Pilotos após a missão   ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

(Estória 86)

 

 

 

 

 

 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(86-1) O Código ADELPHI
(86-2) Monumento ao P-47 (pintura)
(86-3) "Onde está meu marido ?"

 

 O CÓDIGO ADELPHI
(Estória 86-1)

  

A admiração é sem dúvida uma importante forma de desenvolvimento pessoal, hoje inclusive alçada ao nível de prática empresarial, sob o nome de “benchmarking”. De minha parte, cedo descobri as vantagens em identificar determinados “ídolos” e tentar copiar seus pontos fortes. E assim fiz, entre outros: com o ator William Holden, o inesquecível “drifter” de Hollywood no filme Picnic em 1955 (a música tema “Moon Glow” faz sucesso até hoje!); e já adolescente com o surfista californiano Mike Doyle, inspirador do personagem “Big Kahuna”, um vagabundo de praia no filme Gidget, no começo dos anos sessenta.

Na Aviação de Caça, não poderia ter sido diferente. E como alguns bem o sabem, embora tenha convivido com uma grande quantidade de brilhantes profissionais, escolhi como referencia em cada fase de vida quatro pessoas que, por distintas razões, pareciam estar mais próximos à minha capacidade e ao modo de ser. Assim, a partir do enorme sucesso do Tenente Araken junto ao público feminino numa visita à Base Aérea de São Paulo, onde eu vivia em 1970, decidi que seria um dia Piloto do 1o Grupo de Aviação de Caça.

Mais tarde, já cadete aviador em 1975, numa visita de férias à Anápolis, vislumbrei, através do Capitão Peixe Lima, o enorme "handicap" social que um carro esportivo e o status de caçador podem trazer a qualquer vivente. Caráter, disciplina, companheirismo e dedicação encontrei no Major Silva Júnior (Chicão) a partir de 1978 até hoje, o modelo a ser emulado. E finalmente, ao sair da FAB em 1994, foi no Coronel Heber Moura, antigo caçador e posteriormente executivo da Boeing no Brasil, que descobri ainda haver um gratificante desafio pós Força Aérea, numa carreira interessante e que podia perfeitamente ser conduzida sem qualquer conflito com os princípios adquiridos ao longo da vida militar. Cada um desses “ídolos” desapercebidamente me ajudou de alguma maneira.
Com alguns convivi mais proximamente, o Chicão, por exemplo, que considero como meu irmão mais velho.

Mas apenas um entre esses modelos, o Coronel Peixe Lima, veio também a ser meu comandante, exatamente no Grupo de Caça, numa época instigante, onde pude confirmar o acerto de minha admiração nas diversas outras facetas de sua personalidade. Os hindus chamam de "Bodysatwa" alguém que elege a busca da iluminação pessoal como filosofia de vida e que transcende os limites do trivial. A abertura da mente gerada, na guerra com a execução de mais de noventa missões de combate (palavras do Brigadeiro Rui) ou em tempos de paz com a passagem da marca de 1.000 horas de F-5 (voz corrente, por aí), já havia sido percebida por alguns veteranos e integrantes mais antigos do “Clube”.

Ao alcançar essas marcas, uns passam a escrever em aramaico, outros a compor óperas e alguns apenas identificam novas formas de continuarem mais ricos, como o Cianflone. Todos ficam, no entanto, mais observadores...

Recentemente, numa roda de respeitáveis caçadores (o Coronel Potengy, liderando) na extensão do Picadinho do Brigadeiro Nero, no Clube de Aeronáutica, o Peixe comentou sua ida ao Vale do Pó, munido de uma garrafa de Glenmorangie, na intenção de alcançar a iluminação ou o Santo Graal da Aviação de Caça, bebendo uma dose do malte com água do rio. Isso talvez porque, gente como ele, eu e outros mais “gauches”, não pode aceitar a tese simplista de que a sábia decisão de criar a Caça Brasileira tenha sido fruto apenas da ideia de um bando de tenentes guerreiros liderados por um major diferenciado, em meio ao espocar da “flak” alemã. Por mais brilhante que fosse o Major (e todos sabemos que foi!) e por mais audaciosos que fossem os jovens (também sabemos que foram!), não dá para comprar essa ideia sem discussão (sobretudo quando há uísque na mesa). Há que haver uma razão maior, uma faísca primeva, uma partícula de Deus num processo como esse, que deu tão certo e que formou gente tão capaz ao longo desses quase setenta anos.

E aí é que entra o "Bodysatwa", na busca desse “Bóson de Higgs” da Aviação de Caça Brasileira, identificando que o caminho para essa descoberta estaria certamente indicado através de sinais de ocultismo, como os procurados pelo Peixe Lima em sua busca na arena de combate dos avestruzes: o Vale do Rio Pó, na Itália!
Lá, após tomar uma dose de Glenmorangie com água do rio, como eu já havia contado, chegou certamente mais perto de entender a questão. Ou não, pois o Dharma (a busca constante) é o verdadeiro Nirvana!

Descendo a Piccadilly Road naquele fim de tarde chuvosa, era exatamente nisso em que eu vinha pensando, enquanto atendíamos, eu e Nina, ao convite de amigos londrinos para assistir a peça “Swenney Todd, o Barbeiro Macabro da Rua Fleet” que, muito antes da turma de Garanhuns, já havia prosperado no comércio de empadas com carne humana. Ao chegar ao teatro, fiquei espantado em se tratar do Teatro Adelphi...

Teatro Adelphi-Londres-Inglaterra


Eu já tinha ouvido o Brigadeiro Rui falar sobre o tal conjunto de prédios em frente ao teatro, na própria Westminster, entre a Strand e o Tamisa, construídos pelos irmãos Adams e que tomara o nome de Adelphi, emulando a palavra grega “adelphois”, que significa irmãos. E, portanto deduzi que essa seria apenas mais uma homenagem ao mesmo.
Lembrei no entanto que o Adelphi que inspirou os veteranos a criar sua “saudação aos bravos”, foi na verdade um cigarro “mata-rato” fabricado pela Castelões, sob licença de uma firma americana, e que, junto às “scatolettas” de ração americana, era também usado nas frias noites do Albergo Neptuno, para comprar a boa-vontade das jovens “ragazzas” de Pizza. E nesse aspecto, batizar algo mortal como um cigarro de “irmão” parece piada do próprio barbeiro macabro.

Carteiras de Cigarros Adelphi de diversas épocas


Como a peça era na verdade uma sequencia de carnificinas entediantes, achei, numa brecha da atenção de nossos anfitriões, uma desculpa para me ausentar do camarote e tomar lá fora a fresca que sopra da Tower Bridge, enquanto acertava o relógio pelo Big Ben.
Na porta do teatro, entabulei uma conversa com o porteiro (nona geração de porteiros daquele teatro) que me contou a rica historia do estabelecimento.

Num determinado ponto da conversa ele mencionou rapidamente que algumas pessoas da Escócia achavam que o nome do teatro era uma homenagem a um aviador escocês tombado em combate, na França durante a Grande Guerra de 1914.
Quando insisti em saber o nome do piloto, o porteiro falou que embora não se recordasse, tinha um primo escocês que trabalhava como mordomo no Palácio de Buckingham e que certamente saberia o nome da família do aviador.

Naquela noite, fosse pela luta do queijo Chelsire com o antiácido, ou simplesmente dos excessos à mesa no restaurante de Gordon Ramsay no Hotel Claridge’s, tive um sonho ou melhor dizendo, uma epifânia, e que o Brigadeiro Nero Moura aparecia sentado em na poltrona “berger” da sala em Copacabana e, sacudindo o copo longo de “Glemorangie on the rocks”, me dizia:
-” Guri, build and they will come up!

”Ali começava minha saga na busca do Código Adelphi, uma curiosa sucessão de presságios e coincidências esotéricas, que aqui passo a descrever. Munidos da primeira pista do porteiro do teatro Adelphi e determinados a elucidar o mistério, lá fomos eu e Nina (minha cara metade e já no papel de Watson) na manhã seguinte para o Palácio de Buckingham.

guarda do Palácio de Buckingham


Inicialmente arredio no portão do palácio, William, o primo do porteiro do teatro marcou encontro para conversarmos junto à estátua de Montgomery no White Hall e desse ponto enviou mensagem SMS para encontra-lo em Old Bond Street, no banco de praça que homenageia Franklin Roosevelt e Winston Churchill, os gigantes da Segunda Grande Guerra.

Estatuas do Pres. Roosevelt e Min. Churchill


William McCordle trabalha como mordomo no Palácio de Buckingham há mais de cinquenta anos, quando veio de Aberdeen. Contou-me na verdade tudo o que eu já sabia, no entanto acrescentou que o nome Adelphi estava ligado aos pais do tal tenente aviador, que também eram da Escócia, lá para os lados de Edinburgh. Lembrou-se ainda de que um outro primo, Francis McCordle, que ganhava a vida tocando gaita de fole na ponte de Westminster sabia o nome da família do tenente tombado em batalha aérea na França.

Nina na Westminster Bridge


E sem mais deixou-nos com mais uma pista para seguir. E assim, em meio ao “fog” londrino, zarpamos para a abadia, buscando encontrar o músico...

A primeira coisa que Francis McCordle me disse é que estava com muita sede, provavelmente devido à excruciante tarefa de soprar os foles durante todo o dia ou apenas porque se acercava o fim da tarde, hora em que os ingleses de bem tomam chá e a baixa canalha lota os tradicionais pubs, como o Coach & Horses para onde fomos.

restaurante Coach & Horses - Londres


Após duas “pints” de Pale Ale, o calado Francis desandou a falar mais que o Silva Lobo em churrascaria. O homem parecia primo do Aluisio Silva, tamanha era sua cultura de almanaque!

Iniciou falando sobre futebol, declamou Shakespeare, entrou pelo terreno da ópera e ao final, quando citava Oscar Wilde, lembrou-se que o nome da família do tenente escocês era coincidentemente, McGray, como no Retrato de Dorian. A memória, segundo ele, estava fraca devido a enorme fome. E desse modo, acabamos encarando um enorme prato de “Fish & Chips”, com mostarda inglesa e purê de ervilha, que estava sublime. Só então o músico lembrou que o tenente McGray estava enterrado num dos cemitérios ingleses de Pas de Calais. O problema é que existem oito cemitérios ingleses em Calais, cada um com milhares de moradores.

Já saíamos do pub decididos a esquecer o assunto, quando Francis lembrou que seu primo Armand Duval, que trabalhava como garçom na França (na verdade, nunca chame um garçom de “garçom” na França!) num restaurante alsaciano no Champs Élysées, em Paris, tinha uma tia avó que havia namorado o tal tenente McGray em Calais.

E assim, rumamos para o trem Eurostar. Afinal, como bem disse o governador do Rio (de lenço na cabeça!), a perspectiva do fim de semana no Ritz, em Paris, “n’est pas mal”...

A viagem foi tranquila e a passagem por baixo do Canal da Mancha não fez jus à expectativa, já que nos vinte minutos em que isso aconteceu, eu dormia o sono dosjustos, daqueles que determinados buscam a meta, o transe do Cavaleiro Parsifal!

Como disse De Gaulle ao retornar em triunfo, “quem sai de Londres já vê Paris com outros olhos!”

.O lixo das ruas, a descortesia dos “parisiennes” e os preços, que passaram de franco para euro na escala de um por um, desanimam qualquer viajante. Mas não esse piloto de caça brasileiro (Josef Climber!), imbuído em desvendar o Código Adelphi!O restaurante Maison D’Alsace, na parte baixa da Champs Élysées, é especialista em gastronomia de Strasbourg, naquela região do mapa que até hoje não sabe se é francesa ou alemã, e que, portanto, tem o melhor dos dois países entre “pâtisseries”,“chucrutes”, “sauvignons” e “gewurztraminers”. E desse modo, enquanto esperávamos a chegada do garçom Duval, fomos obrigados a cair matando nas entradas de “escargots” e “fine claires” da Normandia.

Nina na 'Maison D'Alsace' - Paris


Armand Duval é uma figura típica de filme do Gene Kelly, daqueles que andam pela rua de camisa listada, boné de “chauffeur”, cachorro Jack Russell na coleira e baguete debaixo do braço. Alem de tudo, fumava um pestilento cigarro Gauloise, pior do que aqueles fumados pelos pilotos franceses na década de oitenta em Anápolis.

monsieur Armand Duval


Foi logo maldizendo o primo, falando que não tinha tempo e na verdade, só nos deu alguma atenção quando o dono do estabelecimento, um francês meio alemão, assim exigiu. Foi, no entanto curto e grosso. Ao ser indagado, informou que a família do tenente escocês se chamava McGray e indicou no mapa o local do cemitério, que posteriormente identificamos como o Aire Communal Cemitery, em Pas de Calais.

Disse-nos que embora não soubesse do que se tratava, a palavra “Adelphi” estava realmente escrita na lápide do aviador, que morrera em combate aéreo no final da primeira guerra. Contou-nos ainda que, de acordo com sua tia avó já falecida e ex-dançarina de can-can, a família do tenente McGray era famosa em Edimburgh como provadora de uísque, e uma das fundadoras da destilaria Glenmorangie.

Isso não só animou nossa pesquisa, mas também causou “frisson” (aliás, “frisson” é o que costumávamos responder quando perguntados, na rede de vôlei em Ipanema, sobre a sensação de ultrapassar a barreira do som)!

Afinal, parece que estávamos próximos a identificar o elo perdido entre o Grupo de Caça e o Código Adelphi, e trazendo ainda a reboque um link com o mítico uísque preferido do Brigadeiro Nero. No cruzamento dessa cabala, certamente estariam as respostas sobre a origem da Caça no Brasil! E assim, o mais rápido possível, mas não sem antes almoçar um pesado prato alsaciano de “Saucisse & Sauerkraut” e fazer o footing às margens do Sena, partimos de volta para a Gare Du Nord, onde tomamos o TGV (“train de grand velocité”) para Calais.

passeio pelo Rio Sena - Paris


Amanhecemos em Calais... E, sem mais delongas, rumamos para o cemitério, onde um sonolento, mas simpático “gendarme” prontamente localizou a sepultura do Tenente John Alfred R. McGray, escocês, componente da RAF e falecido nada mais, nada menos, que em 22 de abril de 1918, aos vinte e um anos. Que tal a coincidência da data, com o Dia da Aviação de Caça no Brasil?

lápide 'gravestone' do Ten. MacGray


Confirmada a existência da inscrição na lápide, não havia nada mais a fazer em Calais. Só nos restava rumar para Edinburgh e buscar informações sobre a família McGray na Destilaria Glenmorangie. E mais uma vez, lá fomos nós via Eurostar até Londres, a partir daí de trem comum durante oito horas até Edinburgh e por último num furgão taxi até a hospedagem da destilaria próximo à cidade de Tain, nas “Highlands”, de frente para as falésias de Dornoch Firth.

O conforto do hotel de cinco estrelas e a paisagem das terras altas escocesas já prenunciava uma boa noite de descanso. Sobretudo depois de um excelente jantar onde rebarbamos o tradicional “haggis” feito de coração e músculos de ovelha e embarcamos num suave salmão dos “loch”. A pesquisa na destilaria foi incrivelmente rápida. O senhor Alburn McMillan, relações públicas da casa, levou-nos aos livros e identificou Phillip McGray como um dos famosos “Sixteen of Tain”, um grupo de homens da cidade a quem durante as antigas guerras eram confiadas a fórmula original do uísque Glenmorangie, para que em caso de destruição da destilaria, a preciosa “acqua vitae” dos romanos, que originou o termo “uisge beata” dos gaélicos, não desaparecesse por completo.

destilaria do Whisky Glenmorange


Alburn confessou que era fã do Pelé, que vira jogando contra Bob Moore na Copa de Setenta, e comentou que antes de nós apenas dois brasileiros haviam assinado o livro de visitantes da destilaria. E nos levou para ver as duas assinaturas, do Brigadeiro Nero Moura e do Coronel Lauro Ney Menezes, na década de setenta.

Deu-nos ainda uma aula de gaélico, informando que “Mac” em escocês quer dizer “filho de...”, o que me fez vagamente lembrar de Zé de Sir Ney, e que Mc Gray era um nome de origem irlandesa que significava “filho da graça”. Disse ainda que de acordo com os registros da destilaria, o tal Philip McGray havia se desentendido em 1826 com a direção da destilaria e que havia mudado para Glenborrosdale com sua jovem esposa Adele McIntire, onde haviam criado sua própria destilaria, cujo nome era apenas a junção dos dois primeiros nomes do casal: Adel-Phi!

Bem, a partir desse ponto, não havia mais nada a fazer, a não ser rumar para a região de Gobals, no norte da Escócia, o que nos custou mais quatro horas de viagem num Black Taxi.Ao chegar, deixamos nossas coisas no lindo Castelo Glenborrosdale, e partimos céleres para a destilaria Adelphi, onde, devido ao aviso antecipado de Alburn McMillan, já éramos esperados pelo chairman Mr. Charles McLean, um grande conhecedor de uísque.

destilaria do Whisky Adelphi


Charles explicou que a destilaria existia desde 1826, fundada pelo casal McGray e administrada por seus filhos Charles e David até 1880, quando foi vendida para Messrs Walker, que já possuía duas outras grandes destilarias em Liverpool e Limerick. Um dos netos do casal, o tenente John Alfred Andrews Raymond McGray foi criado nas charnecas da destilaria e aderiu ao Royal Flying Corps (RFC) logo após a sua criação e lá permaneceu voando aeronaves de caça até a criação em 1o de abril de 1918 da RAF. Em julho de 1916 foi movimentado para o 24o Esquadrão de Caça em Bertangles, passando a voar como ala do Major Lanoe Hawkers, ás de guerra e comandante do esquadrão com sete vitórias aéreas.

Major Lanoe Hawker


Em 23 de novembro de 1916, voando na ala, Andrews McGray testemunhou a derrubada e morte de seu líder por Manfred Richtoffen, o Barão Vermelho. E finalmente em 22 de abril de 1918 o próprio McGray se acidentou no pouso, após uma movimentada batalha aérea em Achiet, onde logrou obter sua primeira vitória, vindo a falecer devido aos ferimentos.

Tenente Andrews MacGray


Por seu amor à destilaria, sua família pediu ao governo francês que fosse aposta à lápide do Tenente McGray o nome Adelphi. Quando eu contei a história da Caça Brasileira e da saudação Adelphi ao enorme staff da destilaria que se acercou procurando conhecer a razão da visita, e disse que a história da destilaria era muito bonita e até tinha mais a ver com Caça Brasileira do que o cigarro mata-rato americano.
Charles começou a rir e me mostrou um quadro com a foto de David McGray, que imigrou para os Estados Unidos em 1923 e, na falta de boa água e cevada confiável para uísque, resolveu diversificar os negócios da família, criando a Adelphi & Sons Cigar Cigarrete and Tobacco Dealers, em Nova Iorque, que posteriormente exportou sua marca para a empresa Castelões do Brasil.

Bem, nesse ponto só nos restou abrir um Adelphi Reserve, uísque feito de apenas um barril a cada fornada e ainda vendido nas boas lojas do ramo, na Corte de Saint James, “off course”. Em menos de uma hora, como numa ximboca no Grupo, todos já cantávamos o Afinal, na versão original inglesa: “Bless them All”.

Whisky Adelphi 'Reserve'


Bem, minha pesquisa, com todas as coincidências entre os “Dezesseis de Tain” e “o 16 de Santa Cruz” e, muito embora com um surpreendente resultado sobre as origens da saudação Adelphi, não trouxe lá muita coisa, em termos de iluminação pessoal.

Mas pelo menos restou a descoberta de um uísque razoável, com origem no Glenmorangie, que bem poderia ser adotado pelo 1o/16o GAv como bebida oficial do esquadrão.E caso queiram, ofereço-me para presentear a primeira garrafa para a próxima chimboca (lá tem chimboca, bródio, micareta?). Ou talvez possam pedir uma caixa com o rótulo especial para a unidade (“bespoke label”) ao adido, caso seja Piloto de Caça...

Além da sensação de dever cumprido, a busca do Santo Graal e do Bóson de Higgs da Caça rendeu-me boas libras a menos e muitas horas esperando na esquina. Mas convenhamos que esperar na esquina de “Walk com Don’t Walk” ainda é melhor do que na melhor avenida de Cascadura!



Adelphi !
 

 Flávio Catoira Kauffman- Cel. Av. R1.
Piloto de Caça - Turma de 1978


Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(86-1) O Código ADELPHI
(86-2) Monumento ao P-47 (pintura)
(86-3) "Onde está meu marido ?"

 

 COMO O P-47 C-5 "ROMPE MATO",
MONUMENTO NA BASC
FOI PINTADO, EM 1979
(Estória 86-2)

  

Era Março de 1979 e servindo no 1o Gp.Av.Ca, eu era o tenente mais moderno, sendo que pela tradição, teria que participar da cerimônia no monumento do P-47D , acendendo a pira junto ao busto de Ten Lima Mendes e P-47D. Fui chamado pelo então Cmt do Grupo, Ten. Cel. Av. Sérgio Ribeiro “Ribeirinho”, que isso me comunicou e destacou a singularidade daquele 22 de Abril, pois seria a primeira vez em anos, que os nossos veteranos Jambocks voltariam a participar de qualquer solenidade militar, em função de situações políticas de até então, contornadas com já famosa habilidade política do então Ministro da Aeronáutica , Ten Brig Délio Jardim de Mattos.

O King 01 me disse pra tomar conta da pintura do P-47D monumento, então bem deteriorada, na cor prateada. Era a minha “Missão a Garcia” e no ardor da minha juventude de 1o Ten Av “caçador”, então com 25 anos de idade, parti para a ação... Fui até perto do nosso monumento e fiquei a observá-lo por uns minutos... estava bem descascado, já com sinais de corrosão, e num padrão de pintura que em nada lembrava as “garças” nas quais os nossos venerados veteranos combateram nos céus do Norte da Itália... algo tinha que ser feito para aquele “22 De Abril” tão especial !

Decidi: aquela máquina de guerra seria recolocada em sua “roupagem” operacional! Seria pintada nas cores do C-5 “Rompe Mato”, do Ten Lima Mendes, cujo busto ficava naquela praça da BASC e também “patrono” do 2o/1o Gp.Av.Ca, o “Segundão”, e também meu esquadrão na época ...

Mãos à obra! Peguei um REGENTE U-42, da Esquadrilha de Adestramento, e lá fui para o Campo dos Afonsos. Lá pousando, taxiei ate o pátio do então incipiente Museu Aeroespacial, o nosso tão bem montado hoje MUSAL mas que na época ensaiava seus primeiros passos. Fui ter com o seu então diretor, Maj Esp Av João Maria Monteiro, que me recebeu e, ao saber de minha ideia, se entusiasmou logo, com pronta disposição em me ajudar; excelente!

Ele me orientou sobre tintas, moldes e engajou imediatamente o seu pessoal a procurar fotos e referências diversas sobre os nossos P-47D e em particular o “Rompe Mato”. Já era fim de tarde e voltei a Santa Cruz, voando a 1.500ft, como de costume, sobre a Av. Brasil, feliz da vida com aquele bom início de cumprimento da minha “Missão a Garcia”.

Logo depois, conversando com meu colega de turma e amigo, também caçador no Grupo, Arinaldo de Amorim Maia “Galo Veio”, ele se interessou em me acompanhar naquela “missão”. Diga-se de passagem, que seu pai foi Pracinha da FEB, da infantaria, nunca me esquecendo eu das medalhas em seu peito quando o conheci num 22 de Abril... E seu filho voava agora como um novo Jambock, tal qual um daqueles que ele vira sobre seus campos de batalha na Itália...

E iniciamos a faina de reformar o “nosso” P-47D. Fui conversar com o nosso então Oficial de Operações, Maj Av Euro Duncan Campos Rodrigues, que sempre foi conhecedor e entusiasta vibrador e de pronto também se interessou em ajudar. Deu valiosas informações e sugestões, sendo uma interessante: as aeronaves tinham pintadas no seu lado esquerdo, logo à frente do arco do canopy, o nome de seu piloto, sargento mecânico e cabo ajudante, em padrão stencil (molde), sendo que o Lima Mendes, por ser muito habilidoso e criativo, pintara esses nomes, no C-5, com sua letra cursiva, sendo o único C-5 ia ficando cada vez mais perfeito.

Taifeiro Theocles e seu filho pintando o P-47


Com o nosso colega de turma e amigo, Ariovaldo Castro de Souza, então Oficial de Relações Públicas do Grupo, fui pesquisar o arquivo fotográfico e como achei coisas! Idem na Seção Foto do Grupo e da BASC, com o nosso colega o então 1o Ten Esp Fot Soares, que fez um verdadeiro trabalho arqueológico. No MUSAL o Maj Monteiro também tudo e muito pesquisava, com o inestimável apoio do S.O. Parisi e Sandra, da Museologia.

Lá mesmo no museu foram feitos todos os moldes, em papelão, para a pintura. Diga-se de passagem que, em minha caderneta de voo, constam 32 “pernas” de REGENTE aos Afonsos só pelo trabalho junto ao MUSAL.Faltava um detalhe: Quem iria executar a tarefa da pintura? Quem pintara algum P-47D antes? E conversando com o pessoal “velha guarda” da Seção de Pintura da BASC, chegamos ao nome do Taifeiro Teocles, já há algum tempo na reserva, mas que trabalhara na BASC, por muito tempo, naquela seção, e pintara o monumento várias vezes também. O detalhe era: achar o Teocles e engajá-lo naquela tarefa.

Com pesquisa na PIPAR ele foi encontrado, morando em Raiz da Serra, no Estado do Rio. De posse dessa informação, enviei uma Kombi do Grupo a seu endereço e BINGO: lá estava o Teocles! Ele veio de muito boa vontade conversar comigo em SC, viu a aeronave, avaliou a tarefa e a aceitou. Como eu não possuía verba para pagá-lo, acertei fazê-lo com uma “cesta básica” e mandando a nossa Kombi pegá-lo e trazê-lo todos os dias.

Na época eu era também encarregado da Marambaia e podia “manobrar” as dotações de mantimentos com o pessoal do rancho da BASC, dando uma parcela em pagamento ao Teocles; funcionou! Discussões de detalhes; qual armamento “pendurar”? Sabendo que os lançadores de foguetes não eram muito populares com os veteranos, decidimos por bombas, mas não achamos mais nenhuma das originais, apesar de muito procurar com o pessoal da DIRMAB e PAMBAER, no GL.

Ten.Rocky a o monumento ao P-47 pintado


Decidimos por “disfarçar” duas bombas incendiárias de EG... quem bem conhece, reconhece... E lá foi ficando o nosso P-47D pronto. O Teocles trouxe um de seus filhos, também pintor, para ajudá-lo, pois o tempo se esgotava. Íamos ao MUSAL para pegar informações e detalhes. O pessoal de lá foi comigo a SC e gostou muito do resultado que ia surgindo de um inexpressivo monumento prateado...
O “nosso” P-47D já tinha as cores originais, retratando aquela que fora uma das mais famosas aeronaves em combate na Itália; o famoso C-5 com o seu famoso pinguim “Caboclo Rompe Mato”, nome dado pela preta velha que fora babá na casa da Tia Candelária, Tia Cande, mãe do Lima Mendes “Limatão”.

Crenças, coincidências ou não, após ter assim denominado seu C-5, ele nunca mais foi atingido pela flak alemã... Numa tarde, vestido em uniforme de “suga”, lá foi conosco o Chefe Duncan pintar os nomes na fuselagem do C-5. Estava pronto! Aqui vem uma outra história e revelação: o F-8 de frente ao Rancho dos Oficiais também entrara no pacote de pintura. Havia uma tradição, não escrita, de pintá-lo alternadamente com detalhes vermelhos (segundo esquadrão) ou azuis (primeiro esquadrão).

Argumentando que seria mais adequado colocá-lo também em “roupagem” mais tradicional, e munido de várias fotos do primeiro deslocamento do Grupo para Canoas, nos idos de 1955/56, engrenei sua pintura. Detalhe: era uma aeronave do Segundo Esquadrão, que por não ter as cores vermelhas e por não terem percebido, passou... e as duas aeronaves ficaram com as cores do “Segundão”...

Como voei também metade dos meus 9 anos de Grupo em ambos os esquadrões, fiquei com um pouco de remorso depois. Terminadas as pinturas, montei um álbum de fotos, a cores, e entreguei à Seção de Relações Públicas, para que o padrão delas fosse preservado. Como nunca mais voltei a BASC desde 1990, não sei como elas estão. Bom, dia 22 de Abril de 1979.

 

Marco Aurélio Rocha ROCKY – Maj.Av. R1
Piloto de Caça - Turma de 1976 


Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(86-1) O Código ADELPHI
(86-2) Monumento ao P-47 (pintura)
(86-3) "Onde está meu marido ?"

  

 DIA DO AVIADOR, OU
"ONDE ESTÁ O MEU MARIDO?"
(Estória 86-3)

  

Tudo começou na véspera do Casamento do Grego, à noite..., no noivado do Miolo com a tia Lyse, em Fortaleza, onde a festa se encaminhava célere no sentido da esbórnia tradicional, que era comum nas comemorações da BAFZ e do 1o/4o G.Av, naquela época. Aqui faço uma pausa, para lembrar de um famoso Dia do Aviador, em 1978, onde o ESQD fechou um oito voando sobre a Base Aérea de Fortaleza, com dezesseis saudosos AT-26.

Em seguida ao voo e à cerimônia militar, dedicamo-nos a acabar com a cerveja do bar do 1o/4o, depois do Cassino dos Oficiais (tenho inclusive um registro fotográfico com uma lente "cross screen", de uma daquelas grandes mesas redondas completamente coberta de cervejas, com brilhos em forma de estrela em cada boca de garrafa), em seguida até mesmo do bar do Cassino dos Sargentos e, sequencialmente, o bar do F-80, já de tardinha.

A partir daqui a estória começa a ficar meio nublada... Alguém sugeriu pegarmos bebidas em casa e terminarmos a noite no 4444, onde morava uma conhecida dupla de testicocéfalos, que evitarei nominar. Com o total concorde do grupo, deslocamo-nos (não lembro como) para o final da praia de Iracema, onde se localizava o injustamente malfadado e malafamado edifício. O problema é que as esposas, com a saída do pessoal do F-80 e deslocamento para o 4444, perderam o Visual e "Tally" dos maridos e, como já mencionei, era Dia do Aviador.

Portanto, haveria um Baile oferecido à cidade de Fortaleza pelo Comando da Base Aérea, no Cassino dos Oficiais, onde todos deveríamos estar presentes. As esposas, somente após o banho, espelho, cabeleireiro, espelho, maquiagem, espelho, jóias, espelho, sapatos, espelho, vestidos, espelhos, bolsas etc. (já mencionei espelhos?), ao procurarem os consortes para servirem de motoristas, constataram que o paradeiro dos respectivos era desconhecido, já quase na hora do Baile. Como Espécie organizada, para este tipo de emergência, foi imediatamente acionado o Plano de Busca feminino, na tentativa de descobrir onde estavam os respectivos maridos.

Diga-se de passagem que este desaparecimento marital não foi intencional e sim, eivado de inocência, decorrente da alegria de comemorar o Dia do Aviador, aliado à extremadas libações e à ausência de relógios entre os membros do grupo, que estava reunido nas mesas de frente do bar no térreo do 4444, alguns de chinelo, camiseta e sunga de banho, podendo ser avistados e principalmente ouvidos da rua, sem dificuldades. A celebração no 4444 ficou ligeiramente selvagem, considerando que apareceu uma amiga de alguém que juntou-se à mesa e finalmente consentiu em fazer um show, sendo que eu e o Barriga fomos encarregados do "backstage", onde tivemos alguma dificuldade em prepará-la, porque a artista nos assegurava que alguém da plateia queria mordê-la.

Após conseguirmos convencê-la de que aquilo era apenas a expressão de admiração de um fã incondicional, que não queria mordê-la de fato, a moça concordou em continuar a performance. Infelizmente, durante o show, muito bonito e profissional vale ressaltar, o fã realmente mordeu a moça (em local que, em consideração à artista, declino de mencionar), o que resultou em uma grande gritaria, que levou algum tempo para ser amainada.

Ainda bem que foi no 4444. Acalmados os ânimos, quando procurei o autor da mordida para perguntar o que tinha havido, descobri que ele tinha saído do local do show e se encontrava descalço, só de camisa, na porta do elevador, já tendo inclusive apertado o botão de chamada...
“- Posso perguntar aonde o Sr. vai?”
“- Para o Baile na Base Aérea, porque tenho que estar na Fila de Cumprimentos!”
“- É uma boa ideia, mas não seria melhor o Sr. vestir as calças primeiro?!

”Felizmente aquela boa alma e excepcional Aviador concordou com a minha sugestão e todo o episódio foi reduzido a boas gargalhadas, inclusive da artista. Após o show, voltamos para o bar e continuamos a bebemorar (o Baile dos Aviadores já estava quase começando, sem a presença dos Oficiais Aviadores, e a rede de busca das esposas já estava se estendendo até Camocim e ameaçando adentrar o Pernambuco). Repentinamente, uma mendiga, em andrajos, resolveu juntar-se à nossa festa no 4444, com todos os seus pertences, inclusive um vestido azul de papoulas vermelhas, amassado em uma sacola velha de supermercado, juntamente com as suas demais posses terrenas.

Como sói acontecer entre bêbados, naturalmente, a mendiga velha e suja foi muito bem-vinda ao grupo, sendo espontaneamente recebida com um apertado amplexo e um ósculo bucal, ambos sobejamente ministrados pelo autor da recente e já mencionada mordida na artista (segundo o KAU, o engajamento na mendiga lembrou muito o filme Além da Eternidade). Aquele beijo, que começou como uma simples beijoca, foi posteriormente promovido a chupão por consenso do grupo, porque foi cronometrado em pelo menos três minutos e teve direito a língua revolvida na boca, o que foi motivo de grande ovação e deve fazer parte das estórias dos tataranetos da mendiga velha, suja e, a partir daquele momento, semiapaixonada, até hoje.

Repentinamente, um dos celebrantes teve um “satori” e decidiu envergar o citado vestido de chita com motivo de papoulas, da mendiga velha e suja, e parar o trânsito na Av. Beira Mar de Fortaleza, demonstrando que a bebida leva o homem à situações que a própria razão desconhece. Se bem o decidiu, melhor o fez. Vestido de papoulas esfarrapadas, saiu do bar, atravessou a calçada e abriu os braços no meio da rua, como Cristo em toda a sua glória, pompa e circunstância.

Infelizmente, o primeiro carro a parar na sua frente (um Puma) estava sendo dirigido por uma das esposas envolvidas no grupo de busca, que, embasbacada com a cena, ao olhar para a direita, avistou todo o grupo, no auge da comemoração: com a mendiga, com a artista, com o dono do bar, que não parava de rir, e com três gregos que também estavam no bar para comemorar alguma coisa (como nenhum de nós falava grego, até hoje não sei o que eles estavam celebrando).

esquadrilha de Copas- Fortaleza - 1977


Temos que dar o braço a torcer para a organização feminina. Após o avistamento do bêbado de vestido de chita apapoulada no meio da rua em pose de Cristo crucificado, em menos de cinco minutos (e naquela época não havia celular!), as demais esposas começaram a chegar para recolher suas caras-metades, ou o que sobrara de alguns deles, já reduzidos de metades para menos de dez por cento.

Um daqueles maridos, mercê de um apagamento momentâneo que durou até o dia seguinte, tinha sido solidariamente encostado pelo grupo, com sua cadeira, em um poste, para evitar retorno de chama de vômito e um eventual afogamento, enquanto a comemoração continuava. Sua esposa chegou “fumando uma quenga”, na língua da terrinha, com um cabelo e maquiagem iguais ao da “Jeannie é um Gênio”, preparadíssima para o Baile, e tentou arrastá-lo para o Maverick afrodescendente, sem sucesso. Cooperativamente, ajudamo-la a colocar aquela pobre alma no banco da frente do carro, mas não ouvimos sequer um “Obrigado”! A ingratidão é cruel! Considerando que as esposas acabaram com a comemoração ao resgatarem a maioria do grupo, decidimos que estava na hora de ir para o Baile, que começaria em alguns minutos. Diga-se de passagem, essa decisão implicava em uma tarefa hercúlea, considerando que já estávamos bebendo há mais de doze horas seguidas.

De uma forma ou de outra, todos chegamos ao Baile, inclusive aquele da Fila de Cumprimentos, cujo braço era levantado pela esposa na hora de cumprimentar alguém, com aquele olhar no infinito próprio dos Aviadores, ou de qualquer outro naquele estado deplorável. O marido da “Jeannie é um Gênio” foi a única falta anotada. Eu, na época, morava no próprio Cassino dos Oficiais. Considerando que fiquei para a saideira no 4444, com outros que vou evitar mencionar (os de sempre), quando cheguei à Base o Baile já havia começado e os convidados estavam ocupando a única entrada disponível que me permitiria alcançar a escada para o segundo andar, onde estava meu quarto.

Desafortunadamente, além de estar rescendendo à cerveja na distância do alcance visual, eu era um dos que estavam de camiseta, sunga e chinelos, e sujo. Como atravessar pelo meio dos convidados vestidos a rigor e subir as escadas sem atrapalhar o Baile? Entrei por trás do prédio e fiquei por dentro do balcão do Cassineiro, buscando uma oportunidade, que surgiu quando vi o Gregão, corretamente fardado, entrando na festa...
- Grego!
- Zega, o que você está fazendo aí atrás do balcão?
- Estou aguardando uma oportunidade para subir as escadas. Será que você pode me dizer quando não houver ninguém entrando, para eu poder passar correndo?
- Claro, aguarde um momento... Um momento... Agora!

Desnecessário dizer que, ao correr para o saguão e subir as escadas, quase colidi mortalmente com um enorme grupo da alta sociedade cearense (haja pancake), sob as gargalhadas do Gregão. "Cosa fare"?

Finalmente, com todos banhados e fardados (apenas com a compreensível ausência do marido da “Jeannie”, como já mencionado), o Baile transcorria normalmente, apesar do clima mais alegre do que o habitual, da tromba das madames e do mal disfarçado bafo de cerveja da maioria dos Oficiais presentes. Entretanto, o Cel Getúlio, Cmt. da Base, decidiu, sem combinar com ninguém antes, que os Oficiais iriam fazer um sarau, cantando o Hino dos Aviadores.

A canção, pela primeira vez no Ceará e provavelmente no mundo, foi entoada a duas ou mais vozes e já foi um prenúncio do que iria acontecer... Após o Hino cantado nos mais diversos tons e os aplausos razoavelmente convincentes, os convidados começaram a se espalhar novamente pelo salão, quando alguém se sentou ao piano e, afinando com as notas iniciais do “Garotão do Piru Grandão”, puxou o Los Borrachos (Entraram em mi casa), que foi cantado a plenos pulmões pelos Aviadores.

Ao ouvirem as primeiras notas do piano, os convidados voltaram para apreciar a nova canção. Quando os tradicionais versos da canção entoada foram reconhecidos, a audiência espalhou-se de novo, com rapidez, e o Governador abandonou o recinto discretamente.

Ainda bem que o Comandante da Base era o Cel. Getúlio!

OBS: A pausa neste texto foi tão grande que o Casamento do Grego eu conto em outro artigo.

 

Alvaro Luiz Pinheiro da Costa (Zega) – Maj.Brig. R1
ESQD Seta 1976, 1o/4o G.Av, 1977/78 


  

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(86-1) O Código ADELPHI
(86-2) Monumento ao P-47 (pintura)
(86-3) "Onde está meu marido ?"
 

 

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