Pilotos após a missão

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Fascículo no 80)





Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(80-1) Pérolas do "Sol"....
(80-2) Ainda reminiscências do 1o PAIM
(80-3) Ainda PAIM, uma demonstração de élan  

  

 PÉROLAS DO SOL...
(ouvidas no Clube de Aeronáutica da Barra - Rio)
(Estória 80-1)

 

Captadas sob a barraca dos Ultraleves no Clube de Aeronáutica, Barra, Rio, (onde se reúnem “provectos Caçadores” todos os fins de semana, relembrando sua mocidade à época dos Esquadrões equipados com os P-47 e F-8), são uma rica coleção de acontecimentos, reais e pitorescos, protagonizados por BERTHIER FIGUEIREDO PRATES (o SOL), desde sua época de Comandante da d’OUROS do 1o /1o GpAvCa, passando pelo Comando do 1o/4o GAV (SORBONNE) em FZ e após, pelo Comando do Grupo JAMBOCK, à beira da vala de Itá, em S.C. Aqui vão algumas dessas “pérolas” recolhidas, junto com os goles de caipirinha e relembradas pelos ex-comandados de BERTHIER...

1- FREEZE! Para aqui!!!

O 1o Esquadrão do 1o Grupo de Caça estava deslocado em Cumbica (CB) para as manobras do Curso de Tática Aérea (depois EAOAR). A época era dos anos 50. Eram 16 máquinas P-47-D40 estacionadas ao longo da paralela da pista de concreto (única), dando “sopa” para um abalroamento repentino por quem decolava ou pousava. Não havia estacionamento suficiente! Para cumprir as missões de alerta no solo, havia sempre um par de P- 47 estacionado na cabeceira da pista. Ao lado, uma barraca verde-oliva modesta, duas banquetas fajutas, dois pilotos equipados e prontos para decolar e uma maldita sirene que, quando soava, era ouvida até em Guarulhos!

A dupla de pilotos ficava no “papo besta”, matando o tempo e de olho (ou ouvido) na dita jurumela sonante. Que era pintada de vermelho. “Eis que senão quando”... a dita sirene esbravejava e lá iam os dois aviadores, em desabalada carreira, guarnecer as máquinas, dar partida, tomar posição na pista e decolar por elemento o mais rápido possível (valendo apostas), e entrar em contato imediato, após o "despegue", com ARANHA (L/D do ECA também deslocado para CB). Não é preciso enfatizar que havia um campeonato para ver quais os elementos atendiam mais rapidamente ao berro da sirene...

Um daqueles dias, estavam na posição de alerta o SOL e seu ala. Toca a dita sirene, ambos os aviadores se agitam, galgam as pedaleiras e as asas. Guarnecem os postos de pilotagem e o SOL dá partida em primeiro lugar e inicia o táxi, deixando o pobre ala esbravejando e suando até entrar na posição para a decolagem.

E era sempre assim: o SOL dava a partida antes, taxiava antes e o ala que se virasse! Essa cena durou quase toda a manobra: e o ala fumegando. Até que um dia, perdendo a cerimônia questionou: “Pôxa Berthier, faço todo o "checklist" a mais de mil, já ando treinando até partida mental para nada esquecer e nunca consigo te acompanhar. Sempre sobro!...

”Com aquele seu sorriso maroto, BERTHIER retruca: “repete na minha frente, o procedimento memorizado de partida”. O ala começa a debulhar passo a passo, o procedimento totalmente decorado e sem erros: “adentro a nacele, prendo o paraquedas, recebo os suspensórios de ombro do mecânico e ajusto o cinto...” Neste momento BERTHIER berra “PARA AQUI”! “Quem disse que é para amarrar os cintos???”.Ele decolava desamarrado...

2- CALA a BOCA!

A Esqda de P-47 havia decolado de Fortaleza (FZ) para uma missão rotineira de instrução. Àquela época, os P-47 já se encontravam “aos trapos”, e não havia surtida que não desse sirene de emergência. O pavor dominava a “galera”. Principalmente os anacreontes. Decolagem por elementos, junta a Esquadrilha e proa de subida.

Repentinamente, soa no rádio:

-“Ás d’OUROS de DOIS d’OUROS”
– “Prossiga DOIS”
– “Um P-47 está largando fumaça preta”
– “DOIS d’OUROS de Ás d’OUROS, o avião com fumaça é o SEU ou o MEU?
– “Ás d’OUROS o avião com fumaça é o SEU!
– “DOIS d’OUROS de Ás d’OUROS é o meu? Então CALA A BOCA!”
 
3- FAZ de DORSO!

Berthier comandava a SORBONNE, JOÃO LUIZ era Operações: dupla endiabrada. Mas não eram os únicos “quentes”: havia o SOARES AMAZONAS. E era costumeiro: quando o SOARES retornava da missão, era rasante pra todo o lado levantando poeira em passagem super-baixa sobre a pista!

Berthier ficava incomodado! Era "estrela" pra cá, reprimenda pra lá e o SOARES não se emendava: tome de passagem “cortando grama!” Um dia, Berthier encanzinou: “ô SOARES vê se para de fazer essas passagens de m... que qualquer um faz! Faz isso de dorso!!!

E o SOARES parou de fazer...

4- ABRE!

O “tempo” era a manobra do Curso de Tática Aérea (CTA/EAOAR) e o 1o /1o GpAvCa lá estava com suas quatro esquadrilhas. A d’OUROS evidentemente, também. O acontecimento já foi relatado em outros dos nossos Boletins e o título foi: “o pega pra capar em Cumbica”, muito bem descrito e detalhado pelo Cel Av Ivan Janvrot Miranda, da Turma de Aspirantes de 1945.

Porém cabe acrescentar, pois, naquele agitado dia de apavorante missão, nós estávamos na ala de BERTHIER. Havíamos decolado com 12 aviões após o acionamento do alerta para intervir em um ataque “em massa” da Força Aérea VERMELHA (inimiga). Tudo começou quando alguém esgoelou na frequência tática: “BUG às nove baixo!”

Era uma enorme formação de aeronaves C-47, voando na proa de Cumbica, simulando um grupamento de bombardeiros em missão de ataque de surpresa ao Quartel General do Comando AZUL (CB). O Esquadrão Jambock abriu em formação de Ataque no 2, e o líder da formatura comandou os passes de tiro (simulado) para neutralizar os “invasores”. Só um detalhe: os P-47 estavam a 15.000 pés e a formatura de C-47 estava no rasante, ralando as árvores do Vale do Paraíba!

Mas, quem se importaria com isso? Todos, menos BERTHIER... Com um sinal de mão, ordenou que o ala ficasse mais aberto no Ataque no 2 e botou o narigão para baixo e embalou até onde dava... E chegou à “distância de tiro” dos “bombardeiros”... O ala, “triscando os olhares de soslaio”, se deu conta que, entre o chão e a formatura de C-47, não caberiam os dois P-47.

Mesmo assim, BERTHIER não refrescou: pôs um C-47 no seu visor e seja o que Deus quiser! Nesse “olha pro líder, olha pro alvo, olha pro chão”, lá pelas tantas não ia dar para caber 3 aviões naquele espaçozinho disponível.

E foi nessa hora que o SOL, certamente com aquele sorrisozinho maroto sob a máscara, berrou: ABRE! E eu abri... por sorte!! E passei entre (?) o C-47 e o solo pátrio “ralando o c... nas ostras”. Na crítica do voo, BERTHIER simplesmente complementou: “TU TÁ SAFO, HEIN?

5- NO DIA FATAL

A Esquadrilha de PAULO PINTO fazia o "briefing" na Seção de Equipamento de Voo do 1o /1o GpAvCa. Tudo normal. Repentinamente, adentra o ambiente, o Cmt do Grupo, BERTHIER FIGUEIREDO PRATES: ia envergar o macacão para um voo solo de F-8 (experiência?). Ao se deparar com PAULO PINTO e seus alas, e com sua mordacidade normal, assim como quem não quer nada, soltou uma frase:

“Atenção, uma águia está solta nos ares!...” Já dava para imaginar o que viria acontecer. Foi seu último pronunciamento, ouvido pelos seus comandados.

Após, um pega pra capar com Paulo Pinto, a Serra do Ribeirão das Lages o acolheu em complexo mortal: ELE partiu...

  

Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma de 1948

Nota:
colaboraram com as pérolas: Carlos Baptista, Ivan Frota, Hans Nordhaus, Sérgio Camisão e João Luiz Fonseca

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(80-1) Pérolas do "Sol"....
(80-2) Ainda reminiscências do 1o PAIM
(80-3) Ainda PAIM, uma demonstração de élan

 AINDA, REMINISCÊNCIAS DO PRIMEIRO PAIM
(Estória 80-2)

 

Muito boa a história do Peixe(consultar Estória 77-1).

Eu já a conhecia, mas agora os detalhes ficaram mais claros na memória. Depois desse, a turma de Barbacena 1965 dominou o PAIM por muitos anos. Em 1973 na Espanha, em 1975 na Turquia, em 1977 na Suécia e em 1978 no Brasil a equipe foi toda formada por 65... (Chicão, Hortênsio, Passos, Gilmar, Maximiliano e eu). Recebemos orientação da Equipe Sueca e todo o apoio do Comissão de Desportos da Aeronáutica (CDA) para treinarmos todos os esportes das provas. O treino era bem sério e desgastante, e tínhamos que nos dedicar o ano todo com afinco. Acabamos aprendendo bem as cinco provas e os resultados começaram a aparecer rapidamente.

Em 1975 o GiImar, que sempre correu feito uma cabrita...(rss) deu um show na Turquia. A última prova, a tal de fuga e evasão, era composta por duas partes. A primeira era a pista de obstáculos, onde o Gilmar era sempre o primeiro, e a segunda parte era uma corrida de orientação, no meio do mato, com a bússola e o mapa. O resultado final era o somatório dos pontos das duas provas. Fazia-se a pista de obstáculo (onde terminávamos quase mortos de cansados), e depois, com um intervalo de 3 minutos, era dada a largada para a prova de orientação (uns 15 km no mato).

O Gilmar foi disparado o primeiro na prova de obstáculos mas, como todos nós, era fraco na orientação, apesar de correr muito. Ao sair para a orientação, correu 100 metros e se escondeu atrás de uma árvore. Em seguida, pelo sorteio, e por sorte nossa, vinha um Turco, que naturalmente sabia de antemão o caminho. O Gilmar colou nesse turco, que acabou tirando o primeiro lugar na orientação. O Gilmar, logo atrás tirou o segundo lugar, que somando os pontos da prova de obstáculo acabou ficando em primeiro no geral, passando o tal turco que fora mal na prova de obstáculos.

Atletas do PAIM'O Chicão era sempre o campeão e recordista da prova de natação, em todos os PAIM de que participou. Na Suécia, em 1977 disputamos pau a pau o segundo lugar, que acabamos perdendo por muito pouco. No Brasil, em 1978 conseguimos ficar em segundo lugar. A Suécia sempre deu um banho no PAIM, não só em resultados como no exemplo de organização e de comportamento. Em todos os lugares em que competimos o anfitrião da casa sempre sabia o caminho da prova de orientação (o que naturalmente era errado)... Na Suécia isso não acontecia de jeito nenhum.

O Brasil sempre recebeu uma atenção toda especial da equipe sueca. Todos os anos eles convidavam nossa equipe para treinarmos juntos com eles. E nessa oportunidade nos passavam todos os macetes das provas. Os técnicos suecos nos tratavam com o mesmo cuidado que tratavam os próprios atletas, tanto nos treinos como nas competições, ajudando nos equipamentos e orientações. Em 1978 a prova foi feita pela primeira vez no Brasil. Todas as delegações ficaram hospedadas num hotel 5 estrelas em Copacabana, do qual não me recordo agora o nome. A única exceção foi a nossa equipe.

O CDA queria que nossa equipe fosse a primeira de qualquer jeito, e assim, ficamos concentrados nos Afonsos... com direito a todo o “conforto” do alojamento (pernilongos, comida do rancho, etc.). Nossa equipe ficou revoltada pela diferença de tratamento, então fomos reclamar para o chefe da delegação. Para quebrar o nosso galho naquele dia nos mandaram um ônibus à tardinha. Pensamos que íamos para Copacabana... doce engano... o ônibus foi para a Av. Brasil e entrou num Motel!!!!!!

Lá tinha reservas para um quarto para cada um de nós... dormimos no Motel, cama redonda, espelho no teto e tudo mais.. cada um sozinho no quarto. Na hora do jantar nos reunimos num ambiente... (motel não tem restaurante...) para jantarmos. Ali estava também um casal de hóspedes, todo amoroso... que não entendeu nada da nossa presença. No dia seguinte voltamos ao velho Campo dos Afonsos... e sem direito de reclamar de nada mais...

O resultado, como falei acima, foi bom, pois pela primeira vez conseguimos o segundo lugar, bem pertinho do primeiro, que obviamente foi a Suécia, só para variar. Depois de 1978 todos nós aposentamos as chuteiras, com uma única exceção: o único 65 que permaneceu foi o Chicão... que continuou ganhando as provas de natação por muitos anos, e marcando boas pontuações nas outras provas. A experiência ganha nos PAIM foi trazida para as competições da Aviação de Caça, e até hoje as Unidades disputam entre si, de modo parecido ao PAIM.

Forte abraço,

  

 Mark de Matos
Piloto de Caça - Turma de 1971 
 

Nota:
Chicão – Cel Francisco da Costa Silva Júnior - Piloto de Caça – Turma 1971
Hortênsio – Maj Brig R1 Paulo Hortêncio Albuquerque e LIma - Piloto de Caça – Turma 1971 
Passos – Cel R1 Flávio de Carvalho Passos - Piloto de Caça – Turma 1971 
Gilmar – Cel R1 Gilmar Barbosa Nunes - Piloto de Caça – Turma 1971
Maximiliano – Cel R1 Almir Cioni Maximiliano - Piloto da Aviação Embarcada

 Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(80-1) Pérolas do "Sol"....
(80-2) Ainda reminiscências do 1o PAIM
(80-3) Ainda PAIM, uma demonstração de élan

  

 

 AINDA PAIM... UMA DEMONSTRAÇÃO DE ÉLAN
(Estória 80-3)

 

Pentatlo Aeronáutico Internacional Militar (PAIM), eis aí um nome que nunca entendi direito! Como pode ser chamada de Pentatlo uma prova que consiste de:

1) Basquete Utilitário;
2) Tiro à Silhueta;
3) Esgrima;
4) Natação Utilitária;
5) Pista de Obstáculos; e 
 
6) Corrida de Orientação?

Nas minhas contas são seis provas e deveria ser um Hexatlo! Além disso, porque Aeronáutico? A serem verdades as explicaçõe confusas que já ouvi para essa dúvida, com o acréscimo de uma prova de voo, a sigla deveria ser HAIM (Heptatlo...). Entretanto, dúvidas à parte, não há dúvida de que o PAIM, antes da profissionalização dos nossos atletas aeronáuticos para permitir que competíssemos adequadamente na prova internacional, bem-sucedida a ponto de já termos sido campeões mundiais, era realmente uma competição divertida, aguerrida e que estimulava o “sprit de corps”, na melhor tradição das Unidades de “Pursuit”.

Infelizmente, não participei dos primórdios dessa competição, que já foram e têm sido objeto de inúmeras gargalhadas nas reuniões e chopadas, igualmente inúmeras, da Caça e que serão provavelmente o fulcro de diversos artigos para a ABRA-PC. Tive a sorte de participar em seis PAIM, na fase nacional, e pude testemunhar o empenho dos competidores na preparação para as diversas provas: assistindo a filmes do Falcão Negro para a Esgrima; jogando “porrinha” para o Basquete; participando de libações para a Natação; treinando truco e sueca para eventualidades da Orientação; e jogando video-games para o Tiro à Silhueta, em um esforço invejável e digno de comendas.

Chicão depois da corrida'Tornei-me “atleta” do PAIM somente nos idos de 1979, quando entrei no 1o Grupo de Caça. Assim como eu, outros, dignos do Barão Pierre de Coubertin, também foram treinados pelo Chicão, tais como: o Barriga, o Pizzo, o Gongudo, etc. Naquela época, creio que somente o Ronald, dadas as especificidades de sua infância atlética (soltando pipa de cima para baixo, jogando boliche no corredor, etc.), foi decretado apto para qualquer outra coisa. Com tão incomum e versátil plêiade de atletas, não era de se estranhar as performances excepcionais, sempre dignas de nota.É verdadeiramente impossível esquecer alguns momentos memoráveis para o esporte nacional, tais como quando:

  

- o Pizzo, semi-afogado e desesperadamente agarrado na jangada da Natação Utilitária, explicou para o Hortênsio, que o incentivava com gritos de “- É o Primeirão!”, o que era de fato o Primeirão, entre haustos de tentativas de respiração;

- o Picchi, verdade seja dita um corredor de elite e exímio saltador tríplice, perdido na Corrida de Orientação, mas, com toda a dignidade e com os pontos já zerados, continuando a correr, escondendo-se do helicóptero que foi mandado para resgatar os atrasados, só conseguindo voltar no final da tarde;

- o Salá, que optou por escalar uma montanha ao invés de circundá-la pela estrada, e que passou todo o tempo da prova nessa empreitada digna de um Sherpa no monte Everest, zerando os pontos na Corrida de Orientação;

- o Sebastião (NMO), que fez a Pista de Obstáculos de Canoas com pneumonia dupla e conseguiu o feito inédito de passar a linha de chegada desmaiado, sendo amparado por mim e pelo Barriga;- o Arley, na Esgrima, com o braço totalmente esticado e sem qualquer indício de cansaço ou gota de suor, na sua trigésima quarta luta do dia, avançando inexoravelmente em direção ao seu oponente, que mal conseguia levantar a espada uns trinta graus, e, assim mesmo, empurrando-a com a barriga (literalmente);

- o garoto da Pólio, lídimo representante do 1o/4o GAv, que na chegada da Corrida de Orientação, com os pontos já zerados, foi informado pelo juiz que faltava ainda marcar um dos pontos de controle, e voltou a correr, e se perdeu, telefonando à noitinha de uma garagem da Danúbio, e sendo orientado com suaves palavras, pelo KAU, a voltar por sua própria conta;

- o alemão Schneider, desaparecido por muito tempo por baixo da jangada na Natação Utilitária, surgindo repentinamente no meio dos degraus da jangada, em performance digna da Ester Williams ou da Shamu, ligeiramente arroxeado e elevando-se até a cintura para fora da água na busca por um pouco de ar;

- o Cel Cambiaghi tendo que ser contido pelos atletas para não prender o Barriga, que tinha treinado vários litros de cerveja na véspera, devido à velocidade (!?) da largada desse atleta exemplar, na corrida de oito quilômetros que substituiu a Orientação em um PAIM em SBYS, para simplificar a armação com o Nilton Reis na contagem de pontos daqueles que iriam para a competição internacional; e

- como esses atletas inesquecíveis, tantos outros.

Por exemplo: o Tatoo, chegando garboso e lépido no final da Corrida de Orientação, entregando seu mapa com todos os pontos marcados, e depois acabrunhado, quando foi notado pelo juiz que alguns pontos de controle tinham sido furados em um arame farpado, ao invés de ter sido utilizado o alicate de perfurar existente em cada bandeira, demonstrando indubitavelmente a capacidade de improvisação daquele caçador.

Aliás, sem mais delongas e reminiscências dignas de constar em qualquer compêndio de História do Esporte Brasileiro, esse artigo visa exatamente contar o ocorrido em uma prova de PAIM, envolvendo um dos personagens já mencionados, que foi por mim testemunhada com, como vocês verão, praticamente risco da própria vida, fiel ao juramento feito ao entrar para a Força Aérea.

Beretta 9 mmA prova era de Tiro à Silhueta, onde o alvo ficava cinco segundos fechado e abria por três segundos, intervalo no qual o atleta deveria levantar a arma e atirar, e eu estava no último “Box” da direita, com a personagem em questão imediatamente ao meu lado. Ao ser dada a ordem de “carregar e travar”, todos os atiradores inseriram os carregadores, liberaram a culatra e travaram suas armas. Todavia, o carregador da arma do atleta em tela não entrou totalmente no seu alojamento e, ao deslocar-se para frente, a culatra não levou um cartucho para a câmara. Após o “Destravar” e “Livre Fogo”, o alvo fechou.

Quando abriu para o tiro, ouvi um “click” no “Box” ao meu lado, ao invés do barulho tonitruante da Beretta 9 mm, ao mesmo tempo em que o meu tiro saía. É interessante como um “click” inesperado pode ser muito mais perturbador para a concentração necessária para o tiro do que uma pistola retumbando ao seu lado. O atirador responsável pelo “click” virou-se para trás e gritou “Coronel!” (o juiz da prova era o Cel Cambiaghi, aquele que queria prender o Barriga). Como a prova não seria interrompida por somenos, ainda mais por um juiz tão gente boa, o autor do fato, observando detidamente sua arma, viu o carregador fora de lugar. Rapidamente, recolocou o carregador, deu o golpe de mão e, mais rapidamente ainda, automaticamente, travou a arma!

O alvo abriu pela segunda vez e agora o elemento perturbador da minha concentração foi a personagem fazendo um “suco de gatilho”, tentando atirar com uma arma travada, naturalmente, sem sucesso. Novamente, veio o grito de “Coronel!”, já agora acompanhado das gargalhadas descontroladas do Donato, que era o juiz de “Box” do competidor em tela e estava observando tudo, sentado em uma cadeira atrás do atirador, com uma prancheta cheia de folhas de papel.

O exímio atleta, enquanto tentava ainda chamar a atenção do Coronel, sem sucesso, analisou rapidamente o que tinha acontecido, notou a trava levantada, e, com destreza resoluta destravou a arma e deu um novo golpe de mão, observando estupefato uma bala de 9 mm, inteirinha, ainda não deflagrada, saltar para a direita e passar voando em frente ao meu “Box”, contribuindo mais ainda para minha desconcentração. A estupefação do autor da proeza bélica foi tanta que ele perdeu ligeiramente a contagem do tempo para o tiro.

Quando, de repente, notou que o alvo já estava aberto há algum tempo, levantou a arma e atirou... no alvo fechado! A brilhante série foi finalizada com um tiro no chão e outro em algum lugar do alvo, com o Donato caído no chão de tanto rir, com as folhas de papel da prancheta voando por todo o estande, e com o Cel Cambiaghi mantendo sua fleuma habitual, sem dar nova chance para o profissional das armas (sabiamente, no meu entender, porque ninguém sabe o que mais poderia acontecer).

Quanto a mim, estava encolhido no meu “Box”, acendendo uma vela para Nossa Senhora do Loreto, em agradecimento por não ter sido atingido. Naturalmente, como circunstância atenuante, devemos levar em conta que tudo isso aconteceu em trinta e cinco segundos. Sabe-se lá o que o militar em questão poderia fazer se dessem a ele o armamento e os seis anos da Segunda Guerra Mundial!

 

Álvaro Luiz Pinheiro da Costa (Zega)
Piloto de Caça - Turma de 1976


Este fascículo contém 3 (três) estórias:
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(80-2) Ainda reminiscências do 1o PAIM
(80-3) Ainda PAIM, uma demonstração de élan

 

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