Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Fascículo no 68)






Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(68-1) O dia em que um soldadinho foi a Buenos Aires
(68-2) Quem lançou ?

  

 

 O DIA EM QUE UM SOLDADINHO FOI A BUENOS AIRES
(Estória 68-1)
(texto repetido por ter saido com incorreção no ABRA-PC Notícias no 73 - impresso)
  
  

 

1980.
Brigadeiro Délio, Ministro da Aeronáutica.
Ele decidiu.
Nós tínhamos que nos conhecer.
Sul-americanos.
O 1o Gp.Av.Ca. (Fleury) iria ao Chile.
O 1o/14o G.Av. (Trompowsky) à Argentina.
O 1o/4o G.Av. (Salazar) à Venezuela.
O 1o GDA (Blower) à Colômbia.

 

Caçador, imagine o “puta merda”!
Mas não foi tanto. As regras, muito simples.
06 aviões, apoiados por 01 C-95, Bandeirante Cargueiro.
Número máximo de pessoal de apoio: 09.

 

A aritmética era simples: disponibilidade do Bandeirante, menos 09 mecânicos e o que sobrava: material de apoio (ferramental, pneus, óleos, etc).
Alguma dúvida?
Eu imagino que nenhuma.

 

Mas teve um problema: eu resolvi levar um soldadinho!
Agora a conta não fechava.
Ao invés de 09 sargentos, eram 08 e 01 soldadinho.

 

Gromori (Chefe do Material), Morosini (Informações), Peres (Aux. do Material), Burnier (Aux. de Operações) vêm a minha sala.
– “Coronel, está dando 'luz e calor' essa sua decisão de levar um soldadinho”.
Escuto.
Trocamos 'figurinhas'.
Decido.
– “Reúna todos os mecânicos na Sala da Manutenção”.

 

A Sala de Reuniões da Manutenção era na ala frontal às salas operacionais dos pilotos (Operações, Ajudância, Informações, Sala de briefing, etc).
Eu subo as escadas.

 

Essas escadas, esse hangar, Marion viu construir.
1947-1948. Brigadeiro Marion.
Esse piloto tem estória.
Ninguém voou mais o P-40 do que ele.
Ninguém se apaixonou mais pelo P-40 do que ele!
Ele foi um dos pilotos selecionados para ir à Inglaterra voar o "Gloster Meteor".
1952.
O 1o caça a reação de nossa Força, a primeira aeronave a jato a voar na América do Sul.
Eu tenho muito respeito por ele.
Eu estava na Base Aérea de Santa Cruz com o 1o/14o G.Av, quando ele fez seu último voo.
1980.
Ele, um Oficial General, voando um caça supersônico.
F-5E.
Quando pousou, a TWR SC (Primave) fez menção a esse fato!

 

Auditório lotado.
Do melhor que existe em nossa Força.
A manutenção do “catorze”! Eu voei com eles o F-8 "Gloster Meteor", o T-33 "Shooting Star" e os comandava agora, no "Tiger" F-5E!
O que eu desejo transmitir é que nós nos conhecíamos!
Nesses quase 02 anos de comando, eu “tirei o couro deles”.
Marchas (inclusive uma noturna, desdobrado em barracas em Itajaí- SC), fizemos o Estande de Emprego Terrestre de São Jerônimo (Butiá) tornar-se operacional para emprego noturno (TT, BP, BR e foguetes).

 

Brigadeiro Carrão (Cmt. do COMGAR), quando me encontrava, perguntava:
– “Como é que vão os ‘corujinhas’?”
Bacana.
As viagens eram à noite.
Os REVOS, à noite.
– “O que você fizer de noite, de dia é mais fácil!”

 

Eu sabia perfeitamente o porquê da “luz e calor”.
Eles raramente vão ao exterior.
Cinco, dez, quinze anos, aparece uma oportunidade.
E esse “filho da mãe” tira um de nós e coloca um soldadinho!

 

Para esse tipo de gente, que acorda de madrugada, fria, úmida, para apoiar o “voo do picolé” (07:00h), para esse tipo de gente, que aguarda a última Esquadrilha pousar (23:00h/23:30h), você só ganha se falar a verdade.
Vaselina, escorregadio, enrolador, perde!

 

– “No meio da noite, quando eu estaciono a minha aeronave, corto o motor e abro o meu canopy, eu vejo duas pessoas".
Eu não identifico seus rostos.
Vocês o cobrem com cachecóis, mantas.
Eu começo a sentir frio.
Antes, eu tinha 25ºC na minha cabine.
Agora eu tenho 2oC/0oC.
O soldadinho que eu quero levar é aquele que sente frio com vocês!”.

 

Escolheram o soldadinho.
Que eu nunca soube quem era.
Ele mesmo se apresentou. No meio do Hangar.
_ “Cel, eu mandei recortar minha farda. Vai ficar muito bonita”.
O meu soldadinho era caprichoso.
E eu o vi pela primeira vez. Alemão.
Um alemão já meio moreno.
Miscigenação natural, ali no Vale dos Sinos, São Leopoldo, Novo Hamburgo.
Bonito. O soldadinho do catorze era bonito.
Buenos Aires? Européia, sofisticada, linda!

 

Deslocamento? Beleza! (Atrasamos 20 min. Uma aeronave deu pane na partida...)
Chegada?
Dez! (Base Aérea no 1) – Mirages. Defesa Aérea. Distante.
A Santa Cruz dos Argentinos.
Recebidos com carinho. Abraços fortes. Nos sentimos em casa!

 

Manhã seguinte sou levado ao imponente prédio da Força Aérea. Para apresentar-me ao Comandante da Força Aérea Argentina.
Rapidamente, sou levado ao seu gabinete.
Me recebe gentilmente. Me pergunta:
_ “Como é que lhe estão tratando, você e seu Esquadrão?”
Eu não esperava essa pergunta. Respondi sem pensar:
_ “Argentina 1 X 0, Brigadeiro. Vai ser difícil virar esse jogo no 2o tempo”.
Ele sorriu.
Era um amigo do Brasil.

 

Amigo do Brigadeiro Délio.
Talvez ele não soubesse.
Talvez!

 

Um ano antes, eu e Gromori interceptamos seu Fokker F-28 a 40.000 pés, após o bloqueio de Bagé.
Nós a 38.000 pés, e ele a 40.000.
Logicamente, em instrumentos!
Uns “cumulus” enormes, negros.

 

Você que está lendo, com certeza ficaria em uma ÓRBITA perpendicular ao deslocamento do Fokker.
Nós ficamos...
De repente, uma trilha de condensação.
Curva de 90º, contato
Radar, Visual.
– “Fantasma às 12:00h”.
Caçador, não havia cobertura radar naquela época, lá no Sul!
Entramos na ala.
Com ele na cabine, transmiti a mensagem de boas vindas (o Gabinete enviou um texto de nosso Ministro).
Quando retornamos para Canoas, o GCA nos trouxe para o pouso, nos mínimos.
Um sufoco!

 

– “Eles farão um voo de helicóptero pela área da grande Buenos Aires?”
– “Não está previsto, Brigadeiro!”
– “Liga para o Exército, solicita um helicóptero para um vôo panorâmico” (mandaram um CH-47 – Chinook – Salsichão).
Todo mundo foi.
Inclusive meu soldadinho.
Um belo passeio.
A lembrança (de) que eu mais gosto daquela viagem não é alegre.
Mas eu gosto assim mesmo.
É de um moço.
Um capitão aviador.
Um piloto de caça.
Ele veio me buscar, na primeira manhã.
Ele dirigia a viatura.
Bonita.
Alugada, talvez.
Cumprimentou-me.
Sentei-me ao seu lado.
Ele seria meu acompanhante durante toda aquela semana.
Educado.
Logo na saída do estacionamento do Hotel, eu vi.
Ele tinha uma metralhadora apoiada sobre suas pernas.
Ele viu que eu vi!
A Argentina vivia uma guerra civil.
E eu ali! Perguntei a ele:
– “Tem alguma arma que eu possa usar?”
E ele:
– “Coronel, aí no porta luvas tem uma 45!”
Dois anos depois, “Guerra das Malvinas”.
Eu já li bastante sobre ela.
O que eu penso?
Os pilotos argentinos foram dez!
Eu gostaria de ser um deles!

 

Nós temos uma reunião no Rio de Janeiro bimensal, dos Pampas.
Pilotos que voaram no Catorze.
Brig. Marion.
Sempre ele!
Encontro Peres (Brigadeiro Peres).
– “Coronel, lembra-se daquele Capitão que foi seu ‘Ajudante de Ordens’ na Argentina?”
– “Lembro.”
– “Ele foi abatido, com seu Mirage, pela Antiaérea Argentina nas Ilhas Malvinas.
Fogo amigo.
Ele estava em um "Dog Fight", a baixa altura, encaudando um "Harrier", e atiraram nele.”
Uma merda, não é?

 

No meio daquela semana, o Comandante do Esquadrão de Mirages (iria ser Adido Aeronáutico na Itália), me pergunta:
– “Trompowsky, vamos fazer um voo, um grupão, Mirages e F-5 juntos, um voo de demonstração?”
É gostoso, não é?
A meteoro estava dez.
Azul.
E eu disse (quem me conhece sabe como foi difícil dizer):
– “Vamos não!”
– "Vamos pro baile, dançar!”

 

Fleury aceitou o convite do Comandante do Esquadrão Chileno.

 

Eles nos receberam principescamente.
O termo é esse.
No sábado, nos levaram ao “Delta do Prata”.
Residências majestosas, cinematográficas, de uma Argentina dos anos 20, poderosa, rica.
Nós fomos transportados por uma embarcação da Marinha Argentina, moderna, rápida.
Na proa, guarnecendo uma baita metralhadora 50mm, montada em um tripé, um jovem marinheiro, olhar atento para as margens do Delta...
E nós ali, inclusive meu soldadinho!
Nos levaram a um restaurante enorme.
– “Uma parrillada.”
Muita gente.
Música.
Danças.
Vou ao banheiro.
Era um baile muito animado.
Enquanto caminho, vejo meu soldadinho dançando.
“Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço”.
Uma ova!
Meu soldadinho estava “encaixado” nas coxas de uma mocinha portenha.
Linda!
Quando retornei, cruzei com ele.
Abriu os olhos, me viu e disse:
– “Cel, está bom demais!”
Eu ainda fiz um comentário:
– “Eu imagino!”

 

Vale um “A la chasse”, não vale?
Ainda não!
Eu ainda vou comprar uma briga.
O bom combate!
O “catorze”, o 1o/14o G.Av, o Esquadrão Pampa, o Esquadrão do Brigadeiro Marion, foi a 2a Unidade Aérea de Caça Brasileira, a levar um soldadinho ao exterior.

 

O 1o Gp.Av.Ca, com Nero Moura, em 1944, foi a primeira.

 

O 1o/14o G.Av, com Trompowsky, em 1980, foi a segunda.
Que se apresentem “os peleadores”.
Senão, que se calem para sempre!!
– “Ficou bonito, não ficou?”
Agora vale!

 

 

Ivan Von Trompowsky Douat Taulois – Cel. Ref.
Piloto de Caça - Turma de 1959


 

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(68-1) O dia em que um soldadinho foi a Buenos Aires
(68-2) Quem lançou ?

 

 

 QUEM LANÇOU?
(Estória 68-2)

 

Eram os idos de 1984, em um TAC (Torneio da Aviação de Caça) em Canoas (Base Aérea de Canoas - RS), com Torneio de LF (Lançamento de Foguetes), nos tempos em que o 1o Gp.Av.Ca. (como era então abreviado) e o GDA (Grupo de Defesa Aérea)ainda eram representados, de fato, por dois esquadrões.

Eu já era instrutor antigo no Grupo (como era assim chamado por toda a Caça) e fui escalado como número três do "Jambock Azul" para a competição. Creio que o Ás era o “Judeu”, não lembro quem era o Dois (talvez o “Colírio”), e o Quatro era o “Carolino”, com seu tradicional jogo de cintura.Como sói acontecer durante os TAC, a meteorologia não estava muito boa e o teto sobre Canoas estava baixo, apesar da boa visibilidade. A dúvida era como estaria o teto sobre São Jerônimo (estande de tiro protagonista de diversas estórias da Caça, assustadoras, engraçadas ou apenas curiosas).

Naquele tempo, o LF de F-5 era feito com 30o de ângulo, similarmente ao BP (bombardeio picado), naturalmente com diferentes parâmetros de altura de lançamento e recuperação.
No torneio, cada piloto lançaria um SBAT 70, foguete de fabricação nacional, muito melhor e mais tenso do que o antigo 2,75(polegadas) estadunidense, o que levou à necessidade de o CTA recalcular todas as tabelas de lançamento, naturalmente após vários “100 pés longos no eixo” (1) , no estande de tiro da Marambaia.
Devido ao teto sobre Canoas, decidimos fazer o cálculo do rebatimento também para lançar o foguete com um ângulo de 15o, caso as nuvens “achatassem” o "balsing", e cada piloto foi para a aeronave com dois rebatimentos possíveis (isso era no tempo em que as aeronaves não faziam todos os cálculos para o piloto, não havia CCIP ou CCRP).

Assim, prontos para o combate, guarnecemos, armamos os foguetes na cabeceira, solicitamos à Torre o retorno da Chibata (denominação carinhosa dada pelo Ronald ao Ximango, viatura que transportava o pessoal de manutenção para o cheque de cabeceira em Canoas), decolamos e iniciamos a Navegação Rasante, que naquela época ainda estava transicionando para a denominação de NBA (Navegação a Baixa Altura).

Vale um parêntese. Quantas vezes já testemunhamos a mudança de nomes sem mudar mais nada? Inclusive lembro-me do "rádio", emitido nos final dos anos 70, que divulgou para toda a FAB a mudança simultânea de “milibares” para “hectopascal” e hora “Zulu” para “GMT”, com o desplante de um adendo informando que nada mais mudava, só os nomes! É só pesquisar o arquivo de rádios para comprovar o que eu estou dizendo.
Hoje, até já sei que GMT não é Zulu e o rádio estava errado, mas, voltando à lambança..., desculpe, à estória...

A última perna da navegação rasante, antes do ataque, terminava sobre a represa que ficava no alinhamento do eixo de treinamento em São Jerônimo. Com isso, o eixo de ataque para o LF do Torneio ficava 150o, mais ou menos, às nossas cinco horas (direita, cinco horas, para o Popó entender).
Para podermos realizar o ataque corretamente, planejamos circular sobre a represa, pela esquerda, para utilizá-la como PI (ponto de início) para o eixo certo de ataque.

Voltando um pouco no evento... Na última "perna", estava prevista a mudança automática, em silêncio rádio, do canal tático para o canal do "Lili" (código rádio do controlador do estande em São Jerônimo), que naquela ocasião era um grupo de juízes, sendo o Burnier o juiz mais antigo.
No final da última perna, quando já estávamos nos alinhando em “cobrinha” para circular após a represa, notei o Quatro me ultrapassando pela esquerda, tentando acompanhar o número Dois (a visibilidade já estava muito ruim).
Por segurança, apesar do previsto silêncio eletrônico, avisei no canal tático: “Atenção Azul, o Quatro está ultrapassando o Três. Eu vou passar a Quatro para evitar mais confusão”. Como ninguém respondeu nada em contrário, entendi (erradamente, como veremos), que todos ouviram e concordaram, e optaram por manter o silêncio rádio. Daí em diante a desgringolada foi de enxurrada.

Sobrevoada a represa, iniciamos a curva de aproximadamente 210o pela esquerda, para nos alinharmos com o eixo de ataque que planejamos. Ao olhar para a represa, para acertar minha curva, avistei quatro Xavantes se aproximando, já alinhados em Cobrinha, pelo mesmo eixo da última perna da navegação rasante, em vias de nos cruzarmos sobre a represa!

Preocupado, quebrei de novo o silêncio rádio (que a essa altura já estava excessivo, no meu entender) e avisei: “Atenção Azul, tem quatro Xavantes se aproximando da represa! Atenção, quatro Xavantes se aproximando da represa a baixa altura!”, de novo sem qualquer resposta.

AT-26 Xavante no mergulhoApesar dos meus avisos, para minha surpresa, as oito aeronaves entrecruzaram-se sobre a represa, alternadamente, como se assim o tivéssemos ensaiado. Todavia, o Azul abandonou a represa em um eixo diferente do que havíamos planejado para o ataque, aumentando ainda mais a minha estupefação.

Brilhante Ícaro(2) , optei por tomar o eixo que eu achava correto, preparando a aeronave para o LF e avisando à esquadrilha (ESQDA): “Azul, vocês estão no eixo errado. Eu vou tomar o eixo certo”, com a segurança total dos inconseqüentes (nesta minha quase última chance de utilizar o trema antes da reforma ortográfica), se bem o disse, melhor o fiz.

 Tendo abandonado a ESQDA por completo, fiz minha corrida para o ataque, no eixo certo, e puxei o "balsing" no ponto planejado. Como achávamos que poderia acontecer, tive que achatar a cabrada, premido pelo teto baixo. Avistei o alvo e, estando com pouco ângulo, mudei o rebatimento para o valor alternativo que havíamos calculado antes da decolagem. Lancei o foguete, tendo a satisfação de ver o alvo (dois alvos de tiro terrestre - TT, emendados) pular com o acerto (ao contrário do foguete 2,75pol, o SBAT 70 permitia que o piloto avistasse o impacto antes da recuperação).

Curvei à esquerda, para o Ponto de Reunião que havíamos combinado, e voltei a chamar o Azul, sem resposta: “Azul, eu acertei o alvo. Onde é que vocês estão?”.

F-5E no mergulhoFinalmente, o mancômetro funcionou e eu decidi trocar a freqüência (outro trema) dos rádios, descobrindo “in finnis” que o radio VHF 2 estava em pane e restabelecendo o contato com o Azul (que já estava a meio caminho de Canoas) no VHF 1, no canal tático da ESQDA: “Azul, é o Três”.

“Onde é que você andava?”, foi a pergunta do preocupado Líder.

“Eu fiz o ataque no eixo planejado e acertei o alvo. Vocês saíram no eixo errado!”, respondi, com a tranqüilidade (como viver sem os tremas!) dos ignorantes.

“Então foi você!”, retumbou no rádio o Líder, para a minha apreensão.

“O Lili ouviu no rádio a confusão das ESQDA sobre a represa e determinou que o Azul deveria abortar o ataque!” (de fato, todas as aeronaves, Xavantes e F-5s tinham se avistado e gritado no rádio, advertindo sobre o cruzamento).

Quem conhece o Burnier pode imaginar o papo rádio quando, após determinar a abortiva do Azul (exorbitando de suas atribuições, no meu entender), um foguete, vindo do nada, acertou o alvo e ninguém que tivesse um rádio funcionando sabia quem tinha lançado.

Segundo meu Líder informou, no rádio só se ouvia: “Quem lançou? QUEM LANÇOU? QUEM LANÇOU?!”, seguido dos impropérios de praxe.

Envergonhado, a ponto de só ter o desplante de escrever sobre o assunto hoje, já na reserva, consegui ainda me reunir ao Azul antes do pilofe e pouso.

Depois da burocracia de praxe do pós-vôo, dediquei-me a ser o alvo de todas as gozações possíveis no Cassino (hoje, politicamente correto, Hotel de Trânsito de Oficiais), até que, com o regresso dos juízes de São Jerônimo, descobriu-se que eu fora o único que acertara o alvo.

Eu não tenho idéia das discussões que houve entre os juízes e “cartolas”, dada aquela situação estapafúrdia – o único piloto que havia acertado recebera ordem de abortar o ataque, não ouvida e não obedecida devido a uma pane rádio. O fato é que o Grupo levou aquela taça, merecidamente no meu entender.

Com base em TAC anterior, onde o Grupo abortou um ataque de BR ( bombardeio rasante) na área de Resende devido à meteorologia (Ás – PLI(3) , Dois – PIN, Três – AYM e Quatro – Não sei quem era) e acabou injustamente, no meu entender, desclassificado, tenho minhas suspeitas sobre qual teria sido a decisão dos juízes em Canoas.

Resolvi escrever sobre a presente efeméride aeronáutica porque até hoje não sei qual teria sido a minha decisão como juiz. Felizmente eu só era competidor, e ocasiões como aquela é que me fazem ter orgulho de ser Caçador e poder ter voado com tanta gente boa, em tantas missões memoráveis (nos mais diversos sentidos). Finalmente, fica para a análise e teorização de todos arbitrar qual deveria ter sido a sentença da Corte Caçadora sobre o Azul Três, o Jambock Azul e o Grupo naquele TAC, até porque todo fato tem tantas versões quantos os envolvidos, além da verdadeira.

  

Álvaro Luiz Pinheiro da Costa Maj. Brig. (Reserva)
Piloto de Caça - Turma de 1976

  

NOTAS:
1 - “100 pés longos no eixo” = acertar o alvo distante 100 pés (± 30 metros) do ponto central do alvo (mosca) no sentido de ataque (eixo de ataque).
2 - "brilhante Ícaro" = sentido figurado no qual o autor se compara a um exímio aviador, ou melhor, a um mitológico conquistador dos ares... o Ícaro da lenda.
3 - "PLI, PIN, AYM" = há muitos anos e tradicionalmente, na Aviação de Caça, o nome dos pilotos é abreviado para uma sigla contendo somente três letras (lá nos primórdios, os Caçadores já economizavam "bytes" e utilizavam poucos "dígitos" em suas comunicações...). Todo Piloto de Caça, sem exceção, tem a sua sigla. No caso em pauta PLI significa Peixe LIma, PIN significa PINheiro e AYM, AYMone.

 

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(68-1) O dia em que um soldadinho foi a Buenos Aires
(68-2) Quem lançou ?

 

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