Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA
 
(Fascículo no 69)





Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(69-1) Peixotão
(69-2) Eu sei quem é o cara...
(69-3) Origem da palavra Adelphi 

 PEIXOTÃO
(Estória 69-1)

 

  

Durante toda a minha vida passada na Aviação de Caça (2.000 horas de caça, desfrutadas em 16 anos e em 4 Unidades) convivi com caçadores que muito me marcaram, militar e profissionalmente, um deles foi Jaime Silveira Peixoto, o “Clark Gable”, o “Peixotão”.

Em 1959, quando cheguei ao 1o/4o GAv para integrar seu Quadro de Instrutores, recentemente casado e enfrentando a insegurança natural da “novinha”, de repente afastada do seu "habitat", da sua profissão e se deparando com o novo e exótico mundo dos caçadores, numa determinada noite o conheci. Hospedados no Cassino da BAFZ, à espera do PNR, escalado para o serviço de Oficial de Operações, tive que afastar-me para atender à chegada de uma aeronave do Correio Aéreo Nacional (CAN), altas horas da noite (provavelmente um Belém Noturno). Foi um tremendo teste para a “novinha”, ter de esperar no Cassino, sozinha e muito assustada, pelo meu regresso.

Cel.Av. Jaime Silveira PEIXOTOEncontrei-a conversando com o Peixotão, então Capitão, que sentindo o desconforto e a insegurança da mesma dedicava um tempo para acalmá-la, discorrendo sobre as maravilhosas experiências que lhe estavam destinadas a partir de então. O fato é que conseguiu seu intento e a partir daí a integração no novo mundo foi acontecendo tranquilamente.

Em 1969, fui comandar o 1o/14o GAv e, então, pude constatar o grande prestígio que Peixoto desfrutava na área, especialmente pela forma como dominou um movimento dos graduados num desastrado momento político nacional que envolveu as Forças Armadas, em especial o Esquadrão que comandava.

De longe, acompanhei sua ação na construção da Base Aérea de Anápolis, um formidável exemplo de perseverança e vibração no cumprimento de tão pesada tarefa.

O que me marcou mais, no entanto, foi um encontro que tive com ele em 1976 ou 1977, eu comandava o 1o GpAvCa e operava deslocado em Anápolis, com ênfase no treinamento de interceptações. Ele comandava a 1a Ala de Defesa Aérea (ALADA) e, "full"coronel, já passados os 50 anos de idade, deveria comandar a Unidade no ar e no solo, este o espírito da ALA.

Certa noite, em torno das 23:00h, eu estava saindo para uma missão e cruzei com ele, que chegava de um alerta passado por todas as fases da “correria”, que até nos mais jovens provoca grande descarga de adrenalina. Na escuridão do pátio (para não desconstruir a acomodação visual do piloto) perguntei-lhe:
-“E aí, Coronel, como é que foi a missão?”.
E ele parou, respirou fundo, um tipo de suspiro muito eloquente (bastava parar por aí e nada dizer!) e disse:
– “Meu amigo, ainda vou acabar morrendo numa missão dessas! Uma escuridão, sem lua, enxergando com dificuldade, cumprindo ordens de "Thor", de repente passo à toda pelo alvo. Não está dando mais para tomar conta de tudo! Mas vou em frente, até o fim!”.

Que admiração tive por aquele homem. Eu mesmo já me sentia bastante cansado, lutando para acompanhar a implantação do F-5, com tantas novas táticas e técnicas, tão mais velho que os jovens meus comandados! Esse era o Peixotão, um exemplo de Piloto de Caça com quem, mais tarde, convivi, em Brasília, ele já reformado, contando “Estórias” nos almoços com o Alto-Comando da Aeronáutica – sem gravador, lamentavelmente.

  

Carlos de Almeida Baptista – Ten. Brig.(Reserva)
Piloto de Caça - Turma de 1954 


 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(69-1) Peixotão
(69-2) Eu sei quem é o cara...
(69-3) Origem da palavra Adelphi

 

 

 EU SEI QUEM É O CARA...
(Estória 69-2)

 

Depois de muitos anos sem ir a Base Aérea de Canoas – onde servi em 1982/83 como Comandante do 2o Esquadrão de Controle e Alarme (ECA) e voei no Esquadrão PAMPA – lá regressei no dia 20 de março de 2009 para as comemorações do 62o aniversário do 1o/14o GAv. Em uma “viatura” C-97 Brasília, seguimos para Canoas, eu e mais 20 ex-pilotos do Quatorze, compondo um grupo de várias gerações e diferentes safras.

Senão vejamos: estavam presentes o Brig Meira – Veterano de Guerra com mais de 90 missões de P-47 no Teatro de Operações (TO) da Itália, e ainda outros pilF-5EM no REVOotos que voaram o “Tijolo”, como Brig Marion, Brig Menezes, Brig Baptista (estes três privilegiados ainda chegaram a voar também o Gloster e o F-5...). Dos tempos do Gloster, estavam presentes Brig Baginski, Cel Jader, Cel Ájax entre outros, e dos tempos mais recentes, pilotos de TF-33, Xavante, F-103 e F-5, como Trompowsky, Póvoas e eu (também privilegiados por termos voado o Gloster em seus últimos dias...).

Chegando próximo a Canoas, a primeira emoção: duas aeronaves F-5M (a nova versão modernizada do F-5E, que, diga-se de passagem, está linda e altamente operacional) entraram na ala do Brasília, bem pertinho. Os veteranos quase foram às lágrimas. Confesso que eu passei do “quase”, e tive que colocar óculos escuros para não pagar mico... Pousamos e fomos recebidos pelo Comandante da BACO, e por todos os pilotos do 1o/14o GAv, que nos aguardavam em forma ao lado do avião.

Após um rápido cafezinho na Sala de Tráfego, fomos visitar o simulador do F-5M. Uma grande novidade para os mais antigos, e até para mim, que tive a oportunidade de implantar o simulador do F-5E na FAB. Os novos sistemas de navegação e de armamento da aeronave F-5M, com HUD e HOTAS, apesar da grande quantidade de informações apresentadas, facilitam – e muito – o trabalho do piloto. O mais interessante deste simulador é a sua capacidade de reproduzir, na sala onde se realiza o debrifim, a visualização tri-dimensional de todas as manobras realizadas em voo, além do papo-rádio, a situação dos aviões durante o lançamento dos mísseis e o momento do tiro-canhão.

A análise detalhada do voo, proporcionada por este sistema, permite um aproveitamento da missão infinitamente superior ao que era obtido anteriormente. Fiquei impressionado com o profissionalismo da “garotada” de hoje, e saí de lá achando até que a minha geração era um pouco esculhambada.

Meira e Rui em 1945Será? Fico um pouco na dúvida, porque nós também éramos profissionais. A impressão que tenho é que quanto mais sofisticado é o equipamento, mais profissional e dedicado o aviador tem que ser, pois qualquer bobeada, qualquer vacilo, poderá levar a aeronave para uma situação irreversível. Bem, o destino final neste dia era o “Teto Zero”, como é conhecida a sala de estar do Esquadrão, onde uma cervejada nos esperava, acompanhada – como não poderia deixar de ser – de um churrasco fantástico, como só os gaúchos sabem fazer.

No dia seguinte, com a presença do Ten Brig Saito, Comandante da Aeronáutica e também ex-piloto do Quatorze, em uma bela solenidade – com desfile da tropa e passagem baixa de um elemento de F-5 – foi comemorado o aniversário do esquadrão. Vou voltar um pouco, para a reunião no “Teto Zero”: aproveitando a rara oportunidade, onde confraternizavam vários “antigões” e um bandão de “novinhos”, o Brig Menezes, Presidente da ABRA-PC, teve a boa idéia de apresentar individualmente cada um de nós –,Veteranos e antigos Pilotos de Caça – aos pilotos do Quatorze, pois com toda a certeza, a maioria de nós talvez só fosse conhecida de nome.

Todos se apresentaram, contando alguma coisa sobre suas experiências na Caça. Logicamente, o Brig Meira foi o último a falar, e mais uma vez, com sua simplicidade, e com a linguagem do jovem que ele nunca deixou de ser, passou sua mensagem de experiência de vida, contando parte da história daquele grupo de jovens, a maioria com 22, 23 anos, meninos ainda, que foram para a guerra por vontade própria. Todos eram voluntários, e encararam a difícil tarefa de voar dentro do TO mais perigoso da Europa, arriscando a vida a cada decolagem, a cada missão. Voavam diariamente, atacando objetivos defendidos por uma artilharia antiaérea poderosa e precisa, onde durante o mergulho a concentração em atingir os parâmetros de lançamento das bombas era constantemente perturbada pela preocupação em manter as traçantes em movimento, “dançando”, porque uma traçante parada no canopy, queria dizer que os tiros estavam vindo na direção do olho do piloto... Muitos não regressaram.

Durante a minha vida de Caçador, presenciei algumas despedidas de pilotos mais antigos, que depois de vários anos na Aviação de CMeira e Rui em 2009aça, passavam para a Reserva. Em alguns cheguei a perceber a frustração de nunca terem participado de uma situação de combate real, para a qual se prepararam a vida inteira. Não que a guerra fosse desejável, mas fica sempre a dúvida: será que eu teria tido a coragem, o desprendimento, o “culhão” mesmo, de um Nero Moura, um Rui, um Meira, um Renato Goulart, que por vontade própria abandonaram tudo – família, mulher, filhos, a vida normal, o dia a dia de ir trabalhar e voltar para casa, sair de noite, jantar fora, etc. – para ir para a guerra?

Eu, você e vários Caçadores vamos morrer sem ter esta resposta... Eles foram e voltaram, mas suas vidas ficaram severamente marcadas. Foi uma experiência tão forte que eles nunca mais se esqueceram. Aqueles meninos rapidamente se transformaram em HOMENS, e a guerra os uniu para sempre. Infelizmente muitos já se foram, mas o exemplo ficou.

Hoje em dia, neste País, onde a escala de valores está totalmente invertida e a mediocridade é incentivada em quase todos os setores, meu pensamento se volta para os nossos antecessores, este pequeno grupo de Pilotos, brasileiros exemplares que arriscaram suas vidas e a quem a Aviação de Caça brasileira tudo deve!

 A sorte e o destino me proporcionaram a honra de conhecer quase todos os Veteranos do Grupo de Caça que voltaram da Guerra, e a eles devoto meu eterno respeito e admiração. Colocando as coisas nos devidos lugares, gostaria de afirmar, com todo o respeito, o seguinte:

Brig Meira, “Você é o CARA...”
Brig Rui, “Você é o CARA...”.
 

  

Reinaldo Peixe Lima - Cel.Av. (Reserva)
Piloto de Caça - Turma de 1969


 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(69-1) Peixotão
(69-2) Eu sei quem é o cara...
(69-3) Origem da palavra Adelphi

 

 

 ORIGEM DA PALAVRA ADELPHI
(Estória 69-3)

 

Na época que coincidiu com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939), foi lançada no Brasil, pela Companhia de Cigarros Castelões, uma marca que ficou famosa pela propaganda no rádio: Cigarros Adelphi, anunciado com o som de várias pessoas batendo palmas intermitentes (pá... parapá) seguidas da palavra “Adelphi” dita de modo enérgico.

Carteira de Cigarros Adelphi

Os cigarros eram acondicionados em carteiras de papelão azul com letras douradas. Em cada carteira havia uma figurinha ou um cheque, com valores numerados, que, quando colecionados, somavam pontos e podiam ser trocados por brindes, que eram pequenos objetos para uso pessoal ou doméstico, em uma loja situada na Rua Marechal Floriano, no centro da cidade do Rio de Janeiro.

Propaganda do Adelphi - O Globo - 10 de junho de 1939

A saudação do “Adelphi” surgiu durante viagem a São Luís do Maranhão, em 1940, quando estavam a bordo do vapor “Itapagé” o então cadete Rui Barbosa Moreira Lima, o 1o Ten Av do Exército José Ribamar Raposo, ambos conterrâneos e mais um grupo de aproximadamente sete jovens. Entre as várias brincadeiras feitas de modo a afastar a monotonia da viagem, estes resolveram que, a cada porto que o navio atracasse para carga e descarga, um deles seria responsável por “abduzir” um prato e um talher dos restaurantes nos quais almoçassem.

Distribuída que foi a missão entre os vários componentes do grupo, esta foi devidamente cumprida, com a quantidade de pratos e talheres aumentando nos portosGeneral Cannon após receber um Adelphi de Salvador, Maceió, Recife e Natal, sendo Fortaleza o fim da linha. Sob determinação de Raposo, os pratos roubados eram colocados por sob as camisas e, batendo nos pratos com os talheres, todos a um só tempo repetiam a saudação dos cigarros Adelphi. Tal brincadeira pegou, e passou a ser feita nas refeições, antes do início de shows e mesmo para saudar o Comissário de Bordo e o Comandante do “Itapagé”. Após a viagem, no entanto, a brincadeira caiu no esquecimento. Os cigarros Adelphi foram produzidos apenas até 1942.

Quando o 1o GpAvCa chegou a Camp Shank, na Virgínia, Estados Unidos, em agosto de 1944, ficou sob quarentena por um período de 48 horas. Não havendo o que fazer, seus integrantes passaram a bolar brincadeiras e a cantar velhas canções onde pudesse ser dada ênfase ao coral. O então Tenente Rui Moreira Lima, lembrando-se da brincadeira de sua viagem de quatro anos antes, apresentou-a ao grupo e o “Adelphi” consagrou-se, no início, como uma saudação em tom de brincadeira sendo apresentada ao Coronel Nero Moura. Bem aceita que foi, passou a ser utilizada para saudar alguém que tivesse realizado alguma coisa diferente.

Certa vez o Comandante da 12th Tactical Air Force, Gen John Kenneth Cannon (1892-1955) fez uma visita ao 1o GpAvCa, sendo recebido formalmente pelo TenCel Nero Moura e, uma vez quebrado o protocolo, este solicitou ao seu pessoal que saudassem o Gen Cannon com um “Adelphi”, no que foi pronta e entusiasticamente atendido. O sucesso foi tal que o TenCel Moura teve que “se virar” para explicar ao Gen Cannon que aquela era uma saudação honrosa da caça brasileira, utilizada para saudar apenas grandes personalidades.

Desse dia em diante o “Adelphi” foi oficializado no 1o GpAvCa, passando de simples brincadeira a saudação séria. Sua utilização passou a ser cada vez mais restrita, sendo, no entanto, sempre oferecido aos companheiros abatidos em combate.

Atualmente, o 1o Esquadrão do 16o Grupo de Aviação (1o/16oGAv) , baseado em Santa Cruz (RJ) e equipado com aeronaves de ataque Embraer A-1 (AMX), adotou a palavra “Adelphi” como designação oficial da unidade e do código de seus pilotos, perpetuando assim uma tradição e fazendo uma justa homenagem aos veteranos do 1o GpAvCa.

  
Adelphi !

Dr. Vicente Vazquez Fernandes
Pesquisador Aeronáutico 


 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(69-1) Peixotão
(69-2) Eu sei quem é o cara...
(69-3) Origem da palavra Adelphi

 

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