Pilotos após a missão  13kbytes

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA
(Fascículo no 79)





Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(79-1) Como o Velho Peba passou (de novo) a perna no Tinhoso
(79-2) O Soldado 

 

 

 DE COMO O VELHO PEBA PASSOU A PERNA (NOVAMENTE) NO TINHOSO
(Edição Histórica - 33 anos depois)
(Estória 79-1)


 

Trata o presente Cordel de uma continuação, 33 anos depois, dos primeiros versos alusivos a um fato verídico ocorrido em setembro de 1979, em Fortaleza, e que deu origem à obra “DE COMO O VELHO PEBA PASSOU A PERNA NO TINHOSO”.

Tal Literatura foi publicada pela ABRAPC, como o fascículo No 23-2 da HISTÓRIA INFORMAL DA CAÇA.

Seus autores na Sorbonne da Caça em 1979, Bastos (Cepo), Kauffmann (KAU) e Robinson (desenho da capa), numa justa homenagem ao valoroso herói VELHO PEBA (Paes e Barros, que acaba de lograr a sua merecida indicação à quarta estrela), num bravíssimo esforço de buscar novamente a inspiração, embrenharam-se neste projeto desafiador de produzir mais um episódio desta SAGA, para que as novas gerações de Pilotos de Caça possam saber que os valores consagrados pelo VELHO PEBA, na epopéia de IGUATU, ainda estão presentes e mais vivos do que nunca.

Menção especial deve ser feita, a titulo de justiça histórica, à figura do Cel. Bukowitz, evocado no primeiro cordel como “São Buviques”, por mais uma vez dar ouvidos e abrigo a essas criações, de duvidoso valor artístico, mas que sem dúvida enriquecem a história informal da Caça e dos Caçadores.


DE COMO O VELHO PEBA PASSOU (NOVAMENTE) A PERNA NO TIONHOSO
(Edição Histórica - 33 Anos Depois)

Quem duvida dessa história
E acha que não foi assim
Que não zombe da memória
Nem fique mangando de mim.

Quem quiser se achar moderno
Vá comprar novo papel
Escreva uma carta ao inferno
E pergunte por D. Miguel.

Terror de todo o sertão
De Aquiraz a Caicó
Peba nele deu um jeito
E mandou pros cafundó.
porco espinho com aguarrás
Depois de acabar co'o Demo
Há trinta anos atrás
Peba comeu porco-espinho
brindando com aguarrás.

Saiu Mirage voando,
Estreifou bala em chalé!
Seu cachimbo fumegando,
Voou mais que buscapé.
Tigre virou Camões
Enquanto o mundo girava
A Caça caçava os barões
O Mirage saía de linha
E o Tigre virava Camões.

Morreu a Maria Manete
E o pai do Bacurau
Mais três netos do Twist
E um cão chamado Lalau.
Xavante não é mais avião
Pilotos se aposentaram
Xavante não é mais avião
O Pacau voa na selva
Foi se embora do sertão...
dando nó em pingo d'água
Servindo até nos States
No meio desse roteiro
Dando nó em pingo d'água
Peba virou Brigadeiro.

Mas atrás do bem vem o mal,
Atrás da honra a torpeza
E D. Miguel retornou,
Sonhando com grande riqueza.

Na forma de um deputado
De gravata e boa beca
D. Miguel ovacionado
Trouxe dólar na cueca.

D. Miguel é dado ao ócio
Teimoso e namorador
Bom de lábia na mutreta
Falso, grave e enganador.

Firmando logo o contexto,
Voltou a reinar no sertão
Muito voto de cabresto
E o resto de assombração.
caçador samurai
Foi aí que um japonês,
Samurai e caçador
Se lembrou do Velho Peba
Pra enfrentar esse horror.
pro Recife la foi Peba
No sertão tem tabuleiro
Lá no mato tem cipó
Pro Recife lá foi Peba
Que não dá ponto sem nó.

Mal chegando à Iguatu,
Declamou com sol a pino:
“Faço medo ao capeta
Como caveira a menino!”

“Medo o diabo não tem!”
Disse Antonio Conselheiro.
“D. Miguel é importante,
Deputado e mensaleiro.”

Mas Peba disse: "Estou pronto!"
Com seu assistente partiu
Nem bem chegando ao agreste,
Torceu a cara e cuspiu.
sentou na caveira de burro
Sentou na caveira de um burro,
Sacou o tabaco sorrindo
E com a cara velha de sempre
Atochou fumo ao cachimbo.

Pois gritou a D. Miguel:
"Pegue as armas que quiser!
Se tiver medinho traga
Seu cumpadre Lucifér!"

O diabo se arretou
Para entrar em discussão
Peba saltou da caveira
E ficou de prontidão.

De pergunta valia tudo:
Música à filosofia
Direito a cinema mudo
História à biologia.

O diabo botou boneco
E fez ares de excelência
Como quem tivesse vindo
Das entranhas da ciência

Mas Peba nada temia
Em toda a sua vivência,
Pois sendo piloto de caça
Tinha muita competência

O desafio foi lançado
Como da primeira vez
Peba faria as perguntas
Que eram no máximo três.

Se ficasse sem resposta
Uma pergunta somente
O capeta prometia
Nunca mais virar vivente.

Mas caso Peba perdesse
A coisa agora era séria:
O capeta queria de prêmio
A alma da Força Aérea!

"D. Miguel diga o que é",
Peba mandou a primeira:
"Nesse mundo de meu Deus,
Que qui avoa mais ligeira?"

O capeta sequer vacilou:
"A resposta é o pensamento,
Que vai ao cabo do mundo,
Na metade de um momento!"

Peba baixou o olhar
E ficou injuriado
Não cabia contestar
Pois já estava derrotado!
soltou um traque azulado
O assistente pegou um cajado
E rebolou em cima do cão
Que soltou um traque azulado
Como em boca de fogão.

Um padre achou engraçado
Mas assustou-se um pagão
Incendiou-se o mercado
E veio abaixo o galpão.

Peba foi buscar na Bíblia
Fonte de inspiração
Que lhe trouxesse a pergunta
Sem resposta para o cão.

"Coisa ruim, qual foi o home
Que por dois ventres passou?"
D. Miguel falou: "Foi Jonas,
Que uma baleia o tragou!"

O assistente ao ouvir
Tal resposta da escritura
Assustado largou Peba,
Sumindo na noite escura.

A jagunçada do norte
Celebrava em desatino
“Peba é fraco, o Demo é forte
Um é home, outro é menino!”

D. Miguel assobiava,
Saltitando de contente
Arriou calça e camisa
Ficou de ceroula somente.
japonês intrigado
Peba mordeu o cachimbo
Como da primeira vez
E lembrou de uma pergunta
Que intrigava o japonês...
qual avião
"De hoje o mistério não passa,
Seu capeta venha e fale,
Qual vai ser o novo caça:
Gripen, Hornet ou Rafale?"

O cão se tremeu, engelhando
E até no Crato se ouviu
Quando se amaldiçoando,
Num clarão ele explodiu.

Ficaram os jagunço e os crente
Todos muito impressionados
Pois Peba venceu novamente
Um diabo dos mais conjurados
A velhice é mãe da idade
A Presidenta ao saber
Com um ar de gravidade,
Meditando concluiu:
A velhice é mãe da idade!

Quanto à compra do avião:
Ainda não decidiu.
Mas sabe que a Força Aérea
É a defesa do Brasil

Lembrou-se de Nero Moura:
"O resto tudo é fumaça
De zero até o infinito
Quem comanda é a Caça!"
Presidenta
Isso era certo e era fato,
Passou um tempo pensando,
E então decretou no ato:
É Peba no Alto Comando!!!

Márcio Bastos Moreira
Piloto de Caça - Turma de 1977
e
Flávio Catoira Kauffman
Piloto de Caça - Turma de 1978


 Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(79-1) Como o Velho Peba passou (de novo) a perna no Tinhoso
(79-2) O Soldado

 

 

 O SOLDADO
(Estória 79-2)

  

Artigo feito há muitos “milênios” atrás, num dia de tristeza...

Estávamos na aula de ciências naturais. O professor Maia demonstrava as qualidades do fêmur na sustentação do esqueleto; prestávamos muita atenção, e como era de costume, nos divertíamos. De repente começamos a ouvir aquele barulho apavorante aumentar cada vez mais e mais. Todos pararam! Os olhos se voltaram para a janela e o “velho” professor foi o primeiro a levantar. A “macacada” foi atrás e conseguimos ver aquela coisa impressionante, imponente, rápida, passar pelo Colégio Andrews de Botafogo. Era um avião a jato da FAB, aquele que havíamos comprado, ou melhor, trocado por algodão ou coisa parecida, com os ingleses.

A aula “virou”. Passamos a fazer indagações sobre o aparelho e o “velho” foi o primeiro a “pagar o mistério” dizendo inclusive, que o seu filho era cadete e iria voar brevemente aquele avião, o Caça Meteor.

Gloster TF-7 4301 sobre o Rio


Onze longos e penosos anos depois, eu estava ao seu lado, pronto para pilotá-lo. Recordei todo o esforço que custou aquele momento, recordei o meu primo-irmão que você, tenho certeza, sem culpa, levou. Tive medo, tive alegria, tive coragem e, nos quarenta e cinco minutos que estivemos juntos, reparei que havia nascido para você. Eu estava realizado...

Como todo jovem daquela época do Andrews, eu queria voá-lo e consegui. O Pato (Julio Vasquez) e eu. Que pena você selecionar tanto os homens e não dar esta alegria enorme a todos! Por você passou uma classe diferente de brasileiros, você os educou, aperfeiçoou e fez do caçador uma raça diferente e confiante.

Tivemos muitas alegrias juntos: aqueles vôos de demonstração em que eu ia lá na ponta dos “nove” tentando botar a sua “bolinha” fora do centro; as lições para os “novinhos” em que demonstrávamos que você não precisava do Rolls-Royce para voar e, sem as duas “caldeiras”, vínhamos lá de Resende até Santa Cruz, e você ganhava mais um amante. Às vezes nós tremíamos, era a instrução de monomotor, não havia perna que não tremesse!

linha de F-8 em Santa CruzNo começo você ainda não voava instrumento. Besteira ! Radio-compasso (ADF) é auxílio, você provou isto. Botaram um em você só para poder “preencher o plano”, mas lá em cima você congelava o ponteiro e obrigava a gente a voar “real” (de nobreza e não de verdadeiro). Isto mesmo, você não corrompia o seu piloto, dando a ele boa vida. A alegria que nos dava era cobrada, inclusive naquelas penetrações em que não havia desembaçador que desse jeito. Mas o ”problema” sempre terminava de “canopy” aberto e você dando “trote” na gente. Aquelas viagens a Salvador, em que você parecia uma Branca de Neve, todo coberto de gelo, mas sem diminuir a velocidade nem obstruir a turbina, como era comum naquele “novinho” francês metido à besta que os “bombês” haviam comprado, se lembra?

Como todos nós, você tinha um mal. Era fazer com que o piloto pensasse que você tinha vida e às vezes este erro os tirava de nosso convívio. Fazendo uma pequena paródia: “só o avião de combate é o túmulo digno de um piloto de caça”. Você fez muitos Homens e Heróis, todos com “Hotel” maiúsculo.

  Íamos muito bem, mas você começou a envelhecer. Os “comerciais” já conseguiam correr mais do que você. Aquilo doía na gente, principalmente quando o chamavam de “jatinho”. Era ignorância deles, mas doía...

Começaram a tomar cuidado com você. “Os gringos” instalaram aquele aparelhinho que media a fadiga e se apavoraram quando viram você suportar os “12 G” que o Luzardo e eu puxamos. Desculpe-nos, você não aparentava a idade que tinha.Desde Santos-Dumont que os aviadores são supersticiosos e, para confirmar, naquela sexta-feira treze de agosto de 1966, veio o “rádio” dizendo para você parar de voar...

"Sexta-fêra treze, nóis num póde nem lembrá...
veio um rádio do Parque de Marte,
a D.M. mando inspecioná,

Peguemo nossos badulaque,
e fumo pro meio do hangá
assisti aquela inspeção!

Ai que tristeza...
que nóis sintia...
rachadura aparecia
bem na seção centrá

Majó Nunes quis gritá,
lá di longi eu falei:
-os hômi tá qua razão,
nóis arranja outro avião!

Não nos conformemo
quando o Frota falô:
- nada é eterno,
e o GLOSTER SE ACABÔ...(*)"

(*) paródia da música "Saudosa Maloca" de Adoniran Barbosa

Acabou uma vírgula! Fizeram umas operações em você, um regime nas missões, e você ainda fez vibrar muita gente!

Passaram-se mais quatro anos. Quis o destino que viesse acontecer na minha mão. Fiquei com os olhos cheios d’água, um pedaço enorme de mim morreu com você. Hoje aqui no Esquadrão de Suprimento de Santa Cruz eu sou o responsável por eles meterem o machado em você, para fazer sucata e vendê-lo a peso. Fraquejei, mandei outro oficial vigiá-los, eu não poderia agüentar tamanha falta de respeito. Todos os seus semelhantes deviam ser aposentados como monumento, o espaço que vocês ocupavam no nosso pátio não era muito, e o valor que pagaram pelo seu alumínio, ridículo!

Ficaram somente as boas recordações; o sonho de criança que vi realizado, e mais, à semelhança da Bandeira que é queimada no dia 19 de novembro, saber que você acabou no dia vinte e cinco de agosto de mil novecentos e setenta...

O DIA DO SOLDADO!

Gloster F-8 do 'Segundão'
 

 Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(79-1) Como o Velho Peba passou (de novo) a perna no Tinhoso
(79-2) O Soldado 
 

 

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