Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA
 
(Fascículo no 73)





Este fascículo contém 1 (uma) estória:
(73-1) O primeiro voo de formatura em F-47 

 

 O PRIMEIRO VOO DE FORMATURA (ELEMENTO) EM F-47
(Estória 73-1)

 

Soube da noticia no cassino dos oficiais da Base Aérea de Fortaleza, 1957. Algum colega, deu-me o recado. Houvera uma modificação na escala de vôo e fui acionado - primeiro vôo de formatura naquela maquina, o Thunderbolt.

À noite fui ao esquadrão, 1o/4o GAv. mas não consegui adentrar na sala dos pilotos. Misto de curioso e preocupado, quem seria o instrutor, meu líder? Eu era de “Copas”, o Cmt. da esquadrilha, tenente Marques, Hugo Pedro da Costa Marques, aspirante da turma de 1950, voado na máquina e no Gloster Meteor sempre nos tratou muito bem, apesar de seu apelido, "Chato Rei". Seria ele? Bom que fosse, pois no brifim geral de formatura, instrutores e estagiários presentes, foi muito objetivo e paciente com nossas duvidas. Com esses pensamentos a remoer a cabeça, apaguei...

Não deu outra, na escala constava dois vôos naquela manhã, dois elementos, o meu e um de outra esquadrilha. E eu com o Marques puxando... Após um brifim bem detalhado, falou de como seria a reunião, a chegada em forma, como segurar o avião nessa posição, o escalonamento para a outra ala após uma paradinha para mostrar o domínio da maquina, reiterando a cuidadosa escorregada para o outro lado,”sem esquecer de dar motor, você está por fora da curva OK?’’ Enquanto ele falava e falava, lembrava de meu instrutor no “Estágio Avançado" na Escola de Aeronáutica, tenente Cypriano. As orientações eram as mesmas. Aquela viagem do pensamento parecia um vídeo tape do ano anterior.

Na época, não percebi, mas era o longo braço de uma instrução de vôo sem solução de continuidade, muito bem planejada e melhor executada. Finalmente, equipamento de voo, pára-quedas, bote, papo amarelo, faca, páteo do estacionamento, partida e fui seguindo o líder. Percebi mais dois F-47 á nossa frente, o outro elemento, quatro aviões taxiando em "S", devido a pouca ou nenhuma visibilidade para frente- o nariz era meio grande... e devagar como mandava a NPA do Esquadrão.

Cabeceira da pista 12, aviões alinhados como se fossem uma esquadrilha de quatro aeronaves, cheque antes da decolagem. E aí, as coisas começaram a acontecer.

Acabei meu cheque e dei o “pronto decolagem”, e nada do líder me olhar. Uma barulheira danada no VHF (eram “ótimos") e avistei uma poça de óleo, bem grande embaixo do motor no avião do Marques. Os quatro aviões parados, mais ruído no radio, muitos gestos e finalmente pude entender. O ala daquele primeiro elemento estava em pane de hélice, soube depois, e iria retornar ao estacionamento seguindo o Marques que também retornava.

Fui instruído a passar como numero dois do líder daquele primeiro elemento o que aconteceu quando os dois aviões em pane abriram espaço. O problema, é que em vez de preocupar-me com a missão, estava tentando descobrir quem era aquele piloto. Canopi aberto, me olhou e perguntou por gestos se tudo OK, respondi "dois copas" pronto decolagem, confirmando com polegar para cima.

Entramos na pista, ele soltou os freios e segundos após, lá fui eu. 80 milhas, cauda levantada, sempre avistando o líder à minha esquerda, saímos do chão. Trem em cima, canopi fechado, embalando para 150 milhas, primeira redução. Pulei o remu de líder e fui cortando a curva. Cheguei tranqüilo, parecia um grande T-6, bota grande nisso, parei, ele sempre me olhando. Colocou o polegar para cima, entendi que estava bem, iniciei o escalonamento para o outro lado, não esquecendo da paradinha e de dar motor. Uma vez nessa posição iniciamos a subida com curvas e escalonamentos para ambos os lados.

Ele me olhando preocupado talvez por não saber quem era seu ala e eu procurando adivinhar quem era meu líder. Capacete de couro marrom, todos usavam aquele de pano caqui, do “Army Air Corps”, e alguns poucos, novos, "made" aqui mesmo.

Esse piloto era diferente. Com a máscara e os óculos baixados, não dava mesmo para identificar. Quem seria? Zani, Teodósio, Soares, João Luis não era, cruzei com ele chegando em seu carrinho Peugeot. Quem seria?

O voo foi bom, uns "oito" apertados, um ataque dois para ver como eu me saía, uma cobrinha onde pude apreciar a beleza dos "streams" saindo da ponta das asas. Lembro que nossa comunicação foi o tempo todo por sinais manuais: chega mais perto, se afasta um pouco, levanta o nariz e por aí foi me instruindo... Acho que o VHF dele não estava legal. E tome “gs”...

Que espetáculo! O F-47 foi o avião mais bonito que voei. Seu papo todo carenado, sua imponência de máquina de guerra aliado a uma silhueta agressiva eram um colírio durante o vôo. E aquele tremendo ventilador quadripá arrastando as sete toneladas? Finalmente a descida embalado, em torno das 300 milhas, a entrada na zona, inicial e pilofe para pouso.

Seguindo o ás, livrei mais uma vez o remu na curva da final, de acordo com o Tenente Marques, esse dava tombo, tinha de ficar esperto, e pouso final.

Ufa! Não foi tão difícil, apenas um pouco suado pelo esforço na briga com os três compensadores e quatro manetes. Táxi lento e em “S” no regresso, estacionei ao lado dele, corte dos motores e finalmente descobri quem era: Tenente Pessoa, José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, aspirante de 1952, recém chegado de Santa Cruz....

Debrifim normal, com a presença curiosa e atenta de Marques que ainda lamentava sua abortiva, tudo bem, ainda me sapecou algumas estrelas por ter acusado "dois copas pronto decolagem e mais tarde dois copas trem baixado e travado". Deveria ter mudado o código radio para “d´ouros”, quando da troca de posições na cabeceira da pista. Vai saber...

Algumas observações: Este vôo foi o resultado de um aproveitamento da missão onde um ala e um líder tiveram de regressar ao estacionamento. O ala que regressou era o aspirante aviador Pereira O.H. (Odilon Holmitives Pereira), colega de turma, como disse pane de hélice. Tenente Marques (Hugo Pedro da Costa Marques), alguns anos depois, faleceu num acidente de Gloster Meteor nas imediações de São José dos Campos (SP). Tenente Aviador Cypriano (Elcio Cypriano Antunes da Penha Nunes e Silva), aspirante de 1951, falecido em dezembro de 1956 em acidente com a Esquadrilha da Fumaça em Salvador, Bahia.

Vôo realizado no F-47 no 4115, 01:10h, TFRD, 20.000 pés, 25 abril 1957.

Eu possuía um total anterior de 5 pousos e 05:30h onde foram feitos estóis de todos os tipos, manobras, acrobacias e cheque incluído (um instrutor ia na posição de ataque dois determinando as manobras ou acrobacias a serem executadas) conforme registrado nas cadernetas de vôo.

Uma ressalva interessante, é que o padrão de instrução das décadas de 40 até 60, adotado na Escola de Aeronáutica utilizando o PT-19 e T-6, nos estágios primário, básico, avançado e VI era muito bem ministrado. Permitia ao estagiário, sem grandes traumas, num curso de caça ou bombardeiro uma adaptação rápida e confiável à nova aeronave a ser utilizada.

Os que nos precederam estavam certos, entendiam de instrução de vôo, eram do ramo! Nosso tardio reconhecimento.

  

Ajax Augusto Mendes Corrêa – Cel.Av.Ref.
Piloto de Caça - Turma de 1957

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(73-1) O primeiro voo de formatura em F-47

 

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