei a partida e, com o máximo de cuidado, taxiei para a cabeceira da pista. O aeródromo, na realidade, era constituído por um gramado natural, típico da região plana do litoral gaúcho, delimitado por marcos de madeira, formando uma pista de aproximadamente mil metros, usada por aviões leves e táxis aéreos.

Atualmente, uma parte do local foi transformada em campo de futebol e o restante destinado a um pequeno loteamento habitacional. À vista disso, o pouso do Luyet com o TF-7, naquele limitado cenário, só podia ser considerado um feito de mestre, dotado de admirável habilidade. Agora, cabia a mim a responsabilidade de retirá-lo intacto como ele ali foi posto.

Com o avião alinhado e sem perda de tempo, depois dos cheques finais, avancei as duas manetes suavemente, com os freios livres para acelerar seu deslocamento. À medida que a velocidade se aproximava do ponto de rotação, puxei o manche e, rapidamente, soergui o nariz da aeronave para evitar a ingestão de detritos pelas turbinas. Para minha surpresa a nova configuração dada ao TF-7 favoreceu em muito o seu desempenho. Superando a expectativa, ele alçou voo bem antes do esperado e provocando em mim a seguinte reflexão:

– “Não é para menos, porquanto aviões de caça habitualmente decolam com os tanques cheios e pesados. Hoje, decolo pela primeira vez quase vazio. Realmente a diferença é surpreendente!”

Através do local onde a equipe de manutenção se encontrava, pude ver seus integrantes saltando de alegria ao observar que a aeronave ganhava altura. Aproveitei o embalo adquirido para, em curva pela esquerda, continuar subindo e aproar o rumo oeste em direção à Base Aérea. Com quinze minutos de voo, novamente, me encontrei em casa.

Após ter estacionado o 4304 defronte ao hangar do Esquadrão, desliguei todos os seus interruptores. Durante o desembarque, constatei que a aeronave havia ficado mais alta, dificultando a minha descida pelos degraus embutidos na fuselagem. A meio caminho para o Quatorze, impulsionado por um capricho de curiosidade, volvi o olhar para o TF-7, observando-o mais atentamente.

O meu velho e bom amigo biplace me dava a impressão, agora, que havia passado realmente por uma metamorfose. O aspecto pesadão e atarracado que sempre tivera dava lugar a uma silhueta fina e esbelta, livre que estava do tanque ventral. A redução do peso fizera com que ele se elevasse, sob ação dos amortecedores distendidos, posicionando-se de forma altiva, como uma vespa prestes a dar o bote. Sua postura expressava o desejo de dizer:

– “Cumpri com minha missão. Estou pronto para a próxima!” 

  

Ronald Eduardo Jaeckel – Ten. Brig. R1.
Piloto de Caça - Turma de 1957


 Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(67-1) Maj.Av. Berthier Figueiredo Prates
(67-2) O dia em que um soldadinho foi a Buenos Aires
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