Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA
 
(Fascículo no 77)





Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(77-1) O primeiro P.A.I.M.
(77-2) "Marras" antigas da antiga Caça... 

 

  

 O PRIMEIRO PENTATLO AERONÁUTICO INTERNACIONAL MILITAR (PAIM)
(Estória 77-1)

 

Esta é uma estória que já deveria ter sido contada, pois ocorreu há quase 40 anos! O problema é que ninguém gosta de contar derrotas...

O interessante é que em quase todas as vezes que nos encontramos em uma cervejada de Caçadores, onde esteja presente algum dos que participaram do “evento”, invariavelmente as perguntas surgem, e o papo volta à tona. Outro dia, durante uma reunião dos “Caçadores da Orla-Up” em um botequim de Ipanema – na qual estavam três testemunhas oculares e membros da equipe – novamente demos boas gargalhadas relembrando os fatos. Vamos à estória:

“Estávamos nos meados do ano de 1971, e a coisa toda começou quando o então Maj. Ribeiro (Ribeirinho), Comandante do 2o Esquadrão, chegou no Grupo de Caça com a seguinte notícia: o Brasil tinha sido convidado pelo C.I.S.M. (sigla em francês do Conselho Internacional do Esporte Militar) para participar do “XVIII Pentatlo Aeronáutico Internacional Militar”, a ser realizado dali a 45 dias na Suécia! A equipe que iria representar a FAB - 4 titulares e um reserva - seria formada por pilotos da Base Aérea de Santa Cruz, e a idéia era começar imediatamente uma seleção entre os possíveis candidatos, pois o tempo para o treinamento e preparação da equipe era mínimo.

Pode-se imaginar o “fudevu” que tocou na Base. Ninguém sabia bem que porra era essa de PAIM, e qual era o tipo de competição, mas logo apareceram uns 15 candidatos, todos tenentes, e logicamente se achando em excelentes condições de participar de qualquer que fosse a disputa – de bola de gude a salto com vara – principalmente sendo na Suécia...O Ribeirinho então reuniu a corriola e explicou como seria a competição. As provas eram as seguintes:

- natação: nado livre 100 metros, com barreira !?
- tiro: silhueta 25 metros
- esgrima: espada em três toques!?
- basquetebol: 5 provas individuais !?
- prova de obstáculos e fuga e evasão !?

Nas duas primeiras provas – natação (apesar da barreira), e tiro – dava para quebrar o galho, mas as outras três ninguém tinha a menor idéia de como seria, principalmente a esgrima, pois a única espada que conhecíamos era a nossa, de oficial... A prova de obstáculos era totalmente desconhecida, e quanto a tal de fuga e evasão, nosso conhecimento limitava-se à fuga do Danilo Moura, na II Guerra Mundial, e que gerou a “Ópera do Danilo”.

Para escalar a equipe, o Ribeirinho montou um esquema de testes básicos, nos esportes em que tínhamos alguma noção, que não eram desconhecidos. Assim, participamos de uma seleção de natação na piscina da Base, fizemos uma corrida de resistência do portão de Sepetiba até o Cassino da Base, e também uma competição de tiro silhueta 25 m, com revólver calibre 38. Após estas provas, foram selecionados os seguintes atletas: Ten. Araken, Ten. Peixe Lima e Ten. Côrtes, todos do 1o GAC, e ainda o Ten. Maximiliano (da GAE) e o Ten. Rangel (do 3o EMRA). A equipe teria que ser composta ainda por um Chefe – foi escalado o Maj. Pereira (Macuco), que era o Comandante do 1o Esquadrão do GAC para esta função de “Cartola” – um técnico (o próprio Ribeirinho) e por um médico. Como não havia médicos disponíveis no Posto de Saúde da Base, a DIRSA escalou o Dr. Perez (já Major antigo e em final de carreira), que servia nos Afonsos. Constava que ele era um dos melhores “especialistas em generalidades” da FAB...
A equipe
Equipe formada, iniciamos o treinamento, principalmente direcionado para as provas sobre as quais não tínhamos a menor noção, a começar pela esgrima. Naquela época, no Brasil, só no Exército (EB) havia gente com experiência nesse esporte, inclusive com participação em competições internacionais. Após os contatos necessários com o EB, o Ribeirinho conseguiu um Coronel da Reserva para nos dar algumas aulas de esgrima – foram duas ao todo – de forma que, pelo menos, nós chegássemos na competição com algumas noções básicas de como segurar a espada, como era a contagem, como é que se marcava ponto, coisas simples assim.

No caso da prova de obstáculos, não teve como treinar, pois teria que ser construída uma pista especial, e não havia tempo para isso. Assim, ficamos de ser apresentados aos obstáculos na Suécia... Na seqüência da prova de obstáculos, entrava a prova de fuga e evasão, onde o competidor ganhava um mapa (de escala pequena) e uma bússola, e tinha que percorrer um percurso, se não me engano, de uns 15 quilômetros, passando por uns 4 postos de checagem. Tinha que ser uma navegação bastante precisa, pois a maior parte do percurso era no meio da floresta. Se o atleta errasse alguns metros, passava direto e não achava o “chek-point”, onde tinha que carimbar o mapa antes de prosseguir para o próximo ponto. Logicamente não havia no Brasil mapas na escala adequada (os mapas para esse tipo de competição, que só fomos conhecer na Suécia, plotavam até as pedras dos caminhos...) e muito menos uma área que se prestasse ao treinamento. Sem mapa e sem área para treinar, também deixamos para resolver estes “detalhes” durante a competição...

Quanto às provas individuais de basquetebol, o Ribeirinho tinha a descrição de como elas seriam. Isso já era alguma coisa, mas mesmo assim percebemos que era uma prova de “macetes”, isto é, o cara não precisava ser jogador de basquete, mas tinha que conhecer a competição para pegar o jeito, os macetes mesmo, de cada uma delas. Conseguimos fazer alguns treinamentos, mas na realidade todos nós éramos “peladeiros” de futebol e de voleibol, mas a maioria não jogava picas de basquete...

A competição estava prevista para iniciar no dia 8 de Setembro, com término previsto para o dia 20 de Setembro daquele ano. Como estávamos ainda em Agosto, achamos que ainda tínhamos algum tempo para treinar, mas naquela época as coisas aconteciam de maneira diferente: lá pelo dia 20 de Agosto chegou a notícia de que a equipe iria decolar para a Europa no dia 29 de Agosto, aproveitando uma aeronave Hércules C-130 da FAB que estava levando uma carga para Zurich na Suíça, passando por Portugal, onde deixaria uma equipe de paraquedistas do Exército que também estava indo para uma competição!

Correria geral em busca de passaportes, portarias ministeriais, uniformes, roupas civis, etc. O Ribeirinho e o Pereira, por sua vez, tiveram ainda que correr atrás das passagens entre Zurich e Estocolmo, e de volta para Portugal, pois, dentro do esquema de contenção de despesas da FAB, teríamos que pegar em Lisboa outro C-130 que deveria estar voltando para o Brasil lá pelo dia 22 ou 23 de Setembro.

Estávamos cheios de dúvidas: qual seria o clima naquela região? Tava frio ou quente? O que se comia na Suécia? Será que falavam inglês além do “suequês”? Assim fomos nos preparando, a toque de caixa, tentando não esquecer nada para trás... Lá pelas tantas, lembrei de verificar num mapa onde ficava a tal cidade de Soderhamn, local do evento, e confesso que quase entrei em pânico: a porra da cidade ficava lá no Norte da Suécia, perto do Círculo Polar Ártico! Quando levantei a “lebre” para o pessoal da equipe, alguém lembrou: “Porra, deixa de ser burro, agora é verão no hemisfério norte...”. Pensei cá comigo: “É, deve estar dando a maior praia por lá...”.

Bem, até aqui, já dá para perceber que estávamos dando a maior chance para a infalível Lei de Murphy, que afirma o seguinte: “Se alguma uma coisa pode dar errado, não tenha dúvida: vai dar errado...”. Nessas alturas do jogo, o Araken, que já tinha planejado seu casamento para essa época, casou e entrou em lua de mel. Assim sendo, automaticamente passou à condição de reserva da equipe, e não participou mais dos treinamentos. O Araken, aliás, não teve nem as famosas duas aulas de esgrima...

No dia do embarque no Galeão, o que mais chamava a atenção, era o tamanho de nossas malas. Acho que, por via das dúvidas, todos resolveram levar tudo que tinham direito - de calção de banho a casaco de pele - principalmente porque não tínhamos restrição de peso no C-130. Afinal, era a nossa primeira viagem a Europa! Se arrependimento matasse...

A VIAGEM

A viagem foi ótima, via Recife, Ilha do Sal e finalmente Lisboa, onde pernoitamos. No dia seguinte, logo cedo, decolamos no C-130 para Zurich, na Suíça, agora já sem os PQD do Exército que ficaram em Lisboa para a tal competição. Em Zurich então, com calma, o Ribeirinho reuniu a corriola no Hotel para decidirmos o que fazer nos próximos dias, pois tínhamos mais de uma semana para chegar na Suécia, e não adiantava chegar antes. A solução foi a de desdobrar as nossas passagens – que eram de vôo direto Zurich / Estocolmo - para um “pequeno” giro pela Europa. Depois de algumas sugestões, chegamos a um consenso, e nosso roteiro passou a ser: Zurich / Paris / Londres / Amsterdam / Copenhagen, e finalmente Estocolmo!

A partir daí, nosso objetivo passou a ser conhecer o máximo possível da Europa, no pouco tempo que tínhamos. Em Zurich mesmo, já começou a esbórnia, pois saímos num giro turístico noturno pela cidade, que terminou num Cabaret. Lembro que eu, o Côrtes e o Araken só chegamos no Hotel já quase amanhecendo...

Na viagem de Zurich para Paris começamos a nos arrepender do tamanho das malas, pesadíssimas, e que naquela época ainda não tinham as rodinhas que hoje toda mala tem. Quando chegamos, já de noite, ao nosso Hotel em Paris – uma espelunca de uma (01) estrela, barata e sem elevador, que descolamos numa central de turismo no próprio aeroporto – acho que acordamos todos os hóspedes de tanto esporro e palavrão por conta de carregar as malas pela escada até os quartos!
Peixe no hotel
Finalmente Paris! Cidade Luz! Berço da Civilização! Restaurantes, Botequins e casas noturnas espetaculares nos esperando! Quem é que ia dormir? Sim, estávamos cansados, já devia ser mais de 11 horas da noite, e daí? Da porta do nosso hotel, dava para ver a pontinha da Torre Eifel, toda iluminada. Novamente, eu o Araken e o Côrtes (que nessa época ainda não era Bidon), resolvemos ir para a noite, mas para onde, se não conhecíamos nada? O raciocínio foi lógico: nessa hora, em Paris, o agito só pode ser embaixo da Torre!

-“Como vamos até lá?”
-“Andando, é claro! A Torre deve estar logo ali, pertinho, dá pra ver até o topo dela...”
-“Tá certo. Vamos andando e já vamos conhecendo a cidade...”

A porra da Torre era muito mais alta do que podíamos imaginar, estava longe pra cacete, andamos mais de uma hora e a Torre não chegava, só ia crescendo. Mas não desistimos, pois tinha que ter algum “buchincho” embaixo dela. Mais meia hora de caminhada e chegamos. Decepção total! Totalmente escornados depois de andar meia Paris, descobrimos que não tinha nada embaixo da Torre naquela hora, nem nos arredores. Consideramos a caminhada como um treinamento para a competição que nos aguardava, e frustrados, voltamos de táxi para o hotel. No dia seguinte começamos a conhecer a cidade partindo do zero!

Bem, não vou me alongar muito na descrição de nossa viagem de turismo, apesar de merecer, pois aconteceram lances hilários entre Paris, Londres, Amsterdam e principalmente Copenhagen, aonde chegamos, imagina só, em plena Feira Internacional do Sexo! Fica para outra vez...

O certo é que finalmente chegamos a Estocolmo, depois de quase 10 dias “bundeando” pela Europa, totalmente cansados e sem o menor ânimo para entrar numa competição. De sacanagem, chegamos para o Pereira e o Ribeirinho ponderando para continuarmos nosso turismo, que estava muito bom, e que aquela competição só ia atrapalhar nossa viagem...

A COMPETIÇÃO

Fomos recebidos no aeroporto por um oficial de ligação da Força Aérea Sueca, e naquela noite dormimos em Estocolmo. No dia seguinte, em um vôo da Força Aérea Sueca, seguimos para Soderhamn, onde pousamos na própria Base Aérea. Diga-se de passagem, a Base – como não poderia deixar de ser – era engrenadíssima! Instalações simples, mas com todo o conforto, e uma operacionalidade que dava para ver e sentir nos mínimos detalhes. Naquela época (estamos falando de 1971), a guerra fria estava “bombando”. No perímetro da Base, baterias de mísseis antiaéreos, com seus respectivos radares rodando 24 horas por dia, apontavam direto para o leste, para a então União Soviética.
Bandeira - Brig. Paulo Costa
Dentro da Base pudemos observar os vários abrigos, protegidos por concreto e grossas portas metálicas, onde estavam guardados, em situação de alerta, os Caças SAAB Draken que equipavam os Esquadrões. Um contraste interessante nos chamou atenção durante a formatura de abertura da competição, que ocorreu na parte da tarde: quase todos os soldados que estavam em forma na tropa usavam cabeleiras imensas, mas arrumadas dentro daquelas redes de cabelo, que as mulheres normalmente usam...

Depois da formatura, o nosso “ligação” nos informou que poderíamos treinar basquete durante a noite, no ginásio de esportes, pois havia um horário previsto para cada equipe. Estávamos para encarar, simplesmente os seguintes adversários: Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia, Holanda, França, Turquia e Espanha! Era o nosso batismo de fogo: agora a competição começava...

E começou mesmo, mas já começou mal: entramos na quadra, e iniciamos um bate-bola leve, com alguns arremessos tentando mostrar algum estilo para impressionar as outras equipes que estavam ali por perto, quando o Côrtes, em sua primeira corrida para pegar uma bola espirrada, tomou um tremendo "estabaco", e ficou gemendo no chão. Todos nós pensamos que fosse gozação, e alguém falou: “Porra, Côrtes, para de sacanagem, levanta daí e vem treinar!” Mas o Araken, que na condição de reserva e come-e-dorme oficial estava na maior tranqüilidade, ficou preocupado, e chegou perto para verificar o que estava acontecendo.

Como o Côrtes não levantava, fomos todos ver como ele estava, e levamos um susto: ele tinha torcido o tornozelo, e o seu pé já estava tão inchado que parecia um melão! Nessa hora lembro perfeitamente o pânico que tomou conta do Araken, enquanto caia a ficha de que ele agora passava a ser membro efetivo da equipe, pois o Côrtes não ia se recuperar tão cedo, nem que passasse a noite com o pé enterrado na neve. Ainda assim o Araken, mesmo sem acreditar, dizia pro Côrtes: “Pô, cara levanta daí, isso não é nada, você vai ficar bom!”
A chuva fria
Foi uma pena, pois o Côrtes – nossa primeira baixa – era um bom atleta, e nadava e atirava muito bem. No dia seguinte, a primeira competição oficial: prova de tiro Silhueta 25 metros. Acordamos logo cedo e fomos ao rancho, onde não conseguimos identificar, no visual, nenhuma comida. Nada se parecia com o que comíamos no Brasil, e assim tivemos que nos alimentar meio que no jeitão, sem saber bem o que estávamos comendo. Um detalhe: fazia um frio do cacete! Foi aí que constatei que mesmo no verão, não dava praia na Suécia...

  

Embarcamos a equipe numa Kombi sueca e fomos para o local da competição, um stand de tiro próximo à Base. Fazia tanto frio, que tivemos que ficar dentro da Kombi, ligada e com o ar quente no máximo, e só saíamos na hora em que éramos chamados para competir. O primeiro a ser chamado foi o Araken. Desejamos boa sorte, e lá foi ele sozinho, porque nós permanecemos dentro da viatura. Como eu disse, eram 9 países competindo, com 4 competidores cada, ao todo 36 atletas, e no tiro, se não me engano, eram chamados 9 por vez, que atiravam simultaneamente em nove silhuetas. De onde estávamos, dentro da Kombi, podíamos ver parte do stand, mas principalmente as placas numeradas que estavam colocadas em cima de cada alvo.
contagem dos alvos
Não sabíamos qual era a nossa raia de tiro quando a competição começou, mas de repente uma das placas levou um "tirambaço", e sumiu de nossa vista. Não deu outra: com o frio – que nos fazia tremer – e o nervosismo normal de uma estréia em competição, o Araken mandou chumbo não só na placa do seu alvo, como também no alvo ao lado, onde estava atirando o melhor competidor sueco! O cara ficou uma arara, pois na contagem dos pontos, ele tinha 11 acertos, sendo que um ZERO no pé do alvo (o tiro do Araken...), e outros dez tiros todos na área do 9 e 10. Pela regra, nestes casos o atirador perde seu melhor acerto – um DEZ! A “bala perdida”, que naquele momento acabava de ser inventada pelo Araken, fazia a sua primeira vítima: um sueco!

Pode-se imaginar o mal estar que se formou logo de cara...

Por conta do frio e da estréia, nós todos atiramos muito mal. Podíamos ter ido melhor, mas ficamos no último lugar por equipe.

A competição seguinte foi a de natação. Todos nós nadávamos bem, mas o problema era a tal de barreira sob a qual tínhamos que passar duas vezes durante a prova. Também não tínhamos idéia de como era a competição, e só fomos ver como a coisa funcionava quando chegamos na piscina. O negócio era o seguinte: em uma piscina de 25 metros o nadador mergulhava em uma raia e nadava 50 metros livres - uma ida e volta. Saia rapidamente da piscina, e corria por uma esteira de borracha até a raia do outro lado, onde havia a tal de barreira, que era uma traquitana de madeira, com uns dois metros de largura mais ou menos, que ficava boiando amarrada na lateral da piscina, ali pelos 15 metros. O nadador mergulhava outra vez, e fazia os 50 metros restantes, passando por baixo da barreira na ida e na volta. Nosso problema era que não tínhamos a menor noção da dosagem do esforço: damos tudo nos 50 metros iniciais, ou economizamos para ter gás para passar por baixo da barreira?

Acho que o primeiro que competiu foi o Rangel, e foi até bem. Quando saiu da piscina tirou nossas dúvidas, dizendo que ele tinha, desnecessariamente, economizado força. E nos garantiu: -“Pode sentar o pau, que dá.” Vendo os outros competidores mais experientes, começamos a sacar que a passagem pela barreira também tinha seus macetes, pois os gringos não nadavam por baixo dela, simplesmente se agarravam na barreira e ainda davam impulso com o pé quando saiam do outro lado, ganhando tempo. Apesar de tudo, fomos muito bem na natação, pois ficamos em segundo lugar por equipe, abaixo apenas da equipe sueca!

Mais um dia, e lá fomos nós para as provas de basquetebol. Eram 5 provas diferentes, todas contra o relógio, envolvendo uma seqüência de percursos dentro da quadra com lançamentos, maior numero de cestas no tempo de 1 minuto, lançamentos de 5 bolas de pontos diferentes, coisas assim. Estas provas também demandavam treinamento específico, e sem dúvida, era a prova mais “maceteada” da competição. No basquete nosso resultado foi ruim, mas mesmo assim não fechamos a raia: por incrível que possa parecer, ficamos em sétimo lugar por equipe, na frente da Holanda e da Dinamarca, e por pouco – 3 pontos apenas – não ganhamos o sexto lugar da França! Um espanto...

Porém, nosso medo maior era a prova de esgrima. Além de não termos a menor noção do esporte, a competição obrigava que todos lutassem contra todos (menos com os da sua própria equipe, claro). Resumindo, seriam mais de 30 lutas para cada um de nós, todas no mesmo dia. Imagine a nossa situação: mal sabíamos segurar aquela porra de espada, e já estávamos entrando em uma competição internacional, de um esporte altamente técnico, que dependia de treinamento e de preparo físico específico, e além do mais enfrentando só fera! Para nós, o oponente mais “bilunga” era espadachim do padrão dos 3 mosqueteiros...

E aí começaram os problemas. O primeiro deles foi com o Araken: como ele não tinha participado das aulas de esgrima, e seria o nosso reserva, simplesmente não tinha a “roupa” para participar da competição. Falando das “roupas”, as que levamos do Brasil para competir, eram compostas de umas calças justas que conseguimos não sei aonde, e a parte de cima era a túnica branca do 1o uniforme, aquela que abotoa meio de lado, e que cada um levou a sua! Na hora da competição, descobrimos que o juiz mandava cada competidor abrir a jaqueta para verificar se havia uma proteção interna, que é obrigatória. Nossas túnicas, obviamente, não tinham proteção nenhuma. Apenas o tecido, que era grosso.
esgrima
Vimos que o Araken estava agoniado, andando de um lado para o outro, e a competição já ia começar. Chegamos nele: “O que houve, cara, tudo bem?” E ele morrendo de vergonha abriu a túnica e mostrou: como teve que usar a “roupa” do Cortez – cuja circunferência era bem maior do que a dele – o Araken amarrou as calças com uma corda na cintura, e fez meio que um suspensório, tudo de corda. “Eu não vou competir. Como é que eu vou mostrar isso pro Juiz?”. Ai o Ribeirinho falou: “Vai competir sim. Quando o juiz chegar aqui, você vai com ele ali pro cantinho e mostra só pra ele.” E assim foi feito. A cara que o juiz fez foi hilária, pois com toda certeza, nunca tinha visto uma roupa de esgrima tão bizarra e “chulepa” como aquela.

E aí começaram as lutas.

Resumindo, posso dizer: morríamos feito moscas! Os combates de 3 toques não duravam mais do que alguns segundos, não dava nem prá saída! O pior é que não sabíamos nem o que estava acontecendo. Quando dávamos conta, o gringo já tinha ganhado por 3 x 0. Lá pelas tantas, creio que foi o Ribeirinho que, observando uma luta, percebeu que estavam fazendo ponto na gente tocando na manga da túnica! Sim, porque aquela porra de túnica nunca foi roupa de esgrima, e tinha uma manga tão larga, que ficava pendurada atrás do copo da espada, e era ali que os gringos, sem o menor esforço, estavam fazendo os pontos! A nossa providência foi a de amarrar com fita crepe os punhos da túnica, o que prolongou em alguns segundos a nossa sobrevivência... Aí os gringos, que como eu disse eram muito bons, passaram a fazer pontos tocando nos nossos joelhos, nos pés, onde a gente menos esperava. Enfim, deitaram e rolaram...

Mas aí aconteceu algo interessante: havia um holandês – acho que se chamava Heringa - que era até boa gente. Ele já tinha lutado comigo, e fiquei puto, porque achei que ele estava de sacanagem, rindo de mim. Logicamente ele ganhou. Saí da pista e falei pro resto do time: “Esse fdp desse gringo tá de sacanagem, tá rindo da gente!” Na luta seguinte – acho que foi com o Maximiliano, a mesma coisa: o holandês ficou rindo por trás da máscara. Aí o Araken – que já estava emputecido com aquela porra toda, falou: “Deixa comigo. Esse fdp vai engolir o riso!” Quando chegou a vez do Araken entrar na pista contra o Heringa, nós fomos dar uma força, mas não precisou: o Araken entrou em campo como se fosse para um duelo de vida ou morte, botando fogo pelas ventas!- “Que se danem as regras dessa porra de esporte de viado!

Que se danem a técnica e essas posições abichalhadas! Vou sentar a porrada nesse gringo!”
salto do Urubú
Cara, só vendo: ele foi e baixou o sarrafo mesmo! Nunca se viu, na esgrima, uma luta como aquela. O Araken gritava, pulava, corria pra frente e pra trás, e dava cada espadada na direção do Heringa que a espada até zunia! O gringo, com toda a razão, ficou encagaçado e sem saber o que fazer, e olhava toda hora pro juiz esperando que ele fizesse alguma coisa, tipo interromper a luta. Nesse vacilo, o Araken enfiou-lhe a espada: 1 x 0. Os outros dois toques foram sensacionais! Teve um em que ele correu pra cima do Heringa, parou, e literalmente sambou de um lado para o outro na frente do gringo, correu de novo pra cima dele, deu um pulo e meteu a espada de cima pra baixo, quase na nuca do holandês.

Essa nova técnica inventada pelo Araken foi denominada por nós como o “salto do urubu”! O terceiro toque foi mais gaiato ainda: o Heringa partiu pra cima do Araken, no único arroubo de coragem que teve durante a luta. Ainda sambando, o Araken resolveu recuar, tropeçou e caiu deitado de costas na pista. No embalo que o gringo vinha, ele teve que pular pra não pisar no Araken. Nessa hora o pobre holandês foi espetado de baixo para cima, na região bundo-lortal. Vitória de goleada do Araken: 3 x 0 !!

A partir desse momento, começou a juntar gente para ver as lutas e aprender as novas técnicas recém desenvolvidas pelo Araken – o novo fenômeno da esgrima mundial!

Como não podia deixar de ser, entramos por um cano histórico nesta competição, e sofremos mais uma baixa: eu tive uma distensão muscular que ia da mão direita até o pé esquerdo, passando pela nuca, coluna vertebral, pâncreas, perna, o escambau! Saí praticamente carregado da pista.

Na esgrima realmente não deu: ficamos em último lugar por equipe. Agora a surpresa: verificando o quadro final dos resultados da competição, constatei que o Araken e o Rangel tinham ganhado 9 lutas cada um, o Maximiliano ganhou duas e eu ganhei uma antes de me contundir! Na minha opinião, considerando o treinamento que tivemos, este resultado foi excelente, e comprova nossa capacidade de adaptação e a tremenda inventividade do piloto brasileiro (salto do urubu e outras...). Por incrível que possa parecer, aprendemos a lutar durante a competição!

Nota: o pobre do Heringa não estava rindo da gente. Só depois é que sacamos que ele tinha uma dentadura que não cabia na boca e parecia que estava sempre sorrindo! Boa praça, o Heringa...

Com a equipe desfalcada – o Côrtes com o pé enfaixado e eu me arrastando e mancando das duas pernas – iniciava-se a última etapa do XVIIIo PAIM: a prova de obstáculos + fuga e evasão.

Como disse no início, nós fomos apresentados aos obstáculos naquele momento, e mais uma vez, tudo era só prática e macetes: cada obstáculo tinha uma “melhor maneira” de ser ultrapassado, e nós não conhecíamos nenhuma delas. Assim, o Araken, o Maximiliano e o Rangel entraram na pista e partiram pra cima das paredes, dos pórticos, e do que apareceu pela frente, no peito e na raça! E fizeram a prova, mas com um desgaste físico muito acima do que teriam tido se tivessem um conhecimento prévio, e algum tipo de treinamento dedicado.

Passados os obstáculos, os atletas descansavam um pouco, e já saíam dali mesmo para o circuito de fuga e evasão. Recebiam um mapa e uma bússola, e partiam a cada minuto para um circuito de uns 15 km, passando por florestas, estradas, fazendas, etc. A linha de chegada era numa estação de esqui, que nessa época estava desativada por falta de neve.

No circuito havia uns 3 ou 4 pontos de controle – todos malocados de forma que só fossem encontrados se o competidor desse de cara com eles – onde cada mapa tinha que ser carimbado antes de o corredor seguir para o próximo ponto.

Nós que não estávamos competindo (comissão técnica mais o pessoal do posto médico), assistimos a largada dos competidores e fomos para a tal estação de esqui esperar pela chegada. O percurso feito por quem estava treinado, devia durar uns 30 ou 40 minutos no máximo, e assim foi. No tempo previsto chegaram correndo dois atletas, logicamente um sueco (que acabou ganhando a competição) e um norueguês. Os dois estavam totalmente escornados, com aquela baba branca na boca, cansados prá cacete.
fuga
Foi aí que percebemos que aquela prova era realmente pesada. Esperamos mais um pouco, e chegaram mais uns dois gringos, e logo atrás, quem? O Maximiliano, nosso super atleta, especialista em fuga e evasão, sobrevivência na selva e no mar, que na raça, superando a tudo e a todos, tinha feito um tempo excelente, só um pouquinho menor que o tempo do sueco! Corremos todos para cumprimentá-lo, mas estranhamos um pouco seu estado físico: o Max parecia que tinha chegado de um passeio, tranquilão, estava só um pouco suado...

-“Porra Max, tu fez um puta tempo! Cara, tu vai ganhar a prova! Conta pra gente como é que foi!”

Então o Maximiliano chamou a galera de lado e contou:-“Logo na saída esperei um pouco, porque atrás de mim vinha um sueco, que logicamente devia conhecer o ‘caminho das pedras’. Ele passou “descacetado” e eu corri atrás dele enquanto deu. Mas o cara corria pra cacete, e perdi ele de vista. Esperei mais um pouco e entrei na ala de um turco, mas o turco tava doidão, mais perdido do que eu. Por sorte achei outro sueco que consegui perseguir, e cheguei nos pontos de controle na ala dele. Aí o cara sumiu e eu fiquei para trás. Só recuperei o tempo agora, na última perna. Vi uma bicicleta dando sopa encostada numa casinha de fazenda aqui perto, e mandei ver. Vim pela estrada e cheguei até aqui.

Olhamos uns pros outros, sem acreditar no relato do Max! Cacete, ele tinha feito parte do percurso de bicicleta!!! Mas ele tava certo: não era fuga e evasão de piloto que teoricamente tinha caído em território inimigo? Estava escrito em algum lugar que não podia pegar carona, ou utilizar outros meios? Não. E se não estava escrito porra nenhuma, então o Max estava certo, e os gringos que se danassem... Além do mais, o próprio Danilo Moura, em sua famosa fuga após ser abatido sobre a Itália, também se utilizou de uma bicicleta durante algum tempo...

Um de nós perguntou:

- Max, e a bicicleta, onde está?
- Joguei ela no mato, aqui perto...
- Alguém viu você de bicicleta?
- Acho que não...

Achamos então que o melhor era deixar assim, e ver no que ia dar... E deu... E que merda deu!!

Imaginem a situação: eu falei lá no começo que o PAIM era uma competição patrocinada pelo CISM. Como esta era a última prova, e logo depois ia ser a premiação com entrega de troféus, as autoridades locais – civis militares – estavam todas presentes. Além do mais, o presidente do CISM – autoridade máxima e que ia presidir a cerimônia – também estava lá. E sabem quem era esta autoridade? O Maj. Brig. do Ar Paulo Costa, Veterano de Guerra, integrante do Grupo de Caça na campanha da Itália, e ainda na ativa da FAB!

Vai vendo só no que deu: lá pelas tantas, estávamos nós lá no nosso canto ainda esperando o Araken e o Rangel que não chegavam, quando notamos que o Brigadeiro Paulo Costa estava vindo em nossa direção. Ele era uma pessoa fora de série, e já tinha conversado com a gente várias vezes, numa boa, mas notamos alguma coisa diferente em suas feições... Imediatamente pensamos: deu merda...

O Brig. Paulo Costa chegou tranquilamente e disse:

-“Chegou agora a pouco ali na direção da prova, um fazendeiro que vive aqui perto, dizendo que um sujeito vestido com um macacão de vôo alaranjado tinha levado a bicicleta dele sem pedir autorização...”.
-... (silêncio...)
-“A única equipe que está usando macacão de vôo laranja é a nossa...”
-... (silêncio...).
-“O cara só quer a bicicleta dele de volta...”

Aí o Max falou:
-“Chefe, fui eu que peguei emprestado, e a bicicleta está logo ali, pertinho da linha de chegada. Vamos lá que eu mostro onde está.”

E lá foram caminhando lado a lado, o Brigadeiro, o Max e o fazendeiro, este último feliz da vida por ter recuperado sua viatura...

Se um lance desses ocorresse aqui no Brasil, o cara ia ser sacaneado até o fim da vida, iam fazer musiquinha, estória em quadrinho, o escambau. Mas na Suécia é outra cultura, os caras tem outra visão: fizeram alguns comentários, umas piadas levíssimas, até talvez para não nos causar constrangimentos. Tudo muito “Socila”. Enfim, foram uns lordes...
Araken, 'Bidon' e Vale
Bem, a prova não tinha terminado ainda, e estávamos ficando bastante preocupados, pois três atletas ainda não tinham chegado: o Araken (mais uma vez ele...), o Rangel e um turco (acho que era aquele turco do Max). Pelo tempo da competição – já quase duas horas – dava pra eles terem corrido até Estocolmo e voltado! Havia um helicóptero SAR em alerta, estacionado ao lado da estação, e a direção da prova já tinha autorizado a decolagem para iniciar as buscas dos desaparecidos, quando alguém olhou lá pra cima, e apontou para o topo da montanha, e todos olhamos: dava pra identificar três cabecinhas, lá na casa do cacete, provavelmente no local de onde, no inverno, os esquiadores iniciavam a descida da montanha.

A chegada deles foi emocionante: escornados é pouco, chegaram quase mortos! Quando viram as instalações da estação de esqui e perceberam que estavam salvos, desceram aquela pirambeira correndo, caindo, rolando, e chegaram como se realmente estivessem sendo perseguidos por uma patrulha inimiga com cães ferozes latindo nos calcanhares...

Emocionante!!!

Bem, o episódio da bicicleta acabou sendo levado na brincadeira. Afinal era a nossa primeira competição, desconhecíamos as regras, e nunca ninguém tinha atentado para o fato de que não havia nada escrito dizendo que naquela prova, o atleta não estava autorizado a utilizar nada além do que as suas próprias pernas.

Porém o episódio do Max serviu para alguma coisa, pois o CISM decidiu no ano seguinte reescrever as regras da competição, informando que na prova de fuga e evasão, “não seria permitida a utilização de outros meios de locomoção, como bicicleta, etc...”. Precisou aparecer um brasileiro, para demonstrar para os gringos que, utilizando a criatividade, o buraco pode ser sempre um pouco mais em baixo...

Durante o almoço que se seguiu, discursos e entrega de prêmios, e a noite um baile de despedida encerrou o XVIII PAIM. Depois de mais de dez dias juntos, tenho a certeza de que fizemos um bom ambiente com todas as equipes, e deixamos uma boa impressão (apesar de tudo...).
Peixe, Araken e Maximiliano
Foi uma experiência marcante para todos nós. Era a nossa primeira incursão ao exterior, o primeiro contato com pilotos de outras forças aéreas, mas deu pra perceber que Piloto de Caça é tudo igual, no mundo todo: o mesmo espírito alegre, o mesmo jeitão marrento, enfim aquela coisa “do orgulho de ser Piloto de Caça...”.

No dia seguinte, já estávamos com as passagens marcadas para Lisboa, onde o C-130 estava previsto chegar dali a dois dias, quando recebemos a informação de que o avião tinha sofrido uma pane e não tinha ainda nem saído do Brasil! Assim sendo, não tendo outra alternativa, o Ribeirinho reativou a “Vala do Sangue Tours”, nossa super companhia de turismo! E lá fomos nós para Lisboa, porém via Madrid, onde passamos alguns dias conhecendo a bela capital espanhola.

Finalmente chegamos a Portugal, mas já quase sem grana, pois o planejamento inicial era para ficar uns 20 dias e já estávamos há quase um mês fora! Começamos a ficar preocupados com a demora do avião, pois o padrão dos hotéis estava cada vez mais rasteiro, e já estávamos rachando misto-quente nas refeições. Finalmente a notícia veio: o C-130 ia chegar a Lisboa no dia 27 de Setembro, com decolagem prevista para o Brasil no dia seguinte. E assim ocorreu: deixamos Portugal no dia 28 logo cedo, chegando a Recife nesta mesma noite. De volta a casa, de volta ao trabalho, e muitas estórias para contar.

Mas não acaba aí: nós fomos os primeiros, que em condições totalmente adversas e sem o mínimo de conhecimento ou treinamento específico dessa competição, encaramos a missão e creio que conseguimos trazer algum conhecimento para as equipes que se seguiram. A cada competição os atletas da FAB foram se aprimorando, conhecendo melhor a competição, e principalmente treinando com antecedência.

Como conseqüência, como não podia deixar de ser, melhores resultados foram obtidos. Consultando o site do CISM, verifiquei que em 2006 a equipe brasileira foi campeã da competição, tendo ficado em segundo lugar nos dois nos seguintes, 2007 e 2008. Bons resultados também foram obtidos nas décadas de 80 e 90, mas tudo começou conosco, lá atrás, na Suécia, em 1971.

Demorou, mas a estória finalmente saiu, quase 40 anos depois...

  

Cel.Av.R1. Reinaldo Peixe Lima
Piloto de Caça - Turma de 1948 


 

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(77-1) O primeiro P.A.I.M.
(77-2) "Marras" antigas da antiga Caça...

 

 

 "MARRAS" ANTIGAS DA ANTIGA CAÇA...
(Estória 77-2)

 

Falar em coisas antigas, só faz sentido para os Caçadores de madeixas prateadas com “poeira de nuvem”. Entretanto, isso talvez também seja uma “alimentação providencial” para o ego dos antigões... A cada Reunião da Caça e a cada contato com a “jeunesse dorè” das nossas Unidades, mais estímulo surge para contar “coisas que se passaram”, com a finalidade de transmitir alguns hábitos da antiga Caça e que, repentinamente, foram abolidos para nossa tristeza. Se não vejamos:

As estrelas das horas de Caça.

Pommot
Aqui fomos traídos pelas outras Aviações: as estrelas das cem horas (cada) não nos foi imposta por ninguém. Nós todos – jubilosamente – fizemos apor ao nosso macacão, a representação do esforço inaudito (que ainda existe) para registrar nossas minguadas (e sofridas) horas de vôo a bordo de nossas máquinas de guerra. E cumprindo missão: nunca houve “bateção de lata” na Caça. Cumpríamos missão... E as estrelas eram, além de nosso regozijo, um “debochar” daqueles que cruzavam os ares com o piloto automático ligado e devorando um bom lanche” (que nem sempre era o do Rancho)... Concomitantemente com a leitura do jornal do dia! Arrêgo!

Impossível esquecer a “ximboca das cem horas”, quando cada um de nós pespegava sua primeira e solitária estrelinha no peito... Haja “beer”!

Soube que, um dia, uma autoridade qualquer invocou o fato que, com as estrelas no peito e em caso de ser abatido em território inimigo, as estrelas já seriam uma revelação de “segredo de guerra” e daria a conhecer ao inimigo, a experiência do combatente! E descosturamos as nossas estrelas sem mugir nem tugir...

Pena que, na época, o Fleury (filho) não tenha mostrado como abolir esses “segredos” usando o velcro, mantendo as (35) estrelas no lugar. E mantendo a “marra”: nada revelando ao inimigo!!!

Mais curioso: as outras Aviações as instituíram: e nós as deletamos!!!

Faca na bota

Inesquecível: uma faca (cada um com seu modelo) atrelada ao “boot” de vôo. Era marca de agressividade. E de utilidade... Dizia a Norma Padrão de Ação (NPA) que dita faca serviria para: cortar as cordas do paraquedas quando as ditas cujas se enredassem “esganando” o aviador ou quando o paraquedas encharutasse. Para furar o papo-amarelo quando o dito cujo resolvesse inflar em condições anormais (também) esganando o titular. Para abrir lata de ração, cortar graveto (ou galho maior) para fazer fogueira ou armar a tenda. Matar bicho do mato, etc, etc ou então cometer suicídio (in extremis) dizia Berthier... Com o assento de ejeção, muitas coisas desse tipo foram eliminadas e, até, a pistola 45, que ia pendurada na axila do aviador como armamento de defesa individual, desapareceu...
Pereira 'Macuco'
Pois bem: a modernidade foi nos cerceando dos “meios tradicionais” de “quebrar galho” – no "matter what" – e, até onde se saiba, a sobrevivência no mar ou na selva ficou restrita àquilo que os “planejadores de laboratório” entendem que é útil possuir no kit... Nada nos perguntaram...

Como conheço várias histórias que envolvem a “faca na bota” (ou até na boca) e sua imensa utilidade, e sou compelido a acreditar que o hábito antigo deve prevalecer. Nem que seja por que é uma “marra antiga”... da antiga Caça: “Noblesse oblige”! Ou para seguir a sugestão do Berthier...

E, pergunto eu (da antiga Caça): e a bolsa de fuga?...

Penduricalhos no macacão (homenagem a Antonio Henrique)

Inserido no contexto das “marras antigas”, seguramente a mais “marrenta” surgiu, eis que senão quando Antonio Henrique adentrou à Sala de Briefing do 1o Esquadrão do 1o Gp.Av.Ca. envergando seu macacão de vôo enfeitado com diversos e variados penduricalhos: uma bonequinha, um anel, uma estrelinha e por aí vai... Evidentemente, os Veteranos de Guerra (então os Cmt Esqda e Instrutores) se mobilizaram contra a ruptura da Norma (havia NPA para tudo!)!

Conclamado para justificar-se, Antonio Henrique – então solteiro inveterado e disputado pelas “moças” a zona do tráfego - saiu-se com essa:

- cada peça que levo sobre meu coração de aviador representa uma conquista amorosa bem sucedida...

E colou...!

  

Maj.Brig. Ar Ref. Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma de 1948


Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(77-1) O primeiro P.A.I.M.
(77-2) "Marras" antigas da antiga Caça...

 

Temos 63 visitantes e Nenhum membro online