Pilotos após a missão

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Estória 81-1)

 

 

 

 

 

 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(81-1) Meu primeiro bonde no Rio de Janeiro
(81-2) Histórias de Caçadores - Celacanto
(81-3) HIstórias de Caçadores - Rui Lobo 

  

 MEU PRIMEIRO BONDE NO RIO DE JANEIRO
(Estória 81-1)

 

Hoje recebi um email de meu querido amigo Duncan, caçador, companheiro dos tempos de Santa Cruz, falando dos “Bondes do Rio de Janeiro”.

Que saudades!

Bonde de CascaduraSobretudo ele me transferiu para março de 1956, eu acabara de chegar ao Rio, recém matriculado no 3° ano da Escola Preparatória de Cadetes do Ar, que naquele ano seria ministrado no Campo dos Afonsos, ao invés de Barbacena. Para nos deslocarmos da Escola de Aeronáutica para o centro do Rio, ou para a zona sul, onde estavam as praias, tomávamos o ônibus até Cascadura, estação do trem urbano da Central do Brasil, que nos levava até a estação Central, já no centro, de onde tomávamos outro ônibus para nosso destino.

Como acabávamos de chegar, o trote estava em seu auge, nos dias de semana tudo bem, mas aguentar os veteranos no final de semana era de doer. Enfim éramos “laranjeiras”, assim chamados os que eram de fora do Rio e não tinham onde passar o final de semana. Assim, logo no segundo final de semana, na sexta-feira, após o licenciamento e ter jantado, resolvi ir ver um filme na “Cinelândia”, no centro do Rio, próximo ao Teatro Municipal, onde, naquele tempo, estavam os melhores cinemas.

Após a sessão, tomei o ônibus até a Central, ainda lotada pelo povão que voltava para suas casas no subúrbio. Eu, fardado de Cadete, chamei a atenção de umazinha, apesar de minha timidez me aproximei e acabei indo para casa dela, um quartinho na Pavuna, um dos subúrbios na baixada fluminense, naquele tempo ainda segura.

Bonde de CascaduraFoi meu primeiro encontro no Rio e, praticamente, minha desvirgindade. Nunca mais a vi, apesar de que não era de se jogar fora. Lá pelas tantas, tomei o trem de volta, eu deveria saltar em Cascadura. Dormi, quando acordei o trem estava parado entre duas estações, havia tido um problema na linha e logo os passageiros começaram a descer para caminhar pela linha do trem. Eu, fardado, resolvi esperar mais um pouco. Logo o trem andou e foi parar na Estação Leopoldina, onde todos desembarcaram.

Fiz o mesmo, como não sabia onde estava perguntei como poderia, àquela hora, ir para Cascadura. Indicaram-me andar até uma praça próxima, muito tempo depois soube tratar-se da Praça da Bandeira, lá passava o Bonde Cascadura. O bonde era aberto, o cobrador vinha pelo estribo recebendo o preço da passagem. Rodamos bastante, lá pelas tantas o cobrador veio me cobrar novamente, só então soube que a viagem, por ser longa – pra quem conhece o Rio o bonde passava por São Cristovão e seguia pela Av. Suburbana, que era a via principal ligando o centro ao subúrbio – era dividida em sessões e você devia ir renovando a passagem.

Andamos, andamos, mais de uma hora, eu, já cansado e preocupado, perguntei ao cobrador se não havia um meio mais rápido para eu chegar, ele imediatamente apontou um lotação – um pequeno ônibus para cerca de 15/20 passageiros, que faziam o papel que as vans fazem hoje – que saia do ponto.

Corri e tomei o mesmo, chegando a Cascadura uma meia hora depois. Já passava das cinco da manhã, no ponto do ônibus para Bangu, que passava na escola, perguntei e me informaram que o primeiro partiria só às seis. Resolvi ir caminhando, o que fiz. Depois de andar uns dois quilômetros, passei pela garage dos ônibus e perguntei se havia um que partisse para Bangu.

Pediram para eu esperar uns minutos, que foram menos de meia hora e logo cheguei ao meu destino.

  

José Flávio Celestino
Piloto de Caça - Turma de 1960


 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(81-1) Meu primeiro bonde no Rio de Janeiro
(81-2) Histórias de Caçadores - Celacanto
(81-3) HIstórias de Caçadores - Rui Lobo

 

 HISTÓRIAS DE CAÇADORES - CELACANTO
(Estória 81-2)

 

 Vendo as fotos do T-6 1262, “Celacanto”, com o nome do Rui Lobo, me vieram à mente duas histórias nada alegres que me marcaram muito. Para quem tiver paciência de ler, abaixo vão elas:

 O ano não sei precisar muito bem, mas acho que era por volta de 1983. Eu estava no CTA, no Centro de Ensaios em Voo. Um belo dia apareceu um T-6 para nós. Ele havia sido encontrado desmontado no Parque e estava em ótimo estado. Como o T6 já havia sido desativado da FAB, não havia nenhum Esquadrão para operar a aeronave. O Estado-Maior então decidiu enviá-lo para o Ensaio em Voo, para que os pilotos de prova o usassem no adestramento de novos pilotos.

Celacanto no dorsoO Duncan, que era o Diretor da Divisão de Aeronaves, sob a qual estava o Centro de Ensaios em Voo, muito espirituoso...logo o apelidou de “Celacanto”. Essa é uma família de peixes da Era Jurássica que só era conhecida através de fósseis, até que um dia um pescador no Mediterrâneo conseguiu capturar um deles ainda vivo. Nada mais parecido que o nosso T-6 1262...

Eu solei logo o T-6, mas fiz pouquíssimos voos nele pois, como tinha oportunidade de voar praticamente todo tipo de aeronave, eu preferia voar os caças com cadeira de ejeção. Um dia chegou no Ensaio em Voo o Rui Lobo. Um capitão experiente, caçador, muito dedicado, brincalhão e gente muito boa, selecionado para fazer o Curso de Piloto de Prova. Ele era apaixonado pelo T6, e chegou a mandar vir dos USA um capacete de couro e um cachecol para fazer harmonia com a relíquia voadora.

O Rui me procurou e pediu para solar o T-6. Assim fomos nós fazer um voo na máquina histórica. Constava desse voo a prática de parafuso, então eu pedi ao Rui para subir bastante, para termos mais segurança na manobra, a nossa sorte.

Eu fui atrás, ele na frente. Subimos e quando chegamos lá em cima ele passou o comando para mim para que eu demonstrasse o parafuso. Fiz um parafuso, deu duas voltas e recuperei, passando o comando para o Rui, que voltou a subir para fazer o seu. Quando ele fez o parafuso, ele não comandou bem a saída, e o T-6 acabou saindo meio torto, oscilando. O próprio Rui comentou que não havia gostado e que iria então repetir a manobra.

Quando estava já alto, pronto para iniciar a manobra o interfone deu pane e nós não conseguíamos nos comunicar direito. Eu reduzi o motor para diminuir o barulho e gritei para ele as correções que ele deveria fazer. Infelizmente ele não escutou corretamente, e quando foi efetuar a manobra acabou aplicando a correção ao contrário, agravando o parafuso e acelerando muito o mesmo. Quando percebi o erro eu tentei corrigir, ele sem me escutar insistia no comando errado, e eu brigava contra ele e contra o avião.

Gritei para ele soltar o comando, e tentei comandar a saída novamente, mas o parafuso estava bem acelerado e não havia resposta da aeronave. Não sei quantas voltas demos, mas com certeza mais de 10. Nesse momento percebi que já tinha passado da altura que havíamos estabelecido como segurança e então gritei para ele saltar de paraquedas.

A minha capota estava fechada e quando fui abri-la para saltar não consegui. O desespero nessa hora foi total. Sem conseguir abrir a capota a única coisCelacanto no MUSALa que sobrava para mim era sair do parafuso, de qualquer jeito. Por sorte o Rui não escutou eu gritar para saltar de paraquedas e ele também ficou a bordo. Pensei comigo mesmo que agora era a última chance e que eu não poderia errar. Gritei mais uma vez para que ele tirasse a mão do manche e naquele micro-segundo me concentrei e comandei o parafuso novamente, esperei uns segundinhos (que pareceram a eternidade) para ele estabilizar, e então descomandei o parafuso, torcendo para que desse certo. Deu!!

O velho Celacanto saiu do parafuso e recuperamos a manobra. Estávamos muito baixo, rasante mesmo. Por muito pouco não tinha batido no solo. O silêncio a bordo era sepulcral. Aí o Rui gritou: “Major, podemos voltar para a Base??”. Lógico que voltamos imediatamente.

Mais difícil que sair do parafuso foi sair do T-6 no estacionamento. As pernas tremiam muito... Foi o maior susto da minha vida. O T-6 não teve culpa nenhuma. Era uma aeronave muito dócil. O problema era a falta de comunicação entre nós, o que nos levou a cada um tentar o comando para um lado diferente. Quando um só comandou, o T-6 obedeceu na hora, sem problemas.

Ainda hoje ao ver a foto do “Celacanto” me dá um frio na barriga...

P.S. Consulte as "NOTAS" no fim da estória seguinte.

 

Mark de Matos
Piloto de Caça - Turma de 1970


Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(81-1) Meu primeiro bonde no Rio de Janeiro
(81-2) Histórias de Caçadores - Celacanto
(81-3) HIstórias de Caçadores - Rui Lobo

  

 HISTÓRIAS DE CAÇADORES - RUI LOBO
(Estória 81-3)

 

Passaram-se alguns anos após o incidente acima descrito. Eu havia saído do Ensaio em Voo e ido para a Itália voar o AMX. Na volta eu estava servindo na Coordenadoria do Programa AMX, numa sala no Hangar X-10 no CTA. O Gilmar também havia saído do Ensaio em Voo e era o chefe da Divisão de Operações (DOP) do CTA, num hangar ao lado do Hangar X-30.

Estávamos em 1987.

O Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) estava testando umas cargas explosivas e de vez em quando escutávamos uma explosão. Acabei ficando acostumado com elas. Mas de repente escutei uma explosão diferente, que vinha da porta do hangar. Pensei na hora “deu merda!”, e saí correndo para ver o que era. Ao sair da sala pude ver o T27 do Ensaio em Voo parado em frente ao X-10 com o motor girando, com um piloto na nacele traseira e ninguém na nacele dianteira.

Dava para ver o tubo da cadeira de ejeção todo para fora, indicando que o piloto havia se ejetado no solo. Como eu sabia que a cadeira do T-27 não era zero-zero, uma ejeção no solo acarretaria na morte do piloto.

Corri imediatamente para fora do hangar e instintivamente olhei para cima, procurando um paraquedas, o que naturalmente não existia. Ainda correndo avistei a cadeira de ejeção no pátio de estacionamento. Corri para lá e ali estava o Rui, ainda vivo, mas inconsciente, muito ofegante e agonizando, ainda preso na cadeira. Gritei para ele aguentar a barra (como se isso fosse adiantar...) e ainda aguardei um minuto até que os bombeiros chegassem para me ajudar a colocá-lo numa maca e levá-lo para o hospital do CTA.

Ao chegar ao Hospital o Diretor me avisou que iria tentar preparar o Rui para levá-lo a São Paulo, pois o traumatismo craniano era grave e ali eles não poderiam fazer nada. Pediu-me para conseguir doadores de sangue e um avião. Liguei então para o Gilmar, que estava na DOP, e saí arranjando doadores de sangue na correria. Naquela hora não havia nenhum avião do CTA disponível, mas um Xingu civil estava entrando na pista para decolar.

O Gilmar, prestativo como sempre, e capaz de mover montanhas para ajudar alguém, não titubeou... pegou uma Kombi, sem rádio, acendeu o farol e entrou na pista de frente com o Xingu que ia entrando calmamente na cabeceira da pista. O piloto, sem entender nada, parou e ficou aguardando. O Gilmar chegou e foi logo dando ordem para que ele voltasse ao estacionamento, pois havia uma emergência e ele teria que levar um paciente em estado crítico para São Paulo.

Enquanto isso o Diretor do Hospital me informou que infelizmente nada mais seria possível, e que o Rui havia falecido. Desfizemos tudo, e iniciamos nós dois os preparativos para o funeral. A família do Rui estava em viagem ao Rio. O Gilmar então providenciou um Bandeirante para buscá-los. À noite passamos no funeral, e pela manhã o Gilmar, incansável, preparou dois Bandeirantes para levar o corpo do Rui e todos os familiares e amigos para o funeral que seria no Rio. Ele pilotaria um e eu pilotaria o outro.

Quando eu ia chegando perto do avião, com todos os familiares e amigos se aproximando, o Gastão, oficial engenheiro do Ensaio em Voo, muito amigo nosso (e que hoje é o chefe do programa Embraer 390) se aproximou de mim, me chamou num canto e disse que tinha um abacaxi para eu resolver: uma semana antes do acidente, o Gilmar havia chamado o Rui e dado uma bronca por um probleminha qualquer. O Rui havia ficado chateado e acabou comentando em casa com a mulher.

Conclusão: a esposa do Rui, em crise pela morte brutal do marido, sem saber que o Gilmar havia feito o possível e o impossível para salvar o Rui, ao perceber que o Gilmar ia pilotar o avião que levava o corpo do seu marido entrou em desespero e disse que não ia concordar com isso de jeito nenhum. O momento era tenso, e não havia tempo para explicações.

Chamei o Gilmar e disse para ele que eu iria pilotar o avião com o Rui e ele iria pilotar o outro. Ele nem pestanejou e já saiu coordenando o embarque do pessoal no outro avião. Na chegada ao Rio, estacionei o Bandeirante e fui o últim a sair do avião, sem a túnica do 5oA. O Gilmar já esperava lá fora e do seu jeito arisco já me dava bronca por estar demorando para pegar o carro para irmos ao enterro.

Peguei-o pelo ombro e informei que nós dois não iríamos no enterro, e que faríamos a homenagem ao Rui dali mesmo no aeroporto. Ele inicialmente não entendeu nada, até que eu explicasse o ocorrido.

Ficamos no aeroporto até que o pessoal retornasse para que voltássemos a São José. Não sei se a esposa do Rui ficou sabendo desse lado da história depois, pois ela ficou no Rio e eu não tive mais contato com ela. Mas sou testemunha que o Gilmar agiu de modo ímpar em todo o caso.

Sobre as causas do acidente, o voo era um ensaio para medir os esforços no manche do T-27 em diferentes manobras. Havia um instrumento acoplado ao manche para medir a força, um manchímetro, que era preso ao lado do manche. O Rui, no táxi, fez o teste de comandos livres e comentou com o Russo (piloto atrás) que devido ao manchímetro ele tinha que colocar a cadeira o mais baixo possível, pois na decolagem se a cadeira estivesse alta o manchímetro iria interferir e impedir ele de cabrar o suficiente. Ao acionar o motor elétrico para baixar a cadeira o punho de ejeção ficou preso sobre o manchímetro e com o deslocamento da cadeira para baixo houve a ejeção involuntária.


NOTA 1 – SOBRE O 1262:
Mark, depois desse seu parafuso sem fim, alguma autoridade entendeu que o T6 era perigoso e mandou recolher para o Museu, onde virou sucata novamente. Em 1995, pedi ao Braga para doar o T6 ao Parque de Aeronáutica de Lagoa Santa (PAMA-LS). Remontei-o e ele voltou a voar. Ainda ganhei um cartão de abastecimento do DAC com o qual o abastecia nas minhas viagens. Um dia, passando sobre São José dos Campos, o controlador me perguntou se era o CELACANTO. Ficou maravilhado pelo fato da máquina estar voando. Está no MUSAL novamente, em condições de voo. Não havíamos voado o T-6 e tive que solar sem duplo comando...foi uma conquista. Parabéns Mark pela história. O Rui Lobo deixa saudades de um camarada muito bacana.
 
(Sabino Freire de Lima Filho – Brig R1 Piloto de Caça – Turma de 1970).
 
 
NOTA 2 – SOBRE O 1262:
  
Mark, um detalhe, o Rui Lobo estava usando o helmet de couro e não o capacete padrão.
 
(Gilberto Schittini – Ten Cel R1 Piloto de Caça – Turma de 1970).

NOTA 3 – Rui Lobo – Piloto de Caça – Turma de 1979

NOTA 4 – SOBRE O "CELACANTO":

        Vale à pena explicar um detalhe sobre o Celacanto, objeto dessa história. Ele foi retirado da Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAER) onde estava se desintegrando e não servia mais para qualquer tipo de instrução técnica para os futuros sargentos. Como nós estávamos criando uma Escola de Pilotos de Ensaios em Voo no CTA, o Maj Brig Menezes achou interessante colocar uma aeronave de trem convencional para o acervo da nova escola e conseguiu transferir o 1262 para o CTA. Antes, porém, uma jamanta do Depósito de Aeronáutica do Rio de Janeiro (DARJ) o levou para Lagoa Santa (LS) onde sofreu um “super” IRAN no Parque. Praticamente o avião foi refabricado, ficou muito bonito, novo e bem equipado (mais chegado ao modelo “G”), tendo até fumaça para demonstração!
 (Duncan - Cel Ref)

  

Mark de Matos
Piloto de Caça - Turma de 1970


Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(81-1) Meu primeiro bonde no Rio de Janeiro
(81-2) Histórias de Caçadores - Celacanto
(81-3) HIstórias de Caçadores - Rui Lobo

 

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