Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Fascículo no 74)




Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(74-1) Histórias de aviadores
(74-2) Missão quase impossível 

 

 HISTÓRIAS DE AVIADORES
(Estória 74-1)

 

Manhã fria na Embaixada do Brasil em Washington DC. A tripulação do C-54 em viagem extra aos EUA aguarda para ser apresentada e recebida pelo Adido Aeronáutico nos Estados Unidos, Cel Av Roberto Hipólito da Costa. Esse ritual incluía também, logo em seguida, outra apresentação ao chefe da Comissão Aeronáutica Brasileira onde então conheceríamos manifestos da carga a ser embarcada normalmente com destino ao Rio de Janeiro. Acompanhados pelo Sr. Gentil, secretário do Coronel, somos introduzidos em sua sala e nos instalamos naquelas maravilhosas cadeiras circundando a bela mesa oval ali existente.

Na sequência, as rotineiras apresentações pessoais, comentários sobre a viagem e cafezinho brasileiro para descontrair. Atrás da cadeira do adido havia um bonito quadro, motivo aviação, como tudo naquela sala transpirava. O Cel é um apaixonado pelo voo. Já nos conhecíamos, pois fora nosso comandante na BAFZ quando eu estava servindo no 1o/4o Grupo de Aviação, nos idos de 1962/63.

Após um bom tempo e já descontraído, um pouco incomodado por perceber estar aquele quadro visivelmente torto, pergunto ao Cel se posso ajeitá-lo e ele simplesmente e até um pouco espantado com essa iniciativa diz, “vai em frente”!

Quando acabo de corrigir aquela posição, pergunta: “ E aí, já tomou juízo? Estou satisfeito de ver você voando essa máquina, o C-54!

No que respondo: “Sempre tive juízo meu coronel”!

Aí então se inicia um monólogo em que ele diz que no passado teve, a contragosto, de punir um instrutor de caça, pois não havia outra alternativa senão fazê-lo.

Comentou esse e outros assuntos e terminou convidando-nos para um “jantar lá em minha casa hoje, às 9 horas, traje esporte” . Despedimos-nos, fomos à CAB, em seguida ao hotel, trocamos de roupa e finalmente, às compras. À noitinha, a condução nos apanhou no Harrington Hotel e fomos para a residência do Coronel, por sinal, todos com muita fome.

Recebidos por sua esposa, sentamos, no aguardo do anfitrião, o qual logo chegou. Conversa daqui, dali, um "scotch" atrás do outro, tripulação com muita sede e, como disse, muita fome. No outro dia, livre, não iríamos voar e seria destinado à costumeira visita ao Museu Aeroespacial e outros sítios notáveis daquela maravilhosa cidade.

Após o jantar, seguiram-se mais drinques e, não sei a razão, mas, pelas tantas, ele me diz que foi um problema sério o que criei com uma passagem baixa no Cocorote, vila residencial de militares residentes dentro da Base Aérea. E começou a contar: Fora cientificado que um sargento, tendo um assunto muito grave, queria reportá-lo direto ao Comandante e, portanto, queria falar com ele.

Ao recebê-lo, o sargento começou afirmando “não ser mais possível morar nas casas da Base, que a segurança das famílias estava ameaçada, que um caça F-80 havia passado baixo em cima de sua casa, derrubando um colega que o ajudava a consertar o telhado, que o pombal havia sido derrubado, os pombos haviam sumido, o tal amigo, o outro sargento, havia se machucado no tombo, a mulher entrara em crise, enfim uma tragédia ”!

F-80 Três de PausFazendo uma pausa, indaga se eu lembrava do caso disse lógico que sim e o porquê daquela bobagem, considerando ser eu um instrutor já antigo, dando mau exemplo aos aspirantes em formação etc. etc. etc.

Insistindo no assunto do porquê daquela passagem em área habitada, resolvi contar o outro lado da história que somente alguns íntimos conheciam. Eu morava dentro da Base, perto da pista e do Esquadrão, em construções deixadas pelos americanos como depósito de suprimento à época da Segunda Guerra, paredes em combogó, simples e rústicas, porém confortáveis à época. Casado e já com quatro filhos, vivia dentro da Base e para o Esquadrão. Em torno de outubro, novembro, numa noite acordei, ou penso que acordei, com um colega de turma recém falecido em acidente de T-6 em Salvador, sentando nos pés da cama.

Estava de uniforme cáqui, o rosto suado, seu nome, Ten Av Mauro Ribeiro. Era um misto de sonho ou aparição, pois ainda não sei o que realmente se passou. O fato é que não fiquei assustado e o colega logo iniciou sua conversa dizendo... - “ Fizemos as contas aqui em cima e descobrimos que você está faltando, está devendo, e vim te avisar que logo logo você vai subir e ficar entre nós. Você vai gostar, tem muitos amigos nossos por aqui. Te prepara ” . Em seguida levantou-se e sumiu deixando-me agora sem sono e um tanto preocupado. Continuo sem saber se foi um sonho ou se realmente aconteceu.

Comentei esse acontecimento com alguns colegas mais íntimos, tenentes Mario Vicente, Sergio Borges Miranda e mais um ou outro, sem grandes detalhes. Final de ano chegando, instrução terminando, mas, algumas coisinhas estranhas estavam acontecendo. Uma esquadrilha de 4 F-80 puxada pelo Ten Wellington de Carvalho foi a Teresina, acho que para a inauguração da pista de asfalto. Após o pouso, o avião do líder teve uma pane e trocamos de avião. Ele regressou a Fortaleza com os dois estagiários na ala e eu permaneci em Teresina aguardando o socorro que, é claro, não veio. Dia seguinte, hora do almoço, chega o B-25 da base com mecânicos para sanar a pane (superaquecimento na turbina).

Avião pronto, estava ansioso para sair daquele aprazível local. Calor, máquina pesada, "tip tanks (1)" cheios, tive quase que simultaneamente as duas luzes de aquecimento e fogo(2) acesas logo ao sair do chão. Esse tráfego de regresso com o avião pesado, baixinho e devagarzinho, foi um sufoco, mas deu tudo certo e consegui regressar numa boa com a maldita luz acesa! Retornei a Fortaleza no B-25 da Base, ficando o F-80 em Teresina. Trompowsky (Ten Av Instrutor no 1o/4o GAv), do chão, a tudo assistiu.

Num voo de experiência uma quase colisão com o Ten Trompowsky, (essa quem tem de contar é ele), logo depois uma triscada de "tip tank" com um estagiário, mas continuava achando tudo normal. E o Coronel atento e ouvindo, ligeira pausa para mais drinque e continuo... Chegou o fim de ano, voo encerrado mais um ou dois eventos do tipo aconteceram, férias e o problema foi sendo esquecido. No regresso das férias, fins de janeiro, numa noite a cena se repetiu com nova aparição do colega Mauro Ribeiro.

Mesma posição, mesma face suada, mesmo uniforme caqui só que com algumas informações adicionais e mais contundentes: eu deveria “subir” antes do carnaval, meus amigos estavam ansiosos pela minha presença.

Em face desse programa apresentado, argumentei: “porque eu, porque não pega alguém da base, sem filhos?... argumentos infantis considerando que eu não tinha peso algum naquelas colocações, naquela possível fantasia. Até porque seria sonho ou não? Falando mais uma vez que eu estava “devendo” , que iria gostar, tem fulano e cicrano – citou dois colegas tenentes falecidos – querendo te ver e terminou dizendo, “te prepara, antes do carnaval, OK? Vais subir!” E foi embora tão silencioso quanto chegou.

Comecei a ficar preocupado, entrei para o GBOEx, comentei com os mesmos colegas as últimas notícias, os incidentes em voo estavam acontecendo e eu me enquadrava possivelmente como um desafiador de fantasmas. Um colega mais velho, Ten Sérgio Borges de Miranda, cuja esposa era espírita, sabendo da nova ocorrência me procurou, confirmei o acontecido e dias depois voltou dizendo que mandou fazer uma missa para o falecido. Tudo bem, carnaval chegando, eu sobrevivendo.

Segunda de carnaval, chega um jeep em minha porta, era o comandante do esquadrão, Maj Antonio Henrique, e diz que iria mandar o médico do esquadrão, Dr. Paulo Fernandes(3), nosso vizinho, a Recife, pois o Tenente Holleben havia baixado hospital.

Eu iria num T-33 levando o doutor, entregaria essa aeronave ao Parque e traria um F-80 revisado e pronto para o translado. Pensei rapidinho, chegou a hora, vai ser hoje, na ida, meu vizinho, o Paulo Fernandes, vai nessa fria de carona, mas também pode ser na volta, vamos ver...

A missão demorou um pouquinho a sair, alguns acertos a serem aferidos, deixamos a decolagem para a manhã de terça-feira, dia seguinte, terça de carnaval. Voo normal, proa para João Pessoa e após pela praia até Recife, perturbando pescadores e banhistas, dia bonito, pilofe apertado para impressionar o Doc, pouso normal, táxi para o pátio do Parque e lá estava nosso F-80, fonte externa conectada, um sargento ansioso para nos ver pelas costas, tudo engrenado, era carnaval...

Aí, pensei, vai ser nele!

Como já haviam feito o voo de experiência, era conferir a papelada, o combustível, oxigênio e partir, o que foi feito.

Subida, nivelamento, tudo normal, até aqueles barulhinhos esquisitos e misteriosos do F-80 não eram os mesmos. A máquina estava realmente 100%. Eu só pensava, quando vai ser?

E o Coronel atento e ouvindo...

Já havia iniciado a descida para uns 25, 20 mil pés quando avisto Fortaleza. Falo com a Torre, dou a estimada 5, 8 minutos fora, pista 12, vento de proa 12 kt, o de sempre e aí penso:

Essa bruxa não vai mais me levar, estou em casa, ela não me pega mais!

Inicio um mergulho em direção a minha casa no eixo contrário e paralelo pista em uso. Permaneci com o ponteiro do velocímetro colado no maquímetro, bem embalado e baixo, fazendo a passagem com o pensamento desafiando a bruxa. O avião tremia todo devido à velocidade. Foi um senhor rasante! O sargento tinha razão.

O detalhe: como fui chamado à base, quem me ouviu e fez o enquadramento – vamos abreviar, fui detido por 8 dias, publicado na 4 a parte do Boletim Reservado... (as folhas de alterações estão aí para conferir) – foi o coronel que agora me ouvia.

Para minha surpresa, diz o coronel, “sou espírita, se eu tivesse sabido antes de todos esses detalhes teria tomado outras providências. Ninguém pode prever o dia ou a hora, teria sido uma brincadeira de meu colega, talvez sonho, não podia afirmar nada” .

E assim termina a outra versão, o outro lado, que o Cel não sabia e eu também não poderia usa-lá como justificativa. Fica por aqui o registro e uma pergunta: foi sonho ou realidade? Até hoje não sei. Meu amigo Mauro Ribeiro nunca mais apareceu.

Observações:
1- Os "tip tank" comportavam uma tonelada de combustível JP-4 em cada um.
2- Luz de fogo acesa era mandatário ejeção.
3- Ten Méd Aer Paulo Fernandes, meu vizinho no Cocorote, Médico do Esquadrão, mais tarde, como tripulante do C-47 2068 seria um dos poucos sobreviventes daquele acidente na Amazônia. A aeronave, em voo noturno de Jacareacanga para Cachimbo, perdeu os dois ADF´s, voou até acabar o combustível, caindo ao nascer do sol nas proximidades de Tefé. Consta ter sido a maior e mais demorada busca de uma aeronave efetuada no Brasil.

  

Ajax Augusto Mendes Corrêa – Cel.Av.Ref.
Piloto de Caça - Turma de 1957


 

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(74-1) Histórias de aviadores
(74-2) Missão quase impossível

 

 

  MISSÃO QUASE IMPOSSÍVEL
(Estória 74-1)

 

Em dado momento, chegou ao Grupo de Caça a ordem para que fosse bombardeado um banco de areia na Ilha do Fundão, próximo à ponte do Galeão, que estava infestado de mortíferas aranhas “ viúvas negras ” . Um F-8 foi preparado, armado com duas bombas M38-A2 carregadas com “ napalm ”, mistura de gasolina com um agente químico.

Era uma missão que exigia perícia e determinação para ser cumprida, em função dos riscos, uma vez que o referido banco de areia estava localizado nas vizinhanças da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O eixo de ataque “ ideal ” previa o sobrevoo das instalações do antigo Aeroporto do Galeão e a recuperação, após o lançamento, sobrevoando o Hospital das Clínicas da UFRJ. A possibilidade de uma falha material, causando um lançamento inopinado, ou uma falha do piloto, errando grosseiramente o ponto de impacto, poderiam ter consequências catastróficas. Não aparecendo nenhum outro voluntário, apresentei-me para cumprir a missão e pensei: Vai dar tudo certo, vou, mato e volto.

Gloster atacando aranhas
aranha 'viuva negra' aranha 'viuva negra'

Acreditem ou não, a missão foi executada sem maiores percalços, duas passagens sobre o alvo, a primeira para conferir as condições de segurança na área e a segunda para efetuar o lançamento. A única repercussão daquele feito foi uma nota na imprensa, de autoria de um cronista social, no dia seguinte, recomendando jocosamente que o piloto passasse pelo “ Parque Xangai ”, para treinar e melhorar a pontaria. Para falar a verdade, na ocasião não compreendi porque não optaram por uma solução por via terrestre ou marítima e, ainda, porque eu mesmo aceitei aquele absurdo desafio.

Só muito recentemente fiquei sabendo que a “ missão (quase) impossível ” fora solicitada pelo comando da Base Aérea do Galeão, após a ocorrência de duas fatalidades, que envolveram um pescador e um soldado bombeiro, ambos picados pelo peçonhento aracnídeo, e que o bombardeio rasante havia sido bem sucedido.

  

 Luiz Fernando Cabral – Cel.Av.Ref.
Piloto de Caça - Turma de 1955


 

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(74-1) Histórias de aviadores
(74-2) Missão quase impossível 
 

 

Temos 83 visitantes e Nenhum membro online