Pilotos após a missão

ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Estória 84)

 



Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(84-1) "Le rois du bois"
(84-2) Simpósio da Cultura Inútil da Caça 

 

 

 "LE ROIS DU BOIS"
(Estória 84-1)

 

O Pentatlo Aeronáutico é uma modalidade esportiva, criada em 1932 por um certo capitão Edmond Petit da Força Aérea Francesa, que foi adotada por mais de cinquenta países em todo o mundo, como método de condicionamento para pilotos de combate.

A partir de 1947, criou-se uma competição mundial desse esporte, onde os países mais tradicionais se fazem representar. Entre eles, o Brasil, a partir de 1969, como bem contou o Araken!
No inverno de 1985, a equipe brasileira composta por pilotos de caça havia sido convidada para o campeonato europeu de esgrima, a ser realizado na cidade sueca de Yborg. O convite incluía ainda uma estadia de treinamento juntamente com a Força Aérea Sueca, a Flygvapnet, numa estação de esqui, na cidade de Vendalem, quase no círculo polar ártico.

Embora simpática à participação anual do Brasil nas competições de pentatlo, a administração da Aeronáutica condicionou a viagem naquele ano à execução de um curso qualquer de aprimoramento técnico, dentro do Plano Anual de Missões de Ensino, devido a imposições orçamentárias.

Buscando o atendimento às exigências administrativas, eu e o Coach, encarregados da organização da viagem, cuidávamos de encontrar um curso de esgrima, credenciado pelo Governo Francês, quando o Coronel Cramer, do Exército Brasileiro e nosso maior expoente olímpico nesse esporte, indicou-nos a Ecole D‘ Egrime de S. Maur, nos subúrbios de Paris, conduzida pelo famoso professor Gilbert Le Fin, técnico da equipe francesa, campeã mundial naquele ano.
Tendo em vista que o professor Le Fin, um verdadeiro popstar, se recusasse a qualquer tipo de comunicação que não fosse em francês da Córsega, fomos obrigados a fazer os acertos para um curso de duas semanas, com um de seus assistentes.

Uma vez atendidas as exigências burocráticas, foi feita uma competição seletiva que determinou a equipe para esse estágio no exterior, composta por cinco atletas, um técnico e dois cartolas.

Chicão, Marcapasso, Boca e eu, éramos os titulares da equipe brasileira naquele ano e não tivemos dificuldades para a classificação. A quinta vaga, após disputas renhidas, ficou para o Hemorragia, apelido granjeado por seu empenho nas peladas de futebol no 1° Grupo de Caça.
Excelente jogador de basquete na juventude, Hemorragia revelarasse tardiamente para o pentatlo, embora poucos o superassem no entusiasmo e na dedicação aos treinos.

Os dois membros da comissão técnica, os cartolas, eram duas figuras raríssimas, que, por seus estranhos hábitos e maneirismos, ficaram, cada qual ao seu modo, famosos na Força Aérea.

Isac Vaz, o chefe da delegação, era um daqueles fanáticos, como só a hereditariedade integralista pode produzir. Tendo servido a maior parte da sua vida em escolas de formação, era obcecado por marchas militares e de modo geral, por toda a ritualística castrense.
Gaúcho de Passo Fundo, costumava lançar frases de efeito com um profundo sotaque, através de um enorme bigode, que cofiava durante horas a fio, frente ao espelho. Mantinha-se em excelente forma física para sua idade, cumprindo o estranho hábito de exercitar-se ao ar livre de torso nu, durante as madrugadas, independente do local ou mesmo das condições climáticas.

Mal o sol aparecia, lá vinha ele invadindo os apartamentos e cantando músicas tradicionais gaúchas, com seu vozeirão: “Amigo boleie a perna, puxe um banco e vá sentando...”

Já Jibóia, o chefe da equipe, situava-se em ponto diametralmente oposto a Isac, na complexa escala da multiplicidade social, que só um país como o nosso é capaz de produzir.
Suburbano de Cascadura, Jibóia nunca havia viajado para o exterior e era famoso por sua absoluta falta de cultura.

Exímio jogador de futebol, nos tempos de juvenil, agora cultivara uma relaxada barriga e o hábito de desdenhar de tudo o que não entendia bem.

Um de seus comentários favoritos era: “Gringo pensa que é malandro, mas o papai aqui ó (abria um dos olhos com o auxilio do indicador), tem trinta anos de praia!”
O voo no DC-10 da Varig, do Rio a Paris, foi um verdadeiro martírio. Lotado de cabo a rabo, coube-nos as poltronas da última fileira, cujos encostos não reclinavam. A passagem gratuita vale seu preço...

Espremido em um dos lados pela enorme massa de mais de cento e trinta quilos do Coach, minha esperança de conforto desvaneceu-se quando o único lugar vago, a meu lado, foi ocupado por um lutador de telecatch que se auto denominava “O Monstro do Sumaré”.

Durante as treze longas horas, espremidos feito sardinha em lata, seguimos num voo em que o avião parecia ser presa da doença de S. Guido, tamanhos eram os trancos e sacolejos.
Em Paris, onde passaríamos apenas dois dias antes de seguir para Estocolmo, descobrimos casualmente que a fantástica promoção, que nos fizera obter acomodações no luxuoso Madeleine Palace, próximo à famosa Rue S. Honoré, devia-se exclusivamente às ameaças do terrorista Abu Nidal de explodir o quarteirão inteiro. Razão pela qual, não havia quaisquer outros hóspedes naquele mês.

Uma vez instalados, tratamos eu e o Coach de fazer contato com o professor Gilbert Le Fin, para confirmação do estágio de esgrima, que faríamos, quando retornássemos da Suécia.

Após algumas tentativas infrutíferas desistimos, imaginando voltar a telefonar de Estocolmo e resolvemos ocupar nosso tempo livre degustando as trufas maravilhosas da loja Fauchon.
Nossa breve estadia de apenas uma noite na capital sueca, foi marcada pela emoção do Hemorragia, traduzida numa crise de choro, ao ver neve pela primeira vez na vida.

Do lobby do Hotel Arlandia, onde uma fila de latinos indicava um telefone defeituoso que permitia ligações gratuitas para qualquer parte do mundo, tentamos uma vez mais um contato com o famoso professor Le Fin, sem qualquer sucesso.

A recepção dos suecos em Ostersund, quase no circulo Polar Ártico, numa típica tarde de inverno nórdico, já em meio ao completo breu noturno, foi calorosa, sobretudo devido às generosas doses da “aquavita”, servidas ali mesmo, no saguão do aeroporto.
Nosso destino, a cidade de Vemdalem, não passava de um pequeno povoado de montanha, onde sobressaía a fantástica estrutura da estação de esportes de inverno.

Com seis andares, a metade deles subterrâneos, o resort possuía o estado da arte em instalações esportivas.

A pesada atividade física, que era ironicamente iniciada por um aquecimento conduzido por uma professora de dança às seis horas da manhã, terminava às sete horas da noite, quando entravam em cena seis restaurantes e duas discotecas, repletos de suecas, que pareciam ter sido retiradas todas diretamente dos quadros de Boticelli.
No intervalo do almoço, quase todos nós aceitamos tomar aulas de esqui, ministradas pelos instrutores da equipe sueca de esqui de fundo, à exceção de Jibóia, para quem o que os “gringos” queriam, era dar risadas às nossas custas.

E assim durante uma semana, treinamos em Vemdalem...

Quando as tentativas, feitas por mim e pelo Coach, de contato com o tão afamado quanto inacessível, Gilberto Le Fin, a partir da Suécia, resultaram em fracasso, a coisa começou a preocupar.
Diariamente, como um relógio, no café da manhã Isac Vaz nos inquiria sobre os detalhes do curso em Paris. E as respostas, inicialmente evasivas, já não satisfaziam sua curiosidade cada vez mais aguçada.

Durante a competição, na cidade de Yborg, inventamos que o contato havia sido feito e que tudo ocorria às mil maravilhas. Chegamos até a criar os detalhes do curso.

O desespero ficou insuportável quando chegou finalmente o dia do regresso a Paris, sem que houvéssemos encontrado o “maldito” Le Fin.
“Buenas che, tão logo cheguemos a Paris quero conhecer as instalações do Clube S. Maur e arreglar os detalhes com o gaudério francês”, Isac Vaz, em seu dialeto do fim dos pampas, marcava data e hora para a queda de nossa farsa.

A chegada em Paris, na Gare du Nord, foi tumultuada como sempre...

Além das malas habituais de um viajante, havia os enormes sacos de esgrima, que mais pareciam capas de violoncelo. E isso transformava qualquer deslocamento urbano numa insuportável prova esportiva.
Isac à frente, parecendo o próprio Duce, em sua farda impecável, era seguido pela própria contradição, na figura de Jibóia, que lançava olhares de conquistador a cada uma das insensíveis “parisiennes” que cruzavam o seu caminho. Fechando a fila, eu e o Coach buscávamos uma saída para o dilema do curso de esgrima inexistente.

René era um velho amigo de Pirassununga, que há muito se radicara em Paris, estudando representação na famosa École D‘Art, onde já havia sido contratado como elenco de apoio, por seu brilho durante o estágio.

Figura curiosa, que parecia ter saltado de uma das revistas em quadrinhos de Tim Tim, seu principal personagem era nada mais nada menos do que D‘Artagnan, o mosqueteiro.
Vestido a caráter, René costumava fazer ponto no alto de Monmartre, onde era frequentemente requisitado para fotos com os turistas, entusiasmados pela lembrança dos romances de Alexandre Dumas.

Às vezes, e apenas para fugir à crítica de ator de um único personagem, caracterizava-se de Toulose Lautrec, divertindo-se nas noitadas dos cabarés de Pigalle, logo abaixo.

Reconhecendo-me à voz na primeira palavra, René desabou uma torrente sem fim de frases em português, que já demonstravam a enorme saudade do Brasil. Eram poucas, confidenciou-me, as oportunidades de falar nossa língua tão gostosa na “Cidade Luz”...
Antes de abordar o motivo do telefonema, obrigou-me a dar notícias de todo o velho grupo de amigos que costumava jogar bola no sítio do dono da cachaça 51, um dos patrimônios da bela Pirassununga, terra onde diziam os índios: o peixe ronca ...

Entre risadas, combinamos o grande ato de sua vida, numa quase tragédia que seria representar o professor Gilbert Le Fin num encontro com Isac Vaz, para que ganhássemos algum tempo e pudéssemos localizar um dos assistentes do verdadeiro em S. Maur.

E assim, marcamos um encontro para apresentações num dos mais antigos restaurantes de Paris, na área de S. Denis, o L‘Escargot de Montorgueil que, por seu estilo clássico, pareceu-nos o cenário ideal para a comédia que estava por se desenrolar.
Não foi difícil convencer Isac Vaz de que o famoso Le Fin já o conhecia de nome e estava ansioso por acertar os detalhes de nosso curso de esgrima, razão pela qual o convite para um jantar de apresentações. A vaidade é um pecado que cega ...

Enquanto isso, havíamos enviado o Boca e o Marcapasso a S. Maur atrás de alguma pista do famigerado Le Fin.

Isac Vaz estava impecável num terno escuro italiano, contrastando com Jibóia, que vestia uma justa calça xadrez que “brigava” com uma camisa estampada de mangas curtas, absolutamente imprópria para a temperatura exterior, beirando cinco graus Celsius.
Pensando no serviço completo, havíamos contratado uma limousine, a baixo custo, de Raul um amigo português que costumava atender as necessidades de transporte das tripulações da FAB em Paris. E então, confortavelmente instalados, partimos para o encontro ...

Não havia sido à toa que René fora escolhido para uma bolsa Ecole D‘Art Française. A simples visão de sua figura, num terno príncipe de Gales encoberta por um elegante manteau grafite, causou visível impressão em Isac Vaz.“Bon soir, monsieur! Je suis Gilbert Le Fin, le maître des maître d`esgrime de tout la France!”
Obrigando o relutante Jibóia a acompanhá-lo na mesura, Isac Vaz puxou um salamaleque de alta complexidade, quase aplicando uma cabeçada no falso Le Fin.

A intensa “perlage” do champanhe nacional nem bem começara a provocar cócegas no céu da boca, e já René, introjetado (como dizem no teatro) em seu personagem, comandava o show a largos gestos de capa e espada.

Isac Vaz enfeitiçado, prestava toda a atenção do mundo à história do embusteiro, que desfiava sua falsa linhagem desde o tempo dos Valois, imperadores da França.
O falso "Le Fin", preenchendo completamente as expectativas gerais, saía-se melhor que a encomenda ...

Entre acepipes da Bretanha, fines claires da Normandia e os famosos escargots do Perigord, prosseguia a história de Gilbert Le Fin, entremeada de imprecações em francês e emoldurada diversas vezes por golpes de esgrima, utilizando uma elegante bengala encastoada em prata, que compunha o impecável figurino de nosso personagem.

Jibóia francamente desinteressado do assunto, resolveu sair e explorar o comércio de esquina da rua Montorgueil com o Boulevard du Maul- Counseil, local composto por meia dúzia de barracas de camelô, definindo o próprio termo originado na França ...
A cada gole do translúcido Sancerre, Isac Vaz mostrava-se mais a vontade com René, a ponto de confessar que sua infância mais tenra havia sido passada em Pelotas, cidade famosa pela educação francesa e pela quantidade de efeminados, onde chegara inclusive a cantar no coro orfeônico de sua escola.

Estimulado por Le Fin, que cantarolou “Ne me quitte pas” numa perfeita imitação de Edith Piaf, Isac chegou mesmo a arriscar o vozeirão declamando uma poesia gaúcha, do tempo dos maragatos.

Chamados pelo maitre do restaurante, Coach e eu corremos para fora, onde uma pequena multidão já se formava ao redor de um enraivecido Jibóia, que vociferava os mais rebuscados palavrões na direção da Gare S. Denis.
Não custou muito para entender que o “esperto” carioca havia sido ludibriado por uma esbelta loura parisiense, comprando uma caixa, supostamente com uma fita de vídeo pornográfico, que continha na verdade um reluzente tijolo de barro.Mas esse não seria infelizmente o grande logro da noite ...

Lutando para acalmar Jibóia, que maldizia o próprio De Gaulle, entramos no restaurante a tempo de encontrar Isac e René de saída.

“Vocês guris, voltem para o hotel que de acordo com nosso mestre Le Fin, amanhã começa o bochicho em S.Maur. Quanto a mim, sigo numa peleia pelo Bois de Boulogne com umas primas do mestre. Buenas!”
Atônitos, fitamos o sorridente René, que estendia a farsa por caminhos que fugiam completamente ao nosso controle...

Jibóia, mal humorado, preferia retornar ao hotel conosco, num longo trajeto de metrô, pontilhado por gabolices e vitupérios.

Na chegada ao hotel a boa noticia era de que Marcapasso e Boca haviam conseguido contactar o mestre D‘Armas Fagé, que na ausência de Le Fin, ministraria o curso de esgrima a partir do dia seguinte. Salvos pelo gongo!
O avançado da noite e o cansaço mental dos riscos corridos impediram-nos de manter vigília à espera de Isac, que a essa altura, contávamos enredado no "bas fond" parisiense, ciceroneado pelo falso “mestre dos mestres de esgrima de toda a França.”

O dia seguinte trouxe o início de nova fase de treinamento com o Mestre Fagé, braço direito do verdadeiro Le Fin, cujo filho, Hermé, era o espadista número um da equipe francesa, campeã olímpica daquele ano. Exigente ao extremo nos aspectos técnicos, Fagé ocupou-nos completamente o dia, até o retorno ao hotel em Paris, já com o sol descendo atrás da Ponte de Neully.

No lobby do Madeleine Palace, encontramos Isac Vaz, que se transfigurara num simpático adolescente no cio, tamanha era sua empolgação com aquela que já classificava como a “prenda” da sua vida.
Na verdade, casado há mais de quarenta anos com uma circunspecta senhora, egressa do Colégio Sion de S. Paulo, Isac era como tantos outros vida afora, uma presa fácil para a sedução e o encantamento, por qualquer mulher que se dispusesse a evoluir numa cama, além da ortodoxa posição do missionário.

Entusiasmado, contava a visão da deusa, que lhe fora apresentada por René no Bois de Boulogne, loura, alta, com a voz ligeiramente rouca e sensual. Uma “potra”, segundo Isac, que já falava em largar tudo para viver seu rêve d`amour, nos becos de Paris.

Contou-nos da ronda pelos cabarés do Quartier Latin e do fim de noite no Marais. Dos beijos calorosos e dos sussurros ao pé do ouvido, ao som de Jean Sablon.
“Não comi, mas engrenei, Che!”, espalhava aos quatro ventos ...

Ao telefonarmos para o René, buscando conhecer melhor a diva de Isac Vaz, fomos informados que o mesmo viajara com urgência para Mongibello, na Itália, onde fora selecionado para o cast de um filme americano, que veio depois a catapultar sua até então malograda carreira artística.

De todo o modo, imaginávamos, não havia com o que se preocupar, já que dentro de três dias estaríamos embarcando de volta ao Brasil. E afinal, que mal podia haver em uma aventura de amor parisiense, no outono da existência de uma pessoa, mesmo que essa pessoa fosse o neurótico Isac Vaz?
Os dois dias que se seguiram foram exaustivos para nós atletas e angustiantes para Isac, já que sua musa não atendia seus telefonemas e sequer respondia às apaixonadas mensagens deixadas com o senhorio.

“Mas é assim mesmo piá,” – bradava no bar do hotel, já calibrado no Pernod – “mulher recatada é mais difícil na queda que terneiro mamão e mais arisca que ratão de banhado, che!”

Ao retornar do treino na última noite, encontramos Isac em tenue de ville completo, com ramo de flores e caixa de bombom de saída para encontrar sua deusa, que finalmente cedera ao cerrado assédio militar.
Exaustos pelos dias de exercício, e já na expectativa do embarque na manhã seguinte, fomos todos cedo para a cama à exceção de Isac Vaz, que ganhara a rua, rumo ao ninho de amor de Coline, era esse seu nome, numa transversal do Faubourg Saint Honoré.

Após o café da manhã, Jibóia foi o primeiro a dar pela falta de Isac Vaz ...

Uma hora atrasados, já nos preparávamos para deixá-lo para trás quando, espavorido, com a barba por fazer e o terno em total desalinho, surge o próprio, do meio da multidão de parisienses a caminho do trabalho.
Como sua cara era de poucos amigos, preferimos todos o silêncio, enquanto Isac fazia sua toalete matinal e reaparecia pronto para a partida, em dez minutos.

No ônibus, a caminho do aeroporto, Jibóia arriscou a pergunta, que todos gostariam de fazer.

“E aí, como é que foram as coisas com a Coline?”
O olhar glacial de Isac trazia o próprio Minuano, o vento sul que varre o pampa sem fim e enregela os ossos.

“Se alguém voltar a falar o nome dessa china, eu encho de porrada!”

Recolhendo imediatamente a pergunta, Jibóia, tanto quanto nós todos, já olhava em outra direção, quando o furioso Isac buscou com o olhar, alguém para bode espiatório.
Irascível durante todo o decorrer da viagem de volta, Isac nunca mais falou do assunto ...

Meses mais tarde, numa visita ao Brasil, René confidenciou-nos o que ocorrera.

Contou-nos que insistente, Isac se convidara para passar a noite com Coline, que no entanto teimava em resistir às investidas do Casanova, a essa altura já completamente tomado pelo champanhe Cristal.
Caindo no sono e nos braços de sua amada, Isac Vaz acordara ansioso pelo amor matinal, mas a essa altura Coline não era mais mulher, nem loura e sequer francesa. Mas sim, um bem dotado travesti marroquino.

Até hoje ninguém sabe direito o que ocorreu a partir daquele momento. Jibóia no entanto sempre que instado a dar sua versão sobre o caso, abre o sorriso e pisca o olho quando sentencia:

 
 
"Ajoelhou, tem que rezar!"
 

 Flávio Catoira Kauffman - Cel. Av. R1
Piloto de Caça - Turma de 1978 


Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(84-1) "Le rois du bois"
(84-2) Simpósio da Cultura Inútil da Caça

 SIMPCIC - SIMPÓSIO DA CULTURA INÚTIL DA CAÇA
(Estória 84-2)

 

O SIMPCIC (Simpósio da Cultura Inútil da Caça) teve seu primeiro seminário realizado em Santa Cruz em Abril de 1981, na sala dos pilotos do Segundão e era presidido pelo Duprat, na época o Chefe da CIT. A partir desse ano houve duas outras edições em 1982 e 1983.

Os temas foram muito variados, mas ao final dessa série, quatro grandes conceitos de surpresa técnica prevaleceram, e esses são os resumos se não me falha a memória:

1. MER ("multiple ejection rack") Moisés

Consistia num pod de bombas incendiárias dotadas de LPU (colete salva-vidas) e espoleta de tempo, o que permitia que, uma vez lançada, cada bomba ficasse flutuando sem explodir até que todo o conjunto fosse lançado em "ripple" num padrão de curva de 10 graus em torno da esquadra.
As espoletas eram reguladas para explodir todas ao mesmo tempo e no momento em que isso acontecia, o calor súbito e intenso secava o mar naquele círculo, fazendo com que a esquadra caísse no imenso buraco. Logo após, o mar tomava novamente seu lugar, afogando todo mundo.

O cálculo da quantidade de bombas e da espoletagem era extremamente complexo envolvendo desde o grau de salinidade do oceano até o coeficiente de ruído do apito do contramestre da nau capitânia.
A Bíblia dá suporte técnico ao nível de sucesso em Êxodo 14.10a.

2. BOMBORRACHA

Essa bomba foi idealizada a partir da tendência apresentada pelo Moris (Alfa Zulu), instrutor do 1o/4o em 1978 que conseguiu a proeza de ficar na última colocação na fase de Emprego (considerando inclusive os estagiários!), em lançar frequentemente suas bombas a 200 pés curto, fosse BP ou BR.

A surpresa técnica consistia em revestir a bomba com borracha e dotá-la de um “quicômetro”, regulado para explosão no 6°. quique.
Desse modo, o inimigo, que frequentemente caía na risada ao ver a bomba cair curta como sempre, era surpreendido quando ela reaparecia quicando por trás da janela do fórum de Aquiraz em direção às dunas da Prainha, pronta para “papocar” sobre as hostes inimigas.

A primeira fase do programa de criação desse artefato, que era o lançamento curtíssimo, foi testado inúmeras vezes com sucesso. Restou apenas o desenvolvimento do quicômetro, a cargo do Zé Rocha, jardineiro do Esquadrão Pacau (e readaptador do visor K-14), que chegou mesmo a desenhar o projeto.

3. BOMBA NÁUFRAGO

Criada pelo saudoso Filé de Borboleta (Lancia), a bomba náufrago era uma bomba de efeito geral também equipada com LPU e com uma daquelas mãozinhas que a gente podia ver antigamente nos carros de gente brega, como o Melo Filho (Misinfio) que serviu no Grupo, 1o Esquadrão em 1988.

A idéia era aumentar o braço daquela mãozinha e vesti-lo com uma manga de farda de gala de almirante (com aqueles nós de Nelson).
Ao avistar a bomba boiando e a mãozinha acenando do meio do oceano, a Esquadra pararia para recolher o almirante inimigo (certamente sedenta pelas informações importantes). Ao descer no tombadilho, a Bomba Náufrago explodia levando junto todo o alto comando da Esquadra.

4. BOMBA JERICÓ

Essa bomba, também de inspiração bíblica era uma bomba de efeito geral com duas tubas da banda amarradas em sua lateral. O alto efeito de sopro da explosão, filtrado através das tubas, criaria o “efeito trombeta” que, de acordo com a Bíblia (Josué 6, 15 a 20), era capaz de destruir muralhas.
Essa bomba deveria ser lançada obrigatoriamente por um piloto de caça crente, tendo a escolha recaído sobre o Irmão Glauco (Rompe Mato 1986), que no entanto envolveu-se antes naquela colisão com um urubu, ficando então apenas habilitado para lançamentos com visor em Braille.

Depois disso não foi encontrado outro piloto com o mesmo grau de fé...
Acho que esses temas já estão envelhecidos, de resto como vários de nós aqui desse lado do muro, mas foram muito bem elaborados durante longas horas de ócio criativo dos TACs.

Flávio Catoira Kauffman - Cel. Av. R1
Piloto de Caça - Turma de 1978

----------------------------------------

Observação: Faltou a bomba cascalho. Tenho certeza que sua descrição do artefato será hilária.

Biasus - Cel. Av. R1
Piloto de Caça - Turma de 1975

----------------------------------------

Senhoras e Senhores,

Por coincidência e sorte estou incluído nessa rede de missivas!
Informo a todos que tenho em casa, disponível para a comunidade:
- o original do MER-Moisés, na letra do Aymone e ainda com as manchas de cerveja preservadas;
- o croqui original do CBU ("cluster bomb unit") de brita (nome original da Bomba de Cascalho); e
- o original do L.O.R.D.O.S.E. ("Long Range Detection Operation Sight Extended"), que visava substituir radares por pilotos de vista aguçada tipo AZZ (Azzi), ROC (Rocha) e ROZ (Rozalvo).

Informo também que, no nascedouro, o SIMPCIC era denominado SIPRI (Simpósio Internacional de Procedimentos Inúteis) no 1o Gp. Av. Ca, na reunião para assistir ao Globo Esporte após o almoço.

Infelizmente vários artigos e artefatos importantes foram perdidos, entre os quais lembro:

- o Troféu Dragão (que era um quadro com a imagem de São Jorge atacando o pobre animal), que foi meritoriamente repassado pelo Jegue para um piloto de KC-130 durante um deslocamento para Recife, durante a UNITAS, e desapareceu. Aliás, sujeito a uma melhor pesquisa eroto-sociológica, creio que foi a primeira vez que uma mulher bem apresentada, apesar de sua aparência, foi denominada “dragão”, dando início à trajetória desse codinome, que extrapolou a própria FAB;

- o Compêndio do Dragão, que visava estabelecer por critérios objetivos quando uma contendora podia ser declarada “Dragão”, nascido por solicitação urgente do Popó, após o episódio de uma “bolada nas costas” que aconteceu no "Blue Midnight", boteco onde um representante do 14 (aquele que trocou o mapa da orientação no PAIM por um cigarro) era "crooner" (o M.C. da época), quando alguém plantou a ideia do “dragão” em um amigo que estava engajado, todavia com a capacidade discricionária prejudicada, para poder abordar em seguida a prenda abandonada; e

- o S.N.P.C. (Sistema de Navegação por Pombo Correio) que foi contribuição do 14, acho, e que seria uma revolução nos sistemas de guiagem de aeronaves e até mesmo VANTs, mas tinha um problema de limpeza dos "Pods".
Além disso, siglas inesquecíveis para o planejamento de missões tipo Malvinas (mais de 400 NM para dentro do mar), realizadas pelo 14, como P.M.M.B (profundidade média do marzão besta) e D.M.B.T (diâmetro médio da boca do tubarão), também nunca mais foram utilizadas pela Caça.

Finalmente, nunca é demais lembrar o que deu partida nesse movimento de soluções e técnicas revolucionárias, o artigo do Chiquinho, que preconizava o ataque a navios com napalm, na ZOOM, a revista sazonal do 1o/4o GAv. A ideia do SIPRI era produzir a BOOM, uma revista sózonal, que não foi adiante infelizmente.

  

Álvaro Pinheiro da Costa - Maj. Brig. R1
Piloto de Caça - Turma de 1976 


  

Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(84-1) "Le rois du bois"
(84-2) Simpósio da Cultura Inútil da Caça 

 

Temos 86 visitantes e Nenhum membro online